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Matta el Meskin:

Comunhão no Amor

trad.: Pe. José Artulino Besen*

A nossa comunhão é com o Pai
e com o seu Filho Jesus Cristo. 1Jo 1,3

XII. Tempo de Páscoa: Cristo Ressuscitou!

uão grande é a exultação da igreja quando, no tempo da Páscoa, celebra a ressurreição de Cristo dentre os mortos repetindo as palavras: Christós anésti, “Cristo ressuscitou”. Para a igreja, estas palavras significam que se realizou a redenção e que tornou-se um direito de todos os pecadores receber com fé a garantia da libertação da escravidão do pecado e da morte e acolher o chamado à vida eterna.

Para adquirir uma fé robusta, devemos penetrar nas profundidades da fé da Igreja que une intimamente entre si o mistério da última Ceia (quinta-feira à noite), o mistério da crucifixão (sexta-feira) e o mistério da ressurreição (alvorada do domingo).

Durante a ceia da quinta-feira à noite, o Senhor revelou pela primeira vez o significado e a realidade da crucifixão iminente, da qual diversas vezes tinha falado apenas como sofrimento e morte. Nessa ocasião, explicou de modo extremamente breve, e em termos místicos, que ele teria oferecido a si mesmo como sacrifício em favor do mundo e que este sacrifício seria oferecido de modo completo ao Pai, exatamente como a oferenda pascal: corpo partido para os discípulos, a fim de que dele comessem, e sangue derramado por eles para que bebessem, para a remissão dos pecados e para a vida eterna.

O que assustou os discípulos durante a ceia, e que ainda assusta o mundo inteiro, é que Cristo não estava explicando teoricamente como seria imolado na sexta-feira, mas estava antecipando os acontecimentos. Um dia antes da crucifixão, ele se oferecia realmente a si mesmo imolado aos discípulos não como simples manifestação das próprias intenções, nem como figura, mas como um autêntico ato de despedaçamento, de imolação e de derramamento de sangue, no modo mais profundo e mais claro que nos próprios acontecimentos da sexta-feira, na cruz: de tal modo, todos os mistérios do sacrifício de si  realizado por Cristo na cruz na sexta-feira – impossíveis de se conceber e compreender para um ser humano – foram revelados por Cristo durante a ceia da quinta-feira e explicados aos discípulos.

Depois de ter partido o pão e derramado o vinho, Cristo os ofereceu aos discípulos, não como uma simples representação simbólica do partir o corpo e derramar o sangue que aconteceria na cruz: “Este é o meu corpo partido, este é o meu sangue derramado”. Aqui, Cristo realiza  um ato de morte voluntária através de um mistério inefável. Depois explicou o motivo do partir e do derramar: “por vós”, e também a finalidade: “para a remissão dos pecados”.

Sobretudo, ordenou aos discípulos que dele comessem e dele bebessem  não como pão ainda não partido ou como vinho ainda não derramado, mas como corpo realmente imolado, demonstrando que o mistério da sexta-feira estava presente diante deles como uma verdadeira Páscoa divina, que a morte na cruz na sexta-feira seria não somente uma oferta ao Pai pelos pecados do mundo, mas um sacrifício de amor e um banquete eterno, do qual o mundo inteiro poderia participar. Deste modo, Cristo revelou com clareza, e abertamente, que o sacrifício de si mesmo na cruz era um sacrifício expiatório oferecido a Deus Pai não só como ato espontâneo em favor do povo, mas como sacrifício de amor pessoal no qual a expiação não seria completada, a não ser com a real participação nele. Durante a ceia, Cristo explicou que a participação perfeita e real na fé em Cristo crucificado como sacrifício de salvação e de remissão dos pecados deve ser realizada através de uma condivisão do corpo e do sangue, conforme o mistério realizado na última ceia. Somente assim podemos atingir a expiação, o perdão e a união com Cristo, que desembocarão na vida eterna.

Por esse motivo, a igreja ortodoxa crê que a ceia da quinta-feira, a eucaristia, e a crucifixão da sexta-feira são um único e mesmo mistério: uma não pode ser compreendida sem a outra, nem o segredo do poder de uma pode ser alcançado sem a outra. O amor está na origem de ambas. Assim João fala de Jesus quando se assentou para a ceia, antes da festa da Páscoa: Sabendo que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo ao Pai, depois de ter amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim  (Jo 13,1). É por causa deste amor que Jesus morreu e ressuscitou dos mortos.

Ainda uma vez, um olhar profundo nos mistérios da ceia revelará que o anúncio do mistério da ressurreição no interior do anúncio do mistério de sua morte era absolutamente claro. Quando Cristo oferecia a si mesmo aos discípulos, dizendo: Tomai, comeu o meu corpo partido, bebei o meu sangue derramado,  ele oferecia o corpo e o sangue com suas próprias mãos, vivo e não morto. Na última ceia, Cristo era ao mesmo tempo imolado e ressuscitado, morto e vivente. Mistério extraordinário, com o qual Cristo pôde, de maneira forte e mística ao mesmo tempo, revelar a ressurreição incluída na iminente morte na cruz na sexta-feira: Eu sou o Primeiro e o Último