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8. Festas, jejuns e oração privada

«O verdadeiro objetivo da oração
é entrar em conversação com Deus.
Não é restrita a certas horas do dia.
Um Cristão tem que se sentir
pessoalmente na presença de Deus.
O objetivo da oração é precisamente
estar com Deus sempre.»

(George Florovsky)

8.1 - O ano cristão

Se alguém quiser recitar ou seguir os ofícios públicos da Igreja da Inglaterra, então (em teoria, de qualquer modo) dois volumes serão suficientes: A Bíblia e o Livro de Orações comuns; similarmente na Igreja Católica romana ele também requer dois volumes, O Missal e o Breviário; mas na Igreja Ortodoxa, tal é a complexidade dos ofícios que ele precisará de uma pequena biblioteca de dezenove ou vinte tomos substanciais. "Numa computação moderada," remarcou J. M. Neale dos Livros de Ofícios Ortodoxos, "esses volumes juntos compreendem aproximadamente 5000 paginas quádruplas, impressas em colunas duplas" (Hymus of the Eastern Church, 3ª Edição, London, 1866, pg. 52). No entanto esses livros, à primeira vista tão difíceis de manejar, são um dos maiores tesouros da Igreja Ortodoxa.

Nesses vinte livros estão contidos os ofícios para o Ano Cristão, aquela seqüência anual de festas e jejuns que comemora a encarnação e seu cumprimento na Igreja. O calendário Eclesiástico começa em 1 de Setembro. Proeminente entre todas as festas é a Páscoa, a Festa das Festas, que é por si só uma classe de Festas; e só ela permanece a essa classe. A seguir em importância vem as Doze.

8.1.1 - As Grandes Festas

  1. Natividade da Mãe de Deus (8 de Setembro).
  2. Exaltação (ou elevação) da Honorável e Vivificante Cruz (14 de Setembro).
  3. Apresentação da Mãe de Deus no Templo (21 de Novembro).
  4. Natividade de Cristo (25 de Dezembro).
  5. Batismo de Cristo no Jordão - Epifania (6 de Janeiro)
  6. Apresentação de Nosso Senhor no Templo - no Ocidente "Candelária" (2 de Fevereiro).
  7. Anunciação da Mãe de Deus no Ocidente, em inglês "Lady Day" (25 de Março).
  8. Entrada de Nosso Senhor em Jerusalém - Domingo de Ramos (uma semana antes da Páscoa).
  9. Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo (40 dias depois da Páscoa).
  10. Pentecostes - conhecido no Ocidente de língua Inglesa como Whit Sunday, mas no oriente como Domingo da Trindade (50 dias depois da Páscoa).
  11. Transfiguração de Nosso Salvador Jesus Cristo (6 de Agosto).
  12. Dormição da Mãe de Deus (Assunção) (15 de Agosto).

Assim três da Doze Grandes Festas dependem da data da Páscoa e são móveis; o resto são fixas. Oito são as Festas do Salvador e quatro as da Mãe de Deus.

Existe também um grande número de outras Festas de importância variável. Entre as mais proeminentes estão:

  1. Circuncisão de Cristo (1 de Janeiro)
  2. Os três Grandes Hierarcas (30 de Janeiro)
  3. Natividade de São João Batista (24 de Junho)
  4. São Pedro e São Paulo (29 de Junho)
  5. Decapitação de São João Batista (24 de Agosto)
  6. Proteção da Mãe de Deus (1 de Outubro)
  7. São Nicolau o Taumaturgo (6 de Dezembro)
  8. Todos os Santos (primeiro domingo após Pentecostes)

Mas além de festas existem jejuns. A Igreja ortodoxa, olhando para o homem como uma unidade de corpo e alma, sempre insistiu que o corpo deve ser treinado e disciplinado assim como a alma. Jejum e autocontrole são as primeiras virtudes, a mãe, raiz, fonte e fundação de tudo que é bom (Callistos e Ignatio Xanthopoulos, em Philokalia, Atenas, 1964, Vol 4, pg.232). Existem quatro períodos principais de jejum durante o ano:

  1. A Grande Quaresma: começa sete semanas antes da Páscoa.
  2. Quaresma dos Apóstolos: começa segunda-feira oito dias após o Pentecostes, e termina em 28 de Junho: a véspera da Festa de São Pedro e São Paulo, em duração variável de uma a seis semanas.
  3. Quaresma da Dormição: dura duas semanas, de 1 a 14 de Agosto.
  4. Quaresma de Natal: Dura quarenta dias, de 15 de Novembro a 24 de Dezembro.

