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Matta el Meskin:

Comunhão no Amor

trad.: Pe. José Artulino Besen*

A nossa comunhão é com o Pai
e com o seu Filho Jesus Cristo. 1Jo 1,3

XI. A Paixão de Cristo em nossa vida

Conteúdo:

XI.1 A Semana da Paixão ou Semana da Vítima Pascal

XI.2 Um modo novo de ver o sofrimento

XI.3 A aceitação do sofrimento

XI.4 A mão amorosa que estende o cálice do sofrimento

XI.5 «Perdoa-lhes»

XI.6 A hostilidade é inevitável

XI.7 O sofrimento é o nosso caminho rumo à glória

 

XI.1 A Semana da Paixão ou Semana da Vítima Pascal

termo pascha significa passagem e indica o rito do cordeiro pascal, graças a cujo sangue o anjo destruidor passou diante das casas dos hebreus, mas não lhes fez mal algum. A semana da Páscoa-passagem não é uma semana de sofrimento inútil mas, ao contrário, de sofrimento-passagem, de sofrimento pascal, cuja força, luz e esplendor vêm-nos do sangue do Cordeiro imolado na cruz. Esse é o motivo pelo qual devemos sofrer juntos esta semana da Paixão. Todavia, o ir-além graças ao poder do sangue de Jesus significa que, por meio do sofrimento, nós passamos de uma vida a outra, de uma fé a uma outra.

Cada vez que celebramos os acontecimentos da semana da Paixão, devemos vivê-los como ocasiões irrepetíveis que nos são oferecidas para obtermos uma vida mais rica de energias. Durante esta santa semana ouviremos mais vezes como o Senhor revelou a seus discípulos o secreto plano de amor que, por decisão pessoal, decidira levar à realização em sua pessoa, como expressão de um amor mudo e escondido.

Eis que vamos subir a Jerusalém... 
e o Filho do homem será entregue aos pagãos, 
que o matarão.

(Lc 18, 31-32)

Os discípulos ficaram tristes ao ouvir estas palavras e algum deles condenou esse projeto: eles não podiam perceber-lhe a enorme grandeza. Mas vós, irmãos, vós que contemplastes a grandeza da salvação e do amor, conseqüência de tal bendito plano - o plano de subir a Jerusalém onde o Filho do homem devia ser preso, insultado e depois morto - como poderíeis opor-vos a esse plano? Quem poderia ouvir falar desse mistério divino - o mistério da entrega total ao Pai - sem desejar realizá-lo, seguindo os passos do Senhor no caminho do Gólgota?

Assim  como, externamente, existe apenas sofrimento e aflição, na ressurreição há alegria, força, ascensão ao céu. E então, quem haveria de rejeitar viver com o Senhor a semana do sofrimento pascal? Quem quereria ainda retroceder, julgando muito alto o preço para tão grande salvação? É um plano cuja vitória está garantida de modo absoluto: façamo-lo nosso, todos juntos, com amor e fé, cada um segundo as próprias capacidades.

Portanto, avancemos juntos ao longo do caminho do Calvário, cumprindo a semana da Paixão em vista da passagem. Prometa cada um, no seu coração, percorrer o caminho: para cada um existe um trajeto particular, um sofrimento e um amor reservados a ele. Mas todos, todos, vamos além, sem que ninguém se retire ao longo do caminho, semelhantes a uma fila única, porque os nossos passos foram marcados com o sangue de um único Cordeiro. É uma ação santa em Espírito e poder. A Páscoa, eis o que temos ardentemente desejado: um passar além do olhar do anjo destruidor, um passar das trevas e da loucura do pecado, do estar sentados nas panelas do desejo, uma passagem da escravidão e da humilhação do faraó à luz, à salvação, à libertação que nos foram dadas por meio do sangue de Cristo.

