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Palavras pronunciadas pelo Professor Constantino Comninos, Cônsul Honorário da Grécia em Curitiba e Professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, na Igreja São Savas, mantida pela Associação Helênica do Paraná, no dia da Ressurreição do Senhor, Páscoa de 2005.

utorga-me, o Padre Panaghiótis Meintánis, nosso pároco, que completa quarenta e nove (49) anos de sacerdócio, a incumbência de pronunciar algumas palavras sobre a Ressurreição do Senhor, nesta Páscoa de 2005. Agradecendo a oportunidade, saúdo o nosso Padre Panaghiotis: «ΠαπαΠαναγιώτη, ναείσαιμαζίμαςακόμακαιάλλατόσαχρόνια» (Padre Panagióti,  que continue conosco outros tantos mais anos).

Como não sou teólogo e meus conhecimentos de filosofia não seriam suficientes para traçar uma idéia clara deste fato importante para a existência da cristandade, vou tratar da matéria apenas como cristão. E abrir o meu coração na palavra de um mortal.

Permito-me revelar certo fato. Por muitos anos, nós gregos e descendentes, vivendo na diáspora [gr diasporá significa “dispersão”] ficamos isolados do mundo quanto à prática da nossa religião. Não ouso comparar com os tempos lúgubres da ocupação turco-otomana na Grécia por 400 anos consecutivos, com o que vivenciávamos, mas, nos sentíamos, vivendo no interior deste Brasil, como alienados da realidade religiosa ortodoxa grega.

O que nos salvava deste fato, se baseava nas manifestações espontâneas da cultura religiosa de nossas origens. Em meu caso particular, nos saltérios cantados por minha mãe e meu pai, alusivos a cada momento da semana santa.  Jejuávamos 40 dias consecutivos e nos abstínhamos de certos alimentos, como azeite de oliva nos sete dias da Semana Santa. Aliávamos estas manifestações, freqüentando os mistérios religiosos da Semana da Paixão, acompanhando as procissões da Sexta Feira Santa, e outros atos litúrgicos, seguindo a tradição da Igreja Católica Romana.

Ainda com a ausência de padres ortodoxos gregos, passei, como muitos de nós, descendentes, a conhecer melhor o cristianismo, como estudante de colégio católico. Em meu caso particular, devo meus conhecimentos iniciais na cristianização aos Irmãos Maristas, isto é, minha “catequização” ao Colégio Internato Paranaense – ginásio -, e a minha “evangelização” ao Colégio Santa Maria – científico -, ambos localizados na cidade de Curitiba. Quanto à ortodoxia grega, somente após a Segunda Grande Guerra, com a presença de imigrantes gregos que aportavam ao Brasil, aumentando assim a colônia, permitiu que viéssemos a contar com padres ortodoxos gregos, poucos, sim, mas abnegados e itinerantes, que atendiam em suas funções religiosas, várias comunidades gregas, distantes umas das outras. Esta presença sacerdotal nos levou a participar e acompanhar as cerimônias e os mistérios do cristianismo ortodoxo grego, com mais assiduidade.

Após este intróito, vou tentar me desincumbir da tarefa que o amigo... Pároco desta igreja a mim incumbiu:

Para não perder o vício de professor, analiticamente, inicio conceituando alguns termos para tentar chegar a alguma conclusão, utilizando a palavra dos lingüistas e dos historiadores da religião.

RESSURREIÇÃO. (Do latim, ressurrectione,)  S. f.  1.  Ato ou efeito  de ressurgir ou ressuscitar; ressurgência.  2.  Festa católica comemorativa da ressurreição de Cristo, ao terceiro dia após a morte.  ......  3.  Fam. Cura surpreendente e imprevista.  4. Fig.  Vida nova;  renovação, restabelecimento.  5.  Na  doutrina cristã, o surgir para uma nova e definitiva vida, distinta e, em certa medida, oposta à existência terrestre, e que, a partir da ressurreição de Cristo, aguarda todos os fiéis cristãos  (AURÉLIO,  1986).

Em SCHLESINGER & PORTO (1995), encontramos alguns verbetes explicativos que nos ajudam a compreender alguns fatos:

RESSURREIÇÃO – os gregos possuíam a concepção de que a alma do homem, incorruptível por natureza, entra na imortalidade divina desde que a morte o liberte dos liames do corpo.

Os cristãos fazem da ressurreição o centro de sua fé e da sua esperança, graças à participação na ressurreição de Cristo, primogênito dentre os mortos e Senhor da glória (XLD). O símbolo dos Apóstolos diz que: “ao terceiro dia, ressuscitou dos mortos”.  E o símbolo niceno-constantinopolitano precisa: “Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras”.

