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A história dos «cânones ortodoxos de Matinas»

Julianna Wobosiuk

Trad.: Igúmeno Lucas

cânon constitui a mais importante parte do ofício ortodoxo de Matinas e é a mais popular composição hinográfica da literatura ortodoxa do Oriente. A palavra cânon (gr. κανων) significa medida, corda ou linha, usada para as corretas medições em arquitetura. É um poema litúrgico, composto de nove odes apoiadas tematicamente nos nove cânticos bíblicos. Tais cânticos bíblicos possuem correspondente número de versículos, sendo ao mesmo tempo sentenças melódicas. Serviram também como modelos para cânticos de origem posteriores - tropários, que como os cânticos do cânon estão unidos tematicamente. Em outras palavras são um colar de hinos do Antigo Testamento entrelaçados e alternados com cânticos cristãos. Eis uma curta descrição da origem das principais odes do cânon:

  • Cântico de Moisés. Travessia do Mar Vermelho. (Ex 15, 1-19). É uma ode de agradecimento, contando sobre como ele conduziu o povo judeu do Egito pelo fundo do Mar Vermelho.
  • Cântico do povo depois de passar pelo Mar Vermelho (Dt 32, 1-43). Ode penitencial, cantada somente na Grande Quaresma. Nesta ode Moisés julgando o povo pecador convoca o céu por testemunha.
  • Cântico de Santa Ana, mãe do profeta Samuel (1Sm 2,1-10). Esta ode constitui o agradecimento de Santa Ana pelo nascimento de seu filho Samuel, que é um particular antegozo da alegria pelo nascimento de Cristo, Filho de Deus no Novo Testamento.
  • Cântico do profeta Habacuque (Hb 3,2-19). É a ode do profeta Habacuque que previu o aparecimento do Senhor Jesus Cristo na terra.
  • Cântico do Profeta Isaías (Is 26, 9-20). Esta é chamada de ode universal do profeta Isaías.
  • Cântico do Profeta Jonas (Jn 2,3-10). Esta ode apóia-se no Livro do profeta Jonas, que engolido pelo grande peixe, orou a Deus pedindo a salvação.
  • Cântico dos três santos meninos no interior da fornalha (Dn 3, 26-56). Esta ode baseia-se no Livro de Daniel, fala sobre os três meninos milagrosamente salvos da fornalha, onde foram jogados por causa da fé no Deus Único.
  • Cântico dos três santos meninos depois da saída do interior da fornalha (Dn 3,57-90). Ode também baseada no Livro de Daniel relata o episódio de Daniel na cova dos leões com os três jovens. Entre as odes 8 e 9 do cânon é cantado em Matinas o cântico da Theotokos (Lc 1, 46-55): "Minha alma engrandece o Senhor e meu espírito exulta em Deus meu salvador..." junto com o refrão: "Mais venerável que os Querubins".
  • Cântico de Zacarias do Evangelho de São Lucas: (Lc 1, 68-79). Esta ode por sua vez, também, glorifica a Mãe de Deus e é conhecida como cântico de Zacarias.

Os cânticos bíblicos são o fundamento para o surgimento dos cânones. Os criadores dos cânones cristãos apoiando-se nos cânticos bíblicos foram capazes de esclarecer as verdades da fé cristã, previstas já no Antigo Testamento.

O laço teológico de todos os cânones é a idéia da Salvação realizada, seja pela festa celebrada, seja pelo culto a determinado Santo, ao Senhor Jesus Cristo ou à Mãe de Deus. Este feliz plano de Salvação pode-se ver também no fato de as segundas odes serem omitidas, uma vez que são odes penitenciais, que falam em punição, apoiadas no sinistro cântico de pré-morte de Moisés e harmonizam-se apenas com o período de Grande Quaresma.

Entre os criadores de cânones, em primeiro lugar pode-se citar Santo André de Creta. Santo André viveu e se criou no período de auge do desenvolvimento da poesia litúrgica da parte oriental do Império Bizantino - na Síria. Ele é o autor da mais conhecida forma desta categoria, a saber: O Grande Cânone. Esta obra compõe-se de 250 tropários associados com Eirmos (Irmos). Este cânon é chamado de "grande" não pelo seu tamanho, mas pelo seu conteúdo, a sublimidade de pensamentos, profundidade de sentimentos, assim como, pela sua força expressiva. A estrutura temática do Grande Cânon é a seguinte: introdução, onde se dá o desenvolvimento do tema básico da penitência, atinge um ponto de culminância, e a conclusão que está relacionada ao conteúdo novo-testamentário da esperança e fé no Salvador - Nosso Senhor Jesus Cristo.

Santo André de Creta é também o autor de toda uma série de numerosos cânones menores, entre eles, cânones para os quatro primeiros dias da Semana Santa, Domingo de Ramos, Domingo das Miróforas assim como o do Meso-Pentecostes.

O segundo, cronologicamente falando, criador de cânones foi São João Damasceno (676-735), autor do Livro Litúrgico chamado Octoeko. Ele compôs hinos para os dias de domingo, divididos em oito partes e criou música para eles. Surgiram desta maneira os oito modos (oito tons), apoiados na escala grega antiga e passaram a constituir-se a melodia básica do canto litúrgico na Igreja do Oriente. São João de Damasceno compôs toda uma série de cânones, dos quais, o mais conhecido, é o Cânon Pascal. O autor transmite nele a plenitude de alegria e a verdade da Luz da Ressurreição de Cristo até os nossos dias.

