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«Primus sine paribus»

(Primeiro sem iguais)

Resposta ao texto sobre a Primazia do Patriarcado de Moscou [1]

Elpidoforos Lambriniadis
Metropolita de Bursa
Professor da Faculdade de Teologia da Universidade Aristotélica de Tessalônica

Traduzido por: Pe. André Sperandio

uma recente decisão sinodal, a Igreja da Rússia parece mais uma vez ter escolhido isolar-se, tanto do diálogo com a Igreja Católica Romana quanto da comunhão com as demais Igrejas Ortodoxas [2]. Existem dois pontos, dignos de serem logo notados, que são indicativos da intenção do Sínodo da Igreja Russa [3]:

Primeiro, o seu desejo de minar o texto de Ravena [4], invocando razões aparentemente teológicas para justificar a ausência de sua delegação na reunião plenária da comissão mista (ausência ordenada, como todos sabem, por outras razões); e

Segundo, de desafiar de forma mais aberta e formal (por decreto sinodal, mais especificamente) a Primazia do Patriarcado Ecumênico no mundo ortodoxo, ao observar que o texto de Ravena, sobre o qual todas as Igrejas Ortodoxas selaram acordo (com exceção, é claro, da Igreja da Rússia), determina a Primazia do bispo nos três níveis da estrutura eclesiológica na Igreja (local, provincial, universal), também apoia e garante a Primazia da Primeira Cátedra da Igreja Ortodoxa.

O texto da posição do Patriarcado de Moscou sobre o "problema" (como eles o chamam) da Primazia na Igreja universal, não nega nem o sentido nem o significado de Primazia; que, até este ponto está correto. Adicionalmente, no entanto, procura fazer com que (certamente, como veremos, de maneira indireta) a introdução de duas distinções relacionadas com o conceito de Primazia [5]. 

A distinção entre primazia eclesiológica e teológica

A primeira diferenciação introduz um contraste entre a primazia, quando aplicado à vida da Igreja (Eclesiologia), e da supremacia como é compreendida na teologia. O texto do Patriarcado de Moscou é, portanto, forçado a adotar uma distinção sem precedentes entre, por um lado, a primazia "primária" do Senhor e, por outro, as primazias "secundárias" dos bispos (as várias formas de primazia ... são secundárias), ainda que, mais adiante no mesmo texto será sugerido que o bispo é a imagem de Cristo (cf. 2.1), o que parece implicar que as primazias são homólogas, ou pelo menos análogas, e não simplesmente unânimes. Mesmo a formulação escolástica de tais distinções entre primazias "primárias" e "secundárias" demonstra a furtiva contradição [6].

Além disso, a intenção de separar a eclesiologia da Teologia (ou da cristologia) teria consequências adversas, tanto para uma como para a outra. Uma vez que a Igreja é verdadeiramente o Corpo de Cristo e a revelação da vida Trinitária, então não podemos falar de diferenças e distinções artificiais que violaria a unidade do mistério da Igreja, o qual resume tanto as formulações teológicas (no sentido estrito do termo) como as cristológicas.  Se, por outro lado, a vida eclesiástica separada da teologia seria reduzida a um seco instituto administrativo, por outro, uma teologia sem correspondência com a vida e a estrutura da Igreja, acabaria por se tornar uma estéril inquietude acadêmica. De acordo com o Metropolita João de Pérgamo: "A separação das instituições administrativas da Igreja do dogma, não é apenas algo infeliz, mas também perigoso" [7].

A separação dos diferentes níveis eclesiológicos

A segunda diferenciação que, em nossa opinião, o texto do Patriarcado de Moscou pretende introduzir, refere-se aos três níveis eclesiológicos da estrutura da Igreja. E é aqui onde, ao que parece, está concentrado todo o peso do texto. O texto afirma que a primazia é compreendida e institucionalizada de um certo modo no nível local da diocese, e de outro no nível regional de uma "arquidiocese autocéfala" (sínodo eparquial autocéfalo); e ainda é determinada de outro modo no nível da Igreja universal (cf. 3: "Devido ao fato de que a natureza da primazia, que existe nos vários níveis da ordem eclesiástica [diocesano, local e universal] varia, as funções dos primus em diferentes níveis não são idênticas e não podem ser transferidas de um nível para outro") [8].

