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TERRA SANTA:

Os muçulmanos encarregados do ritual de abrir e fechar a Igreja do Santo Sepulcro

Foto 1 (Getty Imagens): Jerusalém continua tendo importante significado para cristãos, muçulmanos e judeus.

Por: Sara Toth Stub
BBC Travel, 16 abril 2017
Trad. (espanhol): Pe. André Sperandio

m uma recente manhã de domingo, Jawad Joudeh Al Husseini estava sentado num banco dentro da única entrada pública para a Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém.

A porta de entrada para a grande igreja, fundada no século IV, é onde este muçulmano de 53 anos de idade passou grande parte de sua vida. Seu pai, avô e dezenas de gerações de antepassados também dedicaram grande parte de suas vidas a sentar neste banco, guardando a igreja que, segundo a tradição cristã, contém o túmulo de Jesus, explica Al Husseini, retirando uma chave de ferro de 20 centímetros de dentro do bolso de sua jaqueta de couro. Essa chave é a única que pode abrir as imponentes portas de madeira da igreja, um dever que, de acordo com Al Husseini, foi confiado à sua família por Saladino, o sultão que tomou Jerusalém dos cruzados em 1187, uma das muitas vezes em que o controle de Jerusalém, tão cobiçado, em razão de sua santidade, por judeus, cristãos e muçulmanos, mudou de mãos.

Saladino queria estar seguro de que a Igreja não seria danificada por outros muçulmanos, o que ocorreu em 1009 quando o califa al-Hakim ordenou que fossem queimadas várias igrejas na Terra Santa, incluindo o Santo Sepulcro (o filho de Al-Hakim aprovou a reconstrução da igreja em 1128).

Foto 2 (Getty Imagens): Representantes da Igreja Católica Romana rodeiam a edícula, onde acredita-se que estejam as relíquias de Jesus.

Disse Al Husseini:

«Assim que Saladino entregou à nossa família a chave para proteger a igreja, ela foi recebida como uma honra, não só para a nossa família, mas, para todos os muçulmanos do mundo».

Os membros da família de Al-Husseini, juntamente com outra família muçulmana, os Nuseibehs , tornaram-se parte integrante da complexa estrutura da Igreja do Santo Sepulcro.

Uma difícil convivência

Ao longo da história, as relações entre as comunidades religiosas deste complexo foram tensas e, às vezes, chegaram a situações de violência pelo controle sobre as partes do edifício.

Até o dia de hoje, um decreto otomano do século XIX tenta manter estas tensões sob controle, declarando que cada confissão se limite a usar os espaços que controlavam quando o decreto foi promulgado, em 1853.

Todas as manhãs, quando as portas da igreja se abrem às 04:00, membros das duas famílias de igrejas - ou um representante designado por eles - estão presentes para o que se tornou um ato cerimonial de cooperação.

O representante muçulmano remove o trinco e empurrado para abrir uma folha da porta; em seguida, um clérigo da Igreja Católico-romana, Ortodoxa Grega ou ortodoxa Armênia abre a outra folha da porta por dentro, enquanto um clérigo de uma das demais denominações supervisiona a cerimônia. O mesmo acontece no sentido inverso, quando a igreja fecha as suas portas às 19:00 hs.

Foto 4 (Sara Toth Stub): A chave de 20cm de cumprimento é a única que pode abrir a porta.

Os turistas e peregrinos que vêm aqui para beijar a laje de pedra onde o corpo de Jesus foi purificado antes do sepultamento, entram na câmara subterrânea onde, segundo se crê, está o túmulo, passam diante dos guardas muçulmanos, que ficam sentados no banco a maior parte do dia enquanto atendem à família e os negócios.

Uma tradição

Os historiadores não conseguem determinar há quanto tempo remonta a função destes porteiros, nem fizeram qualquer tentativa no sentido de refutar este histórico legado, algo que a maioria considera essencial para as operações diárias da igreja.

«É, basicamente, como tantas coisas na Igreja, uma tradição».Diz Raymond Cohen, Professor emérito de relações internacionais na Universidade Hebraica de Jerusalém, que estudou a Igreja e escreveu o livro Saving the Holy Sepulchre (Salvando o Santo Sepulcro). «E, na verdade, creio que esta é uma das joias de Jerusalém».

Enquanto a família de Al-Husseini tem a chave, a de Nuseibeh é responsável pelo trabalho físico de abrir e fechar a porta da igreja, um dever que remonta o ano de 637, quando o califa Omar trouxe, pela primeira vez, o Islam para Jerusalém explica Wajeeh Y Nuseibeh, 67 anos, sentado no banco junto a Huseini.

«Nossa família chegou pela primeira vez a Jerusalém com Omar » e desde então lhe foi confiada a proteção da igreja contra as ações dos vândalos, disse Nuseibeh, entregando-me seu cartão de negócios onde consta que é « Zelador e guardião da Igreja do Santo Sepulcro».

