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Matta el Meskin:

Comunhão no Amor

trad.: Pe. José Artulino Besen*

A nossa comunhão é com o Pai
e com o seu Filho Jesus Cristo. 1Jo 1,3

Sumário

I. Prefácio

II. A Vida no Espírito

III. O despertar do Espírito e o início da ação espiritual

IV. A Espera do Messias

V. O Natal - O Cristo da História: Um Cristo Vivente

VI. O Aspecto escondido da Natividade

VII. Batismo: criados para a Vida

VIII. A Justiça da Humildade

IX. Quaresma: o Arrependimento

X. Semana da Paixão: o Getsêmani e o Sofrimento

XI. A Paixão de Cristo em nossa vida

XII. Tempo de Páscoa: Cristo Ressuscitou

XIII. Ascensão

XIV. Pentecostes: A Promessa do Pai

XV. A relação entre o Dom de Pentecostes e a Ascensão de Cristo

XVI. Os Frutos do Espírito Santo: A Assunção de Maria e a Transfiguração de todas as criaturas

XVII. Um só Cristo e uma só Igreja

I - Prefácio

I.1 Matta El Meskin, um pai no deserto

I.2«O Senhor me pedia tudo»

I.3 E o deserto florescerá...

I.4 A palavra de Deus e os Pais

I.5 Abuna - O pai espiritual

I.6 A luz de Cristo na face de seus santos

 

I.1 Matta El Meskin, um pai no deserto

cristão deve constantemente passar de uma fé expressa com palavras a uma fé expressa com a experiência”. Assim abre-se uma das catequeses mais densas e profundas deste primeiro volume de uma antologia de Matta el Meskin, e esta frase pode ajudar-nos a entender aquilo que encontraremos nas páginas que seguem. Realmente, não estamos diante de palavras, mas de uma experiência de fé, de uma vida no Espírito que só em seguida se encarna em palavras: palavras de exortação e de admoestação, de consolação e de esperança.

Se nos aproximamos com coração atento à experiência de fé que está por detrás deste livro, percebemos[1] como, em verdade, “a boca fala da plenitude do coração”. É um coração repleto de Deus o que pulsa nestas páginas, um coração curvado pelo arrependimento, um coração capaz de acolher todo homem e colocá-lo no endereço do Senhor, um coração unido, a cada momento pronto a esvaziar-se de si mesmo para colocar Cristo, e somente Cristo, no centro da própria vida.

Exatamente para ajudar o leitor a penetrar melhor na aventura espiritual de que estas páginas desejam ser testemunho, cremos ser necessário dizer algo da vida de Matta el Meskin. Talvez assim seja mais fácil tomar consciência de que o texto aqui recolhido não é fruto de elaborações teológicas ou de discussões acadêmicas, mas é comunicação, entrega de uma vida vivida em Cristo e com os irmãos, de uma resposta diária aos apelos evangélicos, de um esforço constante de transformar em eventos concretos a força espiritual que emana da Palavra feita evento, do Verbo feito carne.

I.2 «O Senhor me pedia tudo»

Iussef Iscandar nasceu no Egito em 1919. Jovem estudante de Farmácia na Universidade do Cairo, está entre os animadores de um movimento de jovens coptas[2] decidido a renovar evangelicamente a vida da Igreja no Egito. Laureado e tendo iniciado a própria atividade profissional, Iussef, com 29 anos de idade, sentiu, como ele próprio narra, “o chamado do Senhor que me pedia tudo”. Então abandona tudo e entra no mosteiro mais pobre e mais isolado do Egito: Deir Amba Samuil, onde viviam poucos monges, anciãos e doentes. Ali assume o nome de Matta el Meskin (Mateus o Mesquinho, ou o Pobre), e em seguida se desloca para algumas grutas do deserto de Wadi el Rayan ao sul de El Faiyum, para uma vida ainda mais solitária e pobre: a vida eremítica[3]. Mas, a luz não pode ficar escondida e após alguns anos Matta é alcançado por alguns jovens monges que o escolhem como pai espiritual... Deste modo nasce um pequeno grupo monástico que por 10 anos fará um aprendizado que será determinante para o sucessivo surpreendente desenvolvimento.

