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«Beleza e Santidade»

Andrei Rublióv

Arlete O. Cavalieri*

«A Trindade de Rublióv existe, logo, Deus existe.»

xistem até hoje poucos documentos sobre a vida e obra de Rublióv. Nasce provavelmente por volta de 1360-1370, trabalha em Moscou e toma parte em 1405 com Teófano, o Grego na decoração da catedral da Anunciação no Kremlim. Em 1410 pinta o famoso "A Trindade" que lhe havia encomendado o pároco Níkon, sucessor de São Serguéi de Radoniéj. Nos anos 1420 participa na decoração da catedral da Trindade antes de se tornar monge no mosteiro da Trindade e depois no de Spasso-Andronikov, onde morre por volta de 1427-1430.

Suas obras, entre as quais também as miniaturas mais antigas, apresentam todas elas características estilísticas marcantes: beleza plástica, harmonia ideal de proporções, elegância nos tecidos drapeados, domínio absoluto da tradição pictural bizantina, mas ao mesmo tempo, utilização de uma linha sintética para as figuras, com cores claras e fortes, imprimindo uma particularidade muito russa.

As personagens de Rublióv são compostas através de linhas arrendodadas, fluidas, onde as formas são modeladas e a composição, se a compararmos com outras obras russas e bizantinas mais antigas, é concebida de modo a fazer surgir a impressão de um certo distanciamento, de uma certa indiferença das figuras em relação ao espectador.

Além disso, estão plenas de uma espiritualidade elevada: elas parecem constituir a fusão da experiência secular da busca moral e religiosa bizantina e russa.

Depreende-se assim uma renúncia às preocupações terrestres, e a meditação sobre a vida futura conduzirá a um estado onde será possível a apreensão dos segredos mais íntimos da existência e a iluminação do espírito.

Por isso, essas figuras parecem desprovidas de sentimentos: elas não chegam até o mundo do espectador, mas se elevam para as esferas do ideal. Daí resulta a impressão extraordinária de uma harmonia grandiosa do espírito e do coração.

A particularidade da obra de Rublióv não reside, portanto, simplesmente na beleza física das personagens, mas igualmente em sua beleza interior. Desse ponto de vista, a arte de Rublióv reflete de maneira pertinente um dos aspectos essenciais do sistema espiritual do mundo bizantino: à iluminação da alma responderia a beleza carnal.

"A Trindade" é a obra capital do artista. Ícone principal da catedral da Trindade, estava situado na base inferior do iconostase, diretamente diante do olhar dos fiéis6. Destaca-se por seu laconismo: nenhum detalhe supérfluo parece querer afastar o contato espiritual com o mundo elevado e celestial.

Toda a cena é inspirada em um tema extraído do Antigo Testamento. O ícone representa o Pai, o Filho e o Espírito Santo na forma como eles teriam aparecido a Abraão, segundo a tradição cristã, isto é, sob a forma de três anjos. Eles estão sentados à volta de uma mesa baixa, tendo à mão o bastão de peregrino, e participam da refeição que lhes oferecem Abraão e Sarah.

A representação está plena de um simbolismo medieval. A composição circunscreve um octógono formado pelos bancos e os pés dos anjos na parte inferior e pelos detalhes arquitetônicos e a montanha na parte superior do quadro. Este Octógono é o símbolo da eternidade (o número oito, no pensamento medieval, designa a vida eterna, daí a forma octogonal das pias batismais nas igrejas).

A mesa ao redor da qual estão sentados os anjos simboliza o altar, a cabeça do bezerro, o sacrifício divino, os pés nus dos anjos, sua natureza divina, os bastões de Pelegrino, o caminho terrestre de um deles.

Os três anjos personificam a essência da divindade trinaria. O cálice sobre a mesa com a refeição de Abraão é o símbolo do sacrifício de Cristo, da Eucaristia. O edifício à esquerda, sobre o anjo que personifica a primeira pessoa da Trindade (o Pai) é o símbolo do Templo, da Igreja terrestre, da sabedoria divina; a árvore ao centro, sobre a segunda pessoa da Trindade (o Cristo), expressa a árvore da vida; quanto ao rochedo sobre o anjo da direita (o Espírito Santo), o Cosmos, ao mesmo tempo em que a Força e a Firmeza.

