Site Oficial do Patriarcado Ecuimênico de Constantinopla Voltar à Página Inicial Contate-nos buscador em www.ecclesia.com.br Acesso ao webmail ecclesia  
Novidades e Atualizações
Suplemento Litúrgico para os Domingos e Grandes Festas
Seleção de Textos Relacionados
Galeria de Fotos
Seleção de Ícones Bizantinos
Pedido de Oração à Comunidade Monástica São João, o Teólogo - São José - SC (Brasil)
Links Relacionados
Biblioteca Ecclesia
 
 
 

E C C L E S I A
Buscar na Web

 

 

Agosto -2008

A pessoa é sempre um mistério

«Sede bendito, Senhor,
por me haverdes feito de modo tão maravilhoso,
conheceis até o fundo a minha alma»

(Sl 138,14)

á noivos que após algum tempo de casados se estranham: «Pensei que já conhecia você. Mas, você é tão diferente!». Daí surgem crises que, ou desembocam num amor maior, ou no fim da vida a dois. Há também amigos que de repente se estranham: «Pensei que você fosse diferente!». A amizade poderá crescer, ou levar à indiferença.

Nós temos uma tendência de dominar a pessoa pelo conhecimento dela. Quanto mais a conhecemos, mais teremos condições de dominá-la. Queremos saber tudo a seu respeito: o que pensa, o que faz, o que quer, o que sente. O desconhecido nos amedronta, é misterioso. Ou nos afugenta, ou nos faz cair na admiração, que é a atitude normal diante do mistério.

Existe em cada um de nós um campo que não pode ser dominado: é a nossa interioridade, a nossa intimidade. Constitui o nosso «segredo» pessoal. Se nossa intimidade fosse totalmente conhecida, deixaríamos de ser pessoas, e nos tornaríamos objetos. Poderíamos ser dominados pelos outros. É essa intimidade que caracteriza a nossa diferença, o nosso mistério pessoal. É desse mistério que se nutre o amor.

Nossa época é marcada pela devassa da interioridade das pessoas que, por sua vez, perderam o pudor. Revistas de fofocas comentam aspectos íntimos de pessoas e elas, por sua vez, se expõem na sua intimidade. O preço disso é a banalização da pessoa, tornando-a incapaz de um amor verdadeiro, cultivado.

Quanto mais conhecemos uma pessoa, menos a conhecemos, mais ela se torna misteriosa, desconhecida. O amor nos faz, então, aprofundar o conhecimento pessoal ou, em outras palavras, aprofundar a admiração, o amor. E isso, numa proporção sem limite.

O amor é mais forte do que a morte. Uma vida, por mais longa que seja, é extremamente curta para conhecermos uma pessoa. Uma vida é muito breve para amarmos suficientemente. Nesse ponto muitos se enganam: acham que já se conhecem o suficiente, que já se amam bastante. Acomodam-se um diante do outro, e a vida a dois se torna monótona, solitária, insuportável. Quando o casal acha que já se conhece o suficiente, a vida perde a graça, termina o esforço compensador de aprofundar o relacionamento, acaba a admiração. Isso acontece, sobretudo quando o amor nasceu da beleza física, ou da riqueza, ou do status. Beleza, riqueza, status podem ser ponto de partida para um grande amor, mas não o alimentam por muito tempo.

O amor se nutre do fascínio, da contemplação do mistério pessoal. E, nesse ponto, a decadência física, a pobreza, não colocam obstáculo, pois amamos uma pessoa, e não suas qualidades ou aparências. As qualidades, separadas da pessoa, significam pouco. Mas a pessoa, na sua riqueza pessoal, sempre é um poço de qualidades.

Por mais que os pais conheçam os filhos, eles serão sempre surpreendentes e admiráveis. Por mais que um amigo conheça seu amigo, ele será sempre mais digno de admiração. A pessoa é um mistério, porque participa do mistério de Deus. Podemos dominar uma pedra, torná-la pó, analisar suas moléculas, átomos. Ela deixará de ser pedra: será pó. O ser humano, não: é semelhante a Deus que, quanto mais se revela, mais se torna mistério. O mistério de Deus nos leva à adoração; e o mistério da pessoa humana nos leva à admiração, alimento do amor pessoal.

 

 

Paulo, ou a Justificação pela Fé

comunidade cristã de Roma tinha sido fundada por judeus que aderiram a Cristo, os judeu-cristãos. Era tendência desses cristãos julgar que, para aceitar Cristo, seria necessário vincular-se à Lei da Antiga Aliança com os seus preceitos de circuncisão, guarda do sábado, abluções, alimentos puros e impuros. Isso constrangia os pagãos que queriam aceitar Cristo como seu Senhor, mas não queriam ser judeus.

