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Junho -2008

Nossa Família é Maior do que a Família

"Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos?
Minha mãe e meus irmãos são os que fazem a vontade
de meu Pai que está nos céus!"

(Mt 12, 50)

 

sta foi a resposta de Jesus aos que o interromperam, para dizer-lhe que se preocupasse também com sua família de sangue: sua mãe, seus parentes.

A resposta de Jesus até parece indelicada: «Quem é minha mãe, quem são meus irmãos?» Certamente Maria recordou, até com aflição, o que o Filho lhe dissera quando foi encontrado no Templo, após três dias de angustiante procura. Achava que Jesus, menino de 12 anos, se jogaria, agradecido, nos seus braços. Mas não! A resposta foi dura: «Por que vocês me procuravam? Não sabem que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?» (Lc 2,49). Quantos pais, como Maria, também sofrem ao constatar que as escolhas dos filhos não são as suas escolhas!

Jesus pede que nós ultrapassemos, em nossa vida, os limites da carne e do sangue. Não esgotam toda a riqueza da convivência humana. E nos propõe um outro modelo de família: aquela constituída pelos que fazem a vontade de Deus. Vontade divina que os tornará irmãos e irmãs legítimos, pela fé, vivendo com intensidade familiar, afetiva, um novo relacionamento, mais abrangente. E sua mãe Maria está incluída nessa família, pois disse: «Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua vontade» (Lc1,38). Com isso Maria participa da família carnal e espiritual de Jesus.

É muito importante, para nós, dilatarmos o espaço da vivência familiar. Sermos capazes de ter prazer em estar com nossos colegas de trabalho, novos irmãos. Ter prazer em nos reunirmos com os irmãos na fé, nova família.

Muitas vezes acontece que nossos amigos de um Movimento religioso, de uma comunidade de vida consagrada, de um trabalho comunitário, são verdadeiramente mais fraternos que nossos próprios irmãos de sangue!

Sem dúvida, a vida nos ensina que num momento de tristeza, de desamparo, de crise, quem estará ao nosso lado, segurando-nos as mãos, oferecendo os ombros para escondermos nosso rosto sofrido, normalmente será este irmão de fé, de trabalho, de comunidade, e não nosso parente! Nosso amigo íntimo geralmente não é nosso parente, mas aquele que é o depositário fiel de nossas alegrias, tristezas, aquele em quem mais confiamos.

E tem mais: quanto maior for nossa família fora das portas de nossa casa, mais aumentará nosso compromisso com os que moram dentro de nosso lar. Se tivermos sensibilidade, o amor que oferecermos e recebermos na rua, saberemos oferecer aos que estão mais perto de nós: nossos familiares.

Quanto mais os pais indicarem aos filhos que todo ser humano é nosso irmão, mais eles sentirão alegria de estarem com os pais. Família comprometida, filhos realizados e orgulhosos de seus pais.
Dilatemos, o mais possível, as fronteiras do amor familiar e fraterno.

 

«Tomai e Comei, Tomai e Bebei»

contece com a Eucaristia o mesmo que a alguns estudiosos: para marcar o nome e a espécie de uma planta, amarram-lhe com arame uma plaquinha indicativa. Às vezes apertam tanto que a pobre planta morre sufocada.

Assim, de tanto definirmos que na Eucaristia recebemos real e verdadeiramente o Corpo e o Sangue do Senhor, a sufocamos nessa redução às vezes apologética, pois a Celebração vai muito além, sintetizando todo o mistério de Cristo, da Igreja e do mundo.

Após sua ascensão ao céu, a Igreja é o Corpo de Cristo-Cabeça, de maneira inseparável e eterna. Enviando o Espírito Santo, o Senhor transfigura toda a criação e no pão e vinho ofertados se inclui a consagração toda a criação.

Predito pelo profeta Malaquias (cf. Mal 1,11 e Oração Eucarística III), o Sacramento da Nova Aliança é celebrado continuamente em todo o mundo: não há instante em que não se faz ação de graças/eucaristia, não há momento em que o Corpo místico de Cristo e o mundo não são oferecidos e consagrados.

