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George Florovsky:

Excertos de cristianismo e cultura

Trad.: Pe. Pedro Oliveira Junior

Cristianismo e civilização

"Cristianismo e Civilização"apareceu no St. Vladimir Seminary Quarterly, Vol 1 Nº 1 (1952), pgs. 13-20.

ma nova época começa na vida da Igreja com o começo do século IV. O Império aceita a cristianização na pessoa do "isapostólico César." A Igreja emerge de sua seclusão forçada e recebe o mundo ansioso em seu sagrado interior. Mas o Mundo traz com ele, seus medos, suas dúvidas e suas tentações. Existiam ambos, orgulho e desespero, paradoxalmente misturados. A Igreja foi chamada para acalmar o desespero e tornar humilde o orgulho. O século IV foi mais um epílogo do que uma aurora. Ele foi mais o final de uma história desgastada do que um verdadeiro começo. Apesar disso, uma nova civilização emergiu das cinzas.

Durante a era pré-Nicéia, como a maioria estava isolada, uma desarmonia cultural prevaleceu.Dois mundos entraram em colisão e se puseram opostos um ao outro: Helenismo e Cristianismo. Historiadores modernos são levados a subestimar a dor da tensão e a profundidade desse conflito. A Igreja não negou a cultura em princípio. A cultura Cristã já estava em processo de formação. E num certo sentido, o Cristianismo já tinha feito uma contribuição para o tesouro da civilização Helênica. A escola de Alexandria teve um considerável impacto nos experimentos da época no campo da filosofia. Mas o Helenismo não estava preparado para conceder qualquer coisa para Igreja. As atitudes de Clemente de Alexandria e Orígenes,de um lado, e de Celso e Porfírio, de outro, são típicas e instrutivas. A luta externa não era o aspecto mais importante do conflito. A luta interna foi muito mais difícil e trágica: todo seguidor da tradição helênica foi chamado naquele tempo, a viver através de e superar uma discórdia interior.

A civilização significava precisamente Helenismo, com todas as suas memórias pagãs, hábitos mentais e todos os seus atrativos estéticos. Os "deuses mortos" ainda eram adorados em numerosos templos e tradições pagãs ainda eram cuidadas por um significativo número de intelectuais. Ir a uma escola naquele tempo, significava precisamente ir a uma escola pagã e estudar escritores e poetas pagãos. Juliano, o Apóstata, não foi simplesmente um sonhador fora do tempo, que tentou uma restauração impossível de ideais mortos, mas sim o representante de uma resistência cultural, que ainda não tinha sido quebrada por dentro. Com ele mundo antigo havia renascido e se transfigurado numa luta desesperada. O todo da vida interior dos homens helênicos tinha que passar por uma drástica reavaliação. O processo foi lento e dramático, e finalmente resolvido com o nascimento de uma nova civilização, que nós podemos descrever como Bizantina. Têm-se que constatar que só existiu uma civilização por séculos, a mesma para o Oriente e para o Ocidente, e essa civilização nasceu e foi feita no Oriente. Uma civilização especificamente Ocidental veio muito depois.

Roma mesmo, era bastante Bizantina ainda no século VIII. A época Bizantina começa, senão com Constantino, de qualquer forma com Teodosius, e atinge seu clímax com Justiniano. O tempo deste, foi quando uma cultura Cristã estava sendo,consciente e deliberadamente, construída e completada como sistema. A nova cultura era uma grande síntese na qual todas as tradições e movimentos criativos do passado foram fundidas e integradas. Era o "Novo Helenismo," mas um Helenismo drasticamente cristianizado e, como se fosse, "igregificado" Ainda é usual suspeitar da qualidade Cristã dessa nova síntese. Não foi somente uma "aguda Helenização" do "Cristianismo Bíblico," na qual a novidade toda da Revelação foi diluída e dissolvida? Não seria essa nova síntese simplesmente um Paganismo disfarçado?Essa foi precisamente a opinião de Adolf Harnack. Agora, à luz de um estudo histórico imparcial, nós podemos protestar fortíssimamente contra essa simplificação.Não foi isso que os historiadores do século XIX usaram para descrever como uma "Helenização do Cristianismo" ao invés de uma Conversão do Helenismo? E porque não poderia o Helenismo ter sido convertido? A recepção Cristã do Helenismo não foi uma simples absorção servil de uma herança pagã não digerida. Ela foi ao invés, a conversão da mente e coração Helênico.

