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«Vinde e Vede!»
(Jo 1,39)

A Cruz do Senhor, Força da Igreja

Pe. José Artulino Besen*

o dia 13 de setembro de 325, consagraram-se duas basílicas em Jerusalém: uma no Gólgota, onde Cristo tinha sido crucificado e outra no Santo Sepulcro. No dia seguinte, 14 de setembro, era apresentada ao povo a relíquia da Santa Cruz. Ao ser tocado por ela, um morto tinha recuperado a vida, sinal de que era a cruz do Senhor, a cruz que nos deu a Vida.

Celebrando o acontecimento, toda a Igreja, do Oriente e do Ocidente, em 14 de setembro comemora a Exaltação da Santa Cruz. O hinos litúrgicos cantam o madeiro santo que, plantado na terra, brotou regado pelo Sangue do Senhor. Quem come dos frutos desta Árvore tem a graça de vencer a morte e cantar o hino à vida. O sangue que escorreu do lado direito do Crucificado simboliza a Eucaristia; a água, o Batismo.

Cada vez que a comunidade celebra a Eucaristia, ela e o celebrante têm diante dos olhos a imagem da Cruz, recordando que a Igreja nasceu do lado direito de Cristo crucificado. A liturgia, com a cruz diante dos olhos da comunidade, une a Antiga e a Nova Aliança: no deserto, os judeus contemplaram a serpente de bronze e foram curados do mal mortal provocado pela picada das serpentes (cf. Nm 21, 4b-9); hoje, os que contemplam a cruz, nela contemplam aquele que os libertou da morte (cf. Jo 3, 14-15).

Teologia da Cruz – Teologia da Consolação

A cruz, símbolo de maldição, de humilhação, de fraqueza, recorda-nos a “loucura” de Deus por nós. Deus pode tudo, menos uma coisa: obrigar-nos a amá-lo. Por isso mesmo, a Trindade serviu-se da cruz ao menos para convencer-nos de que Ela nos ama: o poder de Deus é o poder do amor. A “loucura do amor” trinitário deixou o Filho no abandono total: o Espírito separou-se de Jesus e ele imediatamente gritou: “Meu Deus, por que me abandonaste?” Naquele instante que se prolonga por toda a história terrena da salvação, aquele que é a Vida torna-se vida para nós no coração da morte. No Horto e no Gólgota, o Filho sentiu a amargura total do abandono do amor para nos amar, ele que “tem o poder de oferecer a vida e tem o poder de retomá-la” (cf. Jo 10,18). Quem bebe do Sangue eucarístico, recebe também o poder de dar a vida.

Quando estamos mergulhados na treva do pecado, na escuridão da descrença, o contemplar a cruz nos enche de consolação, nos leva a superar o mal aceitando sermos amados pelo Bem.

Teologia da Glória – Teologia da Moda

“Agradou a Deus salvar os crentes com a loucura da pregação ... porque .... aquilo que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens... Deus escolheu o que no mundo é fraco para confundir os fortes” (cf. 1Cor 1,21-28).

A Glória de Deus tem a Cruz como Trono: seu poder se manifesta plenamente na fraqueza assumida por causa de nós. O homem que se identifica com o Crucificado recebe a força do ressuscitado: “Quando sou fraco, então é que sou forte”(2Cor 12,10). Se esse é o caminho do Senhor, é necessariamente o caminho da Igreja, dos cristãos.

Durante os séculos de sua história, a Igreja corre o perigo da tentação da sabedoria humana, da adaptação ao mundo: tirar Cristo da cruz e vesti-lo com seda. O mistério da fraqueza de Deus é o mistério escondido na essência profunda da Igreja, na existência crucifixa dos santos e santas. Assim como não existiu santo ostentando vestimentas e enfeites principescos, do mesmo modo não há força eficaz numa evangelização feita na imponência de cerimônias, na ameaça de punições aos que erram, na segregação eclesial daqueles que o mundo também marginaliza. Descobrimos diversas pílulas que evitam a fecundação de tantos que peregrinam para encontrar o Senhor e depois retornam esterilizados.

O poder da Igreja só existe na participação do poder de Cristo: poder da fé e da humildade e se expressa como serviço: quem quiser ser o maior, torne-se o menor (cf. Lc 22,25-27).

Graça a alto preço – graça descartável

Desde o dia de Pentecostes, quando o Espírito despojou-se de sua glória e veio habitar o coração da Igreja e da criação, a evangelização corre o risco terrível de vender a Graça a baixou preço, de enfeitar a Cruz para aumentar o rebanho. Levar ao torpe mercado da salvação uma Graça tornada barata, descartável, comercial e até grátis, facilitadora e descompromissada.

A Graça é sempre muito cara, Paulo afirmando que fomos comprados por alto preço: ela é tesouro escondido no campo, pérola preciosa, rede a ser lançada, senhorio de Cristo, Evangelho buscado, dom sempre suplicado, porta sempre batida, seguimento ao preço da própria vida.

Veremos aqueles que crucificamos

Em cada Eucaristia fazemos o memorial do Calvário: junto ao altar contemplamos a cruz. Seremos cristãos se nela, identificados com o Senhor, contemplarmos os famintos, os sedentos, os nus, os peregrinos, os prisioneiros, os doentes, os sem-casa, os sem-terra, os desempregados. Somos convidados ao exercício do invencível poder do amor.


Notas:

* Pe. José Artulino Besen é professor de Espiritualidade bizantina do ITESC - Instituto Teológico de Santa Catarina da Arquidiocese Católico-romana de Florianópolis.

 

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