Como é rica a glória da semana da Vítima pascal em que nos é dado realizar esta passagem! De agora em diante, transformemo-la em sofrimento por causa do amor, acolhido espontaneamente; nesta semana molhemos com lágrimas o nosso pão, lavemos com o pranto nosso leito, sem conceder sono às nossas pálpebras enquanto não passarmos além do vale de treva e de morte, de modo que Cristo possa resplandecer em nós na sua ressurreição. Ele voltou o semblante para Jerusalém, absolutamente decidido a realizar este desígnio; ofereceu a face aos insultos e as costas aos flagelos; não teve nenhuma hesitação em ir adiante, até a imolação.

Assim, abriu-nos a porta e ofereceu-nos seu projeto: a nós, basta segui-lo!

XI.2 Um modo novo de ver o sofrimento

Cristo tinha mostrado sua suprema autoridade sobre a morte fazendo ressuscitar dos mortos a Lázaro, e Maria tinha ungido seu corpo com um ungüento precioso, gesto que o Senhor considerou como uma verdadeira unção em vista da morte. Após esses fatos, Cristo caminhou para a cruz, a fim de cumprir o evangelho e realizar a obra para a qual viera, enfrentando o sofrimento e a morte voluntária.

Mas, demos agora uma olhada no primeiro e último dos sete milagres realizados pelo Senhor - no evangelho segundo João - pois eles estão intimamente ligados entre si.

O primeiro dos sinais realizados por Jesus, acontece na casa de pessoas que o amavam e entre gente disposta a nele crer: foi nas núpcias em Caná da Galiléia, onde o Senhor mudou a água em vinho bom, em resposta ao pedido apresentado pela virgem Maria, sua mãe.

No final, encontramo-nos ainda na casa de pessoas amadas: Lázaro, Maria e Marta, pessoas entre as mais leais entre os que acreditavam nele. Jesus, por causa da súplica de Maria, a irmã de Lázaro, restituiu a vida a seu amigo. É aqui que manifestou a sua glória, como anota o evangelho. No primeiro milagre, a única objeção à súplica da Virgem foi que sua hora ainda não tinha chegado. Mas agora, após três anos ou mais, a hora chegou, e não há mais lugar para alguma objeção frente aos milagres que realizaria. Também nesta ocasião, o evangelho nos avisa que Jesus revelou a sua glória. Acontece sempre assim: somente naqueles que crêem nele e em ninguém mais, Jesus encontra as ocasiões mais adaptadas para realizar os seus sinais e manifestar a sua glória.

Exatamente após ter mudado a água em vinho, Jesus imediatamente começou a ensinar como operar a transformação do próprio homem com um novo nascimento do alto, do céu, da água e do Espírito, introduzindo-o numa vida nova, eterna: somente com dificuldade Nicodemos poderia captar esta verdade. Do mesmo modo, ressuscitando Lázaro dos mortos, Jesus deu um sinal visível de sua capacidade de ressuscitar os mortos ou, em outros termos, de operar uma transformação total. Aqui a dificuldade atinge o ápice, também para aqueles que o rejeitavam: era tal sua falta de fé que, daquele momento em diante, conspiraram para matar tanto Lázaro quanto Jesus.

Assim, os espasmos da morte começam bem antes da cruz. Mas, que paradoxo! A paixão do Senhor  começa logo após ele revelar sua identidade! Ingressa em Jerusalém como o Rei de Israel, o senhor do templo ou, segundo as profecias, como aquele que logo entrará em seu templo (Ml 3,1); mais adiante anota a profecia: Mas, quem  poderá suportar o dia de sua vinda? (Ml 3,2).

Para dizer a verdade, os chefes dos sacerdotes e todos os doutores da lei, juntamente com os guardiães das coisas sagradas e do ensinamento, não poderiam suportar tal espetáculo! Não porque Jesus tivesse entrado em Jerusalém e no templo com uma tão grande glória, mas exatamente pelo motivo oposto: porque tinha entrado manso e humilde, cavalgando um jumento, e isso desiludia todas as suas espectativas.

A paixão de Cristo começou com uma rejeição absoluta, uma humilhação e um ódio extremos. Vem manso e humilde, e isso era incompatível com os sonhos de Israel mas, neste modo, Cristo passou pelo caminho estreito. Realizava-se nele a profecia: “Rejeitado das nações, servo dos poderosos” (Is 49,7).

