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Comissão «Fé e Constituição» 
do Conselho Mundial de Igrejas, 1982.

Texto de Lima, 1982:

«Convergência da Fé»

(Batismo, Eucaristia, Ministério)

IV - Ministério

I. A Vocação de Todo o Povo de Deus

1. Num mundo dilacerado, Deus chama toda a humanidade a tornar-se seu povo. Para isso escolheu Israel, em seguida falou de uma maneira única e decisiva em Jesus Cristo. Filho de Deus, Jesus fez suas a natureza, a condição e a causa de todo o gênero humano dando-se a si mesmo em sacrifício por todos. A sua vida de serviço, a sua morte e a sua ressurreição são os fundamentos de uma nova comunidade que é edificada continuamente pela boa nova do Evangelho e pelo dom dos sacramentos. O Espírito Santo une em um só corpo aqueles que seguem Jesus Cristo, e envia-nos como testemunhas ao mundo. Pertencer à Igreja significa viver em comunhão com Deus por Jesus Cristo no Espírito Santo.

2. A vida da Igreja tem como fundamento a vitória de Cristo contra os poderes do mal e da morte, cumprida uma vez por todas. Cristo oferece o perdão, convida ao arrependimento e livra da destruição. Torna-nos capazes de nos voltarmos para Deus no louvor e para o próximo no serviço. É a fonte da vida nova na liberdade, no perdão mútuo e no amor. Dirige os corações e os espíritos para o cumprimento do Reino onde a sua vitória se tornará manifesta e onde todas as coisas serão feitas novas. O propósito de Deus é que, em Jesus Cristo, todos possam partilhar desta comunhão.

3. A Igreja vive pelo poder libertador e regenerador do Espírito Santo. Jesus recebeu a unção do Espírito Santo na altura do seu batismo e, depois da sua ressurreição, este mesmo Espírito foi dado àqueles que criam no Senhor ressuscitado, para fazer deles o Corpo de Cristo. O Espírito chama à fé, santifica pelos seus numerosos dons e concede a força para testemunharmos o Evangelho e servirmos na esperança e no amor. Guarda a Igreja na verdade e a conduz não obstante a fraqueza dos seus membros.

4. A Igreja é chamada a proclamar e a prefigurar o Reino de Deus, anunciando o Evangelho ao mundo e vivendo como Corpo de Cristo. Em Jesus, o Reino de Deus surgiu entre nós. Ele ofereceu a salvação aos pecadores. Anunciou a boa nova aos pobres, aos cativos a libertação, aos cegos a vista, aos oprimidos o livramento(Luc 4:18). Cristo abriu um novo acesso para o Pai.

Ao viverem esta comunhão com Deus, todos os membros da Igreja são chamados a confessarem a sua fé e a exporem a sua esperança. Eles partilham com todos as alegrias e os sofrimentos, procurando testemunhar a cada um, um amor cheio de compaixão. Os membros do Corpo de Cristo lutarão ao lado dos que são oprimidos, tendo em vista a liberdade e a dignidade prometidas com a vinda do Reino. Esta missão deve ser cumprida nos diversos contextos políticos, sociais e culturais. A fim de cumprirem a sua missão fielmente, procurarão as formas adaptadas ao testemunho e ao serviço em cada situação concreta. Deste modo, proporcionarão ao mundo uma antecipação da alegria e da glória do Reino de Deus.

5. O Espírito Santo concede à comunidade dons diversos e complementares. Eles são dados para o bem comum de todo o povo, e manifestam-se em ações de serviço no seio da comunidade e a favor do mundo. Podem ser dons de comunicação do Evangelho em palavras e em atos, dons de cura, de oração, de ensino e de escuta, dons de serviço, de direção e de obediência, de inspiração e de visão. Todos os membros são chamados a descobrir, com a ajuda da comunidade, os dons que receberam e a utilizá-los para a edificação da Igreja e o serviço do mundo ao qual a Igreja é enviada.

6. Ainda que as Igrejas estejam de acordo na sua compreensão geral da vocação do povo de Deus, diferem nas suas concepções da estrutura da vida da Igreja. Em particular há diferenças a propósito do lugar e das formas do ministério ordenado. Ao empenharem-se no esforço para superarem as suas diferenças, é necessário que as Igrejas tomem como ponto de partida a vocação de todo o povo de Deus. As Igrejas devem procurar uma resposta comum à questão seguinte: de que modo, segundo a vontade de Deus e sob a conduta do Espírito, deve a vida da Igreja ser concebida e estruturada a fim de o Evangelho poder ser difundido e a comunidade edificada no amor?

II. A Igreja e o Ministério Ordenado

7. As diferenças na terminologia fazem parte do debate. Para evitar a confusão nas discussões sobre o ministério ordenado na Igreja, é necessário precisar claramente em que sentido, diversos termos são utilizados no decurso dos parágrafos seguintes.

A palavra carisma refere-se aos dons concedidos pelo Espírito Santo a cada membro do Corpo de Cristo, em vista da edificação da comunidade e do cumprimento da sua vocação.

A palavra ministério, em sentido lato, refere-se ao serviço que todo o Povo de Deus é chamado a cumprir, quer por intermédio de pessoas, quer pela comunidade local, quer como Igreja universal; ministério ou ministérios podem também referir-se a formas institucionais particulares assumidas por esse serviço.

Termo ministério ordenado refere-se às pessoas que, tendo recebi o um carisma, são investidos pela Igreja - mediante ordenação, invocação do Espírito e imposição das mãos - no desempenho de um determinado serviço. Muitas Igrejas empregam a palavra sacerdote para designar certos ministros ordenados. Visto tal uso não ser universal, este documento abordará a questão fundamental no parágrafo 17.

a - O Ministério Ordenado

8. A fim de cumprir a sua missão, a Igreja necessita de pessoas que sejam responsáveis publicamente, e de maneira contínua, pela tarefa de enfatizar a sua dependência fundamental em relação a Jesus Cristo, e que constituam desse modo, dentro da multiplicidade dos dons, um foco da sua unidade. O ministério de tais pessoas que, desde tempos muito antigos, têm sido ordenadas, é constitutivo da vida e do testemunho da Igreja.