A decisão sinodal afirma que estas três primazias não apenas diferem, mas que até mesmo as suas fontes são diferentes: a primazia do bispo local tem como fonte a sucessão apostólica (2: 1), a primazia da cabeça de uma igreja autocéfala a sua eleição pelo respectivo sínodo (2: 2), e a primazia da cabeça da igreja universal, o status que lhe é atribuído pelos dípticos (3: 3). Portanto, conclui o texto do Patriarcado de Moscou, estes três níveis e as suas correspondentes primazias não são comparáveis entre si, como o texto de Ravena os interpreta, com base no 34º cânon Apostólico.

É claramente evidente o angustiante esforço nessa decisão sinodal de converter a primazia em algo externo e, portanto, alheio à pessoa do primaz. Isto é o que nós consideramos ser a razão pela qual a posição do Patriarcado de Moscou insiste tão fortemente em determinar as fontes da primazia, que sempre diferem da pessoa do primus, de tal modo que o primaz se torna recipiente em vez de ser fonte de sua primazia. Será que esta dependência implica, além disso, na autonomia da primazia? Para a Igreja, uma instituição é sempre hipostasiada em uma pessoa. Nunca poderemos encontrar uma instituição impessoal, da maneira como seria se a primazia fosse concebida independentemente do primaz. É necessário esclarecer aqui que a primazia no primus é também hipostasiada pelo lugar específico, a Igreja local, a região geográfica sobre a qual o primaz preside. É importante notar, neste ponto, as seguintes contradições lógicas e teológicas:

Se o primus é recipiente de sua primazia, então a primazia existe sem ele e sem necessidade dele, o que é impossível. Isso parece muito claro na justificação dada pela primazia nos níveis regional e ecumênico. Para o nível regional, considera-se como fonte da primazia o sínodo eparquial; mas, pode, acaso, haver um sínodo sem um primus? A relação dialética entre o primaz e seu sínodo, tal como foi formulada no 34º cânon dos Apóstolos (como nos cânones 9 e 16 de Antioquia, segundo os quais um sínodo sem um hierarca que o presida é incompleto) é revogada em favor de uma relação unilateral, onde os muitos constituem o uno, o primus, contradizendo assim toda razão segundo a qual o hierarca que preside é o fator constitutivo e a condição sine qua non da união dos muitos. Um segundo exemplo da contradição lógica é o exemplo dos dípticos. Neste caso, o efeito é tomado por causa, e o significado é confundido com o significante. Os dípticos não são a fonte da primazia no nível interprovincial, mas sim a sua expressão - na verdade, uma de suas expressões. Por si só, os dípticos constituem uma expressão da ordem e a hierarquização dos Patriarcados e das Igrejas autocéfalas, e tal hierarquização requer necessariamente o primus (seguido pelo segundo, pelo o terceiro, e assim por diante). Não podem os Dípticos, constituir retrospectivamente a primazia sobre a qual se baseiam.

Para facilitar o entendimento de tais inovações, vejamos, pois, o que tudo isso significaria se aplicássemos tal lógica à vida da Santíssima Trindade, fonte de toda a primazia (“Assim diz o Senhor, Rei de Israel, e seu Redentor, o Senhor dos Exércitos: Eu sou o primeiro” - Is. 44:6):

A Igreja sempre e sistematicamente entendeu a Pessoa do Pai como o primeiro na comunhão da Santíssima Trindade (“a monarquia do Pai"). Se aceitássemos a lógica da inovação da Igreja de Moscou que estamos a examinar, seríamos forçados também a afirmar que Deus Pai não é Ele mesmo a causa sem princípio da divindade e da paternidade ("Por causa disto me ponho de joelhos perante o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, do qual toda a família nos céus e na terra toma o nome" - Ef 3,14-15), senão, que se converte em recipiente de sua própria “primazia”. Donde, pois: das outras Pessoas da Santíssima Trindade? Mas, como poderíamos supor tal coisa sem invalidar a ordem da teologia, como escreve São Gregório, o Teólogo, ou ainda pior, sem perverter - ou até mesmo, poderíamos dizer, sem "confundir" - as relações das Pessoas da Santíssima Trindade? É possível, acaso, que o Filho ou o Espírito Santo "precedam" ao Pai? [9].

