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O Natal entre os ucranianos

Por: Pe. Daniel Kozlinski

Natal representa para todos a festa do nascimento do Menino-Deus, o Messias, o Enviado, Jesus Cristo. Cada nação tem as suas particularidades, costumes e tradições nas celebrações deste evento. Na Ucrânia isto não é diferente. O Natal é uma festa muito rica, de vários costumes, populares e religiosos, que engrandecem e enaltecem o acontecimento.

Os ucranianos na pátria mãe e em alguns lugares da diáspora comemoram o Natal no dia 7 de janeiro, pois seguem o calendário juliano, que foi implantado pelo Imperador Júlio César no ano 46 a.C., distinguindo-se bastante já neste porém, em relação ao calendário da Igreja no Ocidente, de Rito Latino. Em 1582, o Papa Gregório XIII promulgou o calendário gregoriano que tem uma diferença de 13 dias. Assim, o dia 7 de janeiro do calendário «novo» equivale ao dia 25 de dezembro do calendário «antigo». Entre os ucranianos no Brasil, os Católicos seguem o calendário gregoriano e os Ortodoxos seguem o calendário juliano. Embora a diferença de calendário, os costumes e tradições, tanto religiosas como populares, são mantidas por ambos, com muito respeito.

A festa do Natal é precedida por um período de preparação.

Inicia-se no dia 27 de novembro (14 de novembro no calendário gregoriano) com a festa do Apóstolo São Felipe. Chama-se este período de «Pelêpivka». Este tempo é realçado por um período de jejum e penitência, na espera do tão almejado hóspede, o Filho de Deus.

Durante este tempo de preparação para o Natal, um momento importante é a celebração da Festa de São Nicolau. No calendário gregoriano, dia 06 de dezembro, no calendário juliano, dia 19 dezembro. São Nicolau é um dos santos mais populares na Ucrânia, embora seja natural do Oriente Médio (cidade de Izmirna, hoje na Turquia). Bispo da Igreja, sempre se destacou pela suas obras de misericórdia e amor fraterno ao próximo. Estes seus gestos sempre tocaram os corações, por isso, são vários os ícones que representam este constante culto a ele prestado em todo o Oriente. Entre os ucranianos, é considerado o patrono dos agricultores, defensor dos animais, patrono do inverno. Porém, acima de tudo, é o patrono das crianças. Por isso, no dia de São Nicolau, costuma-se realizar a troca de presentes entre as pessoas, e presentear, de um modo especial, as crianças. Quem entrega os presentes para as crianças? O próprio São Nicolau. Ele é representado em suas vestes de Bispo oriental, uma pessoa idosa, meiga e carinhosa para com as crianças. Geralmente é acompanhado pelos anjos, que trazem os presentes a serem distribuídos. Representa a bondade, a generosidade, o bem. Porém, na representação de São Nicolau, aparece também a representação do mal, através de uma pessoa mascarada que representa a tentação, o vício, a desordem, o pecado. No diálogo com as crianças, as perguntas dirigem-se em forma de um questionário sobre o bem que elas praticaram ou podem praticar. O presente é a recompensa pelo bem praticado. No Ocidente, São Nicolau foi substituído pela figura do Papai Noel.

Um significado todo especial para a véspera de Natal entre os ucranianos é a realização da Santa Ceia. Ela encerra o período da «Pelêpivka», quaresma de preparação ao nascimento do Filho de Deus. É a festa da família. Reúnem-se todos para a ceia, na celebração de um ritual todo especial. Inicia-se a preparação com a limpeza da casa, tudo deve estar bem asseado para a visita dos familiares, pois juntos estão à espera do hóspede maior. A dona da casa deve estar, neste dia, atarefada com a preparação dos pratos do ritual que serão consumidos durante o jantar. No interior, nas colônias, o dono da casa deve cuidar da sua «hospodarka», a propriedade, procurando fazer a limpeza de todos os espaços de sua «fazenda», alimentar bem os animais, pois eles também fazem parte da realidade da casa.

