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PARTE II:

Fé e Liturgia

1. Santa Tradição: a Fonte da Fé Ortodoxa

«Guarda o depósito que te foi confiado» (1 Tm 6:20).

1.1 - O Significado intrínseco da tradição

A história da Igreja ortodoxa é marcada externamente por uma série de rupturas repentinas: a tomada de Alexandria, Antioquia e Jerusalém pelos árabes maometanos; o incêndio de Kiev pelos mongóis; os dois saques de Constantinopla; a Revolução de outubro na Rússia. Entretanto, estes eventos jamais abalaram a continuidade interna da Igreja Ortodoxa, mesmo que tenham transformado a aparência externa do mundo ortodoxo. O que mais chama a atenção de um estranho ao encontrar a Ortodoxia é seu ar de Antigüidade, sua aparente imutabilidade. Descobre-se que os ortodoxos ainda batizam com três imersões como na Igreja primitiva; ainda trazem bebês e crianças pequenas para a Santa Comunhão; na Liturgia o diácono ainda exclama: " Vigiai as portas!" — lembrando dos primórdios quando a entrada da igreja era zelosamente guardada e ninguém senão os membros da família Cristã podiam freqüentar os ofícios; o Credo ainda é recitado sem nenhum acréscimo.

Existem poucos exemplos exteriores de algo que penetre em todos os aspectos da vida Ortodoxa, Recentemente quando dois eruditos Ortodoxos foram solicitados a resumir as características distintas de sua Igreja, ambos apontaram para a mesma coisa: sua imutabilidade, sua determinação de permanecer leal ao passado, seu sentido de viva continuidade com a Igreja dos tempos antigos (ver Panagiotis Bratsiotis e Georges Florovsky, em Orthodoxy, A Faith and Order Dialogue, Geneva,1960). Dois séculos e meio antes, os Patriarcas Orientais disseram exatamente a mesma coisa para os Non-Jurors:

« Nós preservamos a Doutrina do Senhor não corrompida, e firmemente aderimos à Fé que Ele nos entregou, e a mantemos livre de imperfeições e diminuições, como um Tesouro Real, e um monumento de grande preço, nem acrescentando, nem tirando nada dela.» (Carta de 1718, em G. Williams, The Orthodox Church at the Eighteenth Century pg 17).

Essa idéia de viva continuidade é resumida para os Ortodoxos em uma palavra: Tradição. «Nós não mudamos os limites permanentes que nossos Pais estabeleceram," escreveu S. João Damasceno, "mas nós mantemos a Tradição, assim como a recebemos.» (On Icons, II, 12, P.G. XCIV, 1297B).

Os Ortodoxos estão sempre falando de Tradição. O que eles querem dizer com a palavra? A tradição, diz o dicionário Oxford, é uma opinião, ou costume legado pelos ancestrais para a posteridade. Tradição Cristã, nesse caso é a fé que Jesus Cristo concedeu aos Apóstolos, e que desde os tempos apostólicos tem sido passada de geração em geração na Igreja (Comparar com Paulo I Co. 15:3). Mas para um Cristão Ortodoxo, Tradição significa algo mais concreto e específico que isso. Significa os livros da Sagrada Escritura; significa o Credo; significa os decretos dos Concílios Ecumênicos e os escritos dos Padres; significa os Canons, os Livros de Ofícios, os Santos Ícones — de fato o sistema doutrinal completo, o governo da Igreja, a louvação e a arte que foram articuladas pelos séculos. O Cristão Ortodoxo de hoje vê-se como herdeiro e guardião da grande herança recebida do passado, e ele acredita ser sua obrigação transmiti-la não prejudicada ao futuro.

Note-se que a Sagrada Escritura forma uma parte da tradição. Às vezes a Tradição é definida como ‘o ensinamento oral de Cristo, não gravado por escrito por seus discípulos imediatos’ (Oxford Dictionary). Não só escritores não-Ortodoxos, mas também muitos escritores Ortodoxos adotaram esse modo de falar, tratando as Escrituras e a Tradição como duas coisas diferentes, duas fontes distintas da fé Cristã. Mas na realidade só existe uma fonte, porque as Escrituras existem dentro da Tradição. Separar ou contrastar as duas é empobrecer ambas.

Os Ortodoxos enquanto reverenciando essa herança do passado, estão também bem conscientes que nem tudo recebido do passado tem igual valor. Entre os vários elementos da Tradição, a única preeminência pertence às Escrituras, ao Credo, às definições doutrinais dos Concílios Ecumênicos: essas coisas os Ortodoxos aceitam como absolutas e imutáveis, algo que não pode ser cancelado ou revisado. As outras partes da Tradição não tem a mesma autoridade. Os decretos de Jassy ou Jerusalém não estão no mesmo nível que o Credo de Nicéia, nem os escritos de um Atanásio ou de um Simeão o Novo Teólogo, ocupam a mesma posição que o Evangelho de São João.