O que realmente aconteceu foi isso. O helenismo foi poderosamente dissecado pela espada da revelação Cristã, e daí foi completamente polarizado. O horizonte fechado foi explodido. Pode-se descrever Orígenes e Agostinho como "Helenistas." Mas obviamente é um outro tipo de helenismo que o de Plotino e Juliano. Entre os decretos de Juliano, os Cristãos mais detestaram aquele que proibiu os Cristãos de ensinar arte e ciência. Isso foi, de fato, uma tentativa tardia de impedir os Cristãos de fazer uma civilização, para proteger a cultura antiga da influência e impacto Cristão. Para os Padres Capadócios esse era o assunto principal. E São Gregório de Nazianzo em seus sermões contra Juliano trabalhou bastante nesse tópico. São Basílio se sentiu compelido a escrever uma carta "Aos jovens, sobre como eles podem extrair benefícios da literatura Helênica." Dois séculos depois, Justiniano excluiu os não-Cristãos de todo ensinamento e atividades educacionais, e fechou as escolas pagãs. Não havia nessa medida hostilidade ao "Helenismo."Isso não era quebra na tradição. As tradições foram mantidas e até cuidadas, mas elas foram mergulhadas no processo de reinterpretação Cristã. Isso contém a essência da cultura Bizantina. Isso era a aceitação dos postulados de cultura e sua transvaliação. O magnífico Templo da Santa Sabedoria, do Verbo Eterno, a grande igreja de Santa Sofia em Constantinopla, será sempre um símbolo vivo dessa conquista cultural.

A história da cultura Cristã não foi de modo nenhum um idílio. Ela foi estabelecida em luta e conflito dialético. Já o século IV foi um tempo de trágicas contradições.

O Império tornou-se Cristão. A possibilidade de transfiguração da criatividade humana toda foi dada. E no entanto, foi justamente desse Império Cristianizado que o vôo começou, o vôo para o deserto. É verdade que indivíduos costumavam deixar as cidades já antes, no tempo das perseguições, para viver e vagar nos desertos e buracos da terra. O ideal ascético esteve por longo tempo em processo de formação, e Orígenes por exemplo, foi um grande mestre de vida espiritual. Porém um movimento começou somente depois de Constantino. Seria completamente injusto suspeitar que o povo estava deixando "o mundo" simplesmente porque tinha se tornado difícil e severo carregar seu fardo, em busca de "vida fácil." É difícil ver em que sentido a vida no deserto poderia ser "fácil." É verdade também que no Ocidente, o Império naquele tempo, estava caindo aos pedaços, e dolorosamente em perigo pela invasão dos bárbaros, e medos e antecipações apocalípticas podem ter estado vivas lá, uma expectativa de um rápido fim da história.

No Oriente, nessa época o Império Cristão estava em processo de construção. Apesar de todas as perplexidades e perigos da vida, lá se poderia vir a ser tentado pelo otimismo histórico, com o sonho de realização de uma Cidade de Deus na terra. E muitos na verdade sucumbiram a essa tentação Se apesar disso, muitos no Oriente preferiram "emigrar" para o Deserto, nós temos todas as razões para acreditar que eles fugiram não tanto dos problemas do mundo, mas sim dos "cuidados do mundo" existentes inclusive numa civilização Cristã. São João Crisóstomo era muito enfático em seus alertas contra os perigos da "prosperidade." Para ele, "segurança era a maior de todas as perseguições," muito pior que a pior perseguição sanguinária externa. Para ele o perigo real para a verdadeira piedade começou precisamente com a vitória externa da Igreja, quando se tornou possível para o Cristão "assentar-se" nesse mundo, com uma considerável medida de segurança e até mesmo de conforto, e esquecer-se de que ele não tem Cidade para morar nesse mundo e tem que ser um estrangeiro e peregrino na terra. O significado do Monasticismo não consistia primariamente em tomar votos severos. Os votos monásticos eram só uma re-ênfase nos votos Batismais. Não havia ideal "monástico" especial nesse primeiro estágio. Os primeiros monges queriam simplesmente realizar por completo o ideal Cristão comum, em princípio, posto à frente de cada fiel. Era assumido que essa realização era praticamente impossível dentro da existente fábrica da sociedade e vida, mesmo que ela estivesse disfarçada de Império Cristão. O vôo monástico do século IV foi antes de tudo uma retirada do Império. Renuncia ascética implica antes de tudo, em completa renuncia do mundo, isto é, da ordem desse mundo, de todos os laços sociais. Um monge deve ser "sem-lar,"aoikos, na frase de São Basílio. Ascetismo, como regra, não requer o desprendimento do Cosmos. E a beleza da natureza criada por Deus, é apreendida muito mais vividamente no deserto do que no mercado de uma cidade movimentada.