Assim começa, ainda hoje, o caminho da cruz para aqueles que aderem à verdade. E aqui aparece o paradoxo desde sempre odiado pelas autoridades: ouvir a verdade da boca de um fraco é algo que não podem tolerar.

Com grande sabedoria, portanto, a Igreja pôs como início da semana da Paixão o domingo de Ramos, reinvocando o dia em que a honra e a acolhida demonstradas a Jesus atingiram o ápice, o dia em que a igreja proclama: “Hosana no altos dos céus, Rei de Israel. Bendito aquele que vem no nome do Senhor”. Contudo, ao mesmo tempo, a Igreja começa a cantar os salmos com tons de lamento e a proclamar o evangelho com uma melodia extremamente comovente, que fere o coração, enquanto os sinais da Oblação estão ainda ali, sobre o altar.

É deveras surpreendente! Mas essa é a consciência que a Igreja tem de Cristo, ou melhor, do evangelho. É um paradoxo que vai além da razão, no qual o desconforto e a aflição mais extremos misturam-se com a máxima alegria e esperança! A igreja tem consciência de que a rejeição de Cristo, por parte dos chefes dos sacerdotes, o infligir-lhe o mal, insultá-lo, anulá-lo na cruz, exatamente essas coisas dão origem a uma alegria inefável e elevada com vistas à salvação eterna.

XI.3 A aceitação do sofrimento

Talvez a realidade mais profunda que pode ser sondada pelo cristão, ao refletir sobre a paixão e a crucifixão, é que a cruz, para Cristo, foi um ato voluntário e bem aceito: Por acaso não devo beber o cálice que meu Pai me deu? (Jo 18,11). Mas, não é só, pois os sofrimentos e a crucifixão não eram somente voluntários e bem aceitos, mas tinham-se tornado um escopo e um fim, para cuja realização Cristo tinha vindo: Para isso cheguei a esta hora (Jo 12,27).

Isso nos induz, enquanto cristãos, a interpretar o sofrimento nestes termos: o cristão que verdadeiramente crê na cruz não deve abusar da própria liberdade para evitar o sofrimento. Quem sondou a profundidade e os mistérios da cruz, concebe o sofrimento como uma parte integrante de sua fé: espera-o como uma herança apetecida, um desafio que realiza feliz, um fim pelo qual trabalhar sem medo.

Narra a tradição que um grande medo tomou conta de Pedro quando Nero, diante de sua proclamação de fé, pronunciou contra ele a sentença de morte por crucifixão. Pedro livrou-se dos guardas e fugiu. Mas o Senhor apareceu-lhe em visão e lhe perguntou: “Para onde vais, Pedro? Queres que eu seja crucificado por ti mais uma vez?” Pedro então foi tomado pela vergonha e afligido por uma amarga dor: como pôde realizar um ato tão vergonhoso e trair a cruz de seu Mestre? Assim, imediatamente, retornou à cidade e entregou-se espontaneamente aos carnífices.

Com isso, a tradição oferece à nossa fé um elemento de extrema importância: quem se subtrai ao próprio cálice e à sua parte no sofrimento, nada mais faz do que privar-se a si mesmo da parte que lhe cabe no sofrimento de Cristo; é como se tivesse necessidade de que Cristo fosse novamente crucificado por ele.

XI.4 A mão amorosa que estende o cálice do sofrimento

 Os olhos de Cristo nunca deixaram de reconhecer a mão que lhe oferecia o cálice do sofrimento. Cristo nunca prestou atenção às mãos malvadas que movimentavam o martelo e os pregos. Nem deu atenção aos grosseiros e rancorosos rostos dos chefes dos sacerdotes que urlavam: Crucifica-o, crucifica-o!  (Jo 19,6). Olhou menos ainda para Pilatos, como se fosse uma autoridade que pronuncia a sentença de morte pela crucifixão. Do mesmo modo, seus ouvidos não prestaram atenção alguma aos insultos e às palavras de desprezo que saíam das bocas dos malvados e vingativos fariseus, guardas da lei e do sábado. Seus olhos estavam fixos unicamente na mão do Pai, a única que realmente movimentava o martelo e os pregos. Seus ouvidos somente prestavam atenção à voz do Pai, enquanto pronunciava a sentença de flagelação e de crucifixão. Cristo dissera a Pilatos com extrema clareza: Tu não terias poder algum sobre mim, se não te fosse dado do alto  (Jo 19,11).