9. A Igreja nunca existiu sem pessoas que detenham uma autoridade e uma responsabilidade específicas. Jesus escolheu e enviou os discípulos para serem testemunhas do Reino (Mat. 10:1-15.16-18). Os Doze receberam a promessa de que se assentariam sobre tronos para julgarem as tribos de Israel (Luc. 22:30). Um papel particular é atribuído aos Doze nas comunidades da primeira geração. Eles são testemunhas da ressurreição do Senhor (Act.1:21-26), guias da Comunidade na oração, no ensino, na fração do pão, na proclamação e no serviço (Act. 2:42-47, 6:2-6; etc.). A própria existência dos Doze e dos outros apóstolos mostra que, desde o princípio, havia papéis diferenciados na comunidade.

Comentário:

No Novo Testamento, o termo "apóstolo" é empregue em variados sentidos. É utilizado para designar não só os Doze mas também um círculo mais largo de discípulos. É aplicado a Paulo e a outros enquanto enviados pelo Cristo ressuscitado para proclamarem o Evangelho. Os papéis desempenhados pelos apóstolos cobrem simultaneamente a fundação e a missão.

10. Jesus chamou os Doze para serem representantes do Israel renovado. Nessa altura eles representavam todo o povo de Deus, e ao mesmo tempo exerciam um papel especial no meio da comunidade. Depois da ressurreição, encontram-se entre os guias da comunidade. Pode-se, pois, dizer que os apóstolos prefiguram simultaneamente a Igreja inteira e as pessoas encarregadas de uma autoridade e de uma responsabilidade específicas na Igreja. O papel dos apóstolos como testemunhas da ressurreição de Cristo é único e não pode ser reiterado. Há, pois, uma diferença entre os apóstolos e os ministros ordenados cujos ministérios são fundados sobre os dos apóstolos.

11. Cristo, que escolheu e enviou os apóstolos, continua, mediante o Espírito Santo, a escolher e chamar pessoas para o ministério ordenado. Como arautos e embaixadores, os ministros ordenados representam Jesus Cristo para a comunidade e proclamam a sua mensagem de reconciliação. Como guias e professores, chamam a comunidade a submeter-se à autoridade de Jesus Cristo, o mestre e o profeta, em quem a lei e os profetas se cumpriram. Como pastores, sob a autoridade de Jesus Cristo o grande pastor, congregam e conduzem o povo de Deus disperso, na expectativa do Reino que vem.

Comentário:

A realidade fundamental de um ministério ordenado existia desde o princípio (ver parágrafo 8). As formas atuais da ordenação e do ministério ordenado, contudo, evoluíram no decurso de um desenvolvimento histórico complicado (ver parágrafo 19). As Igrejas devem, pois, evitar atribuir as suas formas particulares do ministério ordenado diretamente à vontade e à instituição do próprio Jesus Cristo.

12. Todos os membros da comunidade crente, ordenados e leigos, estão estreitamente ligados. Por um lado, a comunidade precisa de ministros ordenados. A sua presença lembra à comunidade a iniciativa divina e a dependência da Igreja em relação a Jesus Cristo, que é a fonte da sua missão e o fundamento da sua unidade. Eles estão ao serviço da edificação da comunidade em Cristo e do fortalecimento do seu testemunho. Neles, a Igreja procura dar um exemplo de santidade e de compaixão. Por outro lado, o ministério ordenado não pode ser considerado como isolado em relação à comunidade. Os ministros ordenados não podem cumprir a sua vocação senão na e para a comunidade. Eles não podem prescindir do reconhecimento, do amparo e do encorajamento da comunidade.

13. A função específica do ministério ordenado é a de congregar e construir o Corpo de Cristo, pela proclamação e ensino da Palavra de Deus, pela celebração dos sacramentos, e pela direção da vida da comunidade na sua liturgia, missão e diaconia.

Comentário:

Estas funções não são exercidos pelo ministro ordenado de uma maneira exclusiva. Visto o ministério ordenado e a comunidade estarem estreitamente ligados, todos os membros participam no exercício destas funções. Com efeito, todo o carisma serve para congregar e construir o Corpo de Cristo. Todo o membro do Corpo pode participar na proclamação e no ensino da Palavra de Deus, pode contribuir para a vida sacramental do Corpo. O ministério ordenado cumpre estas funções de uma maneira representativa, constituindo o foco de unidade da vida e do testemunho da comunidade.

14. É particularmente na celebração eucarística que ministério ordenado é o foco visível da comunhão profunda que une Cristo e os membros do seu Corpo, e que abarca toda a realidade. Na celebração da eucaristia, Cristo congrega, ensina e alimenta a Igreja. É Cristo quem convida à refeição e a ela preside. Na maior parte das Igrejas, esta residência de Cristo tem por sinal o de um ministro ordenado, que a representa.

Comentário:

O Novo Testamento diz poucas coisas sobre a ordem da eucaristia. Não há indicação explícita sobre a sua presidência. É evidente que, muito cedo, um ministro ordenado assumiu a função de presidir à celebração. Se é verdade que o ministério ordenado constitui um foco de unidade da vida e do testemunho da Igreja, então é natural que se dê a um ministro ordenado esta tarefa de presidência eucarística. Ela está intimamente ligada à responsabilidade de conduzir a comunidade, isto é, velar pela sua vida (episcopê) e intensificar a sua vigilância em relação à verdade da mensagem apostólica e à vinda do Reino.

b - Ministério Ordenado e Autoridade

15. A autoridade do ministro ordenado está enraizada em Jesus Cristo, que a recebeu do Pai (Mat. 28:18), e que a confere no Espírito Santo através do ato da ordenação. Este acto tem lugar numa comunidade que assim reconhece publicamente uma pessoa. Em virtude de Jesus ter vindo como aquele que serve (Marc. 10:45; Luc 22:27), ser separado para o ministério ordenado significa ser consagrado para o serviço. Em virtude de a ordenação ser essencialmente a separação de alguém com invocação do dom do Espírito Santo, a autoridade do ministério ordenado não pode ser compreendida como propriedade da pessoa ordenada, mas como um dom para a contínua edificação do Corpo no qual e para o qual o ministro foi ordenado. A autoridade tem o caráter de uma responsabilidade diante de Deus e é exercido com a participação de toda a comunidade.