Adicionalmente a esses quatro períodos principais de jejum, todas as quartas e sextas feiras, e em alguns mosteiros também as segundas feiras, são dias de jejum (exceto entre o Natal e a Epifania, durante a semana de Páscoa e durante a semana após o Pentecostes). A Exaltação da Cruz, a Decapitação de São João Batista e a Véspera da Epifania também são dias de jejum.

As regras de jejum na Igreja Ortodoxa são de um rigor que espantarão e apavorarão muitos Cristãos ocidentais. Em muitos dias na Grande Quaresma e da Semana Santa, por exemplo, não só a carne é proibida, mas também peixe e produtos animais (Toicinho, ovos, manteiga, leite, queijo), e também vinho e óleo. Na prática, no entanto, muitos Ortodoxos, particularmente da diáspora, acham que nas condições da vida moderna não é mais praticável seguir exatamente as regras tradicionais, vistas com uma situação exterior muito diferente em mente; e assim certas dispensas são concedidas. No entanto, ainda assim a Grande Quaresma, especialmente a primeira semana e a Semana Santa, é ainda, para membros Ortodoxos, um período de genuína austeridade e sério rigor físico. Quando todas as facilitações e dispensas são levadas em consideração, ainda permanece verdadeiro que os Cristãos Ortodoxos no século atual, leigos tanto quanto monges, jejuam com uma severidade que não encontra paralelo no Cristianismo Ocidental, exceto talvez nas Ordens Religiosas mais rigorosas.

O Ano da Igreja, com sua seqüência de Festas e jejuns, é alguma coisa de importância fundamental na experiência religiosa do Cristão Ortodoxo:

«Ninguém que tenha vivido e louvado entre os Cristãos Gregos por qualquer período de tempo deixou de ter sentido em alguma medida o extraordinário suporte que o ciclo recorrente da liturgia da Igreja, dá ao povo comum. Ninguém que tenha acompanhado a Grande Quaresma com a Igreja Grega, que participou do jejum que se estende pesadamente sobre toda nação por quarenta dias; que ficou em pé por longas horas, um da inumerável multidão que lota as pequenas Igrejas Bizantinas de Atenas e que se espalha pelas ruas, enquanto o padrão familiar da economia salvífica de Deus para o homem é reapresentado em salmos e profecias, em leituras do Evangelho, e a poesia inigualável dos canons; que conheceu a desolação da Grande Sexta-Feira Santa, quando todos os sinos da Grécia tocam seus lamentos e o Corpo do Salvador jaz rodeado de flores em todas as Igrejas por todo o país, que esteve presente no acender do novo fogo e experimentou a alegria de um mundo liberado das amarras do pecado e da morte, ninguém pode ter vivido tudo isso e não ter concluído que para o Cristão Grego o "Evangelho está inseparavelmente ligado com a Liturgia que é desdobrada semana por semana em sua Igreja Paroquial. Não só entre os Gregos mas entre todo o Cristianismo Ortodoxo a Liturgia permaneceu no mais profundo do coração da vida de Igreja.» (P. Hammond, The Waters of Marah, pg. 51-52).

Diferentes momentos do ano são marcados por cerimônias especiais; a Grande Benção de águas na Epifania (freqüentemente feita fora da Igreja, num rio ou numa praia); benção de frutas na Transfiguração; e solene exaltação e adoração da Cruz em 14 de setembro; o ofício do Grande Perdão no Domingo precedente ao início da Grande Quaresma, quando o clero e o povo ajoelham-se uns em frente aos outros, um por um, e pedem o perdão do outro. Mas naturalmente é durante a Semana Santa que os mais comoventes e impressionantes momentos da louvação Ortodoxa ocorrem, quando dia a dia e hora a hora a Igreja entra na Paixão do Senhor. A Semana Santa atinge seu clímax, primeiro na procissão do Epithafion (a figura do Cristo Morto jazendo para sepultamento) no entardecer da Sexta-feira Santa, e então na exultante Matinas da Ressurreição à meia-noite de Páscoa.

Ninguém pode estar presente nesse ofício de meia-noite sem ser tomado por sentido de júbilo universal. Cristo libertou o mundo de suas antigas amarras e seus terrores anteriores, e a Igreja inteira rejubila triunfantemente em sua vitória sobre as trevas e a Morte:

«O bramido dos sinos sobre nossas cabeças, respondido pelos 1600 sinos dos campanários iluminados de todas as igrejas de Moscou, os canhões trovejando das colinas do Kremlin sobre o Rio, e as procissões com suas deslumbrantes vestimentas em ouro e com cruzes, ícones e estandartes, saindo entre nuvens de incenso de todas as outras Igrejas no Kremlin, e vagarosamente abrindo seu caminho através da multidão, tudo se junta para produzir um efeito que ninguém que tenha testemunhado poderá jamais esquecer.» (Al Riley, Birkbeck and the Russian Church, pg.142).