No Sacrifício espiritual da Eucaristia faz-se a memória real (não a recordação simbólica) da Paixão/morte/ressurreição/ascensão do Senhor. Nela ouve-se o grito de Cristo na cruz «Meu Deus, meu Deus» e nesse grito está incluído o grito da Igreja, o grito de cada membro do Corpo, um grito que chega ao Pai até o final da história. Todos os gemidos da humanidade e da criação prostituída se unem aos gemidos de Jesus e ressoam no céu (cf. Agostinho, Exp. in Psal. 85,5). A liturgia anglicana, recuperando a Liturgia da Igreja antiga, reza: «Nós te oferecemos e te apresentamos, Senhor, nossas almas e nossos corpos como sacrifício espiritual, santo e vivente aos teus olhos.» O sacrifício de Cristo e o sacrifício espiritual da Igreja tornam-se uma só realidade, pois Cristo engloba os membros de seu corpo no seu sacrifício. Tudo o que é ofertado é consagrado e transfigurado no Espírito. Por isso, em cada Missa a Igreja morre e ressuscita para poder subir aos céus com o Senhor.

O momento da Consagração, tão sagrado e íntimo para cada um de nós que vive o Mistério, é de um compromisso e entrega radicais: após rezar ao Pai, pedindo o Espírito Santo para a transfiguração/transubstanciação do pão e vinho, todo o Corpo se une nas palavras do Senhor.

Ao se entregar «tomai e comei, isto é meu corpo que será entregue por vós; tomai e bebei...», o Senhor se doa como nosso alimento e bebida. O bispo que preside a Eucaristia se entrega a seu rebanho como bom pastor e se oferta pessoalmente: «tomai e comei, isto pé meu corpo que será entregue por vós; tomai e bebei...». O presbítero que preside a Eucaristia se oferece a seu povo sem restrições: «tomai e comei, isto é meu corpo que será entregue por vós; tomai e bebei....» Cada cristão que participa da Eucaristia também se entrega a seus irmãos como alimento: «tomai e comei, isto é meu corpo que será entregue por vós; tomai e bebei...

Todos unem-se profundamente nessa oferta total «tomai e comei, isto pé meu corpo que será entregue por vós; tomai e bebei...», tendo consciência de que se tornam uma coisa só com o Senhor, para sempre. Na hora da Comunhão dá-se a conseqüência final: todos os que se ofereceram «...será entregue...» tornam-se alimento no Senhor pois, ao ouvir «O Corpo de Cristo» sabem que estão recebendo o Senhor-Cabeça e seu Corpo/Igreja. Recebemos e trituramos (comei, em grego traghein=triturar) os que se nos ofertaram, sabendo que somos recebidos e triturados pelos que receberam nossa oferta. Tudo se torna uma única realidade, o Espírito faz resplandecer em cada um de nós a beleza dos que se alimentam desse alimento fruto de doação incondicional.

O Espírito Santo jorra no mundo a partir do cálice eucarístico: cada assembléia é um contínuo Pentecostes, todos são recriados e o mundo renovado, pois todos se recebem e se dão «em Cristo.»

Cada rosto celebrante é o rosto do Senhor e o rosto do irmão, em cada rosto humano contemplamos todos os rostos, dos que cantam, dos que gemem, dos que blasfemam e nosso rosto é a totalidade desses rostos. O reino dos rostos é o reino do Espírito: Cristo, tomando nossa carne fragilizada, devolve-a unida à sua carne transfigurada. A procissão eucarística é a procissão da multiplicidade dos rostos: chegam humanos, partem divinos. Só nos resta proclamar, adorando: «Tudo isso é mistério da fé!»

O autor, Pe. José Artulino Besen é historiador eclesiástico, professor de História da Igreja no Instituto Teológico de Santa Catarina – ITESC desde 1975

 

 


 
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