16. É por isso que os ministros ordenados não devem ser nem autocratas nem funcionários impessoais. Ainda que estejam chamados a exercer uma função de direção, na sabedoria e no amor, sobre a base da Palavra de Deus, estão ligados aos fiéis na interdependência e na reciprocidade. É só procurando verdadeiramente a reação e o acordo da comunidade que a sua autoridade pode ser protegida dos desvios do isolamento e da dominação.

Eles manifestam e exercem a autoridade de Cristo segundo o modo pelo qual o próprio Cristo revelou a autoridade de Deus ao mundo: comprometendo a sua vida pela comunidade. A autoridade de Cristo é única. "Ele ensinava-nos como quem tem autoridade (exousia), e não como os seus escribas" (Mat 7:29). A sua é uma autoridade dominada pelo amor pelas "ovelhas que não têm pastor" (Mat 9:36). É uma autoridade confirmada pela sua vida de serviço e, de modo supremo, pela sua morte e ressurreição. A autoridade na Igreja só será autêntica se procurar conformar-se com esse modelo.

Comentário:

Dois perigos devem evitar-se aqui. Por um lado, a autoridade não pode exercer-se senão tendo em vista a comunidade. Os apóstolos mostravam-se atentos à experiência e ao julgamento dos crentes. Por outro lado, a autoridade dos ministros ordenados não deve ser reduzida a ponto de os tornar dependentes da opinião comum da comunidade. A sua autoridade repousa na responsabilidade que têm de, no seio da comunidade, recordarem a vontade de Deus.

c - Ministério Ordenado e Sacerdócio

17. Jesus Cristo é o único sacerdote da Nova Aliança. Deu a sua vida em sacrifício por todos. A partir daí, toda a Igreja pode ser descrita como um sacerdócio. Todos os membros são chamados a oferecer o seu ser "em sacrifício vivo" e a interceder pela Igreja e a salvação do mundo. Os ministros ordenados participam - como, aliás, todos os cristãos - simultaneamente no sacerdócio de Cristo e no sacerdócio da Igreja. Mas podem ser chamados propriamente sacerdotes por cumprirem um serviço sacerdotal particular ao fortalecerem e constituírem o sacerdócio real e profético dos fiéis mediante a Palavra e os sacramentos, bem como pelas suas orações de intercessão e direção pastoral da comunidade.

Comentário:

O Novo Testamento nunca utiliza os termos "sacerdócio" ou "sacerdote" (hiereus) para designar o ministério ordenado ou o ministro ordenado. No Novo Testamento estes termos são reservados, por um lado, para designar o único sacerdócio de Jesus Cristo e, por outro lado, para designar o sacerdócio real e profético de todos os batizados. O sacerdócio de Cristo e o sacerdócio dos batizados são, à sua maneira, uma função de sacrifício e de intercessão. Como Cristo se ofereceu a si mesmo, os cristãos oferecem o seu ser "em sacrifício vivo". Como Cristo intercede junto do Pai, os cristãos intercedem pela Igreja e pela salvação do mundo. Contudo, as diferenças entre estas duas espécies de sacerdócio não podem ser subestimadas.

Enquanto Cristo se ofereceu a si mesmo em sacrifício único, uma vez por todas, pela salvação do mundo, os crentes têm a receber como um dom de Deus o que Cristo fez por eles.

Na Igreja antiga começou-se a utilizar os termos "sacerdócio" e "sacerdote" para designar o ministro ordenado e o ministro que presidia à eucaristia.

Tais termos sublinham o fato de que o ministério ordenado está em relação com a realidade sacerdotal de Jesus Cristo e da comunidade. Quando são utilizados em relação com o ministério ordenado têm um sentido diferente do que exprimem ao serem aplicados ao sacerdócio sacrificial do Antigo Testamento, ao único sacerdócio redentor de Cristo e ao sacerdócio comum do povo de Deus. S. Paulo caracterizava o seu ministério deste modo: "Sou um liturgo de Jesus Cristo para as nações, cumprindo uma função de sacerdote ao serviço do Evangelho de Deus, de modo que as nações sejam uma oferta aceitável, consagrada pelo Espírito Santo" (Rom 15:16).

d - O Ministério dos homens e das mulheres na Igreja

18. Onde quer que Cristo esteja presente, há um derrubar das barreiras humanas. A Igreja é chamada a apresentar ao mundo a imagem de uma nova humanidade. Em Cristo não há homem nem mulher. Homens e mulheres devem descobrir em conjunto as suas contribuições ao serviço de Cristo na Igreja. A Igreja deve descobrir os ministérios que podem ser exercidos por mulheres, bem como os que podem ser exercidos por homens. Deve-se manifestar mais amplamente na vida da Igreja uma compreensão mais profunda da amplitude do ministério que reflita a interdependência dos homens e das mulheres.

Não obstante estarem de acordo sobre a necessidade dessa reflexão, as Igrejas tiram conclusões diferentes no respeitante à admissão das mulheres ao ministério ordenado. Um número crescente de Igrejas chegou à conclusão de que não há impedimento bíblico ou teológico à ordenação das mulheres, e muitas delas praticam-na já. Contudo, muitas outras Igrejas afirmam que a tradição da Igreja sobre este assunto não deve ser alterada.

Comentário:

As Igrejas que praticam a ordenação das mulheres fazem-no motivadas pela sua compreensão do Evangelho e do ministério. Tal prática assenta para elas na convicção teológica profunda de que ao ministério ordenado da Igreja falta alguma coisa quando é limitado a um só sexo. A experiência dessas Igrejas durante os anos em que incluíram mulheres nos seus ministérios ordenados, fortaleceu uma tal convicção teológica. Elas descobriram que os dons das mulheres são tão amplos e variados como os dos homens, e que o seu ministério é abençoado tão plenamente pelo Espírito Santo como o ministério dos homens. Nenhuma delas encontrou motivo para voltar atrás na decisão tomada.

As Igrejas que não praticam a ordenação das mulheres, consideram que a força de dezenove séculos de tradição contra esta ordenação não deve ser posta de lado. Crêem que não se pode renunciar a esta tradição como se ela fosse uma falta de respeito pelo papel da mulher na Igreja. Crêem que há problemas teológicos respeitantes à natureza humana e à cristologia que estão vinculados à essência das suas convicções e da sua compreensão do papel das mulheres na Igreja.