Pilatos pensava que estavam incluídas nas suas faculdades libertar o Senhor e não crucificá-lo. E foi exatamente aqui que Cristo repreendeu-o asperamente, pois isso nada mais era que uma pura ilusão. Foi Jesus, e não Pilatos, quem decidiu o desenvolvimento de todo o processo, da acusação à defesa, à sentença. Na verdade, Pilatos estava executando aquilo que o céu lhe ditava! Nada contava a desonesta sentença do sinédrio ou a corrupta lei romana: de fato, a sentença de sofrimento e de morte na cruz, em primeira e última instância, tinha sido derramada e misturada com o amor num único cálice, por obra do Pai que amava o Filho antes da fundação do mundo. E a origem deste cálice era exatamente o amor de Deus pelo mundo! Por isso, não era tão amargo como poderia aparecer nem estava misturado, apesar das aparências, ao ódio do Maligno ou à intriga dos hipócritas. Pelo contrário, era uma parte escolhida da herança oferecida pela mão do próprio Pai e continha em si a essência do amor, da ressurreição e da vida.

Para captar em toda a sua grandeza esse exemplo de aceitação do sofrimento, devemos buscar exemplos mais modestos, com suas pequenas cruzes. Um modelo desse tipo poderia ser José, o jovem bendito de Deus que não guardou nenhum rancor pelos irmãos que o tinham atirado num poço e depois o venderam por dinheiro para que fosse levado para longe, em exílio solitário, no Egito. Ele ergueu o coração e os olhos a Deus, julgando que aquele fosse seu destino, proveniente diretamente da mão de Deus. José não viu a pérfida mão violenta do irmão que o suspendia com as cordas nas profundezas do poço, enquanto discutiam o preço de seu sangue, pelo qual o haviam vendido aos ismaelitas. Em tudo isso, de fato, nada mais viu do que a mão invisível, a mão do próprio Deus que tecia numa única trama todos esse acontecimentos. Finalmente, sendo manifesta a torpe ação de seus irmãos, ouvimos José que os consola dizendo: Não fostes vós quem me mandou aqui, mas Deus... Embora tenhais tramado o mal contra mim, Deus decidiu transformá-lo num bem (Gn 45,8; 50,20).

Cristo veio para elevar experiências menores e exemplos individuais como esse ao curso universal dos acontecimentos, à lei divina, à grande cruz da redenção, à aliança entre Deus e a humanidade. Cristo assinou o pacto com o seu sangue e deu seu Espírito Santo como garantia. Essa aliança consiste na presença da mão mais misericordiosa que pode existir, a mão de Deus, por detrás de cada golpe desferido contra nossa tenda terrena. Exatamente ali, a sua mão está estendida para desenvolver a função do puro amor! A mão traspassada de Cristo, na qual estava antecipadamente escrito o nosso nome, tornou-se garantia da nossa salvação: de nossos sofrimentos e de nossas dores quotidianas (que parecem devidas ao acaso), das perseguições que sofremos da parte de quem nos oprime e da ingratidão daqueles com os quais nos preocupamos a cada dia, Deus faz emergir uma dulcíssima cruz, que traz para nós a semente da vida eterna, uma cruz que possui o doce sabor de Cristo, à semelhança de sua cruz gloriosa.

