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«Ó noite mais clara que o dia,
mais resplandecente que o sol!»

(Santo Agostinho de Hipona)

A NOITE PASCAL

Por Hieromonge Élisée
em Le Lien – Revue Du Patriarcat Grec-Melkite Catholique Nº 1 / 72º ano – 2007
(traduzido por Jawarjios Tueini)

A Páscoa na liturgia cristã

celebração pascal é chamada justamente de “festa das festas”. Ela é o pivô de todo o ano litúrgico, e procede da mais alta antiguidade cristã. O ciclo dos oito modos, que estrutura o calendário eclesiástico, é nela baseada. Encontra-se mesmo como origem das principais festas do Senhor. É evidente para o que nós chamamos de ciclo móvel, porque esse é baseado sobre a data variável da Páscoa: a Ressurreição de Lázaro, o Domingo de Ramos, a Ascensão e o Pentecostes. Isso é igualmente verdade para a Anunciação, e mesmo para a Natividade – assim, por conseqüência, para a Apresentação ao Templo (Hypapantê) – e para a Teofania que, na origem, não eram mais que uma só festa.

A Páscoa primitiva, com efeito, seguindo a festa judaica da qual era o cumprimento, não era só uma celebração da libertação e da salvação, mas também uma recapitulação de toda a obra divina na história. Fazia memória, particularmente, da Encarnação do Verbo, que é o começo da redenção. Como a Páscoa, em uma alta antiguidade, era celebrada em certas igrejas da Ásia Menor no dia 25 de março, essa data acabou por permanecer aquela da Encarnação, o que nós chamamos em nossos dias de Anunciação. Logicamente, a festa do nascimento de Cristo e de sua manifestação ao mundo – que se tornaria a Teofania – seria celebrada nove meses depois, em 25 de dezembro, e a da Apresentação ao Templo 40 dias mais tarde, em 2 de fevereiro. A festa da Páscoa é então, ao mesmo tempo, o centro de significação e ponto de referência de toda celebração cristã.

Mas tudo isso, por mais esclarecedor que seja, permanece um tanto abstrato. Devemos, então, abordar a significação espiritual e teológica da própria festa, através de uma explicação dos seus ritos.

A celebração da vigília pascal

Todo o triduum pascal, ou seja, os três dias que são a Quinta-feira Santa, a Sexta-feira Santa e o Sábado de Aleluia, é uma espécie de mimodrama no qual a Igreja nos convida a acompanhar Cristo passo a passo, desde a última ceia até seu sepultamento. Os ritos da vigília pascal são o prolongamento direto deste seguimento simbólico: “Ontem fui sepultado convosco, ó Cristo; convosco hoje desperto, participando da vossa ressurreição. Depois dos sofrimentos de vossa crucificação, permiti-me de compartilhar, Salvador, da glória do Reino dos céus” (3ª ode do cânon pascal).

O ofício de meia-noite começa em um lugar sem luz, que, idealmente, deveria ser diferente da igreja. Na falta de melhor, começamos nessa mesmo, mergulhados nas trevas. Esse primeiro lugar de encontro simboliza o túmulo onde Cristo foi sepultado; túmulo que, tendo sido selado com a pedra, ficou mergulhado na noite. Mas dessa noite irrompe a luz, porque o Verbo eterno não podia perecer inteiramente – mesmo que tenha provado uma morte humana – sua ”alma”, antes de se tornar a grande flama que iria abraçar o mundo inteiro por sua ressurreição, era como uma vigilante na noite, com a qual os fiéis vão iluminar suas velas cantando: “Vinde tomar a luz, a luz sem ocaso, e glorificai o Cristo ressuscitado dentre os mortos”. A procissão que segue os conduz perante as portas fechadas da igreja.

É então que toma espaço aquela cerimônia que é tão evocativa e característica da festa da Páscoa que nós chamamos de “O Assalto”. Todos conhecem o rito: após ter lido o evangelho e cantado o tropário da ressurreição, o sacerdote começa o ofício pela grande litania e em seguida fica de frente às portas reais. Por três vezes, ele bate nelas vigorosamente e lhes ordena que se abram, ao recitar o salmo 23: “Levantai-vos, ó príncipes, levantai vossos frontões.

Levantai-vos, ó portas eternas, para que entre o Rei da Glória”. Do outro lado, o porteiro, inicialmente reticente, termina por ceder ante uma ordem tão insistente e impetuosa. As portas se abrem e o povo, aos acentos triunfais do cânon pascal de São João Crisóstomo, penetram na igreja perfumada e inundada de luz.

