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Breve comentário sobre o Matrimônio

Paul Evdokimov

noivado efetiva-se pela imposição dos anéis e daí ser chamado «rito dos anéis»: a «akolouthía tou arrabonos». O «rito da coroação», a «akolouthía tou stephanómatos», segue quase sempre imediatamente e consiste na imposição das coroas. Ambos os ofícios são, pois, celebrados numa cerimônia única.

Após a divina liturgia, durante a qual receberam a santa comunhão, os noivos colocam-se diante das portas reais, o homem em frente ao ícone do Cristo e a mulher em frente ao ícone da Teotokos (figura da Igreja). Recolhem-se diante desta imagem arquetípica do casamento, segundo são Paulo: a união do Cristo e da Igreja.

Os dois anéis foram colocados no centro do santuário, sobre o altar. Representam o mistério do reino e, símbolo do novo destino, designam a dimensão na qual o sacramento introduzirá o casal.

O padre recebe dos noivos a afirmação de que se apresentam por livre e espontânea vontade, diante do olhar de Deus. Benze-os com as velas nupciais acesas que eles segurarão durante o ofício. Sua luz é a reminiscência do que acontecera no princípio: «Faça-se a Luz»; corresponde, assim, ao plano da criação antes da queda e à palavra de instituição paradisíaca da unidade conjugal. Sua chama lembra ainda as línguas de fogo de Pentecostes. Os noivos aguardam seu pentecostes conjugal na expectativa da descida da graça.

O celebrante, traçando em cruz, incensa os noivos. Este gesto simbólico relaciona-se com a história de Tobias: a fumaça afugentava os demônios e tornava o recinto puro e santo. No limiar da nova vida, a cruz é traçada com seu poder de proteção. A cruz purificou a atmosfera e libertou o mundo da dominação demoníaca, ensina santo Atanásio [51].

Após as ladainhas, o padre pronuncia a primeira oração: «Deus eterno...», [52] pedindo que a graça divina reúna o que fora disperso e torne indestrutÍvel o elo do amor. Percebemos nestas palavras um eco da mais antiga oração eucarística da Didaqué (cap. 9): «Como este pão partido, outrora dispersado pelas montanhas, foi recolhido para tornar-se um todo, assim também seja a tua Igreja unificada de uma extremidade a outra da terra.» O amor dos noivos, em sua própria inspiração, alia e orienta-se para a comunhão eucarística.

A segunda oração nos coloca diante do arquétipo divino do matrimônio: os esponsais de Cristo e da Igreja. Seu alcance corresponde à palavra inspirada de São João Crisóstomo: «o casamento não é a imagem de algo terrestre!» O ritual copta menciona aqui a história de Eliezer, o intendente de Abraão. Deus acompanha-o em sua viagem e revela-lhe a maneira de reconhecer a eleita. Deste modo, Deus guia os passos dos que se vão encontrar; seu desígnio sobre o par que se apaixona é o penhor de suas bênçãos.

A terceira oração não é menos rica de sentido e revela o significado da imposição dos anéis. O significado de entrega e intercâmbio entre os noivos aprofunda-se prodigiosamente nos ritos armênio e sírio onde, segundo antigo uso, a troca das cruzes batismais exprime, com simbolismo muito evidente, a entrega recíproca da vida. [53] O rito sírio começa no ponto culminante: «Quantos mistérios estão ocultos e contidos no esplendor dos anéis! ... O Senhor Jesus Cristo que desposou a Igreja e que, pelo seu sangue, constituiu-lhe um dote e, com os cravos da crucifixão forjou-lhe um anel.»