XI.5 «Perdoa-lhes»

Cristo aceitou o cálice que lhe foi trazido pela mão do Pai com toda a infâmia, o opróbrio, a desonra e o sofrimento até a morte, de que estava cheio. Aceitou-o como se fosse amor, amor absoluto, livre de qualquer dúvida ou lamento, de qualquer reprovação ou gemido. .Desta aceitação não existe prova mais eloqüente do que as palavras de Cristo: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem (Lc 23,34). Jesus pronunciou-as na última hora, quando a dor tinha se tornado extrema e o opróbrio tinha atingido o cume, imediatamente antes de ele morrer.

Se os olhos de Cristo não permanecessem fixos na mão do Pai que segurava o cálice do sofrimento e da morte, Cristo não poderia fazer outra coisa senão ver as dores que o circundavam, a louca hostilidade, o desprezo e a alegria malévola, a extrema opressão, toda a loucura com que o diabo incitou os chefes, os anciãos do povo e o discípulo traidor.

Assim, o mandamento que Cristo nos deu para que em nossas orações pedíssemos o perdão para aqueles que pecaram contra nós, não se apóia no vazio, nem é semelhante às ordens da lei, na realidade incapazes de redimir ou garantir a salvação. Pelo contrário, o mandamento de Cristo, fundamentado na obediência ao amor de Deus, amadurece no horizonte impressionante da cruz, daquela cruz que ele nos mandou carregar no seguimento e na imitação dele.

Por isso, quem decidiu carregar a cruz de Cristo deve antes de tudo evitar cair no engano daquelas mãos grosseiras que crucificaram as suas esperanças e os seus sentimentos. Tampouco deve deixar-se desorientar pela malvadeza daqueles que lhe estão preparando uma emboscada, ou pelas intrigas do Maligno. Apenas deve ter os olhos fixos na mão amorosa e compassiva que lhe colocou às costas o jugo da cruz - juntamente com todos os instrumentos que acompanharam a crucifixão de Cristo -, considerando-o como uma parte da herança que lhe foi destinada, estabelecida nos mínimos detalhes e de acordo com o decreto fixado pelo amor de Deus, que a tudo mede com o metro da glória de Cristo. Isso significa que, por mais pesada que possa ser a nossa cruz e por mais que o inimigo possa avançar (com a cumplicidade dos agentes de iniqüidade) para torná-la pesada, de qualquer modo, o fardo colocado sobre nossas frágeis costas, apesar disso, a mão divina, por sua vez, mede também a porção que nos é reservada no peso correspondente de glória na cruz de Cristo. Isso acontece de tal modo que, se - mesmo por um instante - fosse tirado o véu que nos cobre os olhos e que o inimigo tece contra nós em momentos deste gênero, a ainda junto a isso fossem tiradas a fraqueza da alma, o nojo e o cansaço dos nervos, imediatamente compreenderemos que o leve peso desta cruz, unido à nossa leve e momentânea aflição, na realidade criou, como atesta o Espírito, um eterno peso de glória, colocado diante de nós nos céus e visível ao nosso espírito exatamente no profundo do coração. É esta verdade que torna realmente mais fácil perdoar os outros de todo o coração; mais ainda, permite-nos ir bem além, até chegar à oração e ao amor por todos aqueles que pecaram contra nós e nos fizeram mal, qualquer que seja este mal ou ofensa, fosse mesmo a morte.

A vida eterna, com todos os seus esplendores e sua glória, está escondida no mistério da suave, pequena cruz, que o Senhor colocou em nossas costas!

XI.6 A hostilidade é inevitável

Apenas surge o extraordinário poder de Cristo e se manifestam seus milagres e, por toda parte, se difundiram suas ações e obras que tanto chamaram a atenção pelo seu esplendor, imediatamente os sumos sacerdotes, os escribas, os fariseus e quantos se serviam da religião para conseguir com o que viver, passaram a levantar suspeitas em relação a ele, depois a atacá-lo e, sucessivamente, fazê-lo cair em suspeita de erro nas palavras e ações. No fim, nada mais lhes restava do que conspirar em segredo, tramando com muita pressa para eliminar esse estranho, caso não quisessem se arriscar a perder o prestígio e ver aumentar a indiferença com relação a si, como o próprio sumo sacerdote declarou. Deve ser absolutamente claro aos nossos olhos que a causa direta de sua tomada de posição contra Cristo, da resistência que culminou na crucifixão, pode ser resumida numa frase: o fulgurante sucesso de Cristo, seu sucesso em elevar o ânimo das pessoas e sua compreensão da lei, em infundir alegria nas pessoas homens em geral e nos pecadores em particular, no marginalizado, humilhado, rejeitado, afastado, no doente atingido por uma doença sem esperanças e naqueles possuídos por poderes diabólicos.