A discussão destas questões práticas e teológicas nas diversas Igrejas e tradições cristãs, deveria ser completada com um estudo comum e com reflexão no interior da comunhão ecumênica de todas as Igrejas.

III. As formas do Ministério Ordenado

a - Bispos, Presbíteros e Diáconos

19. O Novo Testamento não descreve uma forma única de ministério que deveria servir de paradigma ou de norma durável para todo o ministério futuro na Igreja. No Novo Testamento aparece antes uma variedade de formas que existiam em diferentes lugares e tempos. Enquanto o Espírito Santo continuava a conduzir a Igreja na sua vida, culto e missão, certos elementos desta variedade primitiva foram desenvolvidos, e em seguida fixados numa forma de ministério mais universal. Durante os séculos II e III, estabeleceu-se uma tripla forma do ministério ordenado através da Igreja, com bispo, presbítero e diácono. Nos séculos seguintes, os ministérios do bispo, do, presbítero e do diácono passaram por mudanças consideráveis no seu exercício prático. Em certos momentos de crise na história da Igreja, as funções duráveis do ministério foram estabelecidas, em determinados lugares e comunidades, segundo outras estruturas que não a tripla forma predominante. Por vezes recorreu-se ao Novo Testamento para justificar estas outras formas. Em outros casos, sustentou-se que à reestruturação do ministério pertencia à competência da Igreja, no seu esforço de adaptação à mudança das circunstâncias.

20. É importante prestar atenção às mudanças que o triplo ministério experimentou na história da Igreja. As indicações mais antigas sobre o triplo ministério fazem dele a forma do ministério ordenado na comunidade eucarística local. O bispo era o chefe da comunidade. Era ordenado e instalado para proclamar a Palavra e presidir à celebração da eucaristia. Era rodeado por um colégio de presbíteros e por diáconos que o assistiam nas suas tarefas. Neste contexto, o ministério do bispo era um foco de unidade na comunidade inteira.

21. Bem cedo, contudo, as funções modificaram-se. Os bispos começaram a exercer cada vez mais a episcopê sobre várias comunidades locais simultaneamente. Na primeira geração, os apóstolos tinham exercido a episcopê na Igreja no sentido mais lato. Posteriormente, constata-se que Timóteo e Tito desempenharam uma função de supervisão numa dada região.

Mais tarde ainda, esta tarefa apostólica é exercido de uma maneira nova pelos bispos. Constituem, então, o foco de unidade da vida e do testemunho nas regiões onde existem diversas comunidades eucarísticas. Como conseqüência, novos papéis são atribuídos aos presbíteros e aos diáconos. Os presbíteros convertem-se nos condutores de uma comunidade eucarística local e, na qualidade de assistentes dos bispos, os diáconos assumem responsabilidades numa região mais vasta.

Comentário:

A Igreja, desde os seus começos, conheceu simultaneamente o ministério itinerante de missionários como Paulo e o ministério local de direção nos lugares onde o Evangelho era recebido. No plano local, as formas de organização parecem ter variado segundo as circunstâncias. Os Actos dos Apóstolos mencionam em relação a Jerusalém os Doze e os Sete, mais tarde Tiago e os anciãos; em relação a Antioquia, os profetas e os didáskaloi (Act. 6:1-6 [sic!?]; 15:13-21. 22-34 [sic!?]; 13:1). As cartas aos Coríntios falam de apóstolos, de profetas e de didáskaloi (1 Cor 12:28); igualmente a carta aos Romanos, que fala também de diáconos ou assistentes (Rom 16:1). Em Filipos, os termos seculares episkopoi e diakonoi aplicavam-se aos ministros cristãos (Filip. 1:1). Vários destes ministérios são atribuídos a mulheres e a homens.

Enquanto alguns eram designados pela imposição das mãos, não existe indicação deste procedimento em outros casos. Tenha sido qual tenha o seu nome, estes ministérios tinham por finalidade proclamar a Palavra de Deus, transmitir e salvaguardar o conteúdo original do Evangelho, alimentar e fortalecer a fé, a disciplina e o serviço das comunidades cristãs, proteger e estimular a unidade dentro de cada uma dessas comunidades e entre elas. Estas tarefas do ministério têm sido constantes através da evolução e das crises da história cristã.

22. Ainda que não haja, segundo o Novo Testamento, uma só forma do ministério, ainda que o Espírito tenha freqüentemente conduzido a Igreja a adaptar os seus ministérios às necessidades de um determinado contexto histórico, e ainda que outras formas do ministério ordenado tenham sido abençoadas pelos dons do Espírito Santo, o triplo ministério do bispo, do presbítero e do diácono pode servir hoje de expressão à unidade que procuramos e também de meio para lá chegar. Historicamente, é verdade que o triplo ministério se converteu na forma geralmente aceite na Igreja dos primeiros séculos, e que hoje ele é ainda conservado por muitas Igrejas. Para o cumprimento da sua missão e do seu serviço, as Igrejas têm necessidade de pessoas que, de diversos modos, exprimam e cumpram as tarefas do ministério ordenado na sua forma e função diaconal, presbiteral e episcopal.

23. A Igreja, como Corpo de Cristo e povo escatológico de Deus, é constituída pelo Espírito Santo através de uma diversidade de dons e de ministérios. Entre estes dons, o ministério da episkopê é necessário para exprimir e salvaguardar a unidade do Corpo. Cada Igreja precisa deste ministério de unidade, em uma certa forma, a fim de ser a Igreja de Deus, o único Corpo de Cristo, um sinal de unidade de todos no Reino.

24. A tripla forma do ministério necessita, evidentemente, de uma reforma. Em certas Igrejas, a dimensão colegial da presidência no interior da comunidade eucarística tem passado por um enfraquecimento. Em outras, a função dos diáconos tem sido reduzida a um papel de assistentes na celebração da liturgia: deixaram de cumprir qualquer função respeitante ao testemunho diaconal da Igreja. Em geral, a relação entre o presbiterato e o ministério episcopal tem sido discutida no decurso dos séculos, e o grau de participação do presbítero no ministério episcopal é ainda para muitos uma questão não resolvida e de grande importância ecumênica. Em certos casos, algumas Igrejas que não conservaram explicitamente a tripla forma do ministério, mantiveram de fato algumas das suas intenções originais.