Num quadro de vida que imediatamente lembra o dos primeiros pais do deserto, esse grupinho de monges vive com a mesma simplicidade, com o mesmo despojamento de todos os bens e as preocupações mundanas, com a mesma experiência profunda do amor divino, a mesma confiança total em Deus que caracterizaram os primeiros séculos do monaquismo egípcio. Na vida destes 12 monges, os anos em Wadi el Rayan representaram, a ocasião propícia para verem as próprias existências fundir-se no cadinho do amor divino e unir-se em Cristo segundo o espírito do evangelho.

A um jornalista da rádio Vaticana que lhe perguntava como tinha nascido seu caminho de vida monástica, Matta el Meskin respondia: “Na verdade, minha vida é uma relação profunda entre mim e Deus. Comecei sozinho. A finalidade foi, sem dúvida, oferecer minha vida ao Senhor: isto eu entendi e decidi em seguida fazer uma leitura contínua da Bíblia. A Bíblia, tanto o Antigo quanto o Novo Testamento, permitiu-me construir minha vida sobre um fundamento sólido. Perguntei-me: como poderei dar toda a minha vida nestes poucos anos que terei para viver? Como poderei realizar em minha existência aquilo que viveram as pessoas da Bíblia? Cheguei a pensar que minha vida fosse breve demais para poder assimilar este livro. Então tentei, na oração e com muitas lágrimas, entender estes homens do Antigo Testamento, e , pouco a pouco, se me tornaram familiares; assim me adaptei a eles, e agora eles vivem em mim e eu neles. Do modo como eles viveram sua relação com Deus, assim eu vivo hoje. Nos livros do Antigo Testamento experimentei o amor de Deus, a sua severidade, a sua pedagogia, a sua bondade. Dia e noite li a Bíblia, para que se tornasse minha própria carne e meu sangue. Depois passei para o Novo Testamento, que para mim tem sido um livro luminoso. Entendi que o Senhor é a luz do dia; Cristo a estrela da paz. Antigo e Novo Testamento me ligam a Deus. Minha vida, meu pensamento, minha filo, meu amor não é outra coisa senão a Sagrada Escritura. O resto não me interessa mais”.

I.3 E o deserto florescerá... 

 A pequena comunidade deixou Wadi el Rayan em 1969, atendendo ao convite do então patriarca Cirilo VI, que tinha exortado Matta el Meskin e seus companheiros a deslocar-se para o mosteiro de São Macário, em Wadi el Natrun no deserto de Schete, para revitalizá-lo. O patriarca abençoou-os, assegurou-lhes sua oração e invocou sobre Matta el Meskin a graça de fazer reflorescer o deserto, novamente povoando-o de monges. Viviam então em São Macário apenas seis monges, já avançados na idade, e as construções corriam o risco de desabar ou de serem sepultadas sob as tempestades de areia. O novo grupo foi acolhido como uma bênção pelo pai espiritual do mosteiro, o bispo Amba Michail que, com seu discernimento e humildade soube garantir aos novos monges o clima ideal para a desejada renovação. No espaço de poucos anos o mosteiro de São Macário - que está ininterruptamente habitado pelos monges desde o século IV - conheceu um surpreendente renascimento espiritual e, em conseqüência, também material. Inteiramente reconstruído e notavelmente ampliado, agora acolhe uma centena de monges que o carisma de paternidade espiritual de Matta el Meskin gerou em Cristo na vida monástica.

I.4 A palavra de Deus e os Pais  

Essa vida tem como fundamento, antes de tudo, a palavra de Deus, alimento de cada dia, pão que revigora para a luta, consolação que sustenta a esperança da meta: o reino de Deus. A um discípulo que pedia a Matta el Meskin que lhe ensinasse a rezar, ele respondeu: “Dá-me tua Bíblia”. Abriu o livro, procurou o início da Carta aos Efésios, ergueu-se, levantou os olhos ao céu e disse: “Reza assim” e, após ter lido em alta voz o primeiro versículo, calou-se, repetiu cada palavra duas vezes e releu tudo desde o início; depois, no versículo seguinte, elevou a voz, suplicou a Deus que o perdoasse, cantarolou o mesmo versículo, balbuciou as palavras, ergueu as mãos, chorou... e fez assim para todo o capítulo! Neste meio tempo tinha-se esquecido totalmente da presença do discípulo, que permanecera sentado perto dele...