O sucesso de Cristo, seu amor, sua compaixão e sua mansidão foram a causa de todos os sofrimentos suportados e da crucifixão: isto do ponto de vista do mundo. Pelo que se refere a Deus Pai, é verdadeiro exatamente o contrário: na cruz, o plano do Pai e o consentimento plenamente obediente e alegre do Filho se revelaram salvação para o mundo: deste modo, quem crê em Cristo e na sua paixão, não morrerá. A cruz é a nova arca que transporta toda espécie de viventes; ainda hoje ela atravessa o dilúvio do mundo e os terríveis horrores de morte, até levar a salvo seus passageiros ao porto celeste, o mundo da paz eterna.

A mesma hostilidade manifestada pelas potências das trevas e de seu príncipe nos confrontos do Cristo Salvador ainda permanece, juntamente com o desprezo daqueles que o crucificaram, sacerdotes ou anciãos, levados por motivos de interesse pessoal ou por seu fanatismo cego. Esta maldade, esta loucura e este cego fanatismo encontram ainda um alvo em todos aqueles que abraçam o testemunho e o seguimento de Cristo na própria vida.

XI.7 O sofrimento é o nosso caminho rumo à glória

Bem-aventurados os aflitos
porque serão consolados.
Bem-aventurados aqueles que estão  crucificados,
porque serão transfigurados.
Bem-aventurados aqueles 
que estão completamente abandonados,
porque reinarão.
Bem-aventurados aqueles que têm fome 
e sede da justiça,
porque serão saciados.

Todos os seus sofrimentos serão esquecidos e suas lágrimas enxugadas: em seu lugar uma luz indicará os horrores suportados e o mistério da glória que deles nasceu. A grandeza da força humana do ânimo será revelada juntamente com o poder das ações misericordiosas de Deus, pois o sofrimento aparecerá pequeno e insignificante em comparação com a glória que dele deriva. Cada um de nós verá que o sofrimento era uma cilada sacra preparada por Deus para nos prender e conduzir-nos à glória: suportar o sofrimento, de fato, aproxima-nos mais de Deus do que os atos de culto.

Um santo narra que, em visão, viu um grupo de mártires resplandecentes de glória mais do que os anjos que apareceram junto com eles. Coroas de flores vermelhas ornamentavam o pescoço daqueles que tinham sido decapitados: dispostas exatamente no lugar em que a espada os tinha atingido, elas resplandeciam e brilhavam com um esplendor maior do que qualquer outra luz na visão.

Para Cristo, o mistério da cruz é o mistério de sua glória. O oprimente sofrimento que o Senhor suportou, o tormento interior diante da injustiça e da aberração de seu processo, o abandono de seus discípulos, a traição de Judas e a certeza de que os sumos sacerdotes tinham-se colocado de acordo com um de seus discípulos para avaliar sua vida em apenas trinta moedas de prata, tudo isso era um caminho através do qual Cristo pôde abandonar o mundo das vaidades passageiras para entrar na glória do Pai. E o homem, em todo tempo e lugar, deve percorrer o mesmo caminho. A cruz e seu enorme sofrimento não podem ser comparados com a glória deles derivada. A cruz não foi um acaso na vida do Senhor: ele nasceu para a cruz: Foi para isso que cheguei a essa hora (Jo 12,27). O homem nasceu para o sofrimento e o sofrimento nasceu para o homem. Mas, ao mesmo tempo, a cruz não foi um peso irrevogável imposto ao Senhor: suas próprias palavras nos fazem entendê-lo - e nós estamos seguros disso em consideração de sua santidade e divindade. Ele próprio fez a cruz se tornar um acontecimento irrevogável para sua vida: Por acaso não devo beber o cálice que o Pai me deu? (Jo 18,11) - para condividir conosco a inevitabilidade dos sofrimentos. Deus manifestou-se a si mesmo, na pessoa de Cristo seu Filho, como alguém obrigado a sofrer, a ponto de tornar o sofrimento aceito por obrigação igual ao sofrimento voluntariamente escolhido, de modo que nenhuma pessoa no mundo fosse privado da misericórdia de Deus e de modo que a cruz pudesse ser dilatada até a incluir todos aqueles que sofrem injustamente.

