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O que separa ortodoxos e católicos?

Hieromonge Maximos Davies, do Mosteiro da Sagrada Ressurreição
(Comunidade católica oriental da Eparquia São Jorge em Canton, Ohio)

Tradução de Rodrigo Virtuoso

 

uando os ativistas de Belgrado se dirigiram à sede patriarcal da Igreja Ortodoxa Sérvia em abril passado, estavam incomodados com relação à proposição de reformas litúrgicas. As reformas incluíam a instrução dos sacerdotes que deviam recitar em voz alta algumas orações que até agora se faziam em silêncio, e que as portas sagradas do iconostásio entre o altar e a congregação permaneçam abertas durante a celebração da Eucaristia. Uma foto em um jornal Sérvio mostra uma ativista que segurava em uma mão um ícone de São Savas, o santo mais importante da Igreja Ortodoxa Sérvia, enquanto que na outra levantava um cartaz com os seguintes dizeres: “Mestre: não nos transformes em católicos romanos!” O que motivou esta sérvio produzir um cartaz de protesto não foi uma disputa doutrinária, mas sim o temor da invasão de uma cultura percebida como estrangeira. Aprofundando nos questionamentos, os ativistas poderiam ter argumentado “os católicos são hereges!”

Entretanto, para muitos cristãos ortodoxos, esse é um argumento secundário, que aponta o ponto principal: os católicos romanos e os ortodoxos simplesmente são diferentes. Para muitos ortodoxos, as supostas heresias de Roma são inevitáveis pelas diferenças na perspectiva e tradições. Embora se possam solucionar questões teológicas, o profundo sentido de autoridade seria um obstáculo muito sério atrás da união. Não obstante, não está claro quantos católicos pensam da mesma maneira sobre os católicos ortodoxos. As atitudes católicas provavelmente refletem a típica aceitação casual da cultura dominante.

Em um documento recente sobre a natureza da igreja, a Congregação para a Doutrina da Fé reiterou o ensinamento católico que os ortodoxos pertencem às igrejas verdadeiras, às quais faltam apenas a comunhão com Roma para que seja completa. O porta-voz para assuntos exteriores do Patriarcado de Moscou, o metropolita Kirill de Smolensk, respondeu a este documento declarando: “nos ajuda ver quão diferentes somos”. Inclusive quando Roma trata de ressaltar a relação próxima entre ortodoxos e católicos, seus correspondentes orientais interpretam estas declarações como sinais de distância. São católicos e ortodoxos realmente diferentes? Durante meio século ambos os lados se referiram oficialmente ao outro como “igreja irmã”. Uma lista de diferenças teológicas é relativamente curta e há consciência de que a concepção católica sobre a supremacia do Papa é a principal dificuldade. Sobre as antigas disputas relativas à cláusula filioque do Credo niceno (“o Espírito Santo procede do Pai e do Filho”) e os dogmas romanos modernos da Imaculada Conceição e Assunção, ambos sobre Maria, em geral há acordo entre os teólogos especialistas que são subespécies de problema das declarações papais.

Ninguém acredita que esta divisão possa se solucionar completamente no nível teológico. Existem feridas políticas que também devem sanar, especialmente sobre o que se vê como proselitismo católico, e especialmente no caso das Igrejas orientais católicas “uniatas”. Estes problemas políticos e teológicos são o pão de cada dia dos diálogos ecumênicos oficiais, mas as profundas diferenças culturais sobre as quais a ativista sérvia protestava são muito raramente discutidas. Não me refiro a “cultura” em um sentido étnico, mas sim como uma maneira de descrever o modo de ser cristão, e tais diferenças são mais profundas no que se refere à cultural eclesial. As culturas eclesiais desenvolvem idéias teológicas distintivas, mas estes aspectos teológicos não só são pensados, também são vividos profundamente no nível da prática e devoção populares.

Há uma tendência a subvalorizar os temas da cultura eclesial. Talvez isto não seja surpreendente, já que encontrar um terreno teórico comum que seja defensável intelectualmente, pode ser mais fácil na prática que ajudar a centenas de milhões de fiéis a receber esta resolução.