25. A tripla forma tradicional do ministério suscita deste modo questões para todas as Igrejas. As que mantêm esta tripla forma deverão interrogar-se acerca do modo como poderão as suas potencialidades ser plenamente desenvolvidas para um testemunho mais eficaz da Igreja no mundo. As que não têm a tripla forma do ministério deveriam também participar nesta tarefa.

Em seguida, deverão interrogar-se se não haverá um apelo poderoso que lhes é dirigido para aceitarem a tripla forma do ministério assim desenvolvida.

b - Princípios orientadores para o exercício do ministério ordenado na Igreja.

26. Três considerações são importantes a este respeito. O ministério ordenado deveria ser exercido segundo um modo pessoal, colegial e comunitário. O ministério ordenado deve ser exercido segundo um modo pessoal. Uma pessoa ordenada para proclamar o Evangelho e chamar a comunidade a servir o Senhor na unidade da vida e do testemunho, manifesta com a maior efetividade a. presença de Cristo no meio do seu povo. O ministério ordenado deve ser exercido segundo um modo colegial, isto é, um colégio de ministros ordenados deve partilhar a tarefa de representar as preocupações da comunidade. Finalmente, a estreita relação entre o ministério ordenado e a comunidade encontrará a sua expressão numa dimensão comunitária, isto é, o exercício do ministério ordenado deve estar enraizado na vida da comunidade e requerer a sua participação efetiva na busca da vontade de Deus e da orientação do Espírito.

Comentário:

É preciso manter conjuntamente os três aspectos. Em várias Igrejas, acontece um deles ser exageradamente desenvolvido em detrimento dos outros. Em certas Igrejas, a dimensão pessoal do ministério ordenado tende a atrofiar a dimensão colegial e a comunitária. Em outras Igrejas, as dimensões colegial e comunitária tomam um lugar tão importante que o ministério ordenado perde a sua dimensão pessoal. Cada Igreja deve interrogar-se no quê o exercício do ministério ordenado no seu seio tem sido obscurecido ao longo da história.

O reconhecimento destas três dimensões está subjacente a uma recomendação feita pela primeira conferência mundial de Fé e Constituição, em Lausana, em 1927 (relatório da Comissão V, atas, Paris, 1928, p. 531): "Na constituição da Igreja primitiva, encontram-se o cargo episcopal, os Conselhos de anciãos, e a Comunidade dos fiéis. Cada um destes três sistemas de organização eclesiástica (episcopalismo, presbiterianismo, congregacionalismo) foi aceite no passado durante séculos, e é ainda praticado hoje por importantes frações da cristandade. Cada um deles é considerado pelos seus defensores como essencial à boa ordem da Igreja. Conseqüentemente, pensamos que, sob certas condições a precisar, eles deverão ocupar simultaneamente o seu lugar respectivo na organização da Igreja reunida".

27. O ministério ordenado deve ser organizado constitucionalmente ou canonicamente, e exercido de tal maneira na Igreja que cada uma dessas três dimensões possa encontrar uma expressão adequada. Ao nível da comunidade eucarística local, deverá haver um ministério ordenado cuja ação se desenrole colegialmente. Dever-se-ia acentuar enfaticamente a participação ativa de todos os membros na vida e nas decisões da comunidade. Ao nível de uma região, torna-se necessário também um ministério ordenado que exerça o serviço da unidade. A dimensão colegial bem como a comunitária encontrarão a sua expressão nas assembléias sinodais representativas e regulares.

c - Funções dos Bispos, dos Presbíteros e dos Diáconos

28. Quais são as funções dos bispos, dos presbíteros e dos diáconos? Uma resposta uniforme a esta pergunta não é necessária para o reconhecimento mútuo do ministério ordenado. As considerações seguintes são, pois, apresentadas como exemplos.

29. Os bispos pregam a Palavra, presidem à celebração dos sacramentos, administram a disciplina de modo a serem os ministros pastorais e representativos da supervisão, da continuidade e da unidade da Igreja. Exercem a vigilância pastoral da região para onde foram chamados. São os servidores da apostolicidade e da unidade do ensino, do culto e da vida sacramental da Igreja. Têm a responsabilidade de direção na missão da Igreja.

Estabelecem a relação entre a comunidade cristã da sua área e a Igreja no sentido mais amplo, bem como entre a Igreja universal e a sua comunidade. Em comunhão com os presbíteros, os diáconos e toda a comunidade, são responsáveis pela transmissão regular da autoridade ministerial na Igreja.

30. Os presbíteros servem como ministros pastorais da Palavra e dos sacramentos numa comunidade eucarística local. São pregadores e mestres da fé, exercem a cura das almas e têm a responsabilidade da disciplina da comunidade, a fim de que o mundo creia e todos os membros da Igreja sejam renovados, fortalecidos e equipados para o ministério. Os presbíteros têm uma responsabilidade particular na preparação dos membros da Igreja para a vida cristã e o ministério.

31. Os diáconos representam no seio da Igreja a sua vocação de serva no mundo. Sustentando em nome de Cristo um combate no meio das inumeráveis necessidades da sociedade e das pessoas, os diáconos dão o exemplo da interdependência do culto e do serviço na vida da Igreja. Exercem uma responsabilidade no culto da comunidade. Por exemplo, fazem a leitura das Escrituras, pregam e conduzem os fiéis na oração... Participam no ensino da comunidade. Levam a cabo um ministério de caridade. Desempenham certas tarefas administrativas e podem ser eleitos para responsabilidades de governo.

Comentário:

Hoje, em muitas Igrejas, há uma considerável incerteza a respeito da necessidade, do sentido, do estatuto e das funções dos diáconos. Em que sentido poderá o diaconato ser considerado como uma parte do ministério ordenado? O que é que o distingue de outros ministérios na Igreja (catequistas, músicos, etc.)? Por que devem os diáconos ser ordenados, enquanto esses outros ministérios não recebem ordenação? Ao serem ordenados são-no no sentido pleno da palavra, ou a sua ordenação não é senão a primeira etapa para uma ordenação como presbíteros? Hoje, há uma forte tendência em muitas Igrejas para a restauração do diaconato como ministério ordenado com dignidade própria e concebido para ser exercido permanentemente. Agora que se registra uma aproximação entre as Igrejas, poder-se-iam reunir neste ofício diaconal os ministérios que existem atualmente sob formas e nomes diversos.