Nem tudo recebido do passado é de igual valor, e nem tudo recebido do passado é necessariamente verdade. Como um dos bispos deixou marcado no Concílio de Cartago em 257: "O Senhor disse, Eu sou a verdade." Ele não disse, Eu sou o costume’ (The Opinions of the Bishops on the Baptizing of Heretics, 30). Existe uma diferença entre Tradição e tradições: muitas tradições legadas pelo passado são humanas e acidentais — opiniões pias (ou pior), mas não uma parte verdadeira da Tradição una, a mensagem essencial Cristã.

É necessário questionar o passado. O Bizantino e o posterior. Nos tempos Bizantinos, os Ortodoxos nem sempre foram suficientemente críticos em sua atitude para com o passado, e o resultado foi freqüentemente estagnação. Hoje essa atitude não crítica não pode mais ser mantida. Níveis mais altos de escolaridade, contatos crescentes com Cristãos ocidentais, as invasões do secularismo e do ateísmo, tem forçado os Ortodoxos, nos tempos presentes, a olhar mais de perto para a sua herança e a distinguir mais cuidadosamente entre Tradição e tradições. A tarefa de discriminação nem sempre é fácil. É necessário evitar tanto o erro dos Velhos Crentes quanto o da ‘Igreja Viva’: o primeiro partido caiu em um extremo conservadorismo que não sofreu modificação nem mesmo em tradições, e o outro caiu num Modernismo ou liberalismo teológico que abala a Tradição. Mesmo assim, apesar de certas desvantagens manifestas, os Ortodoxos de hoje em dia estão talvez numa melhor posição para discriminar o certo do que seus predecessores estiveram por muitos séculos; e freqüentemente é precisamente seu contato com o ocidente que os está ajudando a ver mais e mais claramente o que é essencial em sua herança.

A verdadeira fidelidade Ortodoxa ao passado deve ser sempre uma fidelidade criativa; pois a verdadeira Ortodoxia não pode nunca descansar satisfeita com uma estéril ‘teologia de repetição’, que como papagaio, repete fórmulas aceitas sem esforçar-se para compreender o que está por detrás delas. A lealdade à Tradição, entendida propriamente não é uma coisa mecânica, um processo pouco inteligente de passar aquilo que foi recebido. Um pensador Ortodoxo deve ver a Tradição de dentro, ele deve entrar no espírito interior dela. De modo a viver dentro da Tradição, não é suficiente simplesmente dar aceitação intelectual a um sistema de doutrina; pois a Tradição é muito mais que um conjunto de proposições abstratas — é uma vida, um encontro pessoal com Cristo no Espírito Santo. A Tradição não é só mantida pela Igreja, ela vive na Igreja, ela é a vida do Espírito Santo na Igreja.

A concepção Ortodoxa de Tradição não é estática mas dinâmica, não uma aceitação morta do passado mas uma experiência viva do Espírito Santo no presente. A tradição, enquanto internamente imutável (pois Deus não muda), está constantemente assumindo novas formas, que suplementam a forma anterior sem substitui-la. Os Ortodoxos falam como se o período de formulação doutrinal tivesse chegado ao fim completamente, no entanto esse não é o caso.

Talvez nos nossos próprios dias um novo Concílio Ecumênico seja realizado, e a Tradição seja enriquecida por novos estatutos da fé.

Essa idéia de Tradição como uma coisa viva foi muito bem expressa por Georges Florovsky: ‘A Tradição é a testemunha do Espírito Santo; a incessante revelação e pregação de boas novidades do Espírito Santo...Para aceitar e compreender a Tradição devemos viver dentro da Igreja, devemos estar conscientes da presença doadora de graça do Senhor nela; devemos sentir o sopro do Espírito Santo nela...A Tradição não é só um princípio protetor e conservador; é primariamente, o princípio de crescimento e regeneração...A Tradição é a constante permanência do Espírito Santo e não só a memória de palavras (‘Sobornost: the Catholicity of the Church,’ na The Church of God, editado por E. L. Mascall, pgs.64-65.Comparar com G. Florovsky, ‘Saint Gregory Palamas and the Traditionof the Fathers no periódico Sobornost, serie 4 nº 4, 1961, pgs. 165-167; e V. Lossky, ‘Tradition and Traditions,’ no Ouspensky e Lossky, The Meaning of the Icons, pgs. 13-24. A esses dois ensaios eu fico em grande débito).

A Tradição é a testemunha do Espírito: nas palavras de Cristo, "Mas quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade" (Jo. 16:13). É essa promessa divina que forma a base da devoção Ortodoxa à Tradição.

 

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