Assim W. J. Birkbeck escreveu sobre a Páscoa na Rússia pré-revolucionária. Hoje as Igrejas do Kremlin são museus, os canhões não mais são disparados em honra da ressurreição, e apesar de sinos serem tocados, seu número encolheu muito dos 1600 dos dias anteriores; mas as vastas e silenciosas multidões que ainda se juntam na meia noite de Páscoa em milhares e dezenas de milhares ao redor das Igrejas de Moscou, são a seu modo um testemunho mais impressionante da vitória de Cristo sobre os poderes malignos.

Antes que terminemos o assunto do Ano da Igreja, alguma coisa precisa ser dita sobre a vexatória questão do calendário, sempre, por alguma razão, um tópico explosivo entre os Cristãos orientais. Até o fim da Primeira Guerra Mundial, todos os Ortodoxos ainda usavam o calendário do velho estilo ou calendário Juliano, que no presente é treze dias atrás do Novo Calendário ou Calendário Gregoriano, seguido no ocidente. Em 1923 o Patriarcado Ecumênico reuniu um "Congresso Inter-Ortodoxo" em Constantinopla, atendido por delegados da Sérvia, Romênia, Grécia, Chipre (os Patriarcas de Antioquia e Jerusalém recusaram-se a enviar delegados; o Patriarca de Alexandria sequer respondeu ao convite; a Igreja da Bulgária não foi convidada). Várias propostas foram apresentadas: Bispos casados; permissão para os Padres casarem de novo depois da morte da mulher; adoção do Calendário Gregoriano. As duas primeiras questões permaneceram letra morta até hoje, mas a terceira foi levada a efeito por certas Igrejas Autocéfalas. Em março de 1924 Constantinopla introduziu o Novo Calendário; e no mesmo ano, ou logo depois, ele também foi adotado por Alexandria, Antioquia, Grécia, Chipre, Romênia e Polônia. (A Igreja da Bulgária adotou o Novo Calendário em 1968).

Mas as Igrejas de Jerusalém, Russa e Sérvia, junto com os Mosteiros do Monte Athos, continuam até hoje a seguir a contagem Juliana. Isso resulta numa situação difícil e confusa que espera-se venha a ser levada ao fim brevemente. No presente os Gregos (fora do Monte Athos e Jerusalém) mantêm o Natal no mesmo dia que o ocidente, em 25 de dezembro (Novo Estilo), enquanto os Russos mantém o Natal treze dias depois, em 07 de janeiro; e assim por diante. Mas praticamente todas as Igrejas Ortodoxas observam a Páscoa no mesmo dia, marcando-a pelo Calendário Juliano (Velho Estilo): Isso significa que a data Ortodoxa da Páscoa às vezes coincide com a data ocidental, mas outras vezes é uma, quatro ou cinco semanas depois (A discrepância entre as Páscoas ortodoxa e Ocidental é causada também por dois sistemas de calcular as "epactas"* que determinam o ano lunar). A Igreja da Finlândia e algumas poucas paróquias na diáspora sempre têm a Páscoa na data ocidental.

*NT: Epacta — número de dias que se deve adicionar ao ano lunar para fazê-lo igual ao ano solar. Ver novo dicionário da Língua Portuguesa — Aurélio Buarque de Hollanda.

A reforma do calendário levantou viva oposição, particularmente na Grécia, onde grupos de "Velhos Calendaristas" ou Palaioimerologitai (incluindo mais do que um Bispo) continuaram a seguir a velha marcação de dias; eles reclamavam que como o calendário e a data da Páscoa dependiam de cânones de autoridade ecumênica, ele só poderia ser alterado por uma decisão conjunta do todo da Igreja Ortodoxa — não de Igrejas Autocéfalas separadas agindo independentemente. Enquanto rejeitando o Novo Calendário, os mosteiros do Monte Athos, todos com exceção de um, mantiveram comunhão com o Patriarca de Constantinopla e com a Igreja da Grécia, mas os Palaioimerologitai em quase toda a Grécia foram excomungados pela Igreja da Grécia oficial. Eles são usualmente tratados pelas autoridades civis gregas como uma organização ilegal e sofreram perseguições (muitos dos seus lideres foram presos); mas eles continuam a existir em muitas áreas e tem seus próprios Bispos, Mosteiros e Paróquias.