Mosteiros foram sempre em ambientes pitorescos e a beleza cósmica pode ser fortemente sentida na literatura hagiográfica. O assento do maligno não está na natureza mas no coração do homem, ou no mundo dos espíritos malignos. A luta Cristã não é contra a carne e o sangue, mas"contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais"(Ef.6:12). É só no deserto que se pode realizar por completo a lealdade para o único Rei dos Céus, o Cristo, lealdade que pode ser seriamente comprometida se dada por um cidadão, que coloca suas declarações a partir de uma cidade feita pelo homem.

O Monasticismo nunca foi anti-social. Foi uma tentativa de construir outra Cidade. Um Mosteiro é, num certo sentido, uma "colônia extra territorial" nesse mundo de vaidade. Mesmo eremitas moravam usualmente em grupos e colônias, e eram unidos sob a direção comum de um pai espiritual. Mas era a "cenóbia" que era vista como a mais adequada incorporação do ideal ascético. A comunidade monástica é em si uma organização social, um "corpo," uma pequena Igreja. O monge deixava o mundo para construir uma nova sociedade, uma nova vida comunitária. Essa era, em todo caso, a intenção de São Basílio. São Teodoro, o Studita, um dos mais influentes líderes do Monasticismo Bizantino posterior, foi ainda mais rígido e enfático a esse respeito. O Império, já desde Justiniano, estava bastante ansioso para domesticar o Monasticismo, para reintegrá-lo na política geral e ordem social. O sucesso foi só parcial, e conduziu a uma decadência. Em todo caso, os Mosteiros sempre permaneceram, num certo sentido, inclusões heterogêneas e nunca foram completamente integrados na ordem imperial da vida. Pode-se sugerir que o Monasticismo, falando-se historicamente, foi uma tentativa de escapar da construção do Império Cristão. Orígenes argumentava no seu tempo, que os Cristãos não podiam participar da vida cívica geral, porque eles tinham uma "polis" própria, porque em cada cidade eles tinham sua própria "ordem de vida," to allo systema patridos(Contra Celsus VIII.75). Eles viviam "contrario à ordem" da cidade mundana (antipoliteuomenoi).

Numa cidade "Cristianizada" essa antítese não era removida. Além disso, o Monasticismo é alguma "outra" coisa, um tipo de "anti-cidade," anti-polis, pois ele é basicamente "outra" cidade. Essencialmente ele sempre permanece fora do sistema mundano, e com freqüência afirma sua "extraterritorialidade" até com vistas ao sistema eclesiástico geral, reclamando uma espécie de independência da jurisdição local ou territorial. O monasticismo é, em princípio, um êxodo do mundo, uma saída da ordem social natural, uma renuncia da família, status social,e até da cidadania. Mas não é somente um êxodo, mas também uma transição para outro plano e dimensão social. Nessa "condição de fora do mundo" está a maior peculiaridade do Monasticismo como movimento, assim como seu significado histórico. Virtudes ascéticas podem ser praticadas também por homens leigos, e por aqueles que permanecem no mundo. O que é peculiar no Monasticismo é sua estrutura social.O mundo Cristão foi polarizado. O Cristianismo desdobrou-se numa antítese entre o Império e o Deserto. Essa tensão culminou numa violenta explosão na controvérsia Iconoclasta.

O fato de que o monasticismo foge e nega a concepção do Império Cristão não implica que ele se opõe à cultura. O caso é muito complexo. Antes de tudo, o monasticismo teve muito mais sucesso na preservação do verdadeiro ideal de cultura em sua pureza e liberdade, do que o Império. Em todo o caso, criatividade espiritual sempre foi ricamente cuidada das profundezas da vida espiritual. "A santidade Cristã sintetiza em si todas as aspirações fundamentais e definitivas da Filosofia antiga inteira," disse muito bem um erudito russo. "Começando em Jônia e na Magna Grécia, a corrente principal das grandes especulações Helênicas, fluiu através de Atenas para Alexandria e dali para as Tebaidas. Penhascos, desertos e cavernas tornaram-se novos centros de sabedoria teúrgica." A contribuição do monasticismo para o aprendizado geral foi muito grande na Idade Média, no Oriente e no Ocidente.