Diferenças culturais

Podem-se detectar duas diferenças culturais maiúsculas na maneira que ortodoxos e católicos vivenciam suas visões sobre o cristianismo. A primeira inclui atitudes sobre a liturgia, uma área onde as diferenças são surpreendentemente difíceis de definir, porque vão bastante mais além das diferenças no rito. Existe um erro comum no sentido que os ortodoxos valorizam mais a “reverência” que os católicos ocidentais contemporâneos, mas isto não é necessariamente certo; uma missa de palhaços também é reverente em seu particular estilo. Não obstante, importa precisamente o que se está reverenciando. Aproximamos-nos da verdade se dissermos que os ortodoxos vêem a liturgia como a atividade primária dos cristãos, da qual toda outra atividade flui. Os católicos, por outro lado, tendem a ver a liturgia como um dos muitos ofícios cristãos; é importante e obrigatória, mas é uma entre muitas atividades importantes. Se bem que é impossível fazer tais declarações sem cair em generalizações massivas, esta diferença entre as duas tradições é, não obstante, uma fonte de alienação. Uma maneira como esta diferença cultural se manifesta, pode ser encontrada na visão de cada tradição sobre as orações privadas e o ascetismo. Alguém pode legitimamente apresentar o caso de que no catolicismo romano estes tiveram um processo de privatização considerável. As igrejas ortodoxas, por outro lado, conservaram preferencialmente o sentido que o ascetismo é um trabalho comunitário. Mais de uma vez, sacerdotes ortodoxos, que têm uma mentalidade bastante ecumênica em outros temas, me disseram que eles estariam contrários a apoiar uma reunião imediata das igrejas porque acreditam que é uma falta de respeito em relação à disciplina do jejum de parte dos católicos. Como, se perguntam, podem dizer à sua gente que jejuem da meia-noite da noite antes de receber a eucaristia quando poderiam ir a uma missa católica uma hora depois de ter tomado o café da manhã? Na raiz desta atitude se encontra o temor de que sem os resguardos necessários, a ortodoxia sucumbirá aos cantos de sereia do individualismo ocidental. Católicos de tendência mais conservadora podem se sentir animados com isto, crendo poder contar com os ortodoxos como aliados na batalha contra o liberalismo e o secularismo, mas isto é certo só parcialmente. Muitos conservadores católicos falam de “ofertar” atos ascéticos para as vítimas de abortos ou algum outro objetivo digno. É difícil imaginar que um cristão ortodoxo pensasse desta maneira, e a divisão ortodoxos/católicos é bastante mais complexa que qualquer conflito interno dentro da Igreja Católica. Para muitos ortodoxos, o que hoje em dia se chama devoção “tradicional” católica pode parecer tão estrangeira em algumas formas como as expressões mais “liberais” da fé.

Outra diferença maior entre estas culturas eclesiais pode se resumir no princípio da oikonomia, esta palavra grega deriva para “uso doméstico” ou “administração”, que com freqüência é usada em relação a temas de ordem da igreja e suas regulamentações. O conceito não é inteiramente alheio para os católicos, especialmente aqueles que estão fora da tradição anglo-germânica mais legalista, mas o princípio de oikonomia regula a práxis ortodoxa de maneira que para muitos católicos parecerão surpreendentes, inclusive perturbadoras. Por exemplo, o princípio de oikonomia pode ser usado em igrejas ortodoxas para responder questões não apenas relacionadas à igreja, mas também morais. Podemos encontrar dois exemplos desta prática em controvérsias sobre o casamento após um divórcio e sobre o uso de métodos contraceptivos artificiais, que a ortodoxia acomoda dentro de sua visão moral em certas circunstâncias. Milhões de católicos comuns e correntes se sentiram intimamente afetados pela insistência de sua igreja na absoluta indissolubilidade do casamento (portanto, não pode haver sacramento de outro casamento após o divórcio) e a maldade intrínseca do controle artificial da natalidade. Desde a perspectiva católica, que ingenuidade pastoral permitiria uma reunião com uma igreja que (como seguramente se veria), “admite” o divórcio e a contracepção?