As diferenças existentes na regulamentação do ministério diaconal não deveriam ser olhadas como impedimento para um reconhecimento mútuo dos ministérios ordenados.

d - Variedades dos Carismas

32. A comunidade que vive no poder do Espírito é caracterizada por uma variedade de carismas. O Espírito é o dispensador dos diversos dons que enriquecem a vida da comunidade. A fim de os tornar mais efetivos, a comunidade reconhece alguns destes dons publicamente. Certos destes ministérios desempenham serviços permanentes da vida da comunidade, enquanto outros serão temporários. Homens e mulheres, nas comunidades das ordens religiosas, cumprem um serviço que é de particular importância na vida da Igreja. O ministério ordenado, ele próprio um carisma, não deve tornar-se num impedimento à variedade dos carismas. Pelo contrário, deverá ajudar a comunidade a descobrir os dons derramados sobre ela pelo Espírito Santo, e terá que apetrechar os membros do Corpo para servir numa variedade de formas.

33. Na história da Igreja, tempos houve em que a verdade do Evangelho só pôde ser preservada graças a personalidades proféticas e carismáticas. Freqüentemente, novos impulsos só de modo inabitual conseguiram abrir caminho na vida da Igreja. Por vezes, certas reformas exigiram um ministério especial. Os ministros ordenados, bem como toda a comunidade, deverão estar atentos ao desafio lançado por tais ministérios especiais.

IV. A sucessão na Tradição Apostólica

a - A Tradição Apostólica na Igreja

34. No Credo, a Igreja confessa ser apostólica. A Igreja vive na continuidade dos apóstolos e da sua proclamação. É o mesmo o Senhor que enviou os apóstolos em missão e que continua a estar presente na Igreja. O Espírito guarda a Igreja na tradição apostólica até ao dia em que a história se cumprir no Reino de Deus. A tradição apostólica na Igreja implica a continuidade na permanência das características da Igreja dos apóstolos: testemunho da fé apostólica, proclamação e interpretação renovada do Evangelho, celebração do batismo e da eucaristia, transmissão das responsabilidades ministeriais, comunhão na oração, no amor, na alegria e no sofrimento, serviço junto dos doentes e necessitados, unidade das Igrejas locais e partilha dos bens que o Senhor deu a cada um.

Comentário:

Os apóstolos, testemunhas da vida e da ressurreição de Cristo e enviados por ele, estão na origem da transmissão do Evangelho, da transmissão das palavras e os gestos salvadores de Jesus Cristo que constituem a vida da Igreja. Esta tradição apostólica prossegue através da história, e une a Igreja às sua origens em Cristo e no colégio dos apóstolos. No interior desta tradição apostólica, há uma sucessão apostólica do ministério, que está ao serviço da continuidade da Igreja, na sua vida em Cristo, e da sua fidelidade às palavras e aos gestos de Jesus, transmitidos pelos apóstolos. Os ministros instituídos pelos apóstolos, e posteriormente os "episkopoi" das Igrejas, foram os primeiros guardiões dessa transmissão da tradição apostólica; eles foram as testemunhas da sucessão apostólica do ministério que prosseguiu através dos bispos da Igreja antiga, em comunhão colegial com os presbíteros e os diáconos no seio da comunidade cristã. Convém, pois, distinguir tradição apostólica de toda a Igreja e sucessão do ministério apostólico.

b - A Sucessão do Ministério Apostólico

35. A primeira manifestação da sucessão apostólica encontra-se na tradição apostólica de toda a Igreja. A sucessão é uma expressão da permanência e, por isso, da continuidade da própria missão de Cristo na qual a Igreja participa. Na Igreja, o ministério ordenado tem uma tarefa particular de preservação e de atualização da fé apostólica. A transmissão regular do ministério ordenado é, deste modo, uma expressão poderosa da continuidade da Igreja através da história; ela sublinha igualmente a vocação do ministro ordenado como guardião da fé. Quando algumas Igrejas negligenciam a importância da transmissão regular do ministério ordenado, deverão interrogar-se se não terão que mudar a sua concepção da continuidade na tradição apostólica. Por outro lado, quando o ministério ordenado não serve devidamente a proclamação da fé apostólica, as Igrejas deverão perguntar-se se as suas estruturas ministeriais não terão necessidade de uma reforma.

36. Em virtude das circunstâncias históricas particulares da Igreja em processo de crescimento nos primeiros séculos, a sucessão dos bispos tornou-se um dos modos - juntamente com a transmissão do Evangelho e a vida da comunidade - segundo o qual se expressou a tradição apostólica da Igreja. Esta sucessão foi compreendida como serviço, símbolo e custódia da continuidade da fé e da comunhão apostólica.

Comentário:

Na Igreja antiga, o vínculo entre o episcopado e a comunidade apostólica foi compreendido de dois modos. Clemente de Roma ligava a missão do bispo ao envio de Cristo pelo Pai e ao envio dos apóstolos por Cristo (Cor. 42:44 [sic?!: 1Clem 42 - 44]). Isto fazia do bispo um sucessor dos apóstolos, assegurando a permanência da missão apostólica na Igreja. Clemente considera antes de tudo o meio pelo qual a continuidade histórica da presença de Cristo é assegurada na Igreja: a sucessão apostólica. Para Inácio de Antioquia (Magn. 6:1; 3:1,2; Tral 3:1), é Cristo rodeado pelos Doze que está presente de maneira permanente na Igreja na pessoa do bispo rodeado pelos presbíteros. Inácio vê na comunidade cristã reunida em torno do bispo, este no meio dos presbíteros e dos diáconos, a manifestação atual no Espírito da comunidade apostólica. Assim, o sinal da sucessão apostólica não põe somente em evidência a continuidade histórica, mas manifesta também uma realidade espiritual atual.