Quando o texto do Santo Sínodo da Igreja Russa não aceita reconhecer um "hierarca universal", sob o pretexto de que a universalidade desse hierarca "elimina a igualdade sacramental dos bispos" (3: 3), está a formular simplesmente um sofisma. Quanto ao sacerdócio, está claro que todos os bispos são iguais, porém, nem são nem poderiam ser iguais enquanto bispos de cidades específicas. Os cânones sagrados (como a 3ª cânon do Segundo Concílio Ecuménico, o 28º do Quarto Concílio Ecumênico, e o 36º de Quintisexto Concílio) hierarquizam as cidades, atribuindo a algumas o status de metrópoles e a outras o status de Patriarcado. Dentre estas últimas, a uma é atribuída, além disso, a responsabilidade primária, a outra, responsabilidade secundária, e assim sucessivamente. Nem todas as Igrejas locais são iguais, em ordem ou status.  E, porque um bispo nunca poderá ser consagrado bispo se não lhe foi dada uma destinação específica, e deverá, portanto, ser o bispo que preside uma igreja local – isto é, será sempre o bispo de uma cidade específica (que é uma característica inseparável e condição de uma ordenação episcopal) -,então os bispos também são categorizados de forma análoga (ou seja, é diferente a dignidade de uma metrópole e de um patriarcado; de igual modo, se atribui uma dignidade diferente aos antigos patriarcados, reconhecidos pelos Concílios Ecumênicos, e outra distinta que é atribuída aos Patriarcados mais recentes). Portanto, nesta hierarquização, seria inconcebível que não houvesse um primus. Muito pelo contrário, observa-se hoje tentativa de implementação de uma novo tipo de "primazia", ou seja, a "primazia dos números", na qual tendo se apoiado aqueles que hoje põem em tela de juízo a primazia universal e canônica da Mãe-Igreja (de Constantinopla), dogmatizam sobre o status que carece de testemunho na tradição da Igreja ou, melhor, na pretensão de que «ubi russicus ibi ecclesia russicae», ou seja, «onde quer que haja um russo, ali também se estende a jurisdição da Igreja da Rússia».

Durante a longa história da Igreja, o hierarca que presidia na Igreja universal era o bispo de Roma. Após a ruptura da comunhão eucarística com Roma, o hierarca que preside na Igreja Ortodoxa é, canonicamente, o Arcebispo de Constantinopla. Observamos no caso do Arcebispo de Constantinopla a única coincidência de coexistência dos três níveis de primazia, ou seja: a local (como Arcebispo de Constantinopla - Nova Roma); a regional (como Patriarca); e a universal ou mundial (como Patriarca Ecumênico). Esta tríplice primazia também se traduz em privilégios específicos, como o da convocatória ou o direito de conceder e retirar autocefalia (exemplos destes últimos casos são os Arcebispados-Patriarcados de Ochrid, Pec e Turnavo), privilégio que o Patriarca Ecumênico exerceu, ainda em casos de Patriarcados recentes, que ainda não foram validados por decisões de Concílios Ecumênicos, o primeiro dos quais é precisamente o de Moscou.

A primazia do Arcebispo de Constantinopla não tem nada a ver com os Dípticos que, como já dissemos, expressam simplesmente essa hierarquização (que, novamente em termos contraditórios, o texto do Patriarcado de Moscou implicitamente aceita, mas nega explicitamente). Se estamos a falar sobre a fonte da primazia, então, a fonte de tal primazia é precisamente a pessoa do Arcebispo de Constantinopla, que justamente como bispo é um «entre iguais», mas como Arcebispo de Constantinopla e, portanto, como Patriarca Ecumênico é o primeiro-sem-iguais (primus sine paribus).


Notas:

[1] As leituras e citações são tiradas do texto em Inglês, «Position of the Moscow Patriarchate on the problem of primacy in the Universal Church» (Posição do Patriarcado de Moscou sobre a questão do primado na Igreja Universal), como publicado no site oficial da do Patriarcado de Moscou.

[2] Exemplos típicos de casos semelhantes de isolamento incluem a ausência do Patriarcado de Moscou da Conferência das Igrejas Europeias, bem como a prática já estabelecida dos representantes dessa Igreja de celebrar a Divina Liturgia separadamente dos demais representantes das Igrejas Ortodoxas, trancando-se nas Embaixadas locais da Federação Russa, cada vez que se apresenta uma oportunidade de uma Liturgia pan-ortodoxo em vários contextos.