Os Mosteiros foram grandes centros de ensinamento. O monasticismo em si foi em si um notável fenômeno de cultura. Não é por acaso que o esforço ascético tem sido persistentemente descrito como "Filosofia," o "amor da sabedoria," nos escritos da era Patrística Não foi por acidente que as grandes tradições da teologia Alexandrina foram revividas e revigoradas especialmente nos ambientes monásticos. Não foi por acaso igualmente que nos Capadócios do século IV os esforços ascético e cultural foram tão entrelaçados organicamente. Mais tarde também, São Máximo, o Confessor, construiu sua magnífica síntese precisamente baseada em sua experiência ascética. Finalmente, não foi por acidente que no período Iconoclasta, ocorreu serem os monges os defensores da arte, salvaguardando a liberdade da arte religiosa da opressão do Estado, da opressão "iluminada" e simplificação utilitária.

Tudo isso é intimamente ligado com a própria essência do ascetismo. Ascese não limita a criatividade,ela a libera, porque a sustenta como um objetivo em si. A criatividade finalmente é salva de todos os tipos de utilitarismo somente através de uma reinterpretação ascética. Ascese não consiste em proibições. Ela é atividade, um "trabalhar para fora" do próprio ser. É dinâmica. Ela contém o incitar do infinito, um apelo eterno, um movimento para frente insaciável. A razão para essa inquietação é dupla. A tarefa é infinita porque o padrão de perfeição é infinito, a perfeição de Deus. Nenhuma conquista pode ser adequada para o objetivo. A tarefa é criativa porque alguma coisa essencialmente nova é para ser trazida à existência. O homem faz seu próprio serem sua absoluta dedicação à Deus. Ele se torna ele próprio somente em seu processo criativo. Há uma antinomia inerente na verdadeira ascese. Ela começa com humildade, renuncia e obediência. A liberdade criativa é impossível sem essa auto-renuncia inicial. É a lei da vida espiritual: a semente não pode ser vivificada a menos que ela morra. A renuncia implica na superação das próprias limitações e parcialidade, uma entrega absoluta à Verdade. Ela não significa: primeiro renuncia, e então liberdade. A humildade em si é liberdade. A renuncia desatrela o espírito, solta a alma. Sem liberdade, todas as mortificações serão vãs. De outro lado, através da tentativa ascética a visão do mundo é mudada e renovada.

A verdadeira visão é conseguida só por aqueles que não tem preocupações egoístas. O verdadeiro ascetismo não é inspirado pela contenção, mas pelo apelo de transformação. O mundo deve ser reinstalado em sua beleza original, da qual ele caiu pelo pecado. É por causa disso que o ascetismo conduz à ação. O trabalho de Redenção é feito por Deus, mas o homem é chamado a cooperar nesse esforço redentor. Pois a Redenção consiste precisamente na Redenção da Liberdade. O pecado é escravidão, e "a Jerusalém que está acima é livre." Essa interpretação do esforço ascético parecerá inesperada e estranha. Seguramente é incompleta. O mundo da ascese é complicado, porque é um reino de liberdade. H,a muitos caminhos, alguns dos quais podem conduzir a becos sem saída. Historicamente, por certo, o ascetismo nem sempre conduz à criatividade. Deve-se, no entanto, distinguir claramente entre indiferença a tarefas criativas, e a sua não aceitação. Novos e vários problemas de cultura são descobertos através do treinamento ascético, uma nova hierarquia de valores e objetivos é revelada. Daí a aparente indiferença do ascetismo para com muitas tarefas históricas. Isso nos traz de volta ao conflito entre o Império e o Deserto. Nós bem podemos dizer: entre História e Apocalipse. É a questão básica do significado e valor de todo esforço histórico. O objetivo Cristão, em todo caso, transcende a história, como ela transcende a cultura. Mas o Homem foi criado para herdar a eternidade.

