Portal Ecclesia
A Igreja Ortodoxa Atualizações e notícias Seleção de textos Subsidios homiléticos para Domingos e Grandes Festas Calendário litúrgico bizantino Galeria de Fotos Seleção de ícones bizantinos Clique aqui para enviar-nos seu pedido de oração Links relacionados Clique para deixar sua mensagem em nosso livro de visitas Contate-nos
 
 
Loading
Biblioteca Ecclesia
 
 
   
A Virgem Hodighitria e o Menino Séc. XIV (têmpera sobre madeira; 42,2 x 44,5 cm) Igreja São Nicolau, Prizren, Kosovo, Sérvia (reprodução) WEITZMANN, Kurt e tal. Les Icônes. Paris: Èditions de La Martinière, 2001, p. 164.

A Fé da Virgem Mãe de Deus
segundo a Liturgia Bizantina

Por: Ermanno M.  Toniolo, osm
Trad.: Pe. José Artulino Besen

Extraído de:
LA VERGINE MARIA ICONA DELLA SPIRITUALITÀ DELL’ORIENTE
LEZIONI INTRODUTTIVE ALLA MARIOLOGIA ORIENTALE (Páginas 162-187)

Centro di Cultura Mariana «Madre della Chiesa»
Roma 2004.

1. Premissa

homem ocidental se aproxima de modo muito diferente do único e  infinito mistério de Jesus, Filho de Deus. De modo geral os ocidentais, por causa de sua fineza no raciocínio e nas análises, de apuro científico e metodológico na pesquisa em todos os setores, incluindo o religioso, são autênticos pioneiros no campo bíblico e teológico, histórico e antropológico, sem esquecer o litúrgico. Além disso, a Igreja católica tem hoje a sorte da possuir como ponto cardeal de referência, o Concílio Vaticano II, com a força ativa de renovação que dele jorrou.

Diferente do Oriente, onde sempre existiu e ainda vigora uma outra mentalidade e uma atitude diversa. O fiel oriental é sobretudo dominado por uma orientação espiritual que o leva a aproximar-se dos “mistérios” de modo vital, servindo-se de meios mais íntimos e menos científicos: a intuição, as imagens, as cores, os símbolos, e tudo isso que faz o papel como de um véu e permite penetrar além do visível que se escuta e se celebra, no objeto invisível que se oculta e se revela nos sinais: a vida de Deus.

1.1 Dessa atitude profunda e diversa se caracterizam as duas Igrejas irmãs, a católica e a ortodoxa.

Para as Igrejas orientais em geral, e em particular a bizantina, não é o “pensar” que tem valor, mas o “contemplar” aquilo que Deus nos revela e nos doa, para atingi-lo em toda a sua inexaurível riqueza e vivê-lo na sua envolvente experiência. Os orientais, sobretudo os monges e os que se dedicam com intensidade à vida interior, sao místicos, enamorados do mistério. A expressão privilegiada dessa sua predisposição e atittude não é a “teologia” no sentido científico e técnico, mas a litugia: liturgia que se expressa através de modos e formas múltiplas e variadas: do edifício sagrado aos Ícones, dos cantos aos ritos, das vestes sacras aos gestos simbólicos, no conjunto do culto divino. Mas, essas componentes tendem a transmitir uma única realidade: não o conhecimento abstrato, mas a fé vivida.

Duas são as atitudes que caracterizam o fiel oriental quando participa de modo vital da liturgia, tanto a especificamente eucarística e sacramental, quanto a do Louvor divino: o primeiro é a consciência da própria insuficiência e nulidade e, também, da própria miséria e indignidade que sempre o acompanha. Mesmo que fosse o mais santo, todos os dias da vida. Essa consciência de si leva-o a sentir instintiva necessidade de prostrar-se diante de Deus e suplicar o Altissimo com profunda humildade para que use de misericórdia com ele. Toda a liturgia está impregnada dessas humildes insistentes invocações.

A segunda atitude da alma oriental é consequente e complementar à primeira: é o estupor diante do mistério que se revela, o abandono e o júbilo diante da transcendência de Deus e da sua infinita grandeza, diante da gratuidade do dom que desce do alto é oferecido ao homem para fazê-lo partícipe da natureza divina, para “deificá-lo”. Disso procede a outra expressão da alma, que não é somente de humildade e de adoração, mas se transforma em louvor, agradecimento e canto. A bênção e o louvor permeiam todos os livros das liturgias do Oriente.

São essas as componentes litúrgico-espirituais, dentro das quais se oculta como em filigrana a figura da Virgem Theotokos: porque é aquela que viveu mais do que todos a humildade do coração e o canto de louvor, mas é sobretudo aquela que mais do que todos e de modo único e irrepetível entrou também com sua carne imaculada na comunhão experiencial dos mistérios da divina Presença: por isso refulge diante da Igreja como supremo modelo, ícone completo da estrada que leva à participação da natureza divina. Todos nós, realmente, por geração nascidos  filhos de Adão, por graça somos chamados a tornar-nos filhos de Deus em Cristo. Mas tornar-nos “deus por participação” não é ato de um instante completo da potência divina, e não é somente dom do Espírito Santo: é um caminho que engloba responsavelmente toda a vida de cada fiel e empenha ascese, quotidiano exercício das virtudes, conhecimento e contemplação. É a estrada fascinante da divinização (théosis), que caracteriza toda a espiritualidade oriental e informa o ser e o agir cristãos.

E então, qual é o lugar de Maria e a sua função exemplar e materna nesse “itinerário de divinização”, que encontra na liturgia uma singular proposta e uma progressiva realização?