A oração do rito bizantino fala de José: o selo real engastado no anel era o sinal de seu poder e garantia, confirmando a confiança e a fidelidade do rei a seu respeito. Assim também, na evocação da história de Daniel lançado na cova dos leões, o rei serviu-se de seu sinete que garantia a libertação do profeta e exprimia o mesmo penhor de fidelidade em relação a ele. Tamar, citada diante do juiz Judas, mostra o anel que o lembra da sua promessa e obriga-o a ser fiel a ela. Finalmente, ao filho pródigo, de volta a casa, o pai coloca-lhe no dedo o anel, sinal do perdão concedido e da dignidade real restituída.

O encontro dos noivos torna-se como que selado pelo anel da promessa divina; súmula da história da humanidade: o filho de Deus é salvo pela fidelidade do Pai, «Filantropo», «o que ama os homens.» O ato divino é imediatamente seguido de dom real: «Que o anjo do Senhor caminhe diante deles todos os dias de sua vida». E o símbolo impressionante da unidade em um único ser, em um só destino: o anjo da comunidade conjugal a guie até o reino. 54]

No Ocidente, a antiga liturgia romana incluía o rito da velatio, que realçava a imagem paulina do «véu», sinal da feminilidade, do recato e submissão. No Oriente, o uso do véu pelas mulheres casadas era habitual. O rito oriental da coroação suprime, retira o véu e acentua a liberdade régia dos esposos e sua igualdade no dom recíproco de suas pessoas. A dignidade da mulher aparece com mais evidência: companheira de seu face-a-face, a ele igual, ambos constituem a imagem única de Deus.

A cerimônia da coroação começa pelo canto do Salmo 127, integrado à cerimônia das núpcias desde o século IV. Seu final justifica essa inserção. Convém compreender seu sentido oculto. Encontramos as mesmas palavras na oração central do sacramento da unção crismal (confirmação): «Que ele te conceda a glória, e que todos os dias de tua vida tenhas a visão dos bens de Jerusalém». A consagração sacerdotal, consagração de toda uma vida a serviço do Senhor, culmina numa visão nitidamente escatológica; trata­se da Jerusalém celeste. O canto do Salmo 127 invoca ainda o Senhor e pede sua bênção vinda de Sião. Este nome significa, ao mesmo tempo, lugar de salvação (Isaías 46,13) e Jerusalém, sinônimo do reino messiânico que a literatura rabínica e apocalíptica chamará de Jerusalém celeste, Esposa do Senhor. Depois da solenidade de Ramos, Jerusalém designa o Cristo e seu Corpo glorificado como Igreja mística, lugar onde se desenrola a história da salvação.

Desde o início esta evocação, de tão denso significado, alça de vez os nubentes acima dos horizontes terrenos. Ensina a constante e única verdadeira atitude conjugal: a cada momento, «todos os dias de sua vida», o homem, plantado na terra, contempla o Oriente através de suas raízes, sua alegria sorve o céu; os esponsais terrenos dão início à ascensão de Sião na luz do Tabor.

As orações que seguem a liturgia diaconal mencionam os nomes dos patriarcas e as bênçãos concedidas, o que reúne as duas alianças numa única economia da salvação. O que se passou e já narramos ilustra e glorifica a inabalável fidelidade de Deus. O imponente cortejo dos patriarcas termina com Zacarias e Isabel, com Joaquim e Ana. São os casais que geram os arquétipos humanos: o do masculino, são João Batista; o do feminino, a Virgem, «esposa in-desposada», «de quem, sem as relações do matrimônio, nasceu o Salvador», esposo real do festim das virgens prudentes. O casamento se coloca, assim, sob o signo da natividade milagrosa e da serva e do amigo do único Esposo.

Por este motivo, as mesmas orações voltam várias vezes, orações para implorar a castidade conjugal e um leito nupcial sem mácula. Elas evocam as núpcias de Caná e iniciam no simbolismo do amor transfigurado, tornado carismático. O encontro significativo da virgindade e do estado conjugal indica a mesma fonte e a mesma plenitude, onde culminam os dois mistérios da vida humana, após o milagre de Caná.