Pode-se descrever o ascetismo como "a escatologia da transfiguração." O "maximalismo" ascético é inspirado por uma consciência do fim da história. Seria mais acurado dizer: convicção, não uma expectativa real. O cálculo de tempos e datas é irrelevante, como é perigoso e enganador, na verdade. O que é importante é um uso consistente de "medidas escatológicas" na avaliação de todas as coisas e eventos. É inadequado supor que nada na terra pode suportar este teste "escatológico." Nem tudo deve se desvanecer. Sem dúvida não há lugar para política ou economia no definitivo Reino do Céu. Mas obviamente existem muitos valores nessa vida, que não serão anulados no "tempo que virá." O primeiro é o Amor. Não é acidental que o monasticismo toma persistentemente a forma de comunidade. É uma organização de cuidado e ajuda mútua. Qualquer obra de misericórdia, ou mesmo um coração ardente pelo sofrimento ou necessidade de algum outro, não pode ser visto como insignificante na dimensão escatológica. É demais sugerir que toda caridade criativa é eterna? Não são alguns valores permanentes também descobertos no campo do conhecimento? Nada pode ser dito com certeza definitiva. E no entanto parece que nós temos alguns critérios de avaliação. Em todo caso, a personalidade humana transcende a história.

A personalidade carrega a história dentro de si. Eu cessaria de ser eu mesmo, se meu concreto, isto é, a experiência histórica fosse simplesmente subtraída. A história não se desvanecerá completamente mesmo "no tempo que virá," se a concretude do homem deve ser preservada. Por certo, nós não poderemos nunca traçar a linha definitiva entre as coisas terrestres que devem ter uma "extensão escatológica" e aquelas que devem morrer no limiar escatológico — na vida real elas estão inextricavelmente interligadas. A distinção depende de discernimento espiritual, duma espécie de clarividência espiritual. De um lado, obviamente só "uma coisa é necessária." De outro lado, o "Mundo que há de vir" é indiscutivelmente um mundo de Memória Eterna, e não de esquecimento eterno. Existe a "boa parte" que "não lhe será tirada." E Marta partilha dela também, não só Maria. Tudo que é suscetível de transfiguração será transfigurado. Agora, essa "transfiguração," num certo sentido, começa já nesse lado da clivagem escatológica. "Tesouros escatológicos" devem ser coletados ainda nessa vida. De outra forma essa vida é frustrada. Alguma antecipação real do Definitivo já está disponível. De outra forma a vitória de Cristo teria sido em vão. A "Nova Criação" já foi iniciada. A História Cristã é mais do um símbolo, sinal ou sugestão profética. Nos sempre temos um sentimento ofuscado, de coisas que não têm, e não podem ter, qualquer "dimensão eterna," e nós as classificamos como "vãs" e "fúteis." Nosso diagnóstico é muito falível na verdade. No entanto alguns diagnósticos são inevitáveis. O Cristianismo é essencialmente histórico. História é um processo sagrado. De outro lado, o Cristianismo pronuncia um julgamento da história, e é em si, um movimento para o que está "além da história." Por essa razão, a atitude Cristã para com a história e a cultura é determinada a ser antinômica. Os Cristãos não deveriam ser absorvidos em história. Mas eles não têm como escapar de uma espécie de "estado natural." Eles têm que transcender a história para "aquilo que não pode ser contido em praias terrestres." No entanto, Escatologia em si é sempre uma Consumação.

Vladimir Soloviev apontou para a trágica inconsistência da cultura Bizantina. "Bizâncio foi devoto em sua fé e ímpio em sua vida." Por certo, essa é uma imagem vívida, e não uma descrição acurada. Devemos admitir, no entanto, que alguma verdade válida está enfatizada nessa frase. A idéia de um Império "igregificado" conflitos foi falha. O Império caiu em pedaços em conflitos sanguinolentos, degenerado em fraudes,ambigüidades e violência. Mas o Deserto teve mais sucesso. Ele permanecerá para sempre para testemunhar o esforço criativo da Igreja Inicial, com sua teologia Bizantina, sua devoção e arte. Talvez ele se transformará na página mais vital e sagrada do misterioso livro do destino humano, que está continuamente sendo escrito. O epílogo de Bizâncio é igualmente em fático, e existe a mesma polaridade: a queda do Império depois de uma ambígua União política com Roma(em Florença), que, no entanto, nunca foi aceita pelo povo. E, na própria véspera da queda da "corrupta Bizâncio" o glorioso florescimento da contemplação mística no Monte Athos e a Renascença em arte e Filosofia, que serviu pra nutrir a Renascença Ocidental também. A queda do Império e o Cumprimento do Deserto.

Fonte:

Folheto Missionário número P 095k. Copyright © 2003 Holy Trinity Orthodox Mission
466 Foothill Blvd, Box 397, La Canada, Ca 91011

Redator: Bispo Alexandre Mileant

 

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