Ao entardecer, todos os membros da família devem estar reunidos. Como deve estar preparada a casa e a mesa da ceia?

Prepara-se a «ialenka» – árvore de Natal. Qual o seu significado? A árvore sempre indica para o alto. Lá em cima, deve estar presente a estrela. Ela indica o caminho. Assim como foi para os magos do Oriente. Ela nos guia para o Deus que vem, que é e que será presença entre todos. A árvore é enfeitada com vários adornos, entre estes, os doces, que serão depois apanhados por todos e consumidos. São dádivas, presentes de Deus derramados sobre a humanidade através do Filho Jesus.

Quando todos estão já reunidos, o dono da casa – hospódar – traz um feixe de trigo, para dentro da casa. Dá-se a este feixe de trigo o nome de «didukh». Representa ele os antepassados, os falecidos, bem como a fartura, a boa colheita, o progresso, o bem estar das pessoas. O «didukh» é trazido para dentro de casa como um ritual sagrado, com respeito e colocado, então, em um lugar de destaque, anteriormente preparado. A mesa da ceia natalina é forrada com o feno, coberto depois com a toalha bordada. Que representa este feno? A «manjedoura» onde será colocado o Menino. Como a mesa farta, assim também o Filho de Deus trará as bênçãos para todos na família. Deve ser ele acolhido com o calor humano das pessoas, no relacionamento familiar, na unidade e bem estar. Costuma-se colocar sobre a mesa um castiçal de 3 velas que simbolizam a Santíssima Trindade (O Pai, o Filho e o Espírito Santo). No assoalho, sob a mesa, coloca-se a palha de trigo, junto com os instrumentos do trabalho do campo: o machado, a enxada, o «serp» (instrumento para a colheita do trigo), entre outros. São ali colocados, pedindo, para que em toda a propriedade estejam presentes as bênçãos de Deus. A ceia está pronta. Ela deve ser servida quando a primeira estrela aparecer no céu. No inicio, o dono da casa convida a todos para a ceia. Todos devem estar presentes. Fazendo a oração pela família, o «hospódar» - o dono da casa - saúda a todos com as palavras: «Khrestós Rodêvcia!» (Cristo nasceu!). Todos respondem: «Slavimo Iohó» (Glorifiquemo-lo). Em seguida, o «hospódar» serve, para todos os presentes, um pequeno pedaço de pão embebido no mel. Que a vida familiar seja sempre alegre, unida, vivida no bem estar humano e espiritual. Em algumas regiões da Ucrânia e em algumas famílias aqui no Brasil, o dono da casa convida para a ceia também as «tempestades, as enchentes, o granizo, as geadas, os ventos». Espera-se em silêncio. Como não se ouve a resposta, o dono da casa responde: «Como as tempestades, as enchentes, o granizo, as geadas, os ventos, não foram dignos de aceitar o nosso convite para a ceia, que também não apareçam durante o ano, quando não convidados».

Em seguida, serve-se a ceia. Ela é composta de 12 pratos. No passado, representavam eles, os doze meses do ano. No cristianismo, os doze apóstolos, discípulos do Divino Mestre que anunciam a sua mensagem. Cada cristão deve anunciar o bem, testemunhando a doutrina do Divino Mestre Jesus.

Eis alguns dos pratos que devem ser servidos:

1 - «Kutiá» – grãos de trigo cozido adoçados com mel, passas de frutas (uvas) e nozes ou castanhas e sementes de papoula. O trigo representa a fartura, o progresso, o bem estar. O mel, que a vida deve ser temperada com a alegria da saúde, do bem estar, na amizade, na unidade familiar. Simboliza o trabalho do agricultor e das abelhas. Também representa os entes queridos que faleceram. Elo entre os vivos e os mortos.

