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13. A Igreja sob o Islam

«A estável perseverança nesses nossos dias da Igreja Grega [...] não obstante a opressão e o desprezo postos sobre ela pelos turcos e as atrações e prazeres desse mundo, é uma confirmação não menos convincente que os milagres e poder que estiveram presentes em seu começo, pois na verdade é admirável ver e considerar com que constância resolução e simplicidade homens pobres e ignorantes mantém sua fé.»

(Sir Paul Rycaut,
The Present State of the Greek and Armenian Churches, 1679).

«Imperium in império»

É "completamente antinatural ver-se o crescente exaltado por toda parte onde a Cruz esteve triunfante por longo tempo," assim escreveu Edward Browne, em 1677, logo após sua chegada como Capelão da Embaixada Inglesa em Constantinopla. Para os gregos em 1453 deve ter sido também completamente antinatural. Por mais de mil anos os homens consideraram o Império Cristão de Bizâncio garantido como um elemento permanente da economia providencial de Deus para o mundo. Agora a "cidade protegida por Deus" caiu, e os gregos estavam sob o comando dos infiéis.

Não foi uma transição fácil; mas ela foi facilitada pelos próprios turcos que trataram dos assuntos cristãos com notável generosidade. Os maometanos do século quinze eram muito mais tolerantes com o cristianismo do que os cristãos ocidentais eram uns com os outros durante a reforma e no século dezessete o Islam vê a Bíblia como um livro santo e Jesus Cristo como um profeta; aos olhos dos muçulmanos, portanto, a religião cristã é incompleta mas não completamente falsa, e cristãos sendo "Povo do Livro," não deveriam ser tratados no mesmo nível que os meros pagãos. De acordo com os ensinamentos maometanos, os cristãos não deveriam sofrer perseguição, mas deveriam continuar sem interferência na observância de sua fé, contanto que eles se submetessem mansamente ao poder temporal do Islam.

Esses foram os princípios que guiaram o conquistador de Constantinopla, o Sultão Mohamed II. Antes da queda da cidade, os gregos o chamavam "O Precursor do AntiCristo e o segundo Senaqueribe," mas eles acabaram descobrindo que na prática o domínio do Sultão tinha um caráter muito diferente. Ouvindo que o cargo de Patriarca estava vago, Mohamed convocou o monge Genadio e instalou-o no trono patriarcal. Genadio (1450 — 1472), conhecido como George Scolarios, antes de se tornar monge era um escritor prolífico e o líder dos teólogos gregos de seu tempo. Ele era um oponente determinado da Igreja de Roma, e sua escolha como Patriarca significou o abandono final da União de Florença. Sem dúvida que por razões políticas, o Sultão deliberadamente escolheu um homem de convicções anti-latinas: com Genadio como Patriarca haveria menos possibilidade dos gregos procurarem ajuda secreta dos poderes católico romano.

O próprio Sultão instituiu o Patriarca, investindo-o cerimonialmente com seu estafe, exatamente como os autocratas de Bizâncio faziam anteriormente. A ação era simbólica: Mohamed, o Conquistador, campeão do Islam, tornou-se também o protetor da Ortodoxia, tomando o papel anteriormente exercido pelo Imperador Cristão. Assim, aos Cristão foi assegurado um lugar definido na sociedade da ordem turca; mas, como os Cristãos logo iriam descobrir, era um lugar de garantida inferioridade. O Cristianismo sob o Islam era uma religião de segunda classe e seus aderentes também de segunda classe. Eles pagavam taxas pesadas, usavam roupas distintas, não estavam autorizados a servir no exército e eram proibidos de casar com muçulmanos; a Igreja não podia fazer trabalho missionário e era crime converter um muçulmano ao Cristianismo. Do ponto de vista material havia todo incentivo para um Cristão cometer apostasia convertendo-se ao Islam. Perseguição direta muitas vezes serve para fortalecer uma Igreja; mas para os gregos no Império Otomano, eram negados os mais heróicos meios de testemunhar sua fé, e ao contrário eram sujeitos aos efeitos desmoralizantes de uma intensa e continuada pressão social.

