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Fevereiro-2008
«Coragem! Eu venci o mundo» (Jo 16,33) «Quem semeia ventos, colhe tempestade», aprendemos desde pequenos. Colhemos o que plantamos, pois semente de espinheiro produz apenas espinheiros. A sociedade brasileira está colhendo o que semeou nas últimas décadas, especialmente após a revolução dos costumes iniciada há 40 anos, em 1968, em Paris, logo espalhada, como um furacão, por todo o mundo. O lema daquele ano "É proibido proibir", penetrou até a medula nas novas gerações. «É proibido proibir» significava sexo sim, amor não; filhos sim, casamento não; direitos sim, deveres não; liberdade sim, autoridade não; Deus sim, religião não; Cristo sim, Igreja não: corpo sim, pessoa não, e assim por diante. Toda a estrutura ética da vida social foi lançada ao chão. Tinha-se como grande princípio de sabedoria: «duvide de qualquer pessoa acima dos 30 anos». Era a consagração do pensamento jovem, a negação da sabedoria que vem da história. Desacreditaram se as instituições que davam proteção à pessoa humana. A religião foi massacrada, a escola desprezada, a autoridade ridicularizada, a família desmoralizada, a lei e a ordem explicadas como intromissão externa na liberdade sem limites do ser humano. A busca do prazer a qualquer custo, foi apresentada como único ideal para a vida. O homem moveu um processo contra Deus, julgando o inimigo da liberdade e do prazer. Colhemos os frutos: o sexo sem compromisso lançou a família na grande crise que hoje vive. O corpo é usado como se não fosse parte da pessoa, causa de tantas neuroses. Os alunos tratam seus professores como empregados. A Igreja, que representava a grande força moral da sociedade brasileira, tornou se fonte de brincadeiras. A autoridade política esqueceu se de suas responsabilidades e, em linhas gerais, também mergulhou no «salve-se quem puder». A busca de direitos sem deveres aumentou a injustiça social, com a multiplicação dos pobres, dos menores abandonados, do aborto, da escandalosa concentração da renda. Enfim, a vida se desenvolve no clima da violência afetiva, pessoal, cultural, social e econômica. E a violência gera o medo do outro. A cultura da vida se transformou na cultura da morte. A criança, o jovem e o pobre pagam a conta. São presas mais fáceis do egoísmo, esse abutre que quer destruir os sinais de vida e de dignidade ainda sobreviventes. É tempo de voltar atrás, ou melhor, de reconstruir o tecido social através do cultivo dos valores que podem efetivamente proteger a vida: a dignidade da pessoa, da família, o fomento aos valores religiosos, à fraternidade, solidariedade, renúncia, verdade. Ter sempre a certeza: quando o homem e a mulher buscam apenas o proveito próprio, sem limites, serão eles as primeiras vítimas. Não pode existir felicidade duradoura quando se pensa apenas na própria felicidade.
Deus: Ópio, Dinamite ou Vida dos Povos?
O mercado editorial oferece forte literatura onde Deus aparece como delírio, fraqueza, inutilidade, onde a religião é acusada de sempre ser veículo de sofrimento e jamais ter feito algo de bom na história dos povos. De modo particular são atacadas as religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo) por seu presumido fanatismo em torno de um único Deus verdadeiro e ataque sistemático aos que crêem de outra forma, ou não crêem. Quando se fala em monoteísmo (fé num único Deus) deve-se estar atento às generalizações: é um único Deus, mas sua narração e vivência são substancialmente diferentes. Não nos compete analisar o conteúdo da fé de um judeu ou de um muçulmano, mas, temos a obrigação, sim, de dizer que nosso Deus é o Deus narrado por Jesus Cristo, é o Deus que se faz fraco para que sejamos fortes, é o Deus retratado por Jesus na parábola do filho pródigo. E, para escândalo de judeus, muçulmanos e doutores, é o Deus Pai que entrega seu Filho por nós numa cruz. Em Jesus encarnado, rompeu-se o muro de separação entre o mundo divino e o humano, entre o ser humano e o ser divino: o homem é semelhante a Deus porque Deus é semelhante ao homem (Clemente de Alexandria). Gregório de Nissa escreveu, depois: o Homem é a face humana de Deus. O fundamentalista lê os textos sagrados em seu significado literal. Devemos saber analisar os fatos e os textos bíblicos. A Igreja afirma que a Bíblia é a Palavra de Deus, narra a intervenção amorosa de Deus na história. Nela, porém, se encontra igualmente a palavra humana, com a intervenção da ação humana atiçada pelo pecado. O cristão, lendo a Bíblia, é capaz de nela distinguir entre a palavra humana (condição de comunicação) e a Palavra divina (denúncia do pecado). O princípio fundamental da Escritura: Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, já na história bíblica é adulterado para “e o homem fez Deus à sua imagem e semelhança”. O homem violento cria um Deus violento, mas não é o Deus da Revelação, que ama seu povo e se abre em seu amor a todos os povos, o Deus materno cujas vísceras fremem de emoção por nós. No momento em que judeus ocupam a terra de Israel em nome de Deus dela expulsando palestinos, no momento em que muçulmanos se explodem em nome de Alá, quando os cristãos participam de expedições conquistadoras como se fossem missionárias, estão agindo em nome de um deus que fabricaram à sua imagem e semelhança. Aqui não entra Deus, mas o homem que se declara deus. O Primeiro Testamento se completa com o Segundo, com Jesus, Luz que ilumina todas as Escrituras. Jesus, palavra definitiva e rosto do Deus vivo, operou quatro rupturas na religião do AT, abrindo a religião para uma dimensão tão oposta que os primeiros cristãos foram acusados de “ateus” : a passagem dos laços de sangue para a universalidade de fazer-se próximo; o deslocamento da presença de Deus num templo de pedra para o corpo do irmão; a dilatação do horizonte espiritual da terra de Israel ao mundo inteiro; a transformação do poder em serviço através da distinção entre o que é de César e o que é de Deus. Tudo isso recebe uma chave de compreensão: o amor. E Cristo oferece uma arma fatal para acabar com a violência e para discernir de que lado está Deus: o amor ao inimigo. E, como cristãos, temos a fórmula que sintetiza o Amor trinitário: «O Pai é o Amor que crucifica, o Filho é o Amor crucificado e o Espírito Santo é a força invencível da Cruz» (Filarete de Moscou - 1783-1867). O autor, Pe. José Artulino Besen é historiador eclesiástico, professor de História da Igreja no Instituto Teológico de Santa Catarina – ITESC desde 1975 |
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