A realidade da dor é uma grande pedra de tropeço para a mente humana, que não pode aceitá-la como um meio para adquirir algo de bom.

Mas, se entendemos que a cruz é a maior manifestação de Deus nas realidades visíveis, porque nela Deus foi transfigurado pelo homem (mais do que no monte Tabor) e que a cruz é o sofrimento em sua maior, mais opressiva e injusta forma, então devemos também perceber que a cruz é, por assim dizer, o animal de carga em que montou o Deus Onipotente para descer do lugar de sua morada, onde estava escondido desde a eternidade, e vir a nós para tomar-nos pela mão. Do ponto de vista físico, o sofrimento representa um obstáculo negativo e coercitivo mas, em sua essência espiritual, é incomparável movimento!

O homem permanece numa situação espiritual acomodada, incapaz de avançar no seu retorno a Deus com Cristo enquanto não carrega sua própria cruz. O sofrimento leva o homem ao interior do mistério da cruz, de modo que ele não permanece mais como um morto, mas é conduzido a Cristo, guiado e arrastado de sofrimento em sofrimento até atingir o Pai, apoiando-se à cruz, e sobre a cruz nós o seguimos para retornar ao Pai.

Cristo disse: Sem mim nada podeis fazer (Jo 15,5). Falou assim não porque tiranicamente tinha a intenção de humilhar a nossa vontade, nem porque nós sejamos incapazes de atingir o conhecimento; de fato, ele nos ensinou tudo aquilo que temos necessidade de conhecer. Disse isso porque somente ele, como Filho, tem em si mesmo o poder de dirigir-se a Deus Pai. Cristo inclui em si o poder de dois movimentos: o movimento de Deus em direção a nós e o nosso movimento em direção ao Pai. O primeiro é um movimento natural e essencial, cujo fundamento se encontra no mistério do amor de Deus pela sua criação. O segundo é adquirido através da cruz, através do sofrimento sacrifical preparado para sustentar a humanidade privada de vida e fazê-la reerguer-se porque ele é o Filho unigênito de Deus, consubstancial ao Pai e voltado para o Pai.

Cristo nos plenificou do mistério destes dois poderes: o poder do amor e o poder da cruz, do sofrimento. Quando acolhemos estes dois poderes, Cristo age em nós misticamente, de modo que podemos progredir por ele e com ele até chegar ao Pai - neste ponto, graças a estes dois poderes e em Cristo, se realiza o grande mistério da união com Deus.

Em Cristo, antes da encarnação e da cruz, o poder de ir ao Pai era natural, mas para levar a humanidade e conduzi-la até o Pai - a humanidade que estava morta - além de assumir a carne e tornar-se homem - ele teve de submeter-se ao sofrimento sacrifical, de modo a levar-nos até a presença do Pai. Deste modo Cristo, através da cruz, conquistou para nós um poder em vista do nosso bem, o que significa o poder  de levar ao Pai a humanidade pecadora. Era justo que aquele, pelo qual e do qual existem todas as coisas, ao levar muitos filhos à glória tornasse perfeito, mediante o sofrimento, aquele que abriu a estrada de sua salvação  (Hb 2,10). 

Publicação em ECCLESIA autorizada pelo Tradutor, Pe. José Artulino Besen.

 

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