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Christos Yannaras

A FÉ VIVA DA IGREJA

Introdução à Teologia Ortodoxa

Tradução brasileira da versão francesa:
LUÍS ARTIGAS
Curitiba 1997

EDITION DU CERF
29, bd Latour-Maubourg 75007
Paris 1989

Sumário

Prefácio do tradutor

Prefácio do autor

Capítulo 1: Conhecimento “positivo” e metafísica

Capítulo 2: O Problema de Deus

2.1 A origem religiosa

2.2 A busca da verdade

2.3 A relação pessoal

2.4 Escolha de uma meta e de um caminho

Capítulo 3: A Fé

Capítulo 4: O conhecimento apofático

4.1 Dogma e heresia

4.2 Os limites da experiência

4.3 Apofatismo

4.4 Linguagem iconológica

4.5 Filosofia grega e experiência cristã

Capítulo 5: O Deus Trinitário

5.1 O testemunho bíblico

5.2 O desafio filosófico

5.3 A “carne” linguística da verdade

5.4 Essência e hipóstase

5.5 A pessoa

5.6 A experiência da relação

5.7 A revelação da vida

5.8 O princípio vivificante

5.9 Liberdade e amor

Capítulo 6: O Mundo

6.1 A concepção científica do mundo

6.2 A constituição “lógica” da matéria

6.3 Energias naturais

6.4 Contemplação da natureza

6.5 «Mediador» - «microcosmos»

6.6 Aprendizado ascético

6.7 Utilização do mundo

Capítulo 7: O Homem

7.1 A imagem

7.2 A alma

7.3 Razão • Livre arbítrio • Soberania

7.4 A pessoa

7.5 A linguagem científica

7.6 A linguagem eclesial

7.7 A vida depois da morte

7.8 A distinção dos sexos

7.9 O poder de amar

7.10 A queda

7.11 Consequências da queda: a nudez

7.12 A culpabilidade

7.13 A tragédia da criação

7.14 A angústia diante da morte

7.15 As "túnicas de pele"

Capítulo 8: O Cristo Jesus

8.1 O escândalo

8.2 Kênosis

8.3 "Sem mistura" e "sem fratura"

8.4 Deus perfeito e homem perfeito

8.5 A mãe de Deus

8.6 Contexto histórico

8.7 "Fonte" e "fontes"

8.8 Morte voluntária

8.9 "Preço" e "resgate"

8.10 O ressuscitado

8.11 A co-ressurreição do gênero humano

8.12 O "oitavo dia"

Capítulo 9: A Igreja

9.1 Chamada-reunião

9.2 A refeição pascal

9.3 Renovação da vida

9.4 Pentecostes

9.5 Mudança existencial

9.6 Sacramentos · Mistérios

9.7 Hierarquia eclesial

9.8 Sínodos, primado e autoridade

Capítulo 10: A Ortodoxia

10.1 Apofatismo e formalismo

10.2 Heresia e catolicidade

10.3 O critério da ortodoxia

10.4 A contribuição helênica

10.5 O desvio ocidental

10.6 A mudança histórica

10.7 Ortodoxia eclesial e civilização ocidental, hoje

Do mesmo autor:

  1. De l'absence et de l'inconnaissance de  Dieu, Cerf, Paris 1971. Tradução italiana: Ignoranza e conoscenza di Dío, Jaca Book, Milano 1973.
  2. La líberté de la morale, Labor et Fides, Genève 1982. Tradução inglesa: The Freedom of Moralíty. SVS-Press, New York 1984. Tradução italiana: la líbertà dell'ethos, Dehoniane, Bologna 1984.
  3. Philosophie sans rupture, Labor et Fides, Geneve 1986. Person und Eros, Vandenhoeck & Ruprecht, Göttingen 1982.
  4. Rationalísme et praxís sociale (em grego), Domos,  Atenas 1985.
  5. Esquise d'une onthologíe critique (em grego), Domos, Atenas 1985.
  6. Le réel et l'imaginaíre dana l'Économie politique (em grego), Domos, Atenas 1989.