E isso não era tudo. Depois da queda de Constantinopla à Igreja não foi permitido reverter à situação anterior à conversão de Constantino; paradoxalmente suficiente, as coisas de César tornaram-se então mais fortemente associadas com as coisas de Deus do que tinham sido em qualquer época anterior. Pois os maometanos não viam qualquer distinção entre religião e política: do seu ponto de vista, se o Cristianismo era para ser reconhecido como uma fé religiosa independente, era necessário, então, para os Cristão estarem organizados em uma unidade política independente, um Império dentro do Império. A Igreja Ortodoxa tornou-se portanto uma instituição tanto civil quanto religiosa: ela foi então tornada na Rum Millet, a "nação romana." A estrutura eclesiástica foi tomada in toto como um instrumento da administração secular. Os Bispos tornaram-se oficiais governantes, o Patriarca era não só a cabeça espiritual da Igreja Ortodoxa Grega, mas também a cabeça civil da nação grega — o ethnarch ou millet-bashi. Essa situação continuou na Turquia até 1923 e em Chipre até a morte do Arcebispo Makarios III (1977).

O sistema millet prestou um serviço inestimável: ele tornou possível a sobrevivência da nação grega como uma unidade distinta através de quatro séculos de domínio estrangeiro. Mas na vida da Igreja ele teve dois efeitos melancólicos. Primeiro ele levou a uma triste confusão entre Ortodoxia e nacionalismo. Com sua vida civil e política inteiramente organizada em torno da Igreja, a fé Ortodoxa, sendo universal, não é limitada a nenhum povo, cultura ou língua; para os gregos no Império Turco "helenismo" e Ortodoxia tornaram-se inextrincavelmente entrelaçadas, muito mais do que tinham estado em qualquer período do Império Bizantino. Os efeitos dessa confusão continua até os dias de hoje.

Em segundo lugar, a alta administração da Igreja tornou-se presa de um degradante sistema de corrupção e simonia. Envolvidos como eles estavam em assuntos mundanos e questões políticas, os Bispos caíram presas da ambição e ganância financeira. Cada novo Patriarca precisava de um berat dado pelo sultão antes de assumir o posto, e por esse documento ele era obrigado a pagar pesadamente O Patriarca recuperava suas despesas do Episcopado, exigindo uma taxa de cada Bispo antes de instituí-lo em sua Diocese; os Bispos por sua vez taxavam os clérigos paroquiais, e o clero taxava seu rebanho. aquilo que foi dito uma vez sobre o Papado, foi certamente verdadeiro no patriarcado ecumênico sob os turcos tudo estava à venda.

Quando havia vários candidatos ao trono patriarcal, os turcos virtualmente vendiam-no ao candidato que pagasse mais; e eles foram rápidos em concluir que era no seu interesse financeiro trocar os patriarcas tão freqüentemente quanto possível, pois haveria assim múltiplas ocasiões para vender o berat. Patriarcas eram removidos e instalados com caleidoscópica rapidez. "De 159 patriarcas que ocuparam o trono entre o décimo quinto e o vigésimo século, os turcos em 105 ocasiões retiraram o patriarca de seu trono; existiram 27 abdicações, freqüentemente involuntárias; 6 patriarcas sofreram morte violenta por enforcamento, envenenamento ou afogamento e só 24 tiveram morte natural enquanto estavam no exercício do cargo" (B.J. Kioo, The Churches of Eastern, London, 1927, pág. 304).

O mesmo homem, às vezes, ocupava quatro ou cinco vezes o mesmo cargo em diferentes ocasiões e existiam usualmente muitos ex-patriarcas observando inquietamente do exílio por uma chance de retornar ao trono. A extrema insegurança do patriarca naturalmente dez crescer contínuas intrigas entre os metropolitas do Santo Sínodo que esperavam sucedê-lo, ficando então os líderes da igreja separados em amargos partidos hostis. "Todo bem cristão," escreveu um inglês residente no levante no século dezessete, "tem obrigação de considerar com tristeza, e contemplar com compaixão essa outrora gloriosa Igreja dilacerar-se e por para fora seus intestinos, e dá-los como comida aos abutres e corvos, e para selvagens e ferozes criaturas do mundo." (Sir Paul Rycaut, The Present Status of de Greek and Armenian Churches, London, 1679, pág. 107).

Mas se o Patriarca de Constantinopla sofreu um decaimento interno, externamente seu poder se expandiu como nunca antes. Os turcos olhavam o Patriarca de Constantinopla como a cabeça de todos os cristãos ortodoxos em seus domínios. Os outros Patriarcas do Império Otomano — Alexandria, Antioquia, Jerusalém — permaneceram teoricamente independentes, mas eram na prática subordinados. As Igrejas da Bulgária e da Sérvia — também dentro do domínio turco — gradualmente perderam sua independência, e pela metade do século dezoito passaram diretamente para o controle do Patriarca Ecumênico, mas no século dezenove, quando o poder turco diminuiu, as fronteiras do patriarcado contraíram-se. As nações que ganharam liberdade dos turcos acharam impraticável permanecerem sujeitas eclesiasticamente a um patriarca residente na capital turca e fortemente envolvido com o sistema político turco. O Patriarca resistiu o quanto pode, mas em cada caso ele inclinou-se eventualmente para o inevitável. Uma série de Igrejas nacionais foram tiradas do patriarcado: a Igreja da Grécia (organizada em 1833, reconhecida pelo patriarcado de Constantinopla em 1850; A Igreja da Romênia (organizada em 18__4, reconhecida em 1855); a Igreja da Bulgária (estabelecida em 1871, não reconhecida por Constantinopla até 1945); a Igreja da Sérvia (restaurada e reconhecida em 1879). A diminuição do patriarcado continuou no século vinte, principalmente como resultado da guerra e seus membros são agora uma pequena fração do que um dia foi nos gloriosos dias da suserania otomana.