Tudo o que foi dito é complementado pela evocação de Enoc, de Elias e de Sem (filho de Noé que uma tradição inclui). Esses profetas foram transportados vivos para o céu. A menção é importante: aqueles que se unem são colocados diante da prefiguração humana da ascensão do Senhor: os horizontes terrestres em nada limitam a ascensão dos casados.

Este equilíbrio maravilhoso do céu e da terra conduz ao concreto da existência. Na véspera das grandes festas, o padre abençoa o trigo, o vinho e o óleo, imagem e presença exemplar da abundância dos frutos da terra, alma mater. Partindo deste ponto esquemático, a bênção estende-se sobre todo o universo e santifica sua fecundidade, da qual o homem é o ecônomo supremo. A oração do rito matrimonial segue a mesma fórmula e explicita imediatamente a finalidade dos bens terrenos: «A fim de que possam distribuí-los àqueles que não os têm... para a sua salvação». A abundância da alegria do festim retifica e sensibiliza a atenção do homem, torna-o aberto e o predispõe a se debruçar sobre toda solidão, sofrimento e abandono longe de Deus. Doravante, os esposos são para todos a segunda pessoa, são para todos este mendigo rico de Deus e irmão pobre de todos os homens aos quais deseja ardentemente a salvação.

A primeira oração do rito de coroação evoca, explicita e torna presente o acontecimento de Caná: «Por uma graça misteriosa foste a Caná da Galiléia, para ali abençoar o casamento, a fim de mostrar que a união conjugal está de acordo com tua santa vontade... acolhe nossa prece, pois aqui estás invisivelmente presente como lá te encontravas».

No evangelho, a glória perfaz toda obra em Cristo, sua realização é manifestada e glorificada pelo Espírito Santo. Os noivos, diante do Cristo presente, recebem a glória que complementa a constituição de seu ser único, e o sacerdote eleva-os àquela dignidade pela epíclese do sacramento: «Senhor, nosso Deus, coroa-os de glória e de honra». E o momento efetivo do sacramento: o tempo do pentecostes conjugal, a descida do Espírito criando a nova criatura.

O rito copta acentua fortemente este sentido pela unção dos noivos, lembrança da unção crismal e sinal dos dons de Pentecostes. A benção do óleo diz: «Tu que ungiste sacerdotes, reis e profetas (tríplice dignidade do sacerdócio régio) com o produto do fruto da oliveira, nós te pedimos abençoar o óleo que te apresentamos. Torne-se ele óleo de santificação, unção de castidade, luz e beleza imaculada».

O coro canta: ... «é o óleo dos espíritos santos» ... A unção infunde a graça da santidade conjugal. O que estava separado, não mais está; o anjo do ser conjugal tornou-se presente como testemunha celeste da palavra criadora reconstituída e novamente ouvida: «Ele o fez à semelhança de Deus. Ele os criou... e lhes deu o nome de Homem». Estas aproximações prodigiosas do júbilo litúrgico fazem sentir até que ponto a palavra da oração sacerdotal do Senhor (Jo, 17): «Eu lhes dei a glória, a fim de que sejam um», acha-se no âmago da manifestação da mesma glória em Caná e presente em todas as núpcias cristãs. É a própria fórmula do amor conjugal e do sacramento do matrimônio.

A oração central do rito de coroação é muito reveladora, coloca-se no começo e no fim da destinação humana e une-os. Com efeito, ao descrever a magnificência do homem inocente, na aurora de sua vida (Hb2,7) diz: «Tu o coroaste de glória e de honra».

O Apocalipse coloca-se na outra extremidade, no termo da história, e culmina com a visão da cidade nova onde «as nações trarão sua glória e sua honra». Não é de mãos vazias que os homens alcançam as margens do reino; carregam os dons do Espírito: a glória e a honra. Mas a mesma fórmula que vem exprimir a promessa inicial e sua realização - o paraíso e o reino -, vem como palavra que opera o sacramento do matrimônio: os esposos são coroados de glória e de honra. Vemos assim o casamento como ponto de junção entre o Alfa e o Omega do destino humano.