A Escritura, porém, vem através de uma tradição, e, por isso, ao lado dela, os exemplos dos pais do deserto e os escritos dos pais da igreja são, para os monges de Schete, alimento quotidiano na leitura, no estudo, na contemplação. Matta el Meskin, a respeito disso, adverte: “Quando lemos um apotegma dos pais, deve-nos acontecer isto: primeiro, o Espírito convence-nos de que sua experiência é verdadeira, depois devemos lutar para fazer nossa a sua experiência, perseverando na luta até a morte, isto é, estando prontos a morrer para permanecer fiéis ao mandamento que o Espírito nos deu. Morrer para pôr em prática no Espírito um mandamento do Senhor, este é o verdadeiro martírio. Mas, aquele que está pronto para morrer, será salvo pelo Senhor e não morrerá, porque Ele morreu por nós. Se o monge, antes ainda de receber o hábito, está decidido a permanecer incondicionalmente fiel, até a morte, se não tem medo da morte, sua vida monástica será uma vitória espiritual. Mas se teme por seu corpo, recusa-se a correr riscos, sua vida monástica será muito penosa. Pior, será para ele muito difícil ser transformado pelo Espírito num homem novo e saborear verdadeiramente a vida eterna”.

I.5 Abuna - O pai espiritual  

Ao lado da palavra de Deus e da tradição dos pais do deserto, numa fidelidade que se consolida e se renova dia após dia, encontra-se a figura do pai espiritual. Ainda hoje, apesar de provado pela idade e pela saúde e obrigado a viver a uma certa distância do mosteiro, Matta el Meskin não cessa de exercitar sua paternidade sobre a comunidade e sobre cada monge. Sua jornada é dividida - como no início de seu caminho monástico - entre a oração e a redação de comentários bíblicos e textos espirituais, depois lidos na comunidade, mas freqüentemente passa horas ouvindo aqueles que nele buscam aquela palavra de vida que não cessa de encaminhá-los a Cristo: pode-se vê-lo ainda perto da noite sentado na cadeira de sua cela, enquanto que um monge está sentado a seus pés e um terceiro, um quarto, esperam a uma certa distância.

A única regra para os monges é o amor de Jesus crucificado e é este espírito de amor que anima a tudo. A função do pai espiritual é discernir com clareza como cada um de seus filhos deve concretamente realizar-se. Ele é a regra vivente, que se adapta a cada vocação, que se renova constantemente e que percorre com cada um de seus filhos a estrada para Deus. Por isso o pai se retira freqüentemente: ele também deve viver no Espírito e renovar-se no Espírito, para que possa operar por intermédio dele: realmente, de fato, não é o pai espiritual que introduz seus filhos na intimidade de Deus, e sim o Espírito.

Wadid, um monge de São Macário, disse: “Abuna Matta entrega-se ao Senhor, para que transmita a seus filhos a sua experiência interior de pai. Também eles devem viver na liberdade do Espírito, porque onde está o Espírito do Senhor, lá está a liberdade (2Cor 3,17). Essa liberdade dos filhos de Deus é a guia de nossa vida, e não um certo número de regras fixas ou de princípios preestabelecidos. E a experiência nos ensinou que esta vida interior movida pelo Espírito é sempre conforme a doutrina dos pais do deserto e a tradição patrística e monástica”.

Deste modo, a função do pai espiritual é ao mesmo tempo discreta e de importância vital, pois ele é guiado pelo Espírito. Enriquecido por sua experiência de 50 anos no deserto, Abuna Matta ajuda cada um de seus filhos a reconhecer qual é a vontade de Deus para cada um. Ele cuida de não impor a própria personalidade aos outros, e ao mesmo tempo cuida para que cada um possa desenvolver-se segundo sua própria vocação, de modo a ser guiado unicamente pela luz interna do Espírito. Esta diversidade favorece uma unidade mais profunda: condição para essa unidade é a abertura e a confiança de cada membro da comunidade para com o pai espiritual. Isso supõe que o filho abra seu coração ao pai espiritual, e também que o pai fale ao filho com franqueza. Somente assim pode-se transmitir uma experiência espiritual.

O pai apresenta apenas uma condição a quem deseja entrar no mosteiro: “que tenha ao menos uma vez sentido bater o próprio coração por amor de Deus” ou, como ele mesmo diz: “Não imponho nenhuma condição a quem deseja entrar no mosteiro; simplesmente pergunto: ‘Amas o Senhor?’ ,e se me responde: ‘Sim’, faço-lhe outra pergunta, mais importante: ‘E sentes que Jesus te ama?’ Se também a esta pergunta me responde ‘Sim’, então tudo está bem, porque é o amor do Senhor que nos uniu e que conduz nossa vida dia após dia: única finalidade de nossa vida é submeter-nos sempre à vontade de Deus por amor dele. Conhecemos a vontade de Deus através da sagrada Escritura; portanto, nossa ocupação principal é nutrir-nos da palavra de Deus, quer do Antigo quer do Novo Testamento”. Esta é a estrada que ele mesmo percorreu: o chamado de Deus, ao qual respondeu incondicionalmente “sim”, e a fome do Pão vivo de Deus.