1.2 A presença de Maria assume ao menos esses quatro significados:

  1. Antes de tudo, a sua é uma presença nascente e permanente no mistério do Verbo que, encarnando-se nela e por ela, reune hipostaticamente em si o homem com Deus, o criado com o Incriado. A Virgem é a escada pela qual Deus desce e o homem sobe: é a fonte humana do mistério divino participado aos homens: em tudo que está presente e opera o mistério do Verbo que restaura e diviniza, ali está Maria que lhe deu a humanidade.
  2. Maria é, além disso, o ponto ômega da realização humana, eclesial e cósmica: ponto de chegada do Antigo Testamento e de toda a humanidade; ponto de convergência de todo o cosmos, anjos e todas as criaturas, em seu caminho ao encontro de Deus. Por isso, as figuras bíblicas e as imagens aplicadas a Maria, que abundam na liturgia, estão a dizer que a sombra e os símbolos nela se transformaram na mais estupenda realidade.
  3. Maria, porém, é também um sinal permanente para a Igreja que vive no mundo, no meio das tribulações, a cada dia carregando a cruz de Cristo, no sábado dos tempos voltado para a Páscoa futura: e é sinal não só porque brilha revestida de glória imortal como Rainha ao lado do Rei da glória, mas porque é a imagem e o exemplo de quem crê e espera a vitória do Senhor sobre o mal e sobre a morte: o seu “ontem” da paixão ilumina o “hoje” da Igreja.
  4. Enfim, Maria nunca é contemplada e celebrada de modo isolado: faz sempre parte de Cristo, e é óbvio; mas faz parte também de todos nós, por isso nunca está separada da comunhão dos Santos, entre os quais ocupa lugar de honra porque Theotokos, porque Toda Santa (Panaghia), porque já glorificada. Nesta comunhão que faz de todos – anjos e homens – uma imensa liturgia celeste, Maria é escutada e invocada incessantemente como intercessora poderosa e mãe de misericórdia.

2. A fé da Theotokos na liturgia bizantina

Também a liturgia bizantina celebra o “caminho de fé” da Mãe de Deus, mesmo que de maneira e com cânones diferentes do ocidente. Porque a finalidade da liturgia, sobretudo iconográfica, é a de tornar vivo para a assembleia que celebra o mistério celebrado, captando-o e propondo a partir de vários ângulos focais, quase detalhando deles visivelmente os conteúdos, com sequências repetitivas ou com encenações que, dando voz aos pensamentos e aos sentimentos dos personagens, ajudem os fiéis a ingressar nas profundidades divinas. A liturgia, de fato, é “mistagogia”: um entrar em comunhão com aquilo que infinitamente nos supera e que permanecerá sempre maior do que nós, na sua realidade e no modo como se manifesta, exatamente porque pertence a Deus e faz parte do agir de Deus. Ora, nenhuma criatura, nem mesmo Maria, poderá compreender plenamente o ser e o agir de Deus: assim, também Maria, como nós, viveu aqui um progressivo caminho de fé na experiência do Mistério: fé não abstrata ou histórica, mas espiritual e dinâmica, de fé em fé, de conhecimento em conhecimento, até desembocar definitivamente na contemplação do Infinito.

Nunca seja esquecido, porém, o centro e revelação do Mistério divino Cristo, segundo a teologia de Orígenes e dos orientais: ele é a soma dos mistérios de Deus revelados ao homem, e é o único caminho para poder-se captar a presença vital, que nele nos transfigura. Maria, portanto, como nós, mesmo que de modo diverso, mais original e empenhativo, foi e está diante do Filho: na realidade divino-humana que o compõe, no misterioso agir salvífico que o guia, na suprema glória pascal que depois da cruz o reveste.

Diversos são os momentos deste itinerário de fé da Theotokos, que a liturgia bizantinha celebra, ou com festas e memórias específicas, ou com tropários e antífonas que se cruzam nas celebrações semanais e quotidianas, ou em alguns tempos do ano litúrgico. Limito-me a apresentar o início e o termo de seu caminho: a Anunciação e o Calvário.

2.1 A mistagopgia da Anunciação

A liturgia bizantina, como a patrística grega, segue, ampliando-a e em parte corrigindo-a, a exegese de Orígenes. Infelizmente não possuímos por inteiro o comentário do Alexandrino ao anúncio do anjo. Mas, um fragmento atribuído a ele, que percorre a posterior tradição homilética e hinográfica, nos faz parar perplexos diante do “como” de Maria: “Como me acontecerá isso, pois eu não conheço homem?” (Lc 1, 34). Parece que Maria duvida do anúncio, por causa de sua absoluta novidade. De fato, nunca aconteceu que uma mulher concebesse sem a intervenção do homem.

Enquanto a tradição latina, mais atenta ao ensinamento moral, imediatamente corrigisse já com Ambrósio essa leitura de Orígenes, fazendo uma forte apologia da fé de Maria em contraponto com a incredulidade de Zacarias, a linha oriental não cancelou nunca totalmente o caminho de fé, e a dificuldade do “conhecimento” que ele comportou em Maria. Os homiletas gregos do IV-V século, parafraseando o texto evangélico, quase se perdem para explicar a Virgem que, como criatura, não deve pedir o “como” ao Criador: porque, quando quer, Deus pode fazer tudo. E de resto, já dois sinais podem convencê-la a abrir-se sem hesitações ao mistério: a predição de Isaías, de que uma virgem conceberia e daria à luz o Emanuel (cf. Is 7, 14); e a inesperada gravidez de sua idosa parente Isabel. Faz-se luz, pouco a pouco, na exegese dos Pais gregos, que a pergunta da Virgem ao anjo não é somente uma pergunta prudente, se comparada à estultície de Eva que acolheu prontamente a sedução da serpente, mas expressa o íntimo desejo de seu espírito de ser introduzida nos segredos de Deus: a primeira, a única que o pode experimentar e possuir.

É esta a linha que segue o hino Akathistos (séc. V), compondo juntos o estupor do prodígio e a explosão do mistério:

Estação 2

“Sabendo Maria ser virgem sagrada
assim falou a Gabriel:
'A extraordinariedade do teu anúncio
inaceitável aparece à minha alma:
uma gravidez predizes por concepção sem seme'...”.

Estação 3

“Procurava a Virgem
conhecer um conhecimento incognocível,
e perguntava ao núncio divino:
'Como poderá meu seio virginal
dar à luz um menino? Responde-me!'
A ela aclamando, reverente ele disse assim:
Ave, iniciada no conselho superno;
ave,  tu, prova do celeste mistério...
Ave, a Luz em modo inefável tu geraste;
ave, o “como” a ninguém revelasre ...”

