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Julho -2008
«Eis como meu Pai celeste agirá convosco, (Mt 18,35)
Jesus exemplifica a atitude de Deus e do homem com uma história. Um servo devia unia fortuna a seu rei. Como não podia pagá-la, foi perdoado. Apenas saiu, no caminho encontrou um amigo que lhe devia uma ninharia. Foi intransigente: ou lhe pagasse, ou iria preso. E mandou prendê-lo, sem compaixão. Pouco depois, o rei ficou sabendo da dureza de seu servo. Indignado, mandou prendê-lo e confiscar-lhe os bens, até que pagasse tudo. O rei foi justíssimo: como alguém que foi perdoado em muito, não foi capaz de perdoar em pouco? A situação se repete em nossa vida, infelizmente com muita freqüência. Tanto em relação a Deus, como ao próximo. Somos perdoados com imensa misericórdia, e depois usamos medidas rigorosas e mesquinhas para perdoarmos o semelhante. Normalmente, os que menos perdoam ofensas, são os que mais ofendem. O marido infiel exige fidelidade absoluta de sua esposa, sendo capaz de matá-la num lance de ciúme. O atleta mais bruto do estádio, geralmente é o que mais se indigna com a menor brutalidade. Quem muito exige para si acha sempre exagerado o que o outro pede. O perdão é irmão gêmeo do amor: quem ama, perdoa, quem perdoa, ama. Quem ama, tem a bondade de admitir que o outro erra, e que somente poderá não mais errar se for perdoado. Perdoar e amar, dois pilares sobre os quais se edifica a vida cristã. Deus nos ama, e por isso nos perdoa. O agradecimento menor que lhe podemos oferecer é tomar a mesma atitude diante de quem nos ofendeu. A intransigência no perdoar, destruiu muitas pessoas. Quiseram se reerguer, mas não encontraram uma família, grupo ou comunidade que as perdoasse. O não-perdão condenou-as à morte afetiva, espiritual, arruinou sua vida. Se os pais não perdoarem os deslizes de seus filhos, como poderão eles tentar uma nova vida? Se não perdoarmos as fraquezas de nossos amigos, que amizade é essa que não admite erros? Perdoar é sinal de inteligência e humanidade: hoje sou eu que devo perdoar; sem dúvida alguma, amanhã eu estarei precisando de perdão. Para poder me reerguer, poder crescer. Mas, além de todas as considerações, basta essa: Deus me perdoa a cada vez que peço perdão. Ele não faz estatísticas de meus erros. Não vale a pena ter a mesma compreensão com os que me rodeiam? Paulo, Apóstolo do Crucificado e Ressuscitado «Saulo, entretanto, (At 9,1)
O pobrezinho da Galiléia, que anos atrás subira o Calvário carregando uma cruz, bem merecida por suas blasfêmias, não lhe chamara a atenção. Jesus tinha sido um personagem marginal da capital de Israel e a morte, de acordo com a Lei, foi merecida e justa. Não era estranho ao mundo judeu o multiplicar-se de seitas. O judaísmo convivia com todas, desde que se fosse fiel aos preceitos da Lei. Os galileus eram mais um desses grupos, pensava. E é tomado pelo horror o jovem doutor e teólogo Saulo: ficou sabendo explicavam as Escrituras a não judeus que, ao se converterem, não aderiam aos preceitos mosaicos. Sua ira cresceu mais ainda ao escutar que o grupo de judeus, adeptos de um certo Caminho, aceitava a Lei, sim, mas esperava a salvação não dela, mas de um certo Senhor, aquele coitado Galileu que fora morrera crucificado há uns três anos e do qual anunciavam a ressurreição, e sob cuja invocação completava-se o mistério da Revelação. Saulo treme até o mais profundo de seu ser: onde ficam as Escrituras, as Promessas, os Profetas, a Lei? Era preciso agir com mão forte e com as armas. Tem-se fundadas suspeitas de que Saulo, além de fariseu era também zelota, aquele grupo de judeus que aceitavam a luta armada para a defesa da Lei e do Povo. Saulo vibra quando Estevão é