Prefácio do tradutor

Este volume é uma tradução, com título modificado, do Abecedário da Fé, publicado em Atenas em 1983. Esta obra, de Christos Yannaras, foi reeditada várias vezes, recolhendo um grande sucesso entre o público helênico (mais de 600.000 exemplares vendidos até o dia de hoje).

Por razões técnicas devidas ao formato da coleção, pareceu oportuno, com a permissão do autor, aliviar a obra original de alguns trechos de importância secundária, embora preservando seu equilíbrio e coesão.

O fato de que uma apresentação resumida da experiência da fé cristã tenha se tomado um best-seller num país como a Grécia, atualmente tão secularizado, pode surpreender os observadores, precisando de alguns comentários.

A notoriedade do autor em toda a sociedade grega não é, certamente, alheia ao sucesso deste livro. Christos Yannaras, teólogo bem conhecido graças a obras notáveis como A pessoa e o Eros e A liberdade da Moral (traduzido em 3 idiomas) tem se revelado aos poucos como um dos líderes do movimento "neo-ortodoxo': grupo informal que reúne jovens intelectuais da esquerda cristã grega, desejosos de atingir em profundidade as raízes vivas da Ortodoxia. Participa ativamente, sobretudo através do rádio e da televisão, na vida intelectual do seu país, e pela forma original, inclusive contestatária, do seu testemunho de teólogo e filósofo cristão, chamou repetidamente a atenção da mídia e da vida pública helênicas sobre suas intervenções e obras.

Todavia, a acolhida desta obra deve-se principalmente ao fato de responder adequadamente às expectativas muito diversificadas de um amplo público. Desejo de alguns de abordar, mesmo do exterior, os dados característicos da fé e da vida cristã; necessidade de outros de captar melhor, pelo menos na sua formulação, as verdades da fé que até então não tinham considerado com seriedade ou atenção suficientes; para outros, necessidade de apoiar a caminhada espiritual com uma formação intelectual. A obra dá uma contribuição decisiva a todos estes aspectos, respondendo a uma problemática existencial concreta, centrada na busca do "único necessário" (Lc 10,42) e na necessidade de beleza-bondade-verdade inscrita na necessidade de todos os homens.

Devemos, contudo, sublinhar, que este livro nada tem de um catecismo no sentido tradicional, nem de uma apresentação sistemática dos "dogmas" ou das "verdades religiosas" próprias do cristianismo. Sua única vocação -como a de qualquer obra - minimamente teológica - é estimular e sustentar o esforço humano de compreender as realidades da nova criação instaurada pelo Cristo e realizada pelo Espírito Santo. Partindo da experiência da vida da Igreja, convida incessantemente o leitor a voltar a ela, ou a descobri-la. Pois, além de um conjunto de convicções individuais, a fé corresponde em primeiro lugar e antes de mais a uma experiência, experiência vivida e partilhada por uma comunidade, o corpo eclesial. Oferecida pelo Espírito Santo e aceita livremente pela pessoa chamada a se construir progressivamente na matriz sacramental da Igreja, a fé é uma realidade de ordem pessoal, entendendo a palavra pessoa no seu sentido teológico absoluto: ser-em-comunhão assumindo a natureza humana na sua integralidade. A fé cristã ortodoxa nunca se deixa reduzir a um discurso ideológico objetivado, nem a um sistema intelectual "teológico" contraposto a sistemas errôneos. A teologia ortodoxa é fundamentalmente experiencial. Isto explica que seja alimentada pela meditação e a doutrina dos Padres, que “falam de um país que visitaram pessoalmente”: como escreveu um grande filósofo russo [1]. Uma frase de São Gregório Palamas, grande teólogo do século XIV, resume a atitude ortodoxa: “As palavras em si mesma não me interessam; o que atrai o meu interesse são os fatos” [2]. A resposta de Filipe às objeções de Natanael já participava da mesma lógica: “Vem e vê!” (Jo 1,46). Esta teologia experiencial, sóbria e “reticente” para descrever as realidades que ultrapassam o entendimento, não visa exclusivamente policiar a inteligência do fiel, estabelecendo a respeito dos dogmas da Igreja definições “limite”, além das quais situa-se a heresia; ela pode, positivamente, acordar e orientar o espírito às realidades da fé, mesmo tendo consciência de que nenhuma palavra é suficiente “para alcançar a verdade” [3].