Essa atitude, compendiada pelo hino Akathistos, é retomada de modo prolixo, quase sincopado, no “cânon” hinográfico da festa da Aunciação, obra composta por João Damasceno (Ode VIII) e por Teófano Grapto (Odes I-VII). Todo o cânone, que é cantado no matutino da festa é um diálogo “mistagógico” entre o anjo e Maria. Anúncio e escuta maravilhada, oferta de Deus e acolhida alegre da Virgem-Mãe compõem as fases que repetidamente chamam em causa o Antigo Testamento – predições e figuras -, para demonstrar seu cumprimento em Maria e no evento de que é ao mesmo tempo protagonista e ministra. Sob duas linhas subentendidas acontece o anúncio divino através do ano, sob dois mistérios unidos a perplexidade da criatura Maria: antes de tudo, o que externamente mais atinge e deriva do pensamento do homem, ou melhor, das leis da natureza donde alcança força e evidência a razão humana, e uma concepção verdadeira de mulher, e um verdadeiro filho do ventre, mas sem concurso de homem. Estamos no campo do “humanamente impossível”. Ainda mais incompreensível a outra face dessa inaudita mensagem: esse filho é Deus! Nasce de um criatura o Verbo que a tudo criou!

O diálogo, que primeiramente se desenrola como pergunta e resposta entre o núncio e a anunciada Mãe, ao final parece repousar na comum procura dos “por que” Deus queira fazer-se verdadeiro homem, em virtude do Espírito Santo, e nascer de uma virgem: é para chamar Adão, para salvar o homem perdido. Maria  admira aquilo que a santidade e a onipotência divina estão para realizar nela e por meio dela; Gabriel a venera como Theotokos e tálamo da Luz.

Assim, nota-se em Maria, através do diálogo com o anjo, quase uma passagem de sua primordial condição de criatura, obviamente contida dentro dos limites criados e os raciocínios humanos, à sua progressiva abertura para o grande evento que lhe é revelado e a atrai definitivamente no seu inaferrável mistério: Deus se fez homem, a alegria refloresceu, o homem é salvo! Uma Virgem tornou-se Mãe, uma Mãe-Virgem gerou Deus!

Reproduzo, como ilustração, somente alguns tropários dos “cânones” de Teófane Grapto (séc. IX):

Ode I

O Poeta: Possa Davi, teu avô, ó Senhora, tocando a lira do Espírito, cantar-te: “Escuta, ó Filha, a doce voz do Anjo”. Ele está, de verdade, para anunciar-te a alegria indizível.

O Anjo: Estou feliz para dizer-te: Abre o ouvido e escuta: anuncio-te uma concepção sem seme humano. De fato, diante do Senhor tu encontraste a graça, que nenhum outro jamais teve, ó toda pura.

A Theotokos: Possa eu compreender, ó anjo, o significado das tuas palavras. Como poderá acontecer o que dizes? Diz-me claramente como eu possa conceber, sendo ainda jovem virgem. Como serei, então, mãe do teu Criador?

O Anjo: Parece-me que tu pensas em algum engano meu, mas sou feliz em ver a tua firmeza. Tem coragem, ó Senhora: quando Deus o quer, com facilidade se realiza o que supera a razão [...].

Ode IV

A Theotokos: Ouvi falar, na profecia de um profeta, de uma virgem santa que deverá dar à luz o Emanuel. Desejo saber como uma natureza mortal pode suportar a união com a divindade.

O Anjo: A sarsa que ardia sem se consumir, ó ilibada, cheia de graça, prefigura o inefável mistério que te diz respeito; realmente, ó casta, tu permanecerás sempre virgem, também depois do parto [...].

Ode V

A Theotokos: Não consigo captar o exato significado das palavras. É verdadeiro que muitas vezes aconteceram prodígios pela potência divina, assim tamém símbolos e figuras da lei; jamais, porém, aconteceu que uma virgem desse à luz sem experiência de homem.

O Anjo: Tu me confundes, ó toda pura; de fato, o teu prodígio é estupendo. Tu serás a única a receber no teu seio o Rei do universo encarnado; és prefigurada pelas palavras e os enigmas dos profetas, como também pelos símbolos da Lei.

A Theotokos: Mas, como pode o Incontido, que ninguém jamais contemplou, habitar no seio de uma virgem que ele mesmo criou? Como poderei conceber Deus, o Verbo coeterno com o Pai e o Espírito?

O Anjo: A teu avô Davi foi prometido que do fruto de seu seio ele colocaria no trono de seu reino; e isso tu sabes, ó ornamento de Jacó, eleita por Deus como única morada espiritual.

Ode VI

A Theotokos: Ó Gabriel, ao escutar a harmoniosa voz de tuas palavras, inunda-me a alegria divina; pois tu estás me revelando a alegria, tu me trazes o anúncio da alegria indizível.

O Anjo: Ó Mãe de Deus, a ti foi dada a alegria divina, a ti canta toda a criação: Ave, ó Esposa de Deus; só tu foste eleita para ser a Mãe do Filho de Deus, ó casta.

A Theotokos: Que por meu intermédio a condenação de Eva seja cancelada. Que por meu intermédio hoje seja paga toda a dívida e que seja remido por meu intermédio a antiga indenização.

O Anjo: Deus tinha prometido, ó casta, ao patriarca Abraão que em seu seme seriam abençoadas todas as nações. Hoje a promessa se realiza em ti.

Ode VII

A Theotokos:

A vinda do Espírito santíssimo purificou a minha alma e santificou o meu corpo, de mim fazendo um imenso templo de Deus, uma tenda adornada, um santuário vivo, a mãe pura da vida.

O Anjo:

Como leito nupcial construído por Deus tu me apareces e como lâmpada luminosa eu te vejo, e como arca de ouro, ó Imaculada: acolhe o próprio autor da lei, que quer salvar da corrupção a natureza humana por teu meio [1].

O tropário das Grandes Vésperas, com semelhante diálogo e análogos conteúdos, no final parafraseia o “fiat” de Maria, que não é somente disponibilidade, acolhimento, mas instrumentalidade nas mãos de Deus para levar todos os homens à “deificação”:

“Então a Virgem exclamou: Faça-se em mim segundo a tua palavra! Que eu dê à luz o Deus invisível! De mim ele tomará um corpo, para trazer  o homem à sua antiga dignidade mediante a união da natureza humana com a divina” [2].