2 - «Borchtch» – sopa de beterraba e repolho, servida com pão de centeio.

3 - «Mlêntsi» ou «Nalêsneke» – tipo de panquecas.

4 - «Varének» – espécie de pastel (tipo ravióli) que antigamente era recheado com repolho, trigo sarraceno (mourisco), ameixas, geléias ou sementes de papoula. Embora o recheio de batata com requeijão tenha se tornado popular entre nós, na ceia de Natal era raramente usado, uma vez que para nossos ancestrais, há centenas e centenas de anos atrás, a batata era desconhecida, chegando à Ucrânia somente por volta dos séc. XVII e XVIII. Na região da Galícia (Ucrânia Ocidental) é chamado de «perih», enquanto na Ucrânia Oriental «perih» é uma espécie de pãozinho branco assado no forno contendo algum recheio.

5 - «Holubtsí» – rolinhos de repolho - espécie de «charuto», com trigo sarraceno, cebola e cogumelos, enrolado com folha de repolho. É cozido no vapor ou em «banho maria». Na Ucrânia são preparados com folhas de repolho em conserva em virtude da neve, sendo que em outras estações do ano são usadas folhas frescas de repolho ou de beterraba.

6 - «Krujalkê» – espécie de repolho cozido, temperado com água, sal e iguarias.

7 - Peixe em conserva.

8 - Várias espécies de pão, biscoitos de mel.

9 - «Kácha» – espécie de cevada moída, preparada com iguarias.

10 - «Hrebê» – espécie de cogumelos cozidos, preparados em forma de salada ou em forma de molho, para serem consumidos junto com os demais pratos.

11 - «Kalatch» ou «Kolatch» – pão doce – em algumas regiões com recheio de doces de frutas. O pão representa a colheita do ano e é adornado com uma vela que iluminará a mesa e deve permanecer sobre a mesma durante 3 dias.

12 - «Kompot» ou «Uzvar» – compota feita das mais variadas frutas guardadas em conserva desde o verão (cereja, ameixa, pêra, maçã, uva). Em algumas regiões é preparada com bastante calda de forma que pode ser usada também como suco, substituindo as bebidas alcoólicas.

E ainda temos outros pratos: «kapusniák» (sopa de repolho), «perijkê» (pasteizinhos assados recheados com repolho, ou com doces de frutas), pepinos e outros mais.

Український борщ Вареники

Obs.: A ceia deve ser preparada com produtos não gordurosos que possam representar a água, o ar e a terra, pois ainda nos encontramos no período de quaresma «Pelêpivka». Ela só encerra-se à meia noite, quando da participação de toda a família na Divina Liturgia na igreja da comunidade.

Durante a ceia, iniciam-se os cantos natalinos – «Kolhadê». Eles nos falam do nascimento do Menino Jesus. A alegria deve ser contagiante neste momento da ceia. Cada um saúda os presentes, iniciando uma «Kólhada». Elas continuam até o final da ceia. É comum em todas as famílias deixar sempre um lugar a mais preparado durante a ceia. Este lugar pode representar algum familiar ou amigo que não tem a possibilidade de estar festejando o Natal em uma família, bem como representar aqueles que passaram desta terra para a eternidade: eterna é a lembrança deles entre todos.

Quando todos terminam a ceia, saem para a participação da liturgia na igreja da comunidade. Nada se retira da mesa. Ela deve permanecer assim, pois a crença diz que os «ausentes» virão tomar a sua parte na refeição da ceia.

Na Igreja, na celebração litúrgica, ouve-se muito as «kolhadê», canções natalinas. Todos cantam e saúdam-se com a saudação típica para a festa do Natal: «Khrestós Rodêvcia» – «Slavimo Iohó». (Cristo nasceu – Glorifiquemo-lo.) As canções natalinas serão entoadas nas igrejas até o dia 02 de fevereiro (calendário gregoriano).

