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Anunciação (Constantinopla, século XIV)

25 de Março:

Anunciação à Santíssima Virgem Maria

uem entrar numa igreja ortodoxa notará sempre nas portas centrais da Iconostase o ícone representando a cena da Anunciação: numa folha da porta está o anjo Gabriel e na outra a Virgem. Às vezes a dimensão da cena pode até estar reduzida, mas sempre o "início da salvação" é posto iconograficamente em posição de destaque e a mesma porta parece sugerir a idéia do ingresso de Deus na humanidade, ao encarnar-se no seio da Virgem Maria.

Cristãos do Oriente e do Ocidente celebram, habitualmente juntos, a festa da Anunciação do Senhor, no dia 25 de março. Porém, enquanto os católicos romanos, tendo em conta o período litúrgico, por vezes transferem a data da festa, os fiéis de tradição constantinopolitana celebram-na exatamente nesse dia, querendo respeitar os nove meses exatos em relação à data do Natal de Cristo, mesmo que esse dia tivesse de cair na Semana Santa.

Hoje é o começo da nossa salvação
e a manifestação do eterno mistério:
o Filho de Deus torna-se Filho da Virgem
e Gabriel anuncia a graça.
Com ele aclamamos, pois, à Mãe de Deus:
Ave, ó cheia de graça, o Senhor é contigo!

Tropário (4º tom)

Assim o tropário principal da festa resume o evento da encarnação de nosso Senhor Jesus Cristo e merece deter-se na expressão "cheia de graça" que, no grego, como no eslavo, é formada por uma única palavra, como que um novo nome caracterizando a Virgem de Nazaré que se torna a Mãe de Deus e que inúmeras vezes se faz presente nos textos dos Ofícios do dia. Quase sempre a data cai durante a Quaresma, Por isso há somente um dia de pré-festa e a celebração se conclui à tarde do mesmo dia 25, ao passo que, no dia 26, se lembra, conforme o costume bizantino, de comemorar no dia seguinte, o segundo protagonista da festa, o arcanjo Gabriel. O tropário da véspera convida à exultação:

Hoje é o prelúdio da alegria universal.
Com júbilo celebremos a pré-festa,
pois Gabriel com espanto e temor se aproxima da Virgem
para anunciar-lhe a boa nova:
Ave, ó cheia de graça, o Senhor é contigo!

Tropário (4º tom)

É sabido que a palavra do original grego habitualmente traduzida por "Salve" ou "Ave," literalmente significa "alegra-te" e essa versão foi conservada no texto eslavo eclesiástico. Toda a celebração é rica de expressões poéticas em que se aprofunda a reflexão teológica sobre o grande mistério da encarnação do Verbo: Maria é saudada como "sarça incombusta," "abismo insondável," "ponte que conduz aos céus e escada que ali se eleva, como Jacó a contemplou," "nova Eva que desfez a maldição e chamamento de Adão," receptáculo do ser que nenhum outro pôde conter." Nas Vésperas se fazem cinco leituras bíblicas tiradas do Antigo Testamento: Gênesis (escada de Jacó), Êxodo (sarça ardente), Provérbios ("A Sabedoria construiu para si uma casa" e "O Senhor me possuiu desde o começo") e Ezequiel (a porta pela qual o Eterno passará e que depois permanecerá fechada). Lá pelo fim há uma composição hinográfica de André de Jerusalém († 740) que é uma síntese dos temas e o tom da festa:

Hoje é o ledo anúncio da alegria, triunfo da Virgem;
as coisas aqui debaixo se harmonizam com as de cima;
Adão foi renovado e Eva libertada da tristeza primitiva;
o tabernáculo da nossa mesma natureza,
com a divinização da substância assumida,
foi consagrado Templo de Deus.

Ó Mistério!
Incompreensível é a maneira desse rebaixamento,
inefável a maneira dessa concepção.
Um anjo se encarrega dessa missão prodigiosa;
um regaço virginal acolhe o Filho;
o Espírito Santo é enviado do alto;
o Pai, nos céus, se compraz
e a união acontece por vontade comum.
Salvos nele e por ele,
unamos as nossas vozes à de Gabriel
e gritemos à Virgem: Ave, ó cheia de graça,
da qual veio a salvação, Cristo, nosso Deus,
que, tendo assumido a nossa natureza,
a elevou à altura da sua.
Roga-lhe para que salve nossas almas!

Uma particularidade do Cânon do ofício matinal desse dia é a forma dialogal com o qual foi composto. As estrofes se alternam entre o diálogo da Mãe de Deus e o diálogo em que o anjo fala. As seis primeiras Odes são de autoria de São Teófanes, o "Marcado," bispo de Nicéia († 845) e as outras três têm como autor São João Damasceno. A cada estrofe-tropário repete-se a invocação: «Santíssima Mãe de Deus, salva-nos!»

Também através de perguntas, hesitações, respostas de esclarecimento, o Ofício do dia confirma aquilo que o conhecido teólogo bizantino, leigo, Nicolau Cabasilas, afirmava a respeito da Anunciação: «A encarnação, não foi somente obra do Pai, da sua potência e do seu Espírito; mas foi também obra da vontade e da fé da Virgem,» a qual, num hino das Vésperas, depois que o anjo lhe tinha lembrado que «quando Deus quer, a ordem da natureza é vencida e obras prodigiosas são realizadas», assim exclama:

Faça-se em mim segundo a tua palavra:
porei ao mundo aquele que não tem corpo
e que de mim tomará carne,
para reconduzir o homem à sua primitiva dignidade,
pois somente ele pode fazê-lo, mediante esta união.

O evento que celebramos no dia 25 de março aconteceu em Nazaré, no Oriente. É compreensível, pois, que tal festa tenha começado a ser celebrada ali. Foi introduzida em Roma, posteriormente, pelo papa Sérgio I, já por nós citado, um siciliano de origem Síria e de cultura grega.

O belíssimo hino Akathistos, em honra da Mãe de Deus, tão apreciado pela piedade popular bizantina há cerca de treze séculos, e que agora começa a ser conhecido também no Ocidente, está presente em diversos trechos do Ofício da festa, como por exemplo no proêmio que precede as vinte e quatro estrofes do hino, ou no kondakion (8º tom) cujo texto transcrevemos em seguida:

Ó Mãe de Deus, invencível estratega,
nós, teus servos, elevamos a ti
o hino de vitória e de gratidão
por ter nos salvado de terríveis calamidades.
Tu, pois, cujo poder é irresistível,
livra-nos de todo mal,
para que possamos a ti clamar:
Ave, Virgem e Esposa!

Para concluir, eis a reflexão de Pavel Florensky, sacerdote ortodoxo russo - gênio poliédrico ao qual a mesma Enciclopédia soviética dedicou três colunas - falecido num lager nos anos Quarenta: "O momento da Anunciação, no qual a criação, na pessoa da Mãe de Deus, acolhe a divindade em si mesma, contém toda a eternidade e, nesta, toda a plenitude dos tempos. A festa da Anunciação, do ponto de vista cósmico, celebra-se no equinócio da primavera ... Como nesse equinócio está incluída em germe toda a plenitude do ano cósmico, assim a Anunciação contém, como o botão de uma flor, a plenitude do ano eclesiástico. Pois bem, o ano cósmico e o ano eclesiástico são figuras do ano ontológico, isto é, o ano ou a plenitude dos tempos e das pausas de toda a história mundial. Esta está contida inteiramente na Virgem Maria, e a Virgem Maria se expressa por completo no momento da anunciação."


Fonte:

«O ANO LITÚRGICO BIZANTINO» Madre Maria Donadeo

 

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