Se esta obra se apresenta, então, numa forma relativamente abreviada, não é somente por causas técnicas, mas porque, por definição, toda exposição da fé cristã é intrinsecamente relativa, parcial e sumária, em relação às realidades espirituais inefáveis a que se refere (Jo 21,25).

Lendo este livro podemos lastimar, em alguns pontos, a presença de uma atitude crítica que seríamos tentados de chamar ”anti-ocidental” ou até '”anti-católica”:· é verdade que na Grécia percebe-se a permanência de uma corrente de pensamento hostil ao Ocidente, herança dos contrastes da Cristandade dividida e de dramas históricos mais recentes, que não podemos contar aqui. Todavia, semelhante impressão seria demasiado rápida e superficial.

Na linguagem de Christos Yannaras, é óbvio que a palavra “Ocidente” não tem um sentido estritamente geográfico, designando antes a civilização moderna que se impôs progressivamente ao mundo inteiro a partir da Europa ocidental. O autor, que se considera pessoalmente um ocidental, luta na própria Grécia contra os princípios letais desta civilização individualista, desumana, “nos antípodas de toda e qualquer concepção eclesia”. Por outro lado, o autor não esconde ter encontrado em vários teólogos e filósofos ocidentais [4] as armas que o ajudaram, como a muitos outros teólogos ortodoxos, a destruir a tradição de racionalismo escolástico que oprimia a teologia ortodoxa nos últimos séculos. Seu propósito nunca é dar lições ao Ocidente, fazendo-se o arauto de um Oriente ortodoxo triunfalista. Semelhante atitude, obviamente, está superada. Neste livro, o termo “ortodoxo” não é utilizado num sentido confessional estreito, mas no sentido de uma referência constante à fé universal, “católica” da Igreja indivisa. Se esta fé é confessada atualmente pela Igreja ortodoxa, como é vívida e encarnada nela? pergunta-se ansiosamente Christos Yannaras, pensando que uma verdadeira contribuição ao esforço da reconciliação das Igrejas seria trabalhar na re-emergência de uma ortodoxia que se manifesta como uma ortopráxis na vida dos santos, os sacramentos e a arte litúrgica, sinais da “verdadeira vida”.

O caráter relativo da linguagem teológica, como de toda linguagem, sente-se particularmente quando se empreende uma tradução. Se não se pode dizer que toda tradução seja uma traição, pelo menos ela é certamente uma interpretação. Cada língua, com efeito, representa uma maneira específica de apreender o mundo, nos aspectos intelectual, estético, espiritual. Nem sempre se encontra uma correspondência estreita entre as sensibilidades dos diferentes universos linguísticos [5]. Por isso, a tradução levante sempre um dilema na tensão entre duas exigências simétricas, irreconciliáveis no limite: compreensibilidade da língua de recepção - fidelidade a língua original. O compromisso é inevitável

Christos Yannaras escreve esta sua obra num estilo vivo e direto, vizinho a exposição oral, a um diálogo com o leitor. Pareceu-nos preferível, falando de maneira geral, conservar da melhor maneira possível os giros, a sintaxe e as repetições da língua original, em vez de, com múltiplas transposições, apresentar um texto que, parecendo mais harmonioso e literário, arriscaria não respeitar o proceder e a lógica interna do pensamento do autor. Alguns termos-chave da teologia patrística, praticamente intraduzíveis nas nossas línguas (tais como logos, eros, apofatismo etc.) foram conservados, pois a pluralidade de significados que carregam é suficientemente explicada pelo autor.

Por último, queremos agradecer muito a Sra. Anne-Marie Bom e ao Sr. Athanase Tatsis, pela sua preciosa ajuda no acabamento desta tradução.