Após a celebração na igreja, grupos de pessoas, geralmente homens, organizam-se para visitar as famílias e saudá-las com o canto das «Kolhadê». Vão de casa em casa. As famílias os recebem. São saudadas pelos cantores – «kolhadnekê» - que levam consigo uma estrela grande feita de «soloma» (palha de trigo) e também um «vertép» (presépio). Nesta saudação, deseja-se o bem estar para todos, o progresso humano e espiritual, a saúde, a boa colheita. Geralmente estes cantores são recompensados, não apenas com as guloseimas costumeiras, mas também com uma recompensa em bens materiais, que serão destinados ao bem estar de toda a comunidade.


Fontes:

IVAN SENKIV – «O Natal nas tradições populares e litúrgicas» (em ucraniano) em «Nache Jytiá», dez/1977.
IULIAN KATRIY – «Piznai svii obriad», Padres Basilianos – Toronto.


Anexo:

Pesquisa, complementação e revisão por:
Olga Nadia Kalko, dez/2008

O Calendário juliano

calendário juliano foi implantado pelo líder romano Júlio César, em 46 a.C., como uma importante e substancial alteração no calendário romano. Foi modificado ainda mais em 8 d.C., pelo imperador Augusto, e os nomes dos meses sofreram ainda várias mudanças ao longo do Império Romano. O calendário juliano acabou sofrendo sua última modificação em 1582, pelo Papa Gregório XIII, dando origem ao calendário gregoriano que foi adotado progressivamente por diversos países, e hoje é utilizado pela grande maioria dos países ocidentais.

O calendário juliano, com as modificações feitas por Augusto, continua sendo utilizado pelos cristãos ortodoxos em vários países. Nele os anos bissextos ocorrem sempre de quatro em quatro anos, o que hoje acumula uma diferença para o calendário gregoriano de 13 dias.

O Calendário gregoriano

O calendário gregoriano é o calendário utilizado na maior parte do mundo e em todos os países ocidentais. Foi promulgado pelo Papa Gregório XIII a 24 de Fevereiro do ano 1582 para substituir o calendário juliano.

Gregório XIII reuniu um grupo de especialistas para reformar o calendário juliano e, passados cinco anos de estudos, foi elaborado o calendário gregoriano, que foi sendo implementado lentamente em várias nações. Oficialmente o primeiro dia deste calendário foi 15 de outubro de 1582.
O calendário gregoriano é o que hoje em dia se usa e distingue-se do juliano porque:

• Omitiram-se dez dias (5 a 14 de Outubro de 1582).

• Corrigiu-se a medição do ano solar, estimando-se que este durava 365 dias solares, 5 horas, 49 minutos e 12 segundos, o equivalente a 365,2424999 dias solares.

• Acostumou-se a começar cada ano novo em 1 de janeiro.

• Nem todos os anos seculares são bissextos. Para um ano secular ser bissexto tem de ser múltiplo de 400. Deste modo evita-se a diferença (atraso) de três dias em cada quatrocentos anos existente no calendário juliano.

A mudança para o calendário gregoriano deu-se ao longo de mais de três séculos. Primeiramente foi adotado por Itália, Portugal, Espanha e, de modo sucessivo pela maioria dos países católicos europeus. Os países onde predominava o luteranismo e o anglicanismo tardariam a adotá-lo, caso da Alemanha (1700) e Inglaterra (1751). A adoção deste calendário pela Suécia foi tão problemática que gerou até o dia 30 de fevereiro. A China aprova-o em 1912, a Bulgária em 1917, a Rússia em 1918, a Roménia em 1919, a Grécia em 1923 e a Turquia em 1927.

As Igrejas ortodoxas do Oriente continuaram a usar o calendário juliano até 1923, quando muitas adotaram o seu próprio calendário juliano revisto em vez do gregoriano. Utilizam ainda o calendário juliano para determinar a data da Páscoa.


Origem: Wikipédia

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