O rito da coroação foi introduzido em recordação dos quarenta mártires de Sebaste aos quais Deus envia do céu sua coroa. A menção de são Procópio também é significativa. Sua vida nos conta que ele exortava as esposas a obterem pelo martírio as núpcias celestes. Este relato sucinto orienta a procissão-dança nupcial ao canto do tropário dos mártires: «Santos mártires que combatestes corajosamente e recebestes a coroa, intercedei por nós junto ao Senhor», dirige-a para este mesmo fim e designa assim o termo glorioso do caminho da vida. Portanto, os casados, por seu amor mútuo, fazem brotar esta magnífica oração dos mártires: «És tu, meu Esposo, que desejo; procurando-te, luto e me crucifico contigo; envolvo-me em teu batismo e sofro por ti, a fim de viver em ti». O engaste dos antigos anéis nupciais deixava ver dois perfis unidos pela cruz. O amor perfeito é o amor crucificado. Por esta razão, as coroas estão associadas à coroa de espinhos de Nosso Senhor, única a poder conferir sentido a todas as demais. Ao longo de toda sua vida, os esposos ouvirão o eco mais ou menos longínquo do tropário dos santos mártires.

São João Crisóstomo vê na coroa o símbolo da ascese conjugal, a fim de alcançar a castidade, a integridade do ser. É de admirar que o ritual não demonstre nenhum receio do sexo, não comporte traço algum de desconfiança ou desprezo. A oração pela castidade conjugal, contrária a todo conceito de «remédio contra a concupiscência», pede algo muito diferente: o milagre da transfiguração do eros. O pecado carnal não é o pecado da carne, mas pecado do espírito contra a carne, contra o sagrado e a santidade da encarnação. Toda a gama de superações da sexualidade instintiva que a graça do sacramento oferece traça novos desdobramentos de onde o amor sai eternamente jovem, novo e virgem, purificado dos estigmas do passado adulterado.

A liberdade dos costumes do mundo moderno, muito paradoxalmente, por um contraste violento, determina uma sede secreta de pureza e de véu. A grandeza da comunidade conjugal postula a vitória, não do tirano que pesa, que calcula e finalmente suprime o amor, mas do Mestre e Senhor que tem o poder de metamorfosear. Nos bastidores do erotismo de hoje, frustrado e mergulhado no tédio gigantesco, o amor novamente se apresenta como a fascinante e única grande aventura quando o ser humano alcança o céu não somente como poeta, mas ontologicamente, pelo carisma da santidade conjugal.

Alguns antigos manuscritos, assim como uma composição do ícone de são Miguel, representam Satanás com dois rostos, sendo um colocado no baixo-ventre - símbolo de desdobramento e de desagregação da pessoa pela concupiscência demoníaca. É a perversão definitiva do princípio virginal. Tal estado exige profunda penetração sacramental da natureza humana, e por este motivo o matrimônio é sacramento, a fim de reconquistar a castidade perdida. São Clemente de Alexandria refere-se à «graça paradisíaca» que restitui ao espírito humano a sophrosyne (integridade) inicial. Segundo antiga tradição, só após sete dias as coroas simbólicas eram retiradas. Estes sete dias de continência iniciavam no domínio de si e serviam de noviciado monástico; o casal passava-os em oração, a fim de se preparar para o mistério do amor. [55] «Não é o caminho que é difícil, mas o difícil é que é o caminho», estas palavras de Kierkegaard bem se aplicam à imensa dignidade do matrimônio.