Para dar a significação deste rito, é necessário dissipar um engano muito freqüente, que talvez tenha sido favorecido pelo salmo 23, mas sobretudo pelo ícone da descida aos infernos. As portas que o sacerdote, agindo in persona Christi, derruba alegremente não são aquelas do inferno, que jazem fracassadas aos pés de Cristo ressuscitado que desceu aos “limbos”, como se vê nos ícones, mas aquelas do paraíso. É verdade que esse engano é muitas vezes reforçado pela voz troante requerida ao porteiro, que se atribuiria muito mais facilmente a um cérbero infernal, do que à doçura angélica. Portanto, os “príncipes” a que o salmo 23 faz menção não são aqueles do inferno, mas aqueles dos exércitos celestes que guardam as portas do paraíso.

Referir-se-á, para apanhar o significado simbólico de tudo isso, ao texto do Gênesis. No momento em que Deus expulsou Adão do paraíso, nos é dito: “e colocou ao oriente do jardim do Éden querubins armados de uma espada flamejante, para guardar o caminho da árvore da vida” (Gn 3,24). Rigor ciumento de um Deus desconfiado, acalorado por uma primeira traição? Não, dizem-nos os Padres da Igreja. Tal ato consiste, em contrário, em uma disposição misericordiosa dAquele que em tudo “dispondo para ele a salvação por um segundo nascimento no próprio Cristo” (liturgia de São Basílio), queria impedir Adão de acessar a árvore da vida, encontrando-se em um estado de decrepitude. A manducação deste outro fruto não faria mais do que eternizar o reino do pecado.

O que se passa na Páscoa é precisamente o fim desta vigilância. O Verbo foi buscar Adão nos infernos, ressuscitou-o consigo. Em outras palavras, assumiu em si mesmo a humanidade que, recebida da Virgem, compartilha de sua ressurreição e glorificação. Com ele, vencedor da morte, é o homem que se põe sem hesitação perante as portas do paraíso. Adão pode agora acessar sem prejuízo a árvore da vida: seus pecados foram apagados pela cruz, sua condição corrompida e humilhada é engolida pela vitória. Em resumo, o ultrapassar das portas da igreja durante a noite pascal não significa nem mais, nem menos, do que o retorno ao paraíso.

O paraíso da vida eclesial

O povo penetra então, seguindo o sacerdote, na igreja resplandecente de luz, exalando incenso, cintilante de todos seus fogos, na qual ressoa a alegria dos cantos da Páscoa. Essa luz, essa alegria espiritual, essa felicidade de estar juntos, tudo isso é uma imagem do paraíso.   E, de fato, a vitória de Cristo sobre a morte e o pecado nos reintroduz no paraíso, que não deve ser, contudo, confundido com “Reino de Deus”. Adão, com efeito, não saiu perfeito das mãos de seu criador. Ele vivia em um estado bem-aventurado; devia, contudo, crer e progredir para atingir a “plena estatura de Cristo”. O paraíso é então um estado libertado do pecado, lugar de uma certa intimidade com Deus, de uma livre comunicação com ele. Mas não é ainda a transfiguração plena de nosso ser, a inteira participação na vida divina que nós chamamos de divinização. É a esse último estado que nós chamamos, propriamente falando, de Reino de Deus, que permanece o horizonte de nossa vida espiritual. Uma estrofe da nona ode do cânon pascal sublinha discretamente esta diferença: “Ó Cristo, nossa grande páscoa de santidade, ó Sabedoria dos céus, Verbo e Potência de Deus: dai-nos comungar convosco de uma maneira ainda mais real no dia sem ocaso de vosso Reino”.

A vitória pascal nos faz assim reintegrar ao paraíso. Que isso quer dizer? O ofício do dia pode nos ajudar a precisar em que consiste a “vida paradisíaca”. O traço mais evidente dela é a alegria, a exultação da libertação e da salvação. Como o povo hebreu que veio de se libertar da escravidão no Egito e do massacre que lhe preparava os exércitos do Faraó, os povos da terra são convidados a celebrar na alegria a salvação cósmica trazida pelo Cristo: “Dia da ressurreição! Povos, irradiemos de alegria: é a Páscoa, a Páscoa do Senhor! Cristo nosso Deus nos conduziu da morte à vida, da terra até o céu. Cantemos a vitória do Senhor” (1ª Ode). A alegria da libertação está intimamente ligada à universalidade da salvação realizada pela livre oblação de Cristo: “Hóstia vivente, Deus salvador, que a vós mesmo oferecestes a vosso Pai de bom grado. Ressuscitando do túmulo, vós ressuscitastes convosco todo o gênero humano” (6ª ode).