I.6 A luz de Cristo na face de seus santos

Viver rezando e trabalhando com os monges de São Macário, dialogar com qualquer um deles, assim como ler as catequeses proferidas nas grandes festividades por Matta el Meskin, produz um efeito avassalador na vida espiritual de nós, cristãos ocidentais, mais habituados a crer com a inteligência e não com o coração. Em Schete, os monges vivem ainda como seus pais, os anciãos do deserto: não procuram reproduzir os gestos deles, pois imitá-los significaria traí-los; procuram principalmente, hoje como então, discernir a vontade de Deus e colocá-la em prática dia após dia, renunciando à própria vontade. Dessa forma, mesmo se o trançar juncos deu lugar à impressão de livros, e a fabricação de cestos ao cultivo do deserto e à criação de animais, mesmo se as construções de cimento parcialmente substituíram as grutas, e as obras de caridade hoje estão unidas à administração de um moderno dispensário, o espírito que anima os monges permaneceu o mesmo que animava seus pais. Nós que os ouvimos cantar melodias tão antigas quanto as paredes de suas maravilhosas igrejas, os vimos trabalhar com a alegria nos olhos e no coração, os ouvimos chamarem-se pelo nome - Jeremias, Wadid, Hilário, Longino, João, Irineu, Cirilo... - tivemos a sensação quase física de que aquele mundo não está morto e não pode morrer, porque está unido tenazmente ao Senhor da vida, ao Cristo ressuscitado e vivente para sempre. Mortos somos nós, que antes de agir queremos primeiro entender, nós que antes de darmos um passo queremos estar garantidos, nós que antes de amar fazemos cálculos, nós que antes de viver devemos programar.

Porém, basta tão pouco para deixar-nos tomar por aquele fluxo de vida que jorra do sepulcro vazio e que, alimentado pelas energias do Ressuscitado, atravessa toda a história: basta que nos reconheçamos carentes, carentes da misericórdia de Deus que vem ao nosso encontro nos irmãos. “Abbá, diz-me uma palavra”: e a resposta às vezes é o silêncio, outras vezes é encaminhar-nos à única Palavra de vida, mas freqüentemente ainda é um gesto, um conjunto de gestos, a plenitude de uma vida que vale a pena ser vivida porque aceitou-se perdê-la no seguimento de Cristo, o amigo dos homens que deu sua vida por nós pecadores. “Desde o dia da transfiguração Cristo não cessou mais de infundir sua luz nos corpos e nas faces dos seus santos. O deserto de Scete é testemunha desta realidade e teve como dom uma grande participação nesta luz celeste”: assim escreve Matta el Meskin dos santos que o precederam naquele mosteiro, e assim também nós nos sentimos escrevendo sobre ele, agradecendo ao Senhor que não cessa de fazer-nos o dom das suas testemunhas resplandecentes de sua luz.

Enzo Bianchi prior de Bose

Fonte:

[1] A presente antologia foi extraída da obra COMUNIONE NELL’AMORE, a cura di Guido Dotti, Edizioni Qiqajon, Comunità di Bose, Magnano, 1987.

2] A Igreja copta é herdeira do antigo patriarcado de Alexandria e hoje abrange de 15/20% da população egípcia. Sua origem se situa na rejeição ao Concílio de Calcedônia (451) que definiu em Cristo uma pessoa (divina) e duas naturezas (divina e humana). Os coptas são monofisitas (em Cristo há uma só natureza, a divina). Atualmente, o diálogo teológico demonstrou que os coptas possuem a mesma profissão de fé católica, sendo a diferença lingüística e não dogmática. A Igreja copta vive atualmente um grande reflorescimento espiritual.

[3] Há dois modos principais de viver a vida monástica: a eremítica (o monge vive sozinho em sua cela, que é uma pequena casa isolada, se encontrando com os outros para o Ofício divino e a Liturgia) e a cenobítica (o monge vive num mosteiro, que é uma comunidade monástica).

*Publicação em ECCLESIA autorizada pelo Tradutor, Pe. José Artulino Besen.

 

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