8.2 - A Oração Privada

Quando um Ortodoxo pensa em oração, ele pensa primeiramente na oração litúrgica pública. A oração corporativa da Igreja desempenha uma parte muito maior na experiência religiosa do que na média do cristianismo ocidental. Logicamente isso não significa que o Ortodoxo nunca ora exceto quando na Igreja: ao contrário, existem manuais especiais com orações diárias a serem feitas por todos os Ortodoxos, pela manhã e à noite, diante dos seus ícones, em casa. Mas as orações nesses manuais são tiradas em sua maior parte diretamente dos Livros de Ofícios usados na oração pública, de maneira que mesmo em sua própria casa um Ortodoxo ainda está orando com a Igreja; mesmo em sua casa ele ainda está junto em amizade com todos os outros Cristãos Ortodoxos que estão orando as mesmas palavras que ele. À oração pessoal é possível só no contexto da comunidade. Ninguém é um Cristão por si próprio, mas só se for um membro do corpo. Mesmo na solidão, "no quarto," um cristão ora como um membro da comunidade redimida, da Igreja. E é na Igreja que ele aprende sua prática devocional (S. Florovsky, Prayer Private and Corporate, O’lagos publications, Saint Louis, pg.1). E assim como não existe na espiritualidade Ortodoxa separação entre liturgia e devoção privada, também não existe separação entre Monges e aqueles que vivem no mundo; as orações dos manuais usadas pelos leigos são as mesmas orações que as comunidades monásticas recitam diariamente na Igreja como partes dos Ofícios Divinos.

Maridos e mulheres seguem o mesmo caminho cristão que monges e monjas, e todos igualmente usam as mesmas orações. Naturalmente os manuais são somente um guia e orientação de oração, e cada Cristão é livre também para orar espontaneamente com suas próprias palavras.

As orientações no começo das orações da manhã enfatizam a necessidade de concentração, para uma oração viva para o Deus vivo. No começo delas é dito:
"Tendo despertado do sono, antes de qualquer outra ação, levante-se com reverência, considerando estar na presença do Deus que tudo vê, e, tendo feito o sinal da Cruz, diga: Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. Depois pouse por um momento, até que tenha recobrado todos os teus sentidos e seus pensamentos abandonem todas as coisas mundanas: e faça três pequenas metanóias, dizendo: Ó Deus, sê misericordioso comigo que sou pecador..."

Na conclusão das orações da manhã uma nota estabelece:

«Se o tempo à disposição é curto, e a necessidade de iniciar o trabalho está pressionando, é melhor dizer só algumas das orações sugeridas com atenção e devoção, do que recitar elas todas com pressa e sem a necessária concentração.»

Há também uma nota nas orações da manhã encorajando todos a ler a Epistola e o Evangelho do dia.

Como exemplo tomemos duas orações do Manual, a primeira uma oração para o início do dia, escrita por Philaret, Metropolita de Moscou:

«Senhor, conceda-me a graça de saber aceitar tudo que venha acontecer neste dia que se inicia. Permita que eu me entregue completamente à Tua santa vontade e em todo momento deste dia. Ajuda-me e orienta-me em tudo em todos os meus atos e palavras. Guia meus pensamentos e sentimentos em todos os casos inesperados. Não permita que eu me esqueça que tudo vem de Ti.»

E essas são algumas frases da intercessão geral com que as orações da noite se encerram

«Ó Senhor, que amas a humanidade, perdoa aqueles que nos odeiam e nos fazem mal. Faz o bem àqueles que fazem o bem, Concede aos nossos irmãos e próximos a salvação e a vida eterna; visita os enfermos e concede-lhes a cura. Guia os que estão no mar. Acompanha os que viajam... Segundo a Tua imensa misericórdia, tem misericórdia daqueles que nos pediram para orar por eles. Lembra-Te, Senhor, dos nossos pais e irmãos que partiram antes de nós e concede-lhes o repouso onde a luz do Teu rosto os ilumine... Lembra-Te, também, Senhor, dos Teus servos vis, pecadores e indignos...»

Existe um tipo de oração privada, largamente usada no ocidente desde os tempos da Contra-Reforma, que nunca foi um assunto da espiritualidade Ortodoxa, a "Meditação" formal, feita de acordo com um "Método, o Inaciano, o Sulpiciano, o Salesiano, ou algum outro. Os Ortodoxos são encorajados a ler as escrituras ou os Santos Padres lenta e pensativamente; mas tal exercício, ainda que encarado como excelente, não se considera que constitua uma oração, nem foi sistematizado e reduzido a um "Método." Cada um é solicitado a ler do modo que ele ache mais útil.