Paris, junho de 1989.

Prefácio do autor

Este livro não tenta convencer ninguém da justeza de seus posicionamentos, nem a mudar a opinião de eventuais adversários. Não é uma “apologia” da fé cristã e não visa conquistar o leitor para suas posições. Sua única ambição é distinguir a fé cristã daquilo que ela não é; abolir, na medida do possível, a confusão que parece estar se instalando nas consciências hoje em dia no que diz respeito à verdade da Igreja cristã; purificar esta verdade das escórias a ela estranhas, e que tendem a se substituir a elas.

E fazer isso de maneira simples, compreensível, acessível ao “comum dos homens”, como se diz, e mais particularmente ao comum dos “intelectuais”. Pois o intelectual é o principal vetor e vítima da confusão. Cortado, geralmente, das raízes vivas da fé, às vezes até oprimido psicologicamente por uma religiosidade familiar formalista, incômodo pelas lembranças amiúde demasiado negativas de um catecismo escolar insípido, o intelectual de hoje rejeita aquilo que ele chama a fé, uma fé que na realidade desconhece. Mas se, um dia, ele decidisse examinar aquilo que exatamente rejeita, poderia acontecer que sentisse a necessidade de um livro, -mesmo pequeno -, uma espécie de abecedário ou de manual elementar escrito na sua própria língua.

Empresa temerária, sem dúvida. Pois é praticamente impossível falar de certezas de vida numa linguagem cerebral, a linguagem da inteligência. Mas a boa notícia da fé eclesial é antes de mais o próprio amor da Igreja, que “tudo suporta” (1Cor 1,3,7). Este amor, portanto, deve envolver também esta “geração infeliz, alimentada pelo espírito do Iluminismo”, como diz o poeta [6], tentar atingir o racionalista que, atualmente, se encontra em cada um de nós, que se identifica mais ou menos com o nosso eu profundo. O amor deve também falar uma linguagem que, sem fazer da fé um sistema racionalista, seja uma linguagem compreensível para o homem de hoje, fechado na sua própria lógica, uma linguagem que tenda uma ponte para o homem de hoje.

Em breve, a obra aqui apresentada é um “abecedário da fé”, não sendo nem o mais completo nem o melhor. Certamente, a fé nele apresentada é a da Igreja ortodoxa, e não somente as ideias próprias do autor. Mas a maneira de expor e apresentar esta fé, sendo, certamente, obra individual, admite, sem dúvida, conter defeitos e falhas. Pensamos que para encontrar uma maneira ajuizada de apresentar a fé, é preciso muito amor. Mas o amor não consiste nem um simples sentimentalismo, nem sequer em boas intenções, sendo antes a imensa façanha da superação de si mesmo, característica da santidade, como diz a Igreja.

Se, apesar destas reservas, algumas pessoas conseguissem penetrar um pouco nas realidades da fé graças a este abecedário, se realizaria novamente o milagre da piscina de Síloé: com um pouco de lama, alguns olhos humanos se abririam à admiração da vida.

Notas

[1] KIREIEVSKI, Essais philosophiques, Paris 1988, Fragment 278, 194.

[2] Gregório PALAMAS, Apologie, cit. em Mémoires dogmatiques et symboliques de l’Église ortodoxe, Ed. Karmiri, t. I.

[3] São Gregório de Nazianzo, Sermão XXIII, 11: PG 35, l165A.

[4] Podemos citar, sobretudo: Urs von Balthasar, Jean Daniélou, o Pe. Congar, E. Gilson, o Pe. De Lubac, G. Duby, e Heidegger no campo filosófico.

[5] No nosso caso, podemos dizer que a língua grega, considerada de maneira sincrônica, é ao mesmo tempo mais imprecisa, mais densa e mais concreta que as nossas línguas neolatinas atuais. Daí a dificuldade de traduzir sem empobrecê-las, algumas palavras gregas, focos de uma verdadeira labareda semântica.

[6]Wretched generation of enlightened men, T.S. Eliot, Choruses from “The Rock”, III.

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