A primeira etapa do “conhecimento” que, à anunciação, mediante a fé introduz a Virgem no mistério eterno de Deus é constituída de um plúrimo conhecimento, que nela se torna personalíssima e incomunicável experiência, e chama-a em causa como protagonista: uma virgindade divinamente fecunda, uma maternidade verdadeira e real com o Unigênito Filho do Pai, uma clara percepção do motivo salvífico da encarnação, uma sua consequente e coerente adesão de fé em Deus para a salvação de Adão e do gênero humano. Mesmo sem explicitamente afirmá-lo, a liturgia propõe a Mãe-Virgem de Deus como a Nova Eva da humanidade.

2.2 A Theotokos junto da cruz

A presença da Virgem-Mãe no Calvário é tema que amadureceu lentamente ao longo dos séculos,  a atinge dois momentos principais na liturgia bizantina: a Theotokos junto à cruz, a Theotokos junto ao sepulcro.

É natural que a perícopel de Jo 19, 25-27, que recorda como a “Mãe de Jesus”  permaneceu junto da cruz junto com algumas mulheres e com o disípulo predileto tenha chamado a atenção também da exegese oriental: e, mais ainda, antes da exegese ocidental. É Orígenes que, comentando a “espada” predita por Simeão a Maria na apresentação de Jesus no templo, veja a realização dela aos pés da cruz: mas, não sob a linha da dor materna, mas sob a linha da fé. Pode-se dizer que a “espada” da Palavra de Deus, “viva, eficaz e mais cortante do que qualquer espada de duplo corte” (Hb 4, 12) – espada que segundo Orígenes é Cristo no seu mistério de kênosis e de obediência salvífica até a morte – percorra toda a vida de Maria, do Templo a Cruz:  é o seu caminho para entrar no “conhecimento” do mistério: mistério de sabedoria, que permaneceu oculto também aos dominadores deste mundo: porque, afirma São Paulo, “se o tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória (1Cor 2, 7-8). Ora, o caminho do conhecimento se manifesta no caminho de fé: e em Maria se manifesta claro, como num ícone, tanto a inexprimível transcendência da sabedoria divina que salva com a estultície da cruz, quanto o caminho fadigoso da alma humana no comprender, no aceitar, no condividir, no comunicar com esse perturbador mistério. Orígenes se concentra com veneração diante da Mãe-Virgem que subiu ao “monte”, ao Gólgota: mas com sua agudeza espiritual capta na sua “alma” ou no seu “coração” a tempestade da dúvida que a assalta, enquanto que – unindo, como sempre fazia, o passado ao presente – contempla agora desfigurado, crucificado e moribundo aquele que tinha concebido virginalmente pela sombra da Virtude que vem do alto, aquele que tinha escutado Gabriel chamar de “Filho de Deus” [3].

A exegese origeniana, um pouco temperada, entrou na liturgia através da homilética desde o final do século IV, como comentário da festa do Encontro (ou Ipapante, a Apresentação de Jesus no templo). Fala da “espada” de Maria no Calvário, Anfilóquio de Icônio. Ainda mais, quase antecipando os futuros tropários que a contemplam  transpassada aos pés da cruz (e são, por isso, stavrotheotokia, tropários da Theotokos junto à cruz), assim interpreta os seus íntimos sentimentos:

“O coração da Virgem encheu-se de dor no sinal da cruz. Por isso dizia: “Por que não morri primeiro? Por que alcancei este dia? Permaneci virgem e assim permanecendo sinto-me mais angustiada nas minhas vísceras maternas”.

A estes numerosos pensamentos da Virgem Simeão chama de ‘espada’, porque feririam as vísceras e trariam escândalo [ ... ].

Nesses pensamentos incorreu a Virgem Maria, porque não conhecia ainda a força da ressurreição e ignorava que essa estava próxima. Por isso, após a ressurreição, não foi mais a espada de duplo corte, mas se tornou causa de alegria e de exultação. Por isso, Simeão chamou a cruz ‘sinal de contradição’: naquele tempo a espada dos pensamentos transpassou a Virgem” [4].

No V século, em contexto homilético-litúrgico, Esíquio de Jerusalém retoma, como exegeta, a linha de Orígenes:

“Uma espada te traspassará a alma: a dúvida, no momento da cruz. Ficarás maravilhada vendo suspenso na cruz aquele que tu deste à luz sem corrupção, que concebeste sem concurso de homem, que não te abriu o seio enquanto realizava o próprio nascimento sem sofrimento e sem corrupção...”[5].

Esses autores, portanto, fundam uma primeira leitura litúrgica do caminho de fé de Maria. É interessante notar como eles o colhem na relação antitética e estridente que a Virgem, “que conservava todas essas coisas meditando-as em seu coração” (Lc 2, 19.51), percebe dentro de si no comparar as glórias da infância do Senhor com a ignomínia da cruz: por uma parte, de fato, dela recorda e medita o anúncio do anjo, com as cores refulgentes de um futuro glorioso para o Filho do Altíssimo, e a sua concepção virginal, obra de Deus e da vinda do Espírito Santo, e o parto sem dor e sem corrupção, primeiro prodígio daquele que nascia Deus em carne humana...; agora, pelo contrário, é expectadora impotente e contempla sua suprema derrota, por obra de homens iníquos, e a ingratidão, o abandono, a traição: um indecifrável amálgama de dor e anulamento, que o próprio Senhor vive profundamente como homem, até quase se lamentando com o Pai. Mas, Romano o Melodista, no século VI, que com plástica dramaticidade introduz definitivamente no coração da Sexta-feira Santa celebrada pela liturgia bizantina até hoje, a imagem da Mãe que “sobe” atrás do Filho, por sua divina condescendência, o caminho escabroso do mistério do Crucificado: sobe sem mais dúvidas da alma que a fortalece, com uma clara confissão na divindade do Filho que morre, em ansiosa contemplação de como se realiza definitivamente a vontade arcana do Pai para a salvação humana.

O proêmio do kontakion de Romano sobre “Maria aos pés da cruz”, hoje repetido em todas as horas diurnas do ofício bizantino da Sexta-feira Santa, abre a cena, chamando todos à contemplação do Crucificado, com os olhos da Mãe:

“Vinde todos, celebremos Aquele
que foi crucificado por nós:
Maria o vê no madeiro, e dizia:
“Mesmo que sofras a cruz,
tu és o meu Filho e meu Deus”[6].

