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Arquidiocese Ortodoxa de Buenos Aires e Exarcado da América do Sul
 
 
 

Homilia de S. Eminência Reverendíssima
Dom Tarasios, Arcebispo Metropolitano de Buenos Aires, Primaz e Exarca da América do Sul, no Décimo Domingo do Evangelho de São Lucas.

[Lc 13, 10-17]

o Evangelho da Liturgia de hoje, São Lucas relata-nos que Jesus entrou numa sinagoga e ensinava num dia de sábado, como era seu costume. «Havia ali uma mulher que, há dezoito anos, era possessa de um espírito que a detinha doente: andava curvada e não podia absolutamente erguer-se». E Jesus, sem que ninguém o pedisse, movido de compaixão, «a chamou e disse-lhe: Estás livre da tua doença. Impôs-lhe as mãos e no mesmo instante ela se endireitou, glorificando a Deus»

O chefe da sinagoga indignou-se porque Jesus curava em dia de sábado. A estreiteza de sua alma não o deixa compreender a grandeza da misericórdia divina que liberta esta mulher encurvada há tanto tempo. Aparentemente zeloso da observância do sábado, prescrita na lei, o fariseu não consegue ver a alegria de Deus ao contemplar esta sua filha curada de alma e corpo. Seu coração frio – falta de piedade – não consegue penetrar a verdadeira realidade dos fatos: não vê o Messias presente naquele lugar, que se manifesta como anunciavam as Escrituras. E, não se atrevendo a murmurar diretamente a Jesus, o faz aos que d’Ele se acercam: «São seis os dias em que se deve trabalhar; vinde, pois, nestes dias para vos curar, mas não em dia de sábado».

O Senhor, como em outras ocasiões, não se cala: chama-lhes de hipócritas, falsos, e contesta dizendo que, assim como eles se davam ao direito de soltar das estrebarias seus bois ou jumentos para levá-los a beber, mesmo em dia de sábado, «esta filha de Abraão, que Satanás paralisava há dezoito anos, não devia ser livre desta prisão, em dia de sábado?» Aquela mulher, em seu encontro com Cristo, recupera sua dignidade, é tratada como uma filha de Abraão, e seu valor é tido muito acima do valor de um boi ou de um jumento. «Seus adversários se encheram de confusão, ao passo que todo o povo, à vista de todos os milagres que ele realizava, se entusiasmava».

A mulher se libertou do espírito maligno que a tinha acorrentada, e da enfermidade do corpo. Já podia olhar para Cristo, para os céus, para as pessoas e para o mundo. Nós precisamos refletir muitas vezes sobre estas passagens em que a compassiva misericórdia do Senhor, a de que tanto necessitamos, é posta em relevo de forma tão singular. «Esta delicadeza e carinho, Jesus manifesta não apenas a um grupo restrito de discípulos, mas a todos. Com as santas mulheres; com representantes do Sinédrio, como Nicodemos, e com publicanos, como Zaqueu; com enfermos e saudáveis; com os doutores da lei e com pagãos; com pessoas individuais e com multidões inteiras.

«Os Evangelhos nos narram que Jesus não tinha onde reclinar a cabeça, mas nos contam também que Ele tinha amigos queridos e confiáveis, desejosos de acolhê-Lo em suas casas. Falam-nos ainda de sua compaixão para com os enfermos, de sua dor pelos errantes e ignorantes, e de seu enfado diante da hipocrisia».

A reflexão sobre estas cenas do Evangelho deve nos levar a confiar mais em Jesus, sobretudo quando nos sentimos mais necessitados de alma ou de corpo, quando experimentamos a força da tentação de olharmos apenas o lado material das coisas, o que está abaixo; a segui-Lo e imitá-Lo em nosso trato com as pessoas: que não passemos jamais com indiferença diante da dor ou da desgraça, mas que façamos como o Mestre que se compadece e trata com remédio das feridas.

Queridos filhos no Senhor,

«Assim encontrou o Senhor a esta mulher que havia estado encurvada por dezoito anos: não podia se erguer (Lc 13, 11). Assim como ela são aqueles que têm o coração na terra, diz Santo Agostinho»; depois de um tempo, perderam a capacidade de olhar para o céu, de contemplar a Deus e de ver n’Ele a maravilha de todo o criado. «Aquele que está encurvado olha sempre para a terra, busca o que está abaixo, não se recorda do preço que custou sua redenção». Esquece-se que todas as coisas criadas hão de levá-lo ao céu e contempla apenas um universo empobrecido.