apedrejado: ele invocava como Senhor o Ressuscitado de Jerusalém. Nada mais justo do que o apedrejamento. Enquanto Estevão é morto, Saulo lhe segura as vestes. A Lei foi desagravada. Mas, a situação piorara. O grupo dos seguidores de Jesus tinha fundado uma Igreja, uma nova comunidade religiosa onde, ao lado da observância da Lei, praticavam-se outros ritos, celebrava-se uma Ceia de ação de graças nos sábados à noite e domingo de manhã, freqüentavam o Templo, a Sinagoga, mas se reuniam para comentar e viver os ensinamentos e a vida do Ressuscitado da Galiléia. A Torá era explicada a partir da Pessoa dele. A coisa piorava: também em Damasco se fundara uma Igreja semelhante. “Saulo apresentou-se ao sumo sacerdote e pediu-lhe cartas de recomendação para as sinagogas de Damasco, a fim de trazer presos para Jerusalém os homens e mulheres que encontrasse, adeptos do Caminho” (At 9, 1-2). Recebera poder de convencê-los a retornarem à Lei mesmo ao preço da tortura. E Saulo segue no caminho para Damasco. Deixou para trás Jerusalém, a cidade de Deus, a cidade do Monte Sião. Saulo cavalga rápido. Nada pode ser anteposto à vontade de Deus, para ele razão da existência, força para seu povo. Já estava perto de Damasco e... ...«de repente viu-se cercado por uma luz que vinha do céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saul, Saul, por que me persegues? Saulo perguntou: Quem és tu, Senhor? A voz respondeu: Eu sou Jesus, a quem tu estás perseguindo. Agora, levanta-te, entra na cidade, e ali te será dito o que deves fazer» (At 9, 3-6). Levantando-se, Saulo estava cego. O Senhor tirou dele todas as seguranças, toda a clareza da visão religiosa. Não para iludi-lo, mas para que, ao recuperar a visão, tivesse outros olhos, enxergasse a Lei de Deus além dos limites de uma cultura e a fixasse numa nova Lei, realizada plenamente pelo pobre da Galiléia. Saulo foi envolvido por ele, por sua voz, pela pergunta “por quê?”. E a revelação da identidade: «Eu sou Jesus, a quem tu persegues». Saulo sentiu então que não perseguia um grupo, uma Igreja, não defendia uma Lei, um Templo: perseguia o Senhor! Em Tarso, Ananias o introduziu na vida do Senhor. Duas palavras a identificavam: Cruz e Ressurreição. O Homem crucificado era o Ressuscitado. Era judeu, e era o Senhor, o único Senhor, de quem falaram a Lei e os Profetas. Saulo pede o Batismo: a água penetrada pelo Espírito Santo lava seus olhos. Saulo vê de novo, e vê o novo: a salvação é oferecida a seu Povo, a quem sempre amou e amará, mas também a todos os povos. Deus salva não pela Lei, mas pela fé confiante numa Pessoa, o Senhor. Não há outra escolha: é preciso que todos saibam disso, primeiro os judeus, depois os pagãos. E Saulo não teve mais descanso. O Saulo judeu revela-se também o Paulo cidadão romano. O homem de Tarso foi transfigurado pelo Homem de Nazaré. Não há mais paz na história humana: todos merecem conhecer o Crucificado que ressuscitou e dá a ressurreição. Uns 20 anos depois, Paulo está em Roma, prisioneiro. Vê as correntes da prisão como correntes de amor que o amarram ao seu Senhor. O algoz o decapita. A cabeça cai em solo romano, o sangue penetra terra pagã e, através dela, toda a criação é fecundada com o sangue apostólico, como no Calvário o fora pelo Sangue Redentor. O doutor de Jerusalém inaugurou uma nova fase do Caminho, onde não há escolha melhor do que a única: «anunciarmos a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, nossa Redenção e Vida, nossa esperança de Ressurreição».
O autor, Pe. José Artulino Besen é historiador eclesiástico, professor de História da Igreja no Instituto Teológico de Santa Catarina – ITESC desde 1975
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