A cruz de Cristo, que por amor se fez pobre, mais, “o pobre” que os salmos cantam, pobre ao ponto de morrer nu e sozinho, para enriquecer-nos, não é somente o “sinal de contradição” (Lc 2, 34) predito por Simeão: é luz para quem o acolhe, treva para quem o rejeita. Por ele o ladrão arrependido é iluminado, Judas o traidor é entenebrecido. E é exatamente neste contexto de “iluminação” e de “conhecimento” que se ergue ao máximo a figura de Maria. Bem mais do que o ladrão “teólogo”, que reconhece em Cristo o Rei do reino, mais do que toda criatura, Maria alcança o vértice  do conhecimento místico.

Foi também para ela um longo virginal caminho de fé: todo o kontakion de Romano o Melodista ilumina esse seu progressivo penetrar nas profundezas, inacessíveis à razão, da kênosis suprema de Cristo, do último abaixamento da sua infinita condescendência para salvar o homem. De fato, Cristo é o “Esposo” que, por amor à sua “esposa” – a Igreja – se dirige voluntariamente e com solicitude divina para a morte, sobe “com pressa” o monte de sua imolação, para lavar no sangue a humanidade que redime: lá no alto se realiza definitivamente o pacto nupcial, novo e eterno, arcanamente prefigurado nas bodas de Caná, quando, a pedido da Mãe, Jesus transformou a água no vinho prodigioso. A primeira estação do kontakion de Romano, no contexto nupcial de toda a Semana Santa bizantina, une com extrema fineza Caná e Calvário, introduzindo a Virgem-Cordeira no mistério do Cordeiro imolado:

“Vendo o próprio Cordeiro conduzido ao matadouro,
Maria, a Cordeira, consumida pela dor,
o seguia com as outras mulheres,
e assim falava: Aonde vais, Filho?
Por que assim ligeiro caminhas pela estrada?
Se celebram outras núpcias em Caná
e agora, com pressa, vais para lá
para mudar novamente a água no vinho?
Vou contigo, Filho,
ou te devo esperar?
Dize-me uma palavra, ó,
não passes por mim em silêncio,
tu, que me conservaste pura,
ó meu Filho e meu Deus!” [7].

As outras 16 estações do kontakion não mais são cantadas, hoje: elas põem progressivamente em realce a co-participação da Mãe em todo o drama divino da paixão: o  seu espanto diante da ferocidade dos ímpios, a ingratidão do povo que, poucos dias antes, o havia aclamado, o abandono dos apóstolos e, acima de tudo, o amor incompreensível do Filho, que solitário caminha para a morte:

Nenhum, entre todos, está contigo:
tu, sozinho, morres por todos,
totalmente sozinho, meu Filho!
É esta a tua retribuição
por ter salvado a todos,
por ter amado todos,
meu Filho e meu Deus!”

Depois o diálogo se prolonga entre Mãe e Filho, sobre os motivos últimos e divinos dessa morte, em si tremenda, mas que é beata fonte de alegria, qual banquete de núpcias para quem deseja ingressar na estância nupcial, em primeiro lugar para Adão e Eva, de quem são filhos, que não poderão deixar a morte se o Senhor não descer, ele mesmo, na morte: não basta sua ordem onipotente, que até ressuscitou Lázaro da morte; aqui é a sua morte que os salvarã. O Salvador assim instrui e conforta a Mãe:

“... Compreendes o que estou dizendo?
Então não chores, ó Mãe,
antes, porém, digas:
‘Se perdoas Adão, absolve também Eva,
meu Filho e meu Deus!’...”.
“Larga, portanto, Mãe,
larga a dor e prossegue com alegria.
Para a finalidade com que desci do céu,
para isso me apresso,
para fazer a vontade
daquele que me enviou [...).
Vai depressa, portanto, Mãe,
e anuncia a todos:
‘Com a sua paixão
fere o odioso inimigo de Adão
e  torna vencedor,
o meu Filho e meu Deus!” [8].

O diálogo se conclui com o pedido da alma da Mãe de não separar-se um instante do Filho e com a condescendência do Senhor a Mãe suba junto dele, na cruz:

“Estou prostrada, Filho, estou ferida de amor:
não posso suportar permanecer numa sala,
enquanto tu está na cruz,
ou então numa casa,
e tu em um sepulcro.
Deixa-me ir contigo,
será para mim conforto o ver-te ...”

“Se vens comigo, não chores, Mãe!...
As montanhas serão abaladas, os sepulcros esvaziados.
Quando  vires estas coisas, se tiveres medo,
como é natural para uma mulher,
grita para mim:  ‘Poupa-me,
meu Filho e meu Deus!’” [9].

Percebe-se, nessa última etapa do itinerário da Theotokos, a superioridade absoluta do Filho que morre sozinho, livremente, por todos, e a inferioridade criatural de Maria, necessitada de ser salva pela graça do seu Deus; mas também a grandeza de sua fé, que se torna ícone para aquele que penetra no mistério do Crucificado: grandeza devida à sua coragem pessoal, mas, em primeiro lugar, à graça do único Salvador. Assim se conclui o kontakion:

“Ó Filho da Virgem, ó Deus da Virgem
e Criador do mundo!
Tua é a paixão, tua a profundidade da sabedoria!...
És tu quem sofre, e permaneces impassível;
És tu que morres e que salvas.
És tu que deste à Santa enrouquecer de gritar-te:
‘Ó meu Filho e meu Deus!’” [10].

O caminho do conhecimento divino, brotado da fé, exige algumas virtudes fundamentais: primeira entre todas, a pureza de coração, porque “os puros verão Deus” (Mt 5, 8). O título de Cordeira, atribuído a Maria sobretudo aos pés da Cruz, quer na Sexta-feira Santa, quer nos muitos stavrotheotokia de cada quarta e sexta-feria do ciclo ordinário do ano liturgico, querem ressaltar, ao lado da dor, a imaculada pureza da Mãe-Virgem. Já Melitão de Sardes, no século II, em contexto de paixão, tinha-a denominada “bela Cordeira”:

“E ele, o Cordeiro mudo,
e ele, o Cordeiro ferido,
e ele que nasceu de Maria,
a bela Cordeira!” [11].