[3] Sua Eminência Chrysostomos, Metropolita de Messinia, já tratou desta questão em seu recente artigo publicado em 30 de dezembro, 2013, neste site.

[4] Sobre o que realmente aconteceu em Ravena, em 2007, e as lamentáveis impressões registrados pelos observadores católicos romanos, ver a análise do Padre Aidan Nichols em seu livro Roma e as Igrejas Orientais, San Francisco: Ignatius Press, 2ª Edição, 2010, pp. 368-9: «Em outubro de 2006 [sic], a Comissão resumiu as suas discussões em Ravena, embora o evento tenha sido marcado negativamente pela ‘retirada’ feita por parte do representante do Patriarcado de Moscou. O protesto do bispo Hilarion em nenhum momento foi causado por qualquer 'delito', real ou imaginário, da Igreja Católica, mas pela presença da delegação da Igreja Ortodoxa da Estônia, cuja autocefalia [sic], respaldada por Constantinopla, é ainda negada na Rússia. Seu ato demonstrou, precisamente a necessidade de uma forte primazia universal que pode equilibrar o sinodalidade na Igreja». E prossegue o autor: «A decisão do Patriarcado de Moscou, em outubro de 2007, de retirar seus representantes do encontro em Ravena... foi, não somente um irritante impedimento nesse diálogo; foi precisamente um daqueles eventos que faz com que os católicos pensem que os ortodoxos precisam de um papa tanto quanto o papa precisa deles». (p. 369).

[5] «The Synodal Institution: Historical, Ecclesiological and Canonical Issues» (A instituição Sinodal: Assuntos Históricos, Eclesiológicos e Canónicos), em Theologia 80 (2009), pp. 5-6. [Em grego].

[6] O Patriarca de Antioquia por exemplo, embora tenha residido por muito tempo em Damasco, continua sendo o Patriarca de Antioquia, porque Damasco está na jurisdição geográfica desta Igreja.

[7] Metropolita João de Pérgamo, «Recent Discussions on Primacy in Orthodox Theology» (Recentes Discussões sobre a Primazia na Teologia Ortodoxa) no volume editado pelo cardeal Walter Kasper, The Petrine Ministry: Catholics and Orthodox in Dialogue, New York: The Newman Press, 2006, pp. 231-248. Veja também: Metropolita João de Pérgamo, «Eucharistic Ecclesiology in the Orthodox Tradition» (Eclesiologia Eucarística na Tradição Ortodoxa), Theologia 80 (2009), p. 23. [Em grego].

[8] Eu tratei pessoalmente desta questão durante uma palestra na Faculdade Teológica de Santa Cruz, em Boston: «Verdadeiramente, ao nível da Santíssima Trindade, o princípio da unidade não é a essência divina, mas a Pessoa do Pai (‘Monarquia’ do Pai ), ao nível eclesiológico da Igreja local, o princípio da unidade não é o presbítero nem tampouco o culto comum dos cristãos, mas a pessoa do Bispo, de modo que, ao nível pan-ortodoxo, o princípio da unidade não pode ser uma ideia ou uma instituição, mas deve ser, se queremos ser coerentes com a nossa teologia, uma pessoa (ver neste site).

[9] Em seu III Discurso Teológico, São Gregório, o Teólogo escreve: «Quanto a nós, prestamos-Lhe honra como à monarquia» (PG 36, 76). O conceito de monarquia corresponde «para o fim da teologia» (5ª Oração Teológica, PG 36, 164). A Santíssima Trindade não constitui uma federação de Pessoas; por isso, não devemos nos escandalizar quando o mesmo Teólogo dos Santos Padres fala da monarquia e primazia do Pai divino.

[10] Este argumento foi claramente explicado no artigo do Padre John Panteleimon Manoussakis, intitulado «Primacy and Ecclesiology: The State of the Question», na obra coletiva intitulada Orthodox Constructions of the West, editada por Aristóteles Papanikolaou e George Demacopoulos, New York: Fordham University Press, 2013, p. 233.

FONTE: Sacro Arzobispado Ortodoxo de España y Portugal

 

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