O amor é misterioso: vem de repente, mas pode desaparecer também de repente; seu esgotar-se até o desaparecimento é ainda mais incompreensível do que seu surgimento. O amor natural, secularizado, é vítima indefesa da inconstância humana. Nenhuma palavra simplesmente humana cumpre suas belas promessas. «Amar e perdurar» só rimam na poesia do «primeiro amanhecer». Compreende-se, pois, a incansável insistência do sacramento do matrimônio que pede o milagre, pede o carisma, e reza sem cessar pelo «amor perfeito», «pela união indestrutÍvel», «o amor de um a outro e a terna amizade»; «abrasa, Senhor, o noivo e a noiva do fogo do amor», reza o rito caldeu, e «que, no amanhecer de todos os dias, tu te despertes na alegria»... «Que, no momento em que estenderes a mão direita mão do Senhor te atenda. Que, por toda parte onde pousares a esquerda, seu socorro te acompanhe» (bênção nupcial composta por santo Efrém).

Que imensa confiança da parte de Deus, colocar entre nossas frágeis mãos um ser, um destino! Somente o amor que se aloja dentro do amor divino pode disto encarregar-se. «Como poderás saber que não salvarás teu face a face?» Esta pergunta-resposta é a espada afiada que imola o individual, o isolado, o «por si mesmo». Segundo São João Crisóstomo, um verdadeiro marido não se detém diante da morte, «tu és mais preciosa do que minha alma», diz ele a sua mulher. Tiago de Saroug (século V-IV), em seu tratado Sur le voit de Moïse,[56] pergunta: «Que esposo, exceto Nosso Senhor, morreu por sua esposa, e que esposa teria escolhido como esposo um crucificado?» O homem e a mulher ofereceram a oportunidade de esboçar este mistério do qual não passavam de sombra e imagem. Por trás destes nomes de homem e mulher, Moisés (em seu relato da criação do mundo) exprimira este grande mistério, escondendo-o sob o véu. O Apóstolo disto revelou o esplendor a toda a terra e a palavra de Moisés viu-se elucidada: «De dois, tornaram-se um».

Após o rito de coroação, o leitor diz o versículo 4 do Salmo 20: «Colocaste uma coroa de ouro sobre suas cabeças». Guarnecidos deste símbolo, os nubentes ouvem a leitura da epístola aos Efésios (5,20-33) e do evangelho de são João (2,1-11). A inesgotável riqueza dos textos evocados culmina no essencial: a natureza eucarística do amor conjugal. O rito caldeu no-lo explica de maneira muito feliz: «Em sua câmara nupcial, o esposo é semelhante à árvore da vida na Igreja. Seus frutos são nutritivos, suas folhas favorecem a cura. A esposa é semelhante a uma taça de fino ouro, transbordante de leite [57] e esparzida com gotas de sangue». -«Que a Trindade resida para sempre nesta câmara nupcial!»

Relacionando seu amor ao amor de Deus, os esposos elevam o seu ao nível do coração divino, do qual o cálice eucarístico é representação viva. O célebre ícone da Trindade, de Roublev, o sugere. O elo secreto entre o milagre de Caná, a cruz e o cálice se inicia no rito da taça comum. O Euchológion menciona a bênção da taça. Desde o século XI, o rito evoca em suas grandes linhas a liturgia dos pré-santificados. Segundo o Códice Barberini, o cálice era eucarístico [58]. Entre os armênios e os etíopes, o casamento é celebrado durante a liturgia. São Simeão de Tessalônica [59] descreve os costumes do século XV: «O sacerdote toma o cálice, contendo os pré-santificados e proclama: ‘Os pré­-santificados para os santos’..: Dá a comunhão aos esposos... Porque a santa comunhão perfaz e sela o casamento... A seguir, o celebrante oferece a 'taça comum'. Hoje, os noivos comungam na liturgia da manhã. Durante o sacramento, somente a 'taça comum' é oferecida, e os esposos bebem assim no cálice comum da vida».