Segundo a prescrição de Moisés (Ex 12, 5), o cordeiro pascal deveria ser “sem mancha”. Tal, na verdade, é Cristo, o Cordeiro imaculado; mas, tal é também Maria, Cordeira imaculada. É chamada de “Cordeira” não só como a fundamental orientação da sua maternidade salvífica para o sacrifício do Cordeiro, Vítima por ela gerada, mas também por sua pureza e sua virginal imaculada beleza, em simetria com as características do Cordeiro divino. A liturgia bizantina denomina-a “cordeira” também na sua apresentação no templo, e no Natal, quando dá à luz o Cordeiro; mas, nesse modo quase exclusivo é no Gólgota que é cantada como “cordeira”, com surpreendente insistência: “cordeira imaculada”, “imaculadíssima cordeira” ... Cordeira, portanto, unida de modo único e verdadeiro ao Cordeiro na hora de seu sacrifício: pois, mais a vítima é pura, mais é preciosa a Deus e pode apoximar-se dele. Por isso, junto ao Senhor que voluntariamente se imola, junto ao Imaculado por natureza que morre na cruz, pode estar a Mãe toda pura e, somente em estado inferior quem é purificado e santificado, como João e a Madalena. A Cordeira-Theotokos é a única que pode estar junto ao Filho, e pode interceder com liberdade por nós.

Pregada com a sua contemplação interior ao Filho-Deus que morre, ela “vê” e adora o Mistério que se realiza: o último grau do conhecimento espiritual aqui embaixo – conhecimento inexprimível – é a kênosis do Filho-Deus, até ser brutalmente amarrado, insultado, flagelado, coroado de espinhos, cuspido no rosto, condenado e morto: e tudo isso, somente porque ele o quer! Pode-se dizer que toda a atenção de Maria está centrada nele que morre: mais que a dolorosa paixão, é em sua morte que ela medita. O “vê” na sua natueza divina escondida sob o véu da carne, mesmo se humanamente desfigurado e pregado na cruz: vê, contempla, crê. Apesar de que o Cristo morra desolado e sozinho, Maria crê nele, crê que ele é seu Deus, e que morre para salvar o mundo: crê, portanto, que sua morte é sacrifício, e na fé se une a ele, mesmo nas dores indescritíveis de suas vísceras maternas [12].

Assim, pois, Maria, que o anjo tinha introduzido no mistério da sua Páscoa de redenção, torna-se imagem completa do itinerário de fé de todo discípulo e de vértice humano da contemplação.

2.3 A Theotokos junto ao sepulcro

O “Grande Sábado” na liturgia bizantina, diversamente da atual liturgia latina, tem uma importância celebrativa e soteriológica imensa [13]. O ofício vespertino e noturno que une a Sexta-feria Santa ao matutino do Sábado Santo, quando se antecipa – como tempos atrás também no Ocidente – a Páscoa da ressurreição, juntamente com a salmodia e as longas leituras, contém um ofício especial, que reveste de profundo significado mistagógico e de íntima comoção os fiéis: é o rito do epitafion, durante o qual são cantados os enkomia, ou elogios fúnebres, que recordam o grande lamento da Mãe e das mulheres piedosas na deposição da cruz e na sepultura do Senhor [14].

Os enkomia são uma longa série de tropários subdivididos em três estâncias, e cantados em coros alternados junto com os versículos do Salmo 118: 156 versículos, 156 tropários. Do ponto de vista histórico-teológico, representam uma fase avançada da doutrina sobre a participação da Theotókos na salvação humana: mesmo deitando suas raízes na grande teologia dos Pais do século VIII, são uma composição mais tardia, datável do século XIII, da doutrina sobre a co-participação da Theotokos na salvação humana; do ponto de vista celebrativo, porém, se transformaram no coração da comemoração litúrgica. Incluídos no ofício matutino (orthros), realizam uma íntima ligação com a Paixão consumada na Cruz, a fulgurante descida aos infernos, o pranto das mirróforas no sepulcro, a trépida espera da ressurreição. Como numa tragédia grega – pois se trata da suprema Tragédia, tornada vida para o mundo – em coro, composto por um pequeno grupo: a Mãe, João, José, Nicodemos, as piedosas mulheres, engloba toda a criação e dá voz aos acontecimentos, da Crucificação à sepultura, da descida aos infernos: anúncio já próximo da vitória pascal. Transborda, nos textos, o perturbador espanto diante dos dois polos que aqui se tocam e se cruzam: a infinita grande potência do Verbo, e a extrema humilhação humana que quis espontaneamente sofrer a sepultura de três dias, para destruir as potências do inferno que nos mantinham escravos e fazer sair definitivamente os mortos da morte. Toda a criação é expectadora atônita deste acontecimento divino: treme, condivide o pranto, adora e espera.

Dianta da sepultura de Cristo, os Anjos, contemplando morto o seu Criador, permanecem estupefatos e cobrem o rosto: porque ele é a Vida que não pode morrer. O sol escurece, porque se pôs o sol sem ocaso; a terra perturbada até as vísceras, quando o Verbo que é luz se esconde sob a terra. Somente os homens cegos e ímpios, enquanto Deus morre, insultam e blasfemam. O próprio Hades, que se abre para acolher como vencido o Senhor que foi crucificado, é desmantelado e vencido pelo Salvador, “o Vivificante, que lhe arranca as presas e faz ressurgir os mortos há séculos”.

Neste contexto imenso, que é canto e pranto, privilegia a Mãe: os textos lhe confiam um posto de privilégio. É a Virgem-Mãe, aquela que gerou o Senhor; é a Cordeira que o viu morrer, e agora o deve entregar ao sepulcro. Seu coração é uma represa que se abre em torrentes de lágrimas:

“Ó Deus e Verbo! Minha alegria!
Como posso suportar tua sepultura de três dias?
Agora as minhas vísceras de mãe estão laceradas!”.
“Quem me dará uma chuva e fontes de lágrimas
para chorar o meu doce Jesus?
dizia a Virgem Esposa de Deus” [15].

E convidando ao pranto todas as criaturas, estende-lhes o convite, tão comovente e verdadeiro, porque sabia que era a Mãe do Criador do mundo, agora impiamente morto:

“Montes e valadas, e vós, filhos do homem,
e criaturas do cosmos, chorai”
Lamentai comigo, a Mãe de Deus!” [16].