O demônio manteve por dezoito anos, sem que pudesse olhar para o céu, aquela mulher encurvada, curada por Jesus. Há outros que, desgraçadamente, passam a vida inteira olhando para o chão, atados à concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida. A concupiscência da carne impede de ver a Deus, pois só os puros de coração O verão; essa má tendência «não se reduz exclusivamente à desordem da sensualidade, mas também à comodidade, à falta de vibração que leva a buscar o mais fácil, o mais prazeroso, o caminho aparentemente mais curto, mesmo à custa de ceder na infidelidade a Deus» (...)

O outro inimigo é a concupiscência dos olhos, uma avidez de fundo, que leva a não valorizar senão o que se pode tocar. Os olhos que permanecem fixados às coisas terrenas; porém, os olhos que, por isso mesmo, não sabem descobrir as realidades sobrenaturais. Portanto, podemos usar a expressão da Escritura para nos referirmos à cobiça de bens materiais e, ademais, a essa deformação que nos leva a observar o que nos rodeia - os outros, as circunstâncias da nossa vida e o nosso tempo -  somente com a visão humana.

Os olhos da alma se embotam; a razão se crê auto-suficiente para entender tudo, prescindindo de Deus. A nossa existência pode, deste modo, render-se incondicionalmente às mãos do terceiro inimigo, da superbia vitae. Não se trata apenas de pensamentos efêmeros, de vaidade ou de amor próprio: é um envaidecimento geral. Não nos enganemos, porque esse é o pior dos males, a raiz de todos os descaminhos. Nenhum desses inimigos poderá nos vencer se tivermos a sinceridade necessária para descobrirmos as suas primeiras manifestações, por pequenas que sejam, e pedirmos ao Senhor que nos ajude a elevar de novo o nosso olhar para Ele.

Amado Povo de Deus,

A fé em Cristo há de se manifestar nos pequenos incidentes de nosso dia a dia e há de levar-nos a «organizar a vida cotidiana sobre a terra, reaprendendo a olhar para o céu, isto é, para Deus, fim supremo e último de nossas tensões e de nossos desejos».

Quando, mediante a fé, temos a capacidade de olhar para Deus, compreendemos a verdade da existência: o sentido dos acontecimentos, que adquirem uma nova dimensão, a razão da cruz, da dor e do sofrimento; o valor sobrenatural que podemos imprimir ao nosso trabalho diário e qualquer circunstância que, em Deus e por Deus, recebe uma eficácia sobrenatural.

O cristão não está absolutamente fechado nas realidades terrenas; pelo contrario; podemos e devemos amar as coisas criadas por Deus, pois de Deus as recebemos e as olhamos e respeitamos como objetos saídos das mãos de Deus, porém, valendo-nos de tudo isso em pobreza e com liberdade de espírito, tomamos realmente posse do mundo, como quem nada tem e é dono de tudo: tudo é vosso, e vós de Cristo, e Cristo de Deus. (1Cor 3, 22-23)». São Paulo recomendava aos primeiros cristãos de Filipos: Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai. Filipenses 4,8.

O cristão assume uma particular grandeza de alma quando tem o hábito de referir a Deus as realidades humanas e os sucessos, grandes ou pequenos, de sua vida ordinária. Quando os aproveita para dar graças, para pedir ajuda e oferecer a tarefa que leva a cabo, para pedir perdão por seus erros... Quando, em suma, não se esquece que é filho de Deus a cada hora do dia e em todas as circunstâncias, e não se deixa envolver de tal maneira pelos acontecimentos, pelo trabalho, pelos problemas que surgem... que esquece a grande realidade que dá razão a tudo mais: o sentido sobrenatural de sua vida.

Voltemo-nos, pois, à misericórdia do Senhor que Ele nos conceda este dom, viver pela fé, para caminhar nesta terra com os olhos postos no Céu, com o olhar fixo n’Ele, em Jesus!

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