As três figuras estão situadas de modo que seus contornos exteriores se inscrevem num círculo, forma ideal e completa, e ainda, símbolo do céu, do sol ou da divindade, freqüente na arte dos primeiros eslavos. Um leve movimento anima o interior deste círculo graças à inclinação da cabeça do anjo central e de outros motivos rítmicos. O espaço ao redor do cálice, entre as figuras dos anjos da esquerda e da direita, repete a própria forma do cálice. A silhueta do anjo central aparece invertida sob ele, como se sua imagem se refletisse na água.

Também o espaço pictural do ícone está concebido de maneira específica: as figuras dos anjos laterais são apresentadas adiante da cena, enquanto que a do anjo central está um pouco recuada, mas, graças à intensidade da cor de suas vestimentas, ele nos parece ligeiramente à frente, no mesmo plano convencional das outras figuras.

“A Trindade" possui numerosas particularidades (ver nota no final) tanto do ponto de vista do conteúdo, quanto do ponto de vista puramente pictural. Trata-se da encarnação visível do dogma central da ortodoxia: a consubstanciação. A Trindade, unidade espiritual de três anjos, associava-se, sem dúvida, no contexto da cultura russa medieval à união das três virtudes: fé, esperança e amor.

A idéia da Trindade enquanto representação e enquanto conceito revelava um sentido que não era somente abstrato, mas excepcionalmente atual no período da Rússia moscovita e dos seus esforços de unificação, na medida em que se apresentava como antítese ao ódio secular e como suporte espiritual para alcançar a firmeza e a força em nome da concórdia nacional.

Segundo a lenda, o ícone foi pintado em louvor a São Serguei de Radoniéj que havia consagrado o santuário de seu mosteiro à Trindade para que através da contemplação da Santa Trindade pudesse ser vencida a angústia diante da discórdia do mundo.

Pode-se aprender, sem dúvida, num primeiro plano de observação do ícone, a tristeza luminosa dos anjos plena de compaixão, uma espécie de conversação silenciosa e meditativa e também uma ligeira lassidão expressa pela doce inclinação de suas cabeças, representação talvez de uma profunda atitude reflexiva em relação aos sofrimentos humanos.

Enfim, o ícone de Rublióv parece concentrar reminiscências da tradição artística mais antiga, sempre viva na cultura do mundo bizantino e por inter­médio de Bizâncio, marcante também em toda cultura da velha Rússia. São, em última análise, os princípios helenísticos que presidem a beleza dos anjos, jovens e graciosos, e o harmonioso equilíbrio da composição.

“A Trindade" representa uma das encarnações mais perfeitas do ideal ético e estético da cultura medieval russa, com seu laconismo das linhas, a pureza e a clareza das combinações cromáticas, o caráter contemplativo e equilibrado das figuras. Esta obra de Rublióv é considerada o apogeu da pintura iconográfica da escola de Moscou, assim como de toda a pintura russa antiga, ocupando um lugar de destaque na história da pintura universal.

O filósofo e teólogo P. A. Florensk (1882-1943) chegou a declarar sobre (A Trindade) de Rublióv: “De todas as provas filosóficas da existência de Deus, a mais convincente é justamente aquela não mencionada nos manuais e que pode ser formulada por meio do seguinte raciocínio: “A Trindade” de Rublióv existe, logo, Deus existe.


Notas:

Texto extraído do artigo Arte e Cultura na Rússia Antiga, em que a autora procura analisar as relações entre a estética e a religiosidade na arte e na cultura da Rússia medieval.

* A autora é Profª. Drª. de Teatro e Cultura Russa e chefe do Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filo, Letras e Ciências Humanas (FFLCH)/USP.

 

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