Foto 5 (Getty Imagens): Um arcebispo sírio, que representa uma das denominações que usam a igreja, reza sobre a pedra da deposição.

Mas Husseini insiste em que a família de Nuseibeh passou a fazer parte da abertura das portas da igreja muito mais tarde.

Conflitos entre potencias

Além para sobreviver aos caprichos dos poderes governantes de Jerusalém, incluindo centenas de anos atrás, quando o califado cobrava grandes somas de dinheiro dos peregrinos que queriam entrar, a igreja também foi deteriorada por conflitos internos. Estas divergências ameaçaram, inclusive, criar sérios conflitos entre potências mundiais.

Em 1853, a Rússia ameaçou invadir a Turquia se o governo otomano, que também controlava Jerusalém, aceitasse o pedido da França para que fosse entregue aos católicos romanos parte da basílica sob custódia da Igreja Ortodoxa Grega.

Isto fez com que o Sultão Abdülmecid I emitisse um decreto determinando que não haveria qualquer transferência de propriedade e direitos dentro da igreja.

Atualmente, este status quo imposto às denominações ainda governa todas as facetas da vida da igreja, desde os horários programados dos serviços religiosos diários e seus respectivos idiomas, até o roteiro de uma procissão.

Qualquer mudança na rotina é uma ameaça de discórdia e violência, que se manifestou pela a última vez em 2008, quando clérigos ortodoxos armênios e gregos se desentenderam sobre o roteiro de uma procissão, o que chegou a resultar em prisões. A delicada natureza de manter status quo significa que renovações e reparações são raras, diz Cohen.

Foto 7 (Getty Imagens): A Igreja Ortodoxa Etíope é uma das seis igrejas antigas no Santo Sepulcro.

Após décadas de negociações, os líderes latinos, ortodoxos armênios e gregos chegaram recentemente a um acordo histórico para reparar a estrutura que cobre o que creem ser a tumba de Jesus, tendo em conta que os arquitetos alertaram há muito tempo que se encontrava em perigo de colapso.

Por que estão agora restaurando o «túmulo» de Jesus em Jerusalém?

A estrutura quadrada, conhecida como a edícula, situada abaixo da Rotunda principal da igreja, está agora coberta por andaimes. Este é o primeiro trabalho de reparação da capela da tumba em mais de 200 anos e o primeiro projeto importante para qualquer parte do edifício desde que foi restaurada no início da década de 1960.

Um «suéter de lã»

Mas, mesmo que agora as denominações possam cooperar melhor do que no passado e contam com a polícia israelense para manter a ordem, os porteiros são uma encarnação de como as antigas tradições e a participação dos estrangeiros determinaram grande parte do curso da história do Santo Sepulcro. «As coisas são como um suéter de lá, por aqui: se se começa a puxar um fio, tudo se desfaz» , advertiu o Cohen.

Foto 7 (Getty Imagens): Membros da Igreja Ortodoxa Armênia na cerimônia de abertura das portas da Igreja do Santo Sepulcro de Jerusalém.

Às 18:30 de domingo, meia hora antes de encerrar a programação, um ruído alto atravessa o silêncio da igreja. É Omar Sumren realizando o golpe ritual do fecho e, em seguida, fechando uma das duas folhas da porta em preparação para o fechamento final. Sumren e seu irmão, Ishmael, trabalham em nome Al Husseini há 25 anos, realizando a tarefa de abertura e fechamento quando ele está ocupado. Sempre antes das 19:00, quando os últimos visitantes deixaram a igreja, Ishmael levanta a escada que se encontra apoiada por dentro das portas da igreja e a retira para fora.

Foto 8 (Getty Imagens): A igreja tem conseguido sobreviver às mudanças de governo, assim como aos muitos conflitos territoriais no interior de seu edifício.

Dois monges franciscanos (latinos) com seus hábitos marrons e cinturões de cordas, com sacerdotes ortodoxos gregos e armênios vestidos de preto, permanecem no umbral da porta observando cada movimento. Um policial israelense também está presente para o ritual diário. Ishmael fecha a porta e depois sobe a escada para fechar a trava superior. Desce depois, dobra a escada e devolve aos sacerdotes através de uma pequena escotilha na porta.

Entretanto, os monges iniciam mais uma noite no interior da igreja, Omar, responsável pela chave de Al-Husseini, retira-se a uma pequena habitação ao lado do pátio principal, em frente à igreja. Cada noite um dos homens responsáveis pela tarefa da porta dorme aqui, pronto para realizar a abertura logo pela manhã do dia seguinte. « Isto, para mim é minha segunda casa » diz al Husseini.

Para ver o original deste artigo em inglês no site da BBC Travel ou em espanhol.

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