Todavia, a dor da Virgem, mesmo se avassaladora, era ao mesmo tempo plenitude de adoração, com que prestava a suprema homengam a seu Filho Deus:

“Jesus, minha alegria, tu, minha amada luz,
por que te colocaram no sepulcro escuro?
ó, misterioso humilhar-se de Deus!” [17].

Maior ainda do que a imensa dor de Mãe e de Theotokos é a fé de Maria: uma fé de discípula, como toda a sua vida, orientada para a Páscoa do Senhor. No contexto da Semana Santa  bizantina, fortemente voltada para a ressurreição, os hinógrafos quase quiseram colocar nos sentimentos da Mãe a espera e a esperança do homem, que Cristo redimiu e imergiu nos fulgores da ressurreição, apesar de que nós continuamos no nosso Sábado Santo, marcado pela morte e pela figura de um mundo que será transfigurado. O ícone de Maria do Sábado Santo é o último e definitivo ícone da esperança cristã, que emerge da imagem evangélica da “Mãe” já descrita por Lucas: “Maria conservava todas essas palavras, meditando-as no seu coração” (Lc 2, 19.51). Durante a vida do Senhor ela tinha ouvido e acolhido com fé e guardado zelosamente no coração não só a predição dolorosa da sua morte, mas também o anúncio de sua gloriosa ressurreição depois de três dias. Aqui, portanto, junto ao sepulcro do Filho, diante de um túmulo lacrado – sepulcro novo como o seu ventre de Virgem de quem virginalmente tinha nascido a Vida – é ela que recorda ao Filho sepultado a fidelidade à palavra que tinha dado:

“Rios de lágrimas derrama a Mãe
no monumento onde jaz sepultado;
a ti grita: Ressurge, porque o predisseste!” [18].

É sobre esta fé dolorosa e confiante da Mãe, co-participada liturgicamente pela Igreja, é sobre a fidelidade do Senhor – o Vivente e o Vivificante – à sua promessa, que se firma a esperança do homem; disso ecoa o coro das mirróforas:

“Retorna logo, Senhor, para entre os vivos,
para dissipar a dor profunda
dela que, Virgem, te gerou!” [19].

E é ainda o coro das piedosas mulheres que, no final dos enkomia se dirige à Mâe: mas, com ela, somos todos nós que lhe suplicamos:

Ó Virgem, torna os teus servos dignos
de ver a ressurreiççao de teu Filho!” [20]

Não poderia faltar a resposta de Cristo à tanta fé da Mãe, a tanta indubitável esperança que punha diretamente em causa sua palavra. Como, interpelado por Jó, Deus entra em cena e lhe responde; aqui, do fundo do Hades donde havia chamado à vida Adão e Eva perdidos, o Senhor responde ao pranto e à espera da Mãe: uma resposta que não escuta com os ouvidos, mas com o tremor do espírito. Disso ecoa o primeiro tropário da Ode IX do Cânon, obra do monge Cosme de Maiuma (século VIII):

“Mãe, não chores sobre mim,
pensando encerrado num escuro sepulcro
o eterno Filho que deste à luz:
ressuscitará com potência e esplendor
e elevará até a glória imortal
quem por amor e com fé te canta!” [21].

Chegamos às portas da Páscoa da ressurreição. A terra já está tremento, está para abrir-se o sepulcro: será rolada a pedra inútil ao lado do túmulo vazio. Mas quem poderá “contemplar” por primeiro a face do Filho ressuscitado, levando à realização definitiva do próprio itinerário de dor, de fé e de conhecimento? Certamente, a Mãe. Por primeiro introduzida no mistério da Encarnação, entrada por primeiro e quese sozinha no abissal da Paixão, agora é chamada à comunhão luminosa com o mistério da Ressurreição, sendo para todos e para sempre a primeira “evangelizadora” da Páscoa. João Damasceno (séc. VIII), na Ode I do Cânon da Páscoa, alegremente assim apostrofa a Igreja e a Virgem:

“Ilumina-te, ilumina-te, ó nova Jerusalém,
sobre ti surgiu a glória do Senhor!
Agora dança e exulta, ó Sião!
E tu, alegra-te, ó pura Mãe de Deus,
na ressurreição do teu Filho! [22].

A linha da alegria, iniciada e pré-anunciada pelo anjo, com a saudação: “Alegra-te, ó cheia de graça”, mas vivida com um itinerário de fé sempre mais doloroso e obscuro até a cruz e ao sepulcro, agora se prorrompe na Páscoa do Senhor. Aquilo que na anunciação não podia “compreender” plenamente, agora a Virgem da Páscoa o “vê” definitivamente realizado no Cristo Ressuscitado. Os polos se encontram; uma única bem-aventurança a envolve:

“Bem-aventurada aquela que acreditou
no cumprimento das palavras do Senhor!” (Lc 1, 45).

“Ilumina-te, ilumina-te, ó nova Jerusalém,
a glória do Senhor resplandece sobre ti!
Dança e exulta, ó Sião!
E tu, alegra-te, ó pura Mãe de Deus,
na ressurreição do teu Filho!”

Notas

[1] Edição litúrgica no ανθολóγiov..., vol. II, op. cit., pp. 1521-1525.

[2] lvi, p. 1514. Para os temas teológicos dos hinos e dos tropários da festa da Anunciação e seu grande valor litúrgico, veja-se, em particular, Eva Katafygiotou Topping, The Annunciation in Byzantine Hymns, in Marianum, 47 (1985) pp. 443-469.

[3] ORÍGENES, Homilias sobre Lucas, XVII, 6-7: “Disse pois Simeão: E uma espada transpassará a tua alma (Lc 2, 35). Qual é essa espada que transpassa não só o coração dos outros, mas também o de Maria? Está escrito claramente que no tempo da paixão todos os Apóstolos se escandalizaram [ ... ]. O que pensar, então? Enquanto os Apóstolos permaneciam escandalizados, a Mãe do Senhor foi preservada do escândalo? Mas, se ela não experimentou o escândalo durante a paixão do Senhor, Jesus não morreu pelos seus pecados” [ ... ] Exatamente isso é o que agora profetiza Simeão, dizendo: E a tua própria alma, de ti, que sabes ter dado à luz sem intervenção de homem, em estado de virgindade, de ti que tens – dito por Gabriel – as palavras: o Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra (Lc 1, 35), será transpassada pela espada da incredulidade, será ferida pela agulha da dúvida. Pensamentos contraditórios te machucarão, quando verás que aquele que tu escutaste chamar “Filho de Deus” e sabias que nascera sem intervenção de homem, está crucificado, está para morrer, atormentado pelos suplícios dos homens, e que, enfim, chora e se lamenta, dizendo: Pai, se é possível, afasta de mim este cálice (Mt 26, 39)” (edição crítica: Sources Chrétiennes 87, Paris 1962, pp. 256-258).