Mas enquanto aos Ortodoxos não praticam Meditação discursiva, existe um outro tipo de oração pessoal que por muitos séculos desempenhou uma parte extraordinariamente importante na vida da Ortodoxia: a Oração do Coração: "Senhor Jesus Cristo, Filho do Deus Vivo, tem piedade de mim pecador (a)" Como algumas vezes é dito que os Ortodoxos não dão suficiente atenção à pessoa do Cristo Encarnado, é importante chamar a atenção para o fato essa oração seguramente a mais clássica das orações Ortodoxas, é essencialmente Cristocêntrica, e uma oração endereçada para e concentrada no Senhor Jesus Cristo. Aqueles que são conduzidos à tradição da Oração do Coração não são liberados para em nenhum momento esquecer o Cristo Encarnado.

Como auxilio para recitar essa oração muitos Ortodoxos usam um rosário, que difere em estrutura do terço ocidental; um Rosário Ortodoxo é quase sempre feito de lã, assim ao contrário de uma fieira contas, ele não faz barulho.

A Oração do Coração, é uma oração de maravilhosa versatilidade. É uma oração para principiantes, mas igualmente uma oração que conduz aos mais profundos mistérios da vida contemplativa. Pode ser usada por qualquer um, a qualquer hora, em qualquer lugar; esperando em filas, andando, viajando em ônibus ou trens; no trabalho; quando incapaz de dormir à noite; em tempos de especial ansiedade quando é impossível se concentrar em outro tipo de oração. Mas enquanto logicamente todo Cristão pode usar a Oração em momentos impares, é uma questão diferente recitar a Oração mais ou menos continuadamente e usar os exercícios físicos que foram associados a ela. Os escritores espirituais Ortodoxos insistem que aqueles que usam a Oração do Coração sistematicamente, deveriam sempre que possível, colocarem-se sob a guia de um orientador experiente e não fazer nada por sua iniciativa própria.

Para alguns chega um momento em que a oração do Coração "entra no coração," de modo que ela não é mais recitada por um esforço deliberado, mas é recitada espontaneamente, continuamente mesmo quando se esteja falando ou escrevendo, presente nos sonhos, acordando-nos na manhã. Nas palavras de São Isaac, o Sírio:

«Quando o Espírito orará constantemente nele. Então, nem enquanto dorme, nem quando está acordado, a oração será contada de sua alma; mas quando ele come ou bebe, quando ele se deita, ou faz qualquer trabalho, mesmo quando ele esta imerso no sono, os perfumes da oração soprarão em seu coração espontaneamente.» (Nystic Treatises, editado po Wensinck, pg.174).

Os Ortodoxos acreditam que o poder de Deus está presente no nome de Jesus, assim que a invocação desse Divino Nome age como um efetivo sinal da ação de Deus, como um tipo de sacramento (um Monge da Igreja do Oriente, A oração de Jesus, Chevetogne, 1952, pg.87). ‘O Nome de Jesus, presente no coração humano, comunica a ele, o poder da deificação... Brilhando através do coração, a luz do Nome de Jesus ilumina todo o universo’ (S. Bulgakov, The Orthodox Church, pg.170-171).Tanto

para aqueles que recitam a Oração continuadamente quanto para aqueles que a empregam ocasionalmente, ela prova ser uma grande fonte de recuperação de segurança e de alegria. Para citar o Peregrino Russo*: "E é assim que eu ando agora, e repetindo a oração do coração sem cessar, que é mais preciosa e doce para mim do que qualquer outra coisa do mundo. As vezes eu ando algo como 43 ou 44 milhas** por dia, e não sinto que estou andando. Eu só fico consciente de que estou rezando minha Oração. Quando o frio amargo me penetra, eu começo a falar minha oração mais fervorosamente, e rapidamente sou aquecido por inteiro. Quando a fome começa e me sobrepujar, eu chamo o Nome de Jesus mais vezes, e eu esqueço de meu desejo por comida. Quando eu caio doente e tenho reumatismo nas minhas costas e pernas, eu fixo meus pensamentos na Oração e não noto a dor. Se qualquer um me ofende eu só tenho que pensar, "quão doce é a Oração do Coração!"e a injuria e a raiva passam logo e eu esqueço de tudo... Eu agradeço a Deus que agora eu entenda o significado das palavras que eu ouvi na Epistola: "Orai sem cessar" (1 Ts 5:17; The Way of a Pilgrim, pg. 17-18).

Notas:

* Nota 1 do Tradutor: Relatos de um Peregrino Russo foi publicado pelas Edições Paulinas.
** Nota 2 do Tradutor: Equivalente a 69 a 70 Km.

 

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