CRISTIANISMO – (Crist) Conjunto das religiões cristãs (catolicismo, protestantismo e religiões ortodoxas orientais), que se baseiam na pessoa, na vida e na obra de Jesus Cristo. Historicamente, originou-se com um grupo de discípulos, proveniente em sua maioria da Galiléia, que seguiram Jesus e dele receberam a missão, confirmada pelo Espírito Santo.

CRISTANDADE – (Crist) Comunidade dos povos cristãos unidos num único organismo político-jurídico, pelo fato de pertencerem à Igreja.

IGREJA - (Crist) Em grego: Ekklesia (lt ecclesia). O termo igreja [em grego pronuncia-se iclissía] significa fundamentalmente a comunidade cristã local ou universal. O Novo Testamento já estabelece os princípios institucionais característicos que fazem da igreja um organismo socialmente constituído para a concretização do plano de salvação. Seu ato inaugural se deu no dia de Pentecostes, quando a comunidade cristã primitiva se apropriou da consciência da sua autonomia em face de Israel. Cristo estabeleceu os seus elementos essenciais com a instituição dos doze Apóstolos, a proclamação da Palavra – [gr Logos] – e a administração dos sacramentos.

Todos os verbetes acima aludidos estão sendo colocados para o entendimento da semântica da palavra grega ANÁSTASIS [que em língua grega, possui um valor e uma profundidade inconteste]: “aquele que veio dos mortos e que despertou para a vida eterna” (in Léxico da Língua Grega). Não é preciso filosofar, basta tão somente aceitar o entendimento da anástasis  como o princípio de tudo o que contempla os fundamentos básicos do cristianismo. Entretanto, mister se faz procurar compreender alguns outros vocábulos.

E me pergunto: como aceitar um fato histórico religioso sem entender as razões de sua existência, e neste caso, as razões do cristianismo, sem penetrar no vocábulo REVELAÇÃO.  Por mais que se queira traçar qualquer atitude terrena cometidas pelos homens, a palavra REVELAÇÃO [gr. APOKÁLIPSIS - em língua grega este termo possui uma força incomensurável], tem, no cristianismo, um sentido singular. É este fato, a revelação – apokálipsis – que garante, a nós cristãos, a força para aceitarmos a verdade absoluta de um momento histórico, que nos orienta moralmente, na vida terrena, pelos ensinamentos do Mestre da Galiléia, que pregou com os seus ensinamentos, a conquista da  glória  na  vida eterna.

Daí porque, revelar no sentido cristão, representa: “a manifestação da verdade ou da realidade suprema aos homens”. Historicamente, é a verdade positiva, que consiste na “iluminação com que foram agraciados alguns membros da comunidade, cuja tarefa teria sido encaminhada a comunidade, para a salvação” (in ABBAGNANO, 2000), ato histórico, insofismável, ao qual, se atribui a origem da tradição religiosa cristã.

De outra face, há a revelação natural, que é “a manifestação de Deus na natureza do homem”. Explicando as duas vertentes: “a revelação natural, tem valor filosófico, enquanto que a revelação histórica tem fundamento religioso” (ABBAGNANO, 2000).

Para firmar estes princípios lembro que os Evangelhos – O Novo testamento -, foram escritos ou traduzidos para a língua grega. E a língua grega possui nuances que outra língua não consegue absorver, haja vista, que os princípios religiosos cristãos, desde o início, se fundamentaram em princípios filosóficos – que, segundo os teólogos, permitem a explicação dos fatos vivenciados no cristianismo -, para, quando, devidamente analisados e avaliados, possam revelar a verdade e para que estas explicações não se tornem vilões da palavra escrita e falada. [Sem nenhum convencimento e com muita humildade, afirmo que esta é mais uma façanha da cultura de nós gregos].

Deixemos estas considerações, e nos concentremos na verdade revelada neste dia da ANÁSTASIS, em nossa pequena comunidade, agasalhada por esta igrejinha de São Savas, que tem neste padroeiro, peregrino da verdade de Cristo, o sentido da obra evangelizadora por ele deixada entre os homens, nos primórdios da revelação cristã.  Este santo homem, sofreu martirizado como Cristo, para poder revelar para pagãos, a verdade de Deus, legada aos homens, pelo Cristo Jesus ressuscitado.

