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outubro-2007 A Igreja, mistério divino no meio do mundo «Cristo é o chefe da Igreja, (Ef 5,23).
Nela convivem santos e pecadores, heróis e traidores. Nela há lugar para São Pedro e para Judas Iscariotes, para a mãe piedosa e para o filho rebelde, para o opressor e para o oprimido. Ela não existe nas alturas, como se fosse uma idéia, mas existe concretamente pela participação dos cristãos. Se um cristão é santo, a Igreja é santa; se é pecador, ela é pecadora. Se o cristão faz o bem, a Igreja comunica esse bem aos outros membros; se um cristão faz o mal, prejudica, do mesmo modo, os outros participantes da Igreja, porque ela é como um corpo, onde cada órgão influi no bem estar ou no sofrimento geral. Nenhum cristão pode falar de sua Igreja como se não fosse integrante dela. A Igreja está no mundo, mas não é do mundo, é uma peregrina em busca do endereço definitivo, o Reino dos Céus. Seu corpo está no mundo, mas sua Cabeça, no céu. Se todos os homens pecassem, ela continuaria santa, pois sua cabeça é Jesus Cristo: a energia que lhe dá vida é divina. Como numa árvore, podemos arrancar lhe todos os galhos, mas o tronco brotará de novo. É o Espírito Santo que lhe garante a existência, e não a competência humana. A santidade da Igreja é a santidade de Deus, e não santidade dos homens. O mundo pode ter todo o interesse em destruí la, mas não conseguirá, apesar de há dois mil anos estar tentando: é impossível destruir o próprio Cristo, destruir a obra de Deus. A finalidade da Igreja é fazer com que seus membros sejam santos, como Deus é santo. Ela garante que a santidade sempre germinará no mundo, produzindo frutos de justiça, amor, verdade, graça e paz. Sempre haverá santos no mundo, porque o sinal principal da existência da Igreja é a santidade. Nela entramos como pecadores, para nos tornarmos santos. Amar a Igreja é amar ao próprio Cristo. Entrar nela, é passar a fazer parte do Corpo de Cristo. A Igreja é a Palavra de Deus vivida na história, é o fruto maduro da Eucaristia, é a Alegria dos que se sabem pecadores, mas amados por Deus e pelos irmãos.
Uma palavra a Lindalva e Albertina
Irmã Lindalva Justo de Oliveira, você vestiu o hábito das Irmãs Vicentinas para trabalhar com e pelos pobres. Sua decisão levou-a a Salvador para junto dos idosos no Abrigo Dom Pedro II. Seu coração misericordioso fê-la quebrar as regras da casa, aceitando um homem de 46 anos entre os albergados. A caridade de você inaugurou seu calvário. Você era bela, generosa, feliz e aquele homem não suportou sua beleza. Não quis contemplá-la, mas possuí-la. Seu “não” foi claro e definitivo diante do assédio contínuo que a fazia sofrer. Você começou a ter medo, e procurou afastar-se o mais que pôde. Seu amor aos velhinhos a manteve no Abrigo, e chegou a dizer a uma irmã: “prefiro que meu sangue seja derramado a afastar-me daqui”. Irmã Lindalva, em 9 de abril, na manhã da Sexta-feira santa de 1993, você retornava da Via-sacra e passou a servir o café aos anciãos. Aquele homem agarrou você, golpeou-a, atirou-a ao chão e, após 44 facadas, descansou. Horas depois, como Jesus na cruz, você também entregava o espírito, na plenitude de seus 39 anos. Albertina, neste 20 de outubro a Igreja a declarará Bem-aventuradas e a você, Irmã Lindalva, em 25 de novembro. O coro celeste celebrará seu heroísmo, glória dos que alvejam as vestes no sangue do Cordeiro. O heroísmo de vocês nos envergonha. Pior ainda: constrange. Nós, cristãos, padres e leigos enrubesceremos ao contar a história de vocês. Há muito tempo aceitamos nos sentar sobre a cruz, para que ela sossegue e nos deixe livres para os sucessos do prazer que também nos fascinam. Inventamos até uma teologia para torná-la inexpressiva, invisível, fabricamos um “deus” a que se achega refletindo, discutindo, não criando conflitos. Homens, mulheres, jovens e crianças, com riso debochado, dirão: “Como foram tolas! Afinal, mais vale viver do que esse sacrifício, e todo mundo faz. Por que vocês não?”. Até alguns de nós religiosos, hoje expostos nos noticiários de alguns países por violência contra menores, pagando a defesa de nossa desonra com o pão dos pobres, como falaremos de vocês? Nossos jovens e crianças, freqüentadores de nossos catecismos, estão saturados com a justificação social geral: “Façam, mas não se esqueçam da camisinha! Não carreguem a cruz da fidelidade ao Senhor, mas sejam fiéis ao mundo do prazer, cada vez melhor e variado”. Nosso santuário interior hospeda um cipoal de egoísmos que torna difícil descobrir onde está a vida e onde mora o amor, apesar de tudo ser tão luminoso! Albertina e Lindalva, vocês serão honradas a contento, e a vida seguirá. Mas, o pessimismo e a auto-flagelação também não levam a nada. Por isso mesmo, a Igreja faz-lhes um pedido: libertem-na de oferecer aos que têm fome as pedras teológicas dos catecismos que escondem o Evangelho. A Igreja, nós, queremos aprender a oferecer-lhes o “pão dos anjos” e “o coração do irmão humano oferecido como alimento puro” (Orígenes, Hom. 7, in Lev.).
O autor, Pe. José Artulino Besen é historiador eclesiástico, professor de História da Igreja no Instituto Teológico de Santa Catarina – ITESC desde 1975 . |
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