As igrejas ortodoxas, entretanto, estão perfeitamente conscientes da porcentagem de solicitações de nulidade outorgados em países ocidentais. Também não estão tão cegos acerca de quão ignorados são os preceitos da igreja católica com relação à contracepção. Se os católicos insistissem que seus ensinamentos são más verazes à mensagem de Cristo, como poderiam convencer os cristãos ortodoxos comuns e correntes que o processo de nulidade vigente não é mais que uma versão custosa, lenta e psicologicamente invasiva de um divórcio eclesiástico? E por que os sacerdotes ortodoxos arriscariam alienar seus próprios fiéis ao interferir em assuntos de planejamento familiar?

Viver de acordo ao que se diz crer

Como pode uma igreja chamar a outros a se unir sobre a base de práticas e crenças que seus próprios membros tratam com aparente desdém? A pergunta vai em ambos sentidos, já que a pretendida liberdade e princípio de oikonomia depende da santidade pessoal dos que determinam os cânones da fé. Onde falham a santidade e a justiça, tudo o que tanto os fiéis católicos quanto os ortodoxos vejam, será a sombra do caos e da venalidade. Para que qualquer dos dois lados apresente uma boa causa para sua própria visão eclesial, deve viver essa visão, não só argumentá-la. A verdadeira chave para o progresso ecumênico –a conversão do outro– começa com a conversão de si mesmo.

A idéia que a conversão pessoal é a base da empresa ecumênica não é nada nova. Em seu “Decreto sobre o Ecumenismo”, o Concílio Vaticano Segundo se referiu à “conversão interior” e à “santidade de vida” como “ecumenismo espiritual”, chamando de “a alma de todo o movimento ecumênico”. Em A Handbook of Spiritual Ecumenism [Manual de Ecumenismo Espiritual], o Cardeal Walter Kasper escreveu: “só no contexto de conversão e renovação da mente podem se curar as feridas dos laços de comunhão”. Esta conversão, continua, se pode fomentar dentro das comunidades de fé: paróquias, grupos de oração, casas religiosas, mosteiros ou organizações juvenis, onde o vínculo orgânico entre santidade pessoal e ecumenismo pode ser ensinado e expressado de maneiras práticas. Só nas bases poderão católicos ou ortodoxos começar esse longo e lento processo de reaprendizagem sem o qual os mais otimistas anúncios dos diálogos ecumênicos não terão nenhum resultado.

Eu pertenço a uma Igreja Oriental unida a Roma e fundamentalmente creio que as visões católica e ortodoxa são capazes de comunhão mútua. Porém, como católico oriental, também posso falar com certa autoridade sobre as tensões que se suscitam quando tratamos de fazer dessa comunhão algo tangível. Em relação a essas tensões, o grupo católico é excessivamente otimista. A reação tóxica que os católicos orientais (especialmente na Europa oriental) com freqüência provocam por sua só existência deveria alertar a nossos irmãos e irmãs de Roma sobre um sentimento geral entre ortodoxos de que as diferenças entre nós são muito grandes para que se resolvam no papel. Qualquer tentativa de fazê-lo pode aparecer como falta de autenticidade e até falso. Inclusive quando os líderes ortodoxos tratam de dar conta desta moléstia de formas mais moderadas, tendem a provocar uma ansiosa perplexidade aos católicos mais ecumênicos. Um perfeito exemplo disso é a reação negativa que o Patriarca Ecumênico Bartolomeu I de Constantinopla recebeu na Universidade de Georgetown em 1997, quando disse de ortodoxos e católicos: “A forma na qual existimos se transformou em ontologicamente distinta. Se nossa transfiguração e transformação ontológica rumo a um modelo de vida comum não se realiza, não só a forma, mas o conteúdo, a unidade e sua concretização resultam impossíveis”.

Aquela ativista em Belgrado teria estado plenamente de acordo com o sentido subjacente de que católicos e ortodoxos são diferentes em coisas fundamentais. É compreensível que os teólogos ecumênicos e os diplomáticos eclesiásticos queiram conduzir o ecumenismo pelo caminho que nos une, mas desafortunadamente, nossas diferenças permanecem. Para curar estas divisões, em especial as que existem no nível cultural, os teólogos e os diplomáticos têm um campo de ação limitado. Nós, os ecumenistas espirituais, fiéis cristãos, devemos fazer o resto.

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