E me pergunto?  Porque estamos agora, nós, um punhado de cristãos, que professam o cristianismo oriental ortodoxo grego, como também com partícipes de outros ritos cristãos, reunidos, em comunidade cristã, nesta igrejinha que é o orgulho de todos nós? Ou mesmo, se me permitem, citando as comunidades de nossa jurisdição consular, reunidos, em uníssono com os nossos irmãos na igrejinha dos Santos Apóstolos, na cidade de Porto Alegre, onde o nosso pároco também exerce suas funções religiosas?  E, porque também, não estarmos reunidos, com os nossos irmãos de Florianópolis, na igrejinha de São Nicolau, a mais antiga igreja ortodoxa grega do Brasil, com o Padre Ângelos, e onde o Padre Panaghiótis também exerceu suas funções clericais logo que veio da Grécia para o Brasil? Só vejo uma razão: para podermos exercitar, em comunidade cristã, não apenas a aceitação da revelação histórica, mas vivenciar um ato de fé, a nossa fé, na crença da verdade revelada, e transferir, aos nossos pósteros, como verdadeiros apóstolos do Salvador dos homens, a tradição histórica cristã herdada de nossos ancestrais. 

Entretanto, as coisas não param aí!...   Há um outro vocábulo que não se pode deixar de considerar: RELIGIÃO (gr THRISKÍA). O que é? O que significa? Explico: “Crença na garantia sobrenatural da salvação, e técnicas destinadas a obter e conservar esta garantia” (ABBAGNANO, 2000). Está claro, que esta garantia “é sobrenatural”, pois se situa “além dos limites abarcados pelos poderes do homem”, já que, para o homem, seus “poderes são impotentes” e limitados, para possuir um “modo de ação misterioso e imperscrutável” (ABBAGNANO, 2000). 

Continuo. Em minha humilde percepção, este é o sentido desta nossa reunião, em Eclésia (gr EKLISÍA) -, que quer dizer, estar em assembléia. Diria, em oração (gr PROSEFXÍ), em circunspeção, acreditando na verdade revelada e aceitando na Ressurreição de Cristo, a nossa própria salvação.

Este é o fundamento de nossa fé. Este é o princípio de tudo, pois, segundo João, o Evangelista:

No princípio era o Verbo
e o verbo estava com Deus
e o Verbo era Deus” (Prólogo  Jo 1, 1).

Todos os dias, nós, homens, ressuscitamos. Todos os dias, nós, cristãos, cremos; todos os dias, nós, pecadores, somos perdoados; todos os dias, nós, seres humanos, e professando o cristianismo, vivemos, para alcançar a verdade revelada por Deus, na pessoa do Filho do Homem (Jo 8, 27 e 12, 34), O Cristo, e na vivência de nossa fé.

O primeiro peregrino da fé Cristã, São Paulo, Apóstolo (gr apóstolos – o enviado; conforme o Léxico em língua grega e AURÉLIO: exercer o ministério de evangelizar), na Segunda Carta aos Tessalonicenses, expõe a verdade do Deus ressuscitado, e cita a vinda do Senhor Jesus Cristo, na palavra grega que prevalece em seus ensinamentos, que é a PARUSIA (Mt 24; Mc 13; Lucas 21), isto é, a presença (SCHÖKEL, 2000).

Esta nossa parusia, neste ato de fé, consagra a todos nós, e contempla as nossas almas com a riqueza cristã na verdade dos ensinamentos transmitidos pelos discípulos quanto a verdade da fé cristã.  A transcendentalidade da vida em Cristo, é um ato de é, insisto que devemos todos os dias afirmar e revelar, nem que seja para nós mesmos. Esta é, e deve ser a nossa PARUSIA, presença cristã permanente, que devemos vivenciar todos os dias de nossas vidas.

Termino, citando a parusia – presença - e a apokálipsis – revelação -, Daquele que pregou a tolerância, a humildade, a cooperação, a amizade, o respeito, a compreensão, a solidariedade, a paz, a liberdade, o perdão e o amor entre os homens, palavras estas, anunciadas pelo próprio Cristo. E em seqüência, conforme está escrito em João, no testemunho da fé, lê-se, na palavra do Salvador, Nosso Senhor (gr O Kírios Iisús Xristós)

Eu sou a luz do mundo.
Quem me segue não andará nas trevas,
mas terá a luz da vida (Jo  8, 12).

[pois, que,]

“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6).

 

Referências

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo, Martins Fontes, 2000.

A BIBLIA DE JERUSALÉM. “École Biblique de Jerusalém”. São Paulo, Paulus, 1995.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, segunda edição, 1986.

SCHLESINGER, Hugo  e PORTO, Humberto. Dicionário Enciclopédico das Religiões. Dois volumes. Petrópolis, Vozes, 1995.

SCHÖKEL, Luís Alonso. A Bíblia do Peregrino – Novo Testamento. São Paulo, Paulus, 2000.

 

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