O segundo traço é aquele da beleza, reflexo do mundo que vem, do Reino de Deus: “Que santa e bela é em verdade, esta noite de nossa redenção, mensageira radiosa do dia radiante da ressurreição, onde, saindo do túmulo corporalmente, brilhou sobre o mundo a eterna claridade”. A noite pascal é o momento por excelência onde se reúnem no maravilhamento “aqueles que amam a beleza da vossa casa”, como diz a Divina Liturgia. O edifício engrandecido pela luz, a beleza alegre dos cantos, o cintilar dos ícones, a alegria que transfigura cada um: tudo isto é uma imagem vivente do Deus “Agathos”, quer dizer, ao mesmo tempo belo e bom.

O terceiro elemento deste retorno ao paraíso é aquele do perdão e da reconciliação. A nova realidade à qual nos dá acesso a ressurreição: a vida eclesial que é um lugar de comunhão instaurador de uma fraternidade reencontrada que se manifesta pelo beijo pascal: “É o dia da ressurreição, nesta festa regozijemos; abracemo-nos uns aos outros, chamemos com o nome de irmão nossos inimigos. Perdoemos por causa da ressurreição a fim de poder cantar: Cristo ressuscitou, pela morte venceu a morte, e deu a vida aos que estão nos túmulos” (Doxastikon de versos de Páscoa). E esta reconciliação universal, esta paz “que ultrapassa todo entendimento”, preconizada com tanta insistência pelo Evangelho, não é a menor característica da vida paradisíaca.

Não esqueçamos, enfim, da vida sacramental, que permite ao milagre da ressurreição de se perpetuar em toda duração nossa vida. Ela é a origem de nosso renascimento e de nossa crença espiritual, a fonte mística na qual podemos nos saciar em todo tempo, uma vez que nos o façamos com um coração puro, humilde e reconhecedor: “Vinde, bebei todos da cheia nova da fonte da imortalidade, que não brota mais da rocha ou do deserto, mas do túmulo de Cristo, nossa força e nossa alegria” (Hirmnos da 2ª Ode). Ou ainda: “Saboreemos o fruto novo da vinha, comunguemos da divina alegria, tomemos parte no Reino do Cristo, cantando-o como Deus nos séculos” (8ª Ode).

Com esta reintrodução no paraíso, o ferrolho está aferrolhado. O tempo da quaresma tinha começado sobre os auspícios dramáticos da expulsão do Paraíso. O Domingo do Perdão e a segunda-feira que o segue, primeiro dia da santa quarentena, carregam a dor condolente do paraíso perdido. O Cristo não somente restaurou o que Adão havia destruído, mas, recapitulando todo o plano divino, realizou em si mesmo, no lugar do primeiro criado declinante, o que era esperado dele na origem. A extraordinária coerência simbólica da liturgia brilha neste cumprimento.

Páscoa em nossa vida

A Páscoa não é um dia dentre os cento e sessenta e cinco do ano. Ela não é nem mesmo um dia totalmente à parte. É “o” dia, o único verdadeiro e credível, que deve colorir de sua tinta particular não só o resto do ciclo anual, mas todos os dias de nossa vida. Um de meus amigos, monge beneditino do Mosteiro de Chevotogne, confiou-me que ele escolheu esta comunidade porque escutara dizer que, para aqueles que celebram o rito bizantino “todos os dias eram domingo e todos os domingos, Páscoa”. Esta observação é profundamente verdadeira sob seu aspecto agradável. Cada domingo, em nossa tradição, é uma pequena Páscoa semanal, onde nós podemos mergulhar de novo na fonte da imortalidade. A celebração dominical da ressurreição nos re-invoca que, além das vicissitudes de nossa vida, nossa verdadeira casa é o paraíso da existência eclesial; que somos já salvos por Cristo; e que lá nós experimentamos secretamente a glória que nos é reservada. Isto nos deve servir de viático para atravessar o oceano agitado desta vida, guardando no espírito que “os sofrimentos deste presente não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada” (Rm 8, 18) e cuja atmosfera pascal nos dá um aperitivo maravilhoso.

 

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