37. As Igrejas que têm a sucessão pelo episcopado reconhecem cada vez mais que uma continuidade na fé apostólica, no culto e na missão foi conservada nas Igrejas que não conservaram a forma do episcopado histórico. Este reconhecimento vê-se facilitado também pelo fato de que a realidade e a função do ministério episcopal foram mantidas em muitas dessas Igrejas, com ou sem o título de bispo. A ordenação, por exemplo, é sempre efetuada por pessoas em quem a Igreja reconhece a autoridade de transmitir o mandato ministerial.

38. Estas considerações não diminuem a importância do ministério episcopal. Pelo contrário, ajudam as Igrejas que não conservaram o episcopado a considerar a sucessão episcopal como um sinal, ainda que não uma garantia, de continuidade e de unidade da Igreja. Há atualmente Igrejas, entre as comprometidas em negociações que visam a união, que expressam a sua vontade de aceitar a sucessão episcopal como um sinal de apostolicidade de toda a Igreja. Não estão dispostas, contudo, a aceitar a insinuação de que o ministério exercido na sua própria tradição teria sido inválido até ao momento da entrada na linha da sucessão episcopal. A sua aceitação da sucessão episcopal contribuirá, do modo mais positivo, para a unidade de toda a Igreja, se fizer parte de um processo mais amplo no qual as próprias Igrejas episcopais reencontrem igualmente a sua unidade perdida.

V. A ORDENAÇÃO

a - A significação da Ordenação

39. A Igreja ordena alguns dos seus membros ao ministério, no nome de Cristo, pela invocação do Espírito e imposição das mãos (1 Tim. 4:14; 2 Tim. 1:6); agindo assim, ela procura continuar a missão dos apóstolos e permanecer fiel ao seu ensino. O ato da ordenação realizado por quem tem o cargo deste ministério, atesta que a Igreja está ligada a Jesus Cristo e ao testemunho apostólico; recorda que o Senhor ressuscitado é o verdadeiro celebrante da ordenação e o outorgador do dom do ministério. Ao ordenar, a Igreja vela, sob a conduta do Espírito Santo, pela fiel proclamação do Evangelho e pelo serviço humilde no nome de Cristo. A imposição das mãos é o sinal do dom do Espírito, que torna visível o fato de o ministério ter sido instituído na revelação cumprida em Cristo, e lembra à Igreja a necessidade de olhar para ele como a fonte da sua missão. Esta ordenação pode, contudo, implicar diferentes intenções em relação com as tarefas específicas dos bispos, dos presbíteros e dos diáconos, segundo o exarado nas liturgias de ordenação.

Comentário:

É claro que as Igrejas têm diferentes práticas da ordenação, e que seria errado privilegiar uma delas como a exclusivamente válida. Por outro lado, se as Igrejas estão dispostas a reconhecerem-se mutuamente no sinal da sucessão apostólica, tal como foi descrito acima, dever-se-ia conseqüentemente reconhecer e observar a velha tradição segundo a qual é o bispo quem ordena, com a participação da comunidade.

40. Propriamente falando, a ordenação exprime uma ação cumprida por Deus e pela comunidade, na qual as pessoas ordenadas são fortalecidos pelo Espírito para o cumprimento da sua tarefa, e apoiadas pelo reconhecimento e pelas orações da comunidade.

Comentário:

Os termos originais do Novo Testamento para designar a ordenação são simples e descritivos. Observa-se o fato de uma designação. A imposição das mãos é indicada. Há uma oração para implorar o dom do Espírito. As diversas tradições têm edificado diferentes interpretações sobre a base destes dados.

Existe, evidentemente, uma diferença entre as situações culturais subentendidas pela palavra grega cheirotonein e pelas palavras latinas ordo e ordinare. O emprego neotestamentário do primeiro termo está carregado da significação secular inicial de "designação" (Act 14:23: 2 Cor 8:19), que deriva, por sua vez, do sentido original de "estender a mão", seja para designar uma pessoa, seja para exprimir um voto. Alguns especialistas no assunto vêem em cheirotonein uma referência ao ato de imposição das mãos, por causa da indicação literal desta ação em casos aparentemente paralelos como Act 6:6; 8:17; 13:13 [sic?!]; 19:6; 1 Tim 4:14; 2 Tim 1:6. Por outro lado, ordo e ordinare são termos derivados da lei romana e transmitem a idéia do estatuto especial de um grupo, distinto da plebe; é assim que, por exemplo, a expressão ordo clarissimus designava o senado romano. O ponto de partida de toda a construção conceptual que utiliza estes termos influenciará profundamente o que, no pensamento e na ação que daí derivam, é considerado como adquirido.

b - O ato da Ordenação

41. Uma longa e antiga tradição cristã situa a ordenação no contexto do culto e especialmente da eucaristia. Um tal lugar para a celebração da ordenação põe em evidência a sua significação como ato de toda a comunidade, e não como gesto de uma certa ordem existente no interior da comunidade ou como ação do indivíduo que é ordenado. O ato da ordenação pela imposição das mãos realizado por aqueles que possuem um tal ministério, é simultaneamente: invocação do Espírito Santo (epíclese), sinal sacramental, reconhecimento dos dons e compromisso.

42. (a) A ordenação é uma invocação dirigida a Deus, a fim de que o novo ministro receba o poder do Espírito Santo, na nova relação estabelecido entre esse ministro e a comunidade cristã local, esse ministro e a Igreja universal, segundo a intenção expressa. A alteridade da iniciativa divina, de que o ministério ordenado é sinal, é aqui reconhecida no próprio ato da ordenação. "O Espírito sopra onde quer" (João 3:3): a invocação do Espírito implica que a resposta à oração da Igreja depende de modo absoluto de Deus. Quer isso dizer que o Espírito pode pôr novas forças em movimento e abrir novas possibilidades "infinitamente além de tudo o que pedimos e pensamos" (Ef. 3:20).

43. (b) A ordenação é um sinal da resposta a essa oração pelo Senhor, que concede esse dom do ministério. Ainda que a resposta à epíclese da Igreja dependa da liberdade de Deus, a Igreja ordena convencido de que Deus, fiel às suas promessas em Cristo, entra sacramentalmente nas formas contingentes e históricas das relações humanas, e de que ele as utiliza para os seus fins. A ordenação é um sinal realizado com a fé de que a relação espiritual significada está presente em, com, e através das palavras expressas, dos gestos realizados e das formas utilizadas.