Este rito é seguido de revocação do cortejo, resumo simbólico da dança nupcial de outrora. É conduzido pelo padre que une as mãos dos noivos. O ritual armênio explica, com clareza, sua significação: O padre representa o Deus criador e reproduz seu gesto: «Deus, segurando a mão de Eva, colocou-a na mão de Adão». São Gregório de Nazianzo, em uma carta a seu amigo Anísios, desculpando-se por não poder comparecer às núpcias de sua filha, afirmava unir pelo pensamento as mãos dos noivos.

Precedendo o novo casal, o padre o faz dar uma tríplice volta, enquanto os padrinhos, por trás deles, carregam-­lhe as coroas. A procissão é acompanhada de um canto extraído do ofício do Natal: «Dança de alegria, Isaías...» e pelo tropário dos santos mártires.

A tríplice volta é tríplice reforço do símbolo do círculo. Forma geométrica das clausuras em torno dos templos e das cidades de outrora, o círculo representa a eternidade e exprime seu poder de proteção. E o significado das procissões litúrgicas em volta do templo; reproduzindo a imagem do infinito, a simples extensão passa a ter valor de espaço sagrado. Se o tempo sagrado, litúrgico, corresponde à nostalgia do eterno, o espaço sagrado corresponde à sede do paraíso perdido e antecipa o reino. O caminho da vida conjugal deixa de ser simples itinerário, é colocado no eixo da eternidade. A partir daí, sua caminhada comum é semelhante ao eixo imóvel de roda que gira.

Outra oração pede: «Abençoa sua entrada e sua saída». Os textos Lc 13,24; At 13,24 e 2Rs 3,25; 3Rs 3,7 (Bíblia grega), referem-se à importância desde sempre reconhecida às «entradas» [60]. Aquele que sabe entrar e sair «dignamente» é senhor de seu destino.

A última oração mergulha no tempo e oferece a bênção para uma longa vida e numerosa posteridade. O rito de despedida retoma o essencial do viático e menciona o nome dos santos Constantino e Helena, «iguais-aos-apóstolos» e «tendo visto a cruz traçada no céu» [61]. Sua dignidade real colocada sob o sinal da Cruz vitoriosa é recordação do sacerdócio régio dos esposos. Mas estes santos são venerados especialmente como «iguais-aos-apóstolos», para a propagação missionária da fé. A última observação do rito conduz, assim, os recém-casados a sua tarefa apostólica: o testemunho da fé pela sua vida, através de seu sacerdócio conjugal.

Notas:

51. PG 25, 140 Ac.

52. As duas orações estão documentadas no Cód. Barberini 336, do século VIII, mas sua origem é bem anterior.

53. Ver o cânone 13 do sínodo nestoriano de Katar, em 677. Ver Chabot, Synodicon orienta/e, Paris, 1902.

54. Na iconografia, o anjo do casamento usa uma veste de cor azul-celeste, símbolo da integridade celestial. Ver. F. Portal, Les couleurs symboliques, Paris, 1837.

55. Há uma distancia infinita entre os "banquetes" atuais com suas "co­mezainas" e a precipitação de onde o amor sai profundamente lesado e a sabedoria iniciatória do sentido sacramental do mistério.

56. La vie spirituelle, 1953. Citado por dom o. Rousseau em Le mariage dans les Eglises d'Orient, pp. 13-15.
57. Alguns antigos ritos eucarísticos comportavam a bênção de taça cheia de leite.

58. Tertuliano diz, em sua época, que a bênção nupcial era ministrada durante a missa. Os documentos canônicos ortodoxos dizem, em época recente: "O casamento era celebrado após a liturgia" (Kormtchaja Kniga).

59. De Septem sacramentis, capo 282.

60. Na liturgia, a “pequena” e a “grande” saída, comandam o desenvolvimento da ação litúrgica.

61. O antigo rito comportava este tropário.

Fonte:

EVDOKIMOV, Paul. O Sacramento do Amor - o Mistério Conjugal à Luz da Tradição Ortodoxa. São Paulo: Ed. Paulinas, 1989.

 

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