Além do cânon pascal, são conhecidos também cânones de São João Damasceno destinados para domingos particulares. Nos cânones cantados nas Doze Grandes Festas o autor, de maneira excepcionalmente clara, expõe a essência destes acontecimentos. A estrutura dos cânones de São João Damasceno é a seguinte: a primeira letra do verso principal da ode - irmos e tropários entram na composição de um acróstico. Assim, então, se o cânon possui 130 estrofes em versos, então, no acróstico existem 130 letras. São João Damasceno ocupa um dos principais lugares entre os criadores de cânones.

São Cosme de Maiuma (c. 680-787), meio-irmão de São João Damasceno, desempenhou papel importante no desenvolvimento dos cânones. Ele é autor de uma série de formas de canto litúrgico da Igreja do Oriente. Tornou-se celebre como criador dos cânones do Triódion, para todos os dias da Semana Santa. Além disso, escreveu cânones para as Festas: Exaltação da Cruz, Natal, Teofania, Transfiguração, Dormição da Mãe de Deus entre outras. Entretanto, a mais rica obra, do ponto de vista teológico, de São Cosme de Maiuma é o Cânon da Festa do Pentecostes, no qual o autor apresenta, entre outras, a visão da Igreja, segundo a qual, todas as nações se unirão em unidade de Fé em nome da Santíssima Trindade.

Ao lado de tais eminentes criadores de cânones, que citamos acima: Santo André de Creta, São João Damasceno e São Cosme de Maiuma, atuaram também outros poetas, que ocuparam-se da composição de cânones. Entre eles: São Sofrônio - patriarca de Jerusalém, São Hermam - patriarca de Constantinopla, São Teodoro o Estudita e muitos outros.

A obra missionária dos Santos irmãos Cirilo e Metódio abre novo período na história da Igreja do Oriente. Os Santos irmãos realizaram a tradução para o idioma eslavônico das Sagradas Escrituras e de alguns livros litúrgicos. Em conseqüência, os cânones gregos lentamente vão sendo adaptados para os idiomas eslavos, aliás, novos surgem com base nos textos traduzidos. Os dados históricos afirmam que as odes - cânones - eram executados com melodia mais solene que os Salmos. Na Rússia foi aceita, porém, a maneira constantinopolitana de execução dos cânones, que consistia no fato de que eram cantados em sua totalidade.

O Concílio dos Cem Capítulos de 1555 decidiu que os tropários seriam recitados, porém, só seriam cantados os cânticos principais. Este costume, é claro, foi aceito no território da Polônia oriental.

O cânon constitui-se de oito cânticos (irmos), isto é, as estrofes iniciais, seguidos de vários tropários e katavassia. Importante elemento constituindo introdução aos tropários e sendo ao mesmo tempo uma súplica pela intercessão de determinado Santo, da Santíssima Virgem Maria ou de Jesus Cristo é o chamado "Πρυπιω" - refrão (l). O refrão permite aos reunidos na igreja facilmente orientar-se sobre o conteúdo do tropário a ser recitado do cânon. As frases melódicas e textuais dos tropários, tendo como conteúdo o tema da festa ou do dia, são muito parecidas com o do cântico principal (irmos) e ligam-se a ele (irmos) formando uma unidade, criando uniformidade nas palavras e na melodia. A base melódica dos cânticos dos cânones apresentados em Matinas de todo o ano litúrgico são melodias dos cânones de domingo. O Cânon constitui-se de três partes separadas por Pequenas Litanias (depois da 3ª Ode, depois da 6ª Ode e depois da 9ª Ode), assim como com textos recitados: depois da 3ª Ode o tropário-kathisma (siedalem), depois da 6ª Ode um kondákion, depois da 9ª Ode um hexapostilárion ou de um photagogika. A estrutura contemporânea dos cânticos do cânon segue a seguinte forma:

  • Irmos - cantado;
  • Refrão com os tropários - recitados;
  • Katavassia - cantada;
  • Pequena Litania.

Os cânones de domingo possuem oito melodias para todos os modelos melódicos, o que está de acordo com o sistema de oito modos tonais. Na prática da Igreja Ortodoxa Autocéfala da Polônia predominam as melodias de canto aproveitadas do cânon, apoiadas nas tradições de Chelm, Biala Podlaska e Halick.


Notas:

(1) Como exemplos temos: "Santíssima Mãe de Deus, roga a Deus por nós"; "Venerável Pai Nicolau, interceda por nós"; "Glória, Senhor, à Tua santa Ressurreição"; "Santíssima Mãe de Deus, salva-nos".

Notas da Tradução:

O Hexapostilárion é, normalmente, encontrado no Octoekos e o Photagogika no Menéia. Os Photagógika substituem o Hexapostilárion nas Festas, quando estas caem em um dia de semana. Photagógikon significa "que conduz à luz". Os Photagógika substituem, na Grande Quaresma, os Hexapostilárion do tempo comum, no Ofício de Matinas. Os Photagógika cantam a Cristo como a Luz do Mundo. Os Hexapostilárion aos domingos estão sempre relacionados com o Evangelho da Ressurreição lido anteriormente no Ofício de Matinas. O Hexapostilárion é lido normalmente, mas, em ocasiões especiais, pode ser cantado como em 15/28 de agosto, Festa da Dormição da Mãe de Deus.

Fonte:

Boletim Interparoquial - Órgão informativo da Diocese Ortodoxa do R. Janeiro e Olinda-Recife da Igreja Ortodoxa Autocéfala da Polônia - Edição: Dezembro/2005 - pp. 19-244.

 

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