[4] ANFILÓQUIO DE ICÔNIO, Homilia sobre a Ipapante (Apresentação). PG 39, 57.

[5] Ezíquio de Jerusalém, Homilia II sobre a Ipapante, 11. Edizione: M.Aubineau, Le Homélies festa/es d'Hésychius de Jérusalem, vol. I, Bruxelles 1978, p. 70.

[6] Romano Il Melode, Maria alla croce, proemio. Edição crítica: J. Grosdidier De Matons, Romanos le Mélode. Hymnes, t. IV. se 128, p. 160. Para uma exposição do conjunto do kontakion de Romano veja-se: Eva Katafygrotou Topping, Mary at the Cross: St. Romanos' kontakion for Holy Friday, 2in Byzantine Studies, 4 (1977) pp. 18-37.

[7] Romano o Melodista, Maria junto à cruz, estação l. se 128, p. 160.

[8] Romano o Melodista, op.cit., estância 9.14, pp. 172.180.

[9] Romano o Melodista, op. cit., estâncias 15-16, pp. 182-184.

[10] Romano o Melodista, op. cit., estância 17, pp. 184-186.

[11] Melitão de Sardes, Homilia sobre a Páscoa, 71. se 123, p. 98.

[12] Sobre os vários temas litúrgicos, o significado litpúrgico de alguns termos fundamentais, como o da “cordeira”, “filha de Deus”, “esposa de Deus”, ou sobre o significado de Maria atravessada pela espada, percorra-se a obra de J. LEDIT, Marie dans la liturgie de Byzance, Beauchesne, Paris 1976, espec. pp. 194-220.

[13] Costantino Andronikov assim compendia o sentido permanente do “sábado”, e o primário do “grande sábado” na Liturgia bizantina: “Liturgicamente, o sábado introduz o domingo; o Grande Sábado, o domingo de Páscoa. Metafisicamente, mas também existencialmente, o mistério do Sábado se revela no Oitavo Dia do Senhor. Tudo está completado e tudo está em germe. A condescendência vertiginosa do Filho de Deus atinge o ponto extremo da sua curva. Está-se esboçando a subida fulgurante. A Kênosis está cheganmdo ao fim; a glorificação já começou. A noite se fecha no repouso; está para despontar o dia sem ocaso. O fundo do abismo absoluto do abandono, até da parte do Pai, na solidão mortal, foi alcançado. Está para começar a Ascensão do Rei do universo com a sua Igreja nascente, na plenitude trinitária. Todos os homenes, vivos ou mortos, a partir de agora podem apertar a mão que os tinha no início formado do nada e que os eleva para a vida eterna. Todos os homens podem responder à chamada da Palavra encarnada que os fez à sua imagem e que condividiu sua sorte até no sepulcro, todos, a partir do primeiro que continha a humanidade em germe: o Cristo foi procurar Adão-cabeça do mundo e “encontrou-o sob a terra” (primeira estância). O Vivente segura o morto. A salvação se abre”. (C. ANDRONIKOF, Il senso della Pasqua nella Liturgia bizantina, vol. I, Editrice Elle Di Ci, Leumann-T o, 1986, pp. 279-280).

[14] Maria Bianco, explicando o rito do epitafion em sua edição italiana dos textos bizantinos da Semana Santa, escreve: << Epitafion. Em grego clássico com este termo se entende sobretudo o elogio fúnebre; mas na língua litúrgica mais habitualmente significa o véu adornado que representa o corpo do Senhor no ato de sua sepultura. Ele é objeto de especialíssima devoção na sexta-feira e no sábado santo. Durante todo o ano esse véu é guardado com respeito na Igreja, num quadro, junto com os santos Ícones; mas na sexta-feira santa é colocado no altar e sobre ele se apóia o livro dos santos evangelhos. Depois nas Vésperas, ao canto  do Apolitikion O nobre José, o epitafion é recolocado solenemente numa arca, figura do santo Sepulcro, toda recoberta de flores e de perfumes. Todo o povo acorre para lá para prestar-lhe homenagem. Prostra-se duas vezes até o chão, fazendo-se o sinal da cruz, beija-se o Evangelho e a imagem de Cristo impressa no véu, depois novamente se prostra até o chão, persignando-se. Há também o costume de dar aos fiéis, em sinal de bênção, algumas flor que tenha tocado a santa imagem.
Diante dessa arca, no sábado santo se cantam os enkomia, representando as santas mirróforas; o epitafion na sua arca é levado em procissão fora do templo ao canto de um longo tropário próprio. Esta procissão noturna é um dos momentos mais fortes da piedade popular em todo o ano litúrgico. Enfim, no início da vigília pascal, da noite de Páscoa, o epitafion é tirado da arca e novamente deposto sobre o altar, onde permanecerá até a vigília da Ascensão>> (M. BIANCO, Liturgia orientale della settimanasanta, vol. II, Città Nuova Editrice, Roma 1974, p. 248).

[15] Remeto à edição litúrgica romana, Roma, 1879, p.716. favor conferir no original. Falta uma palavra.

[16] lvi, p. 716.

[17] lvi, p. 711.

[18] lvi, p. 718.

[19] lvi, p. 726.

[20] lvi, p. 727.

[21] lvi, p. 733.

[22] É a estrofe-modelo da IX Ode do Cânon do matutino (orthros) de Páscoa.

 

Voltar à página anterior Topo da página  
NEWSIgreja Ortodoxa • Patriarcado Ecumênico • ArquidioceseBiblioteca • Sinaxe • Calendário Litúrgico
Galeria de Fotos
• IconostaseLinks • Canto Bizantino • Synaxarion • Sophia • Oratório • Livro de Visitas