Surgiu o conflito entre a Lei e a Graça, entre a salvação pela Lei e a salvação pela Fé, tema esse que levou ao primeiro Concílio em Jerusalém.

A experiência pessoal de Paulo era muito clara: judeu fervoroso, do grupo dos fariseus, ele perseguia os cristãos e odiava o Cristo. Ora, se bastasse a Lei para a salvação, estaria salvo com toda a tranqüilidade, pois era um judeu correto, zeloso da tradição dos Pais. Mas, o Senhor o buscou e o transformou por Graça, não pela Lei. No caminho de Damasco não lhe foi confirmado continuar a ser fariseu, mas a aceitar a salvação pela invocação do Nome de Jesus. Merecimento de Paulo? Não. Tudo obra da Graça, da gratuidade do amor de Deus revelado em Jesus morto e ressuscitado.

Paulo não abandonou a vivência das tradições da lei mosaica, mas defendeu com todo o vigor que elas não salvavam e que os pagãos que aceitassem Cristo não deveriam ser judaizados, distinguindo entre povo e nação. Sofreu muito por isso: foi chamado de traidor de seu povo num momento difícil da história de Israel, foi apedrejado, difamado, muitas vezes, até pelos cristãos oriundos do judaísmo. Ao chegar a uma cidade, Paulo primeiramente se dirigia à sinagoga, para pregar o Evangelho a seus irmãos judeus. Sempre escorraçado, passou a anunciar Cristo aos pagãos, definitivamente libertando o Cristianismo do nacionalismo judeu.

Escutando que os cristãos de Roma exigiam que os pagãos aceitassem a Lei de Moisés, Paulo escreve-lhes uma Carta pelo ano 57/58, a Carta aos Romanos, um dos textos centrais da fé cristã. A preocupação do Apóstolo é grave: se a Lei mosaica é necessária para a salvação, então o Cristianismo não é necessário. Basta ser bom judeu.

Escreve: “Nele (o Evangelho) se revela a justiça de Deus, que vem pela fé e conduz à fé, como está escrito: ‘O justo viverá pela fé’” (Rom 1, 17). Comentando as três palavras: Evangelho (o Senhor morto e ressuscitado), Justiça (Deus justo que nos faz justos, mesmo sendo nós merecedores de castigo) e (crer no Senhor Jesus, aceitá-lo com Salvador, receber os frutos nascidos da Cruz/Ressurreição e entregar-lhe nossa existência).

Ser cristão não é ser bem comportado (bastaria a lei humana), não é obedecer a Deus como se obedece a um Rei (bastaria um poder punitivo). Ser cristão é entregar a vida, confiantemente, não a um código de conduta, mas a uma Pessoa, o Filho de Deus. Fruto dessa entrega é o amor do Pai que nos chama também de filhos, filhos-no-Filho. Para os que pregam Jesus como modelo de vida e fonte de leis, reafirmaria: O Justo vive pela fé. Somos justos porque Jesus realiza em nós essa obra, por pura Graça, a Graça da Cruz.

Paulo quis que os judeus retomassem as Escrituras, pois eles têm a Lei, mas o que os salva é a Promessa feita a Abraão. A lei serve para conhecer o pecado, não para salvar. Pagãos e judeus têm dívida universal com Deus e são justificados pela fé.

Então, para que servem as obras? É muito claro: uma boa árvore produz bons frutos. Se pela fé aceitamos Jesus como nosso Senhor, nossas boas obras são conseqüência dela. Quem faz de Jesus seu Senhor, vive em Jesus, vive as Bem-aventuranças.

Paulo nunca cedeu na doutrina da Graça. Alguns historiadores atribuem sua condenação à morte não aos pagãos romanos, mas aos judeus que o viam como traidor ou talvez, pior, denunciado pelos judeu-cristãos. Paulo derramou seu sangue com alegria, pois nenhuma dor ou alegria poderiam ser superiores ao conhecimento do amor pessoal de Cristo por ele. E hoje, por nós.

O autor, Pe. José Artulino Besen é historiador eclesiástico, professor de História da Igreja no Instituto Teológico de Santa Catarina – ITESC desde 1975

 

 


 
Voltar à página anterior Ir ao topo

Copyright © 2008 ECCLESIA Brasil