44. (c) A ordenação é o reconhecimento por parte da Igreja dos dons do Espírito naquele que é ordenado, e o compromisso simultâneo da Igreja e do que recebe a ordenação na sua nova relação. Ao receber o novo ministro, mediante o ato da ordenação, a comunidade reconhece os dons desse ministro e compromete-se a assumir a responsabilidade de uma atitude de abertura em relação a esses dons. Igualmente, aqueles que receberam a ordenação oferecem os seus dons à Igreja e comprometem-se a enfrentar as tarefas e as possibilidades emergentes da nova autoridade e responsabilidade assumidas. E, ao mesmo tempo, entram numa relação colegial com os outros ministros ordenados.

c - As condições para a Ordenação

45. Certos fiéis são chamados ao ministério ordenado segundo caminhos diferentes. Há a consciência pessoal de uma chamada do Senhor a consagrar-se ao ministério ordenado. Esta chamada pode ser discernida na oração pessoal e na reflexão, mas também através de sugestões, de exemplos, de encorajamentos, de influências provenientes da família, dos amigos, da paróquia, dos professores, e de outras autoridades da Igreja. Esta chamada deve ser autenticada pelo reconhecimento eclesial dos dons e das graças de uma pessoa, concedidos pela natureza e pelo Espírito, necessários ao ministério a cumprir. Deus pode servir-se para o ministério ordenado tanto de pessoas que vivem no celibato como de pessoas casadas.

46. As pessoas ordenadas podem ser ministros de tempo total no sentido de receberem o seu salário da Igreja. A Igreja pode também ordenar pessoas que continuem a desempenhar outros empregos ou ocupações.

47. Os candidatos ao ministério ordenado têm necessidade de uma preparação apropriada através do estudo da Escritura e da teologia, da prática da oração e da vida espiritual, familiarizando-se também com as realidades sociais e humanas do mundo contemporâneo. Em certos casos, esta preparação poderá assumir uma outra forma que não a dos estudos acadêmicos prolongados. O período da formação será altura para provar a vocação do candidato, estimulá-la e confirmá-la, ou modificá-la na sua concepção.

48. O compromisso inicial com o ministério ordenado deveria normalmente ser cumprido sem reserva ou limite de tempo. Contudo, uma dispensa em relação ao serviço não é incompatível com a ordenação. A reassunção de um ministério ordenado requer o acordo da Igreja, mas não uma reordenação. Tendo em conta o carisma do ministério dado por Deus, a ordenação a cada um dos ministérios ordenados particularmente nunca se repete.

49. A disciplina relativa às condições para a ordenação numa dada Igreja não deve ser necessariamente aplicável de modo universal, nem utilizada como motivo para não reconhecer os ministérios das outras Igrejas.

50. As Igrejas devem reexaminar as suas práticas - não se dê o caso, por exemplo, de recusarem a admissão de candidatos ao ministério ordenado por motivos de um handicap ou da sua pertença a uma raça ou a um grupo social particular. Um tal reexame é particularmente importante nos nossos dias, por causa das numerosas experiências de formas novas do ministério pelas quais as Igrejas se aproximam do mundo moderno.

VI. Para o reconhecimento mútuo dos Ministérios Ordenados

51. Com o fim de caminhar para o reconhecimento mútuo dos ministérios, é preciso realizar esforços concertados. Todas as Igrejas devem examinar as formas do ministério ordenado e o grau da sua fidelidade às intenções originais. As Igrejas devem estar preparadas para renovar a sua compreensão e a sua prática do ministério ordenado.

52. Entre os pontos que devem ser estudados enquanto as Igrejas avançam para o reconhecimento mútuo dos ministérios, o da sucessão apostólica é de uma importância particular. Algumas Igrejas, co-participantes nas conversações ecumênicas, poderão reconhecer mutuamente os seus ministérios ordenados se estiverem seguras de que a intenção de cada uma delas é transmitir o ministério da Palavra e dos sacramentos em continuidade com os tempos apostólicos. O ato da transmissão deveria ser realizado de acordo com a tradição apostólica, que inclui a invocação do Espírito e a imposição das mãos.

53. A fim de chegarem ao reconhecimento mútuo dos ministérios, as diversas Igrejas têm de percorrer diferentes etapas. Por exemplo:

  • (a) As Igrejas que conservaram a sucessão episcopal deverão reconhecer o conteúdo apostólico do ministério ordenado existente nas Igrejas que não conservaram essa sucessão, bem como a existência nestas Igrejas de um ministério da episkopê sob variadas formas.
  • (b) As Igrejas sem a sucessão episcopal, que vivem na continuidade fiel com a fé e a missão apostólica, têm um ministério da Palavra e dos sacramentos evidenciado na sua fé, prática e vida. Tais Igrejas devem dar-se conta de que a continuidade com a Igreja dos apóstolos encontra expressão profunda na sucessão da imposição das mãos pelos bispos, e de que, mesmo não estando elas privadas da continuidade na tradição apostólica, este sinal fortalecerá e aprofundará essa continuidade. Elas terão que redescobrir o sinal da sucessão episcopal.

54. Algumas Igrejas ordenam homens e mulheres, outras não ordenam senão homens. Estas diferenças criam obstáculos no que respeita ao reconhecimento mútuo dos ministérios. Mas estes obstáculos não devem ser considerados como impedimentos decisivos a outros esforços que tenham em vista o mútuo reconhecimento. A abertura recíproca comporta a possibilidade de o Espírito falar a uma Igreja através dos esclarecimentos de uma outra. As considerações ecumênicas deveriam, pois, animar e não refrear o esforço para encarar de frente este problema.

55. O reconhecimento mútuo das Igrejas e dos seus ministérios implica uma decisão da parte das autoridades e um ato litúrgico a partir do qual a unidade será manifestada publicamente. Têm-se proposto diversas formas deste ato público: mútua imposição das mãos, celebração eucarística, culto solene sem rito particular de reconhecimento, leitura de um texto de união no decurso de uma celebração. Nenhuma forma litúrgica é absolutamente requerido, mas seja em que caso for é necessário proclamar publicamente o cumprimento do reconhecimento mútuo. A celebração comum da eucaristia seria, sem dúvida, o lugar apropriado para tal ato.

Fonte:

Presbyterian Church of Portugal

 

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