A ocupação turca teve dois efeitos opostos na vida intelectual da Igreja. Foi, de um lado, a causa de um imenso conservadorismo e, de outro lado, de uma certa ocidentalização. A ortodoxia sob os turcos sentiu-se na defensiva. O grande objetivo era a sobrevivência — manter as coisas andando na esperança de dias melhores a vir. Os gregos agarraram-se com miraculosa tenacidade à civilização cristã que eles haviam tomado de Bizâncio, mas eles tiveram poucas oportunidades de desenvolver essa civilização criativamente.

Compreensivelmente, normalmente eles eram contidos em repetir a fórmula, a entrincheirar-se nas posições que eles haviam herdado do passado. O pensamento grego passou por uma "calcificação" e endurecimento o que não pode deixar de ser lamentado; no entanto conservadorismo tem suas vantagens. Num período negro e difícil os gregos mantiveram a tradição ortodoxa substancialmente não prejudicada. A ortodoxia sob o Islam tomou como seu guia as palavras de Paulo a Timóteo: "Guarda o depósito que te foi confiado" (I Ti 6:20). Poderiam eles no fim ter escolhido um motto melhor?

No entanto, junto com esse tradicionalismo, existe uma outra e contrária corrente na teologia ortodoxa dos décimo sétimo e décimo oitavo séculos: a corrente da infiltração ocidental. Era difícil para a ortodoxia sob o domínio otomano manter um bom padrão de escolaridade. Gregos que queriam uma melhor educação eram obrigados a viajar para o mundo não ortodoxo — Itália, Alemanha, Paris e para ainda mais longe, como Oxford. Entre os teólogos gregos destacados no período turco, poucos estudaram autodidaticamente, sendo que a imensa maioria foi treinada no ocidente sob mestres católicos romanos ou protestantes.

Inevitavelmente isso teve um efeito sobre o modo segundo o qual eles interpretaram a teologia ortodoxa. Certos estudantes gregos estando no ocidente leram os padres, mas eles só se tornaram conhecedores dos temas dos padres que eram da estima de seus professores não ortodoxos. Assim. Gregório Palamas ainda era lido, em seus ensinamentos espirituais, pelos monges do Monte Athos; mas os trabalhos desse santo eram totalmente desconhecidos mesmo pelos mais instruídos teólogos gregos do período turco. Nos trabalhos de Eustratios Argenti (morto 1758?), o mais capaz dos teólogos gregos de seu tempo, não há uma única citação de Palamas; e seu caso é típico. É simbólico do estado do aprendizado grego-ortodoxo dos últimos quatro séculos, que uma das principais obras de Palamas, As tríades em defesa dos santos hesicastas tenha permanecido não publicada em grande parte, até 1959.

Existia um perigo real que gregos que estudassem no ocidente, ainda que permanecendo completamente fiéis em intenção à sua própria igreja, viessem a perder a mentalidade ortodoxa e se tornarem separados da ortodoxia como uma tradição viva. Era difícil para eles não olharem a teologia através da ótica ocidental; conscientes ou não, eles usaram terminologia e formas de argumentação estrangeiras à sua própria igreja. A Teologia Ortodoxa passou por aquilo que o teólogo russo Padre Georges Florovsky (1893-1979) classificou apropriadamente de pseudo-morphosis. Os pensadores religiosos do período turco podem ser divididos na sua maior parte em dois grandes grupos, os "latinizadores" e os "protestantedores." Mesmo assim a extensão dessa ocidentalização não pode ser exagerada. Os gregos usaram as formas exteriores que eles tinham apreendido no ocidente, mas na substância do seu pensamento a grande maioria permaneceu fundamentalmente ortodoxa. A tradição era às vezes distorcida por ser forçada a se adaptar a modelos estrangeiros — distorcidas mas não completamente destruída.

 

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