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América Latina Justiça social e Santos Padres

Por Vladika Gorazd*

Trad. do espanhol por Pe. André Sperandio
[Tradução e publicação com permissão do autor]

ste artigo nasce como fruto de uma reflexão pessoal sobre a realidade latino-americana na qual estamos inseridos e imersos, no meu caso particular, a Argentina [1].

Há alguns dias, logo após assistir a um oficio memorial dirigido por um sacerdote ortodoxo, dispuz-me a tomar o trem em direção a minha casa, enquanto ainda ressoava em meus ouvidos os solenes e cálidos coros entoando o «Memória eterna», e ainda me achava envolvido do fino odor do incenso trazido de Monte Athos por um arquimandrita grego, quando de repente me dei conta da realidade que me cercava ao redor: uma fria e mal iluminada estação ferroviária, um forte e persistente cheiro de urina, e um verdadeiro exército de mendigos com seus fantasmagóricos carros de coleta de papelão e outros detritos que lhes pudessem ser de alguma utilidade; a pobreza se mostrava de uma maneira impiedosa e implacável, dezenas de crianças mal agasalhadas (e, certamente famintas), corriam de um lado para o outro da plataforma, insuflando um pouco de vida àquele tão mórbido espetáculo.

Uma vez parado o trem, uma multidão de excluídos, como nunca houve em tal número no meu país, subiam alvoraçados no trem, rindo, gritando, apertando-se, subindo através das janelas dos vagões, enquanto eu, tomava todo o cuidado para não me rasgarem o anderi [2] com os carrinhos, ou para não enganchar a minha cruz peitoral em algumas das bicicletas que viajavam em posição vertical no interior dos vagões de passageiros. Bem longe tinha ficado o meu «glamour bizantino». Deus, com a sua linguagem bem mais eloqüente, que é a realidade,  me mostrava o  meu povo, o mesmo povo que, lá atrás no tempo, o moveu de compaixão na ocasião da multiplicação dos pães.

O contato com a miséria, com a doença, com a dor e a injustiça em todas as suas variantes, era moeda corrente no Oriente, onde os nossos Santos Padres desenvolveram toda a nossa tradição Teológica e, inclusive, a litúrgica; e chega-se a conclusão de que, depois de tudo, no plano social, a atual realidade latino-americana é bastante semelhante aquela que conheceram, especialmente os que viveram no Oriente Médio. Eles, como nós, conheceram de perto a opressão hipócrita dos poderosos, a usura impositiva perpetrada pelas autoridades imperiais, a morte injusta, a postergação, o frio tocando fundo os ossos dos pobres nas manhãs de inverno. Basta ler o seguinte parágrafo de uma homilia de São João Crisóstomo para  nos dar conta de como ele percebia toda a magnitude desta verdadeira tragédia humana, já no 4º século, tal como eu agora, em pleno século 21, olhando da janela embaçada de um ônibus, numa fria manhã de inverno em Buenos Aires:

«No inverno, ao contrário, se lhes faz a guerra por todas as partes, e o cerco lhes é fechado pelos dois lados: a fome lhes consome por dentro as entranhas, e o frio os congela por fora e lhes mata a carne. Daí a necessidade de mais abundante comida, vestes mais quentes, abrigo e cama, calçados e muitas outras coisas...  Mas, ainda por cima, agora que mais necessitam do do que lhes é essencial para viver, tiram-lhes o trabalho, porque ninguém dá emprego a esses pobres, nem são chamados para serviço algum, nem mesmo a baixos salários... Esta é a nossa embaixada, para a qual tomamos como ajuda aquele que foi verdadeiramente o protetor dos pobres, o apóstolo Paulo».
[OC1]  São João Crisóstomo

Queridos irmãos, surpreende-me a agudeza com que São Basílio, como São João Crisóstomo, parece descrever a realidade atual dos nossos povos, e me surpreende ainda mais ler os jornais e ver através de suas manchetes a sapiência evangélica de São Basílio. Sem que seja preciso ir muito longe, há poucas semanas atrás eu estava lendo um jornal, onde a Senhora Anne Krueger (vice-diretora do FMI) declarava estar preocupada pela situação de pobreza  das nossas nações, e mostrava-se disposta, ao menos em suas palavras, em «socorrer» nosso povo. Lendo aquilo, não pude evitar que me viesse à mente um parágrafo de uma homilia de São Basílio que diz o seguinte:

«Tais são ricos, tais seus benefícios. Dão pouco e recebem muito. Esta é vossa humanidade. Expoliam, mesmo quando dizem que socorrem. Para vocês, até mesmo o pobre é uma fonte fecunda da vossa ganância. Impõem ao pobre a usura, (o consumismo), e sabem obrigá-lo depois a pagar caro por isso, mesmo quando não tenham sequer o suficiente para as suas necessidades básicas. Como vocês são misericordiosos! Os que vocês ‘libertam’, vinculam a vocês e os obrigam a que vos paguem pelas suas ganâncias, mesmo que não tenham o que comer. Pode-se imaginar

A busca da eqüidade social é um compromisso do qual nenhum cristão está isento, pois não lhe exige uma tradição, nem sequer um comportamento ético, mas trata-se antes de uma  exigência que brota de maneira contundente dos lábios de nosso Senhor Jesus Cristo:

«[...] porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes;  nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim». ( Mt 25, 35-36).

O cristão não deve ter medo de denunciar a injustiça social, tão pouco guardar um silêncio cúmplice a seu respeito, ainda que, muitas vezes, corra-se o risco de ser mal interpretado; o brilhante São João Crisóstomo também teve que defender-se de dessas acusações, como podemos ver neste fragmento:

«Está certo, há muitos que não param de me dizer: 'estás atacando aos ricos!' Mas, são eles que atacam aos pobres! Como eu ataco aos ricos? Não aos ricos, mas aos que usam mal as suas riquezas. Eu não me canso de repetir que não condeno aos ricos, mas ao ladrão. Uma coisa é o opulento, outra o avarento. Distingue as coisas e não confunda o inconfundível. És rico? Parabéns! És um ladrão? Eu te condeno por isso. Tens o que é  teu? Desfruta-o! Apoderas-te do que não é teu? Então, não calarei a minha boca! Queres me apedrejar? Pois, bem, eu estou pronto a derramar o meu sangue, desde que isso impeça que cometas pecado». (Fragmento da Homilia 2 sobre eutropio 3).

A cada dia me convenço mais da perenidade dos ensinamentos dos Santos Padres, e não apenas em um plano espiritual, já que conheciam como ninguém as profundezas da alma humana, mas também em termos sociais. Como não se recordar deste outro fragmento da homilia de São. Basílio ao sermos impactados com as manchetes dos jornais sobre a atitude francamente gananciosa de organismos financeiros internacionais!

«Mas, tu me dizes: ‘Dinheiro e interesse, buscas de quem nada tem? Por acaso, isso te faria mais rico? Que necessidade teria de bater à tua porta? Veio procurar um aliado e encontrou um inimigo. Buscava um remédio e encontrou um veneno. Era teu dever socorrer a indigência deste homem, e tu a multiplicas pois, tratas de tirar dele até esgotar o pouco que tem’».

Estou consciente de que este artigo pode parecer inadequado a alguns de meus leitores e, ainda para outros, os mais duros, talvêz lhes pareça estranho à espiritualidade da Igreja Ortodoxa. Entretanto, é absolutamente certo que existe um claro pensamento social nos Santos Padres, da mesma forma que, indubitavelmente, a partir do próprio Evangelho se depreende uma consciência social.

Notas:

[1] Este artigo foi escrito em Março de 2002, poucos meses após a eclosão da crise de dezembro de 2001, que mergulhou a República Argentina no maior caos social, financeiro e político de sua história, culminando com a queda do governo do presidente De la Rúa, o que significou, de fato, o encerramento da era neoliberal no país.

[2] Anderi: Espécie de batina usada pelo clero ortodoxo que, ao contrário da batina latina, tem seus punhos mais estreitos e é abotoada do lado esquerdo.

*Vladika Gorazd é Bispo para Argentina da Igreja Ortodoxa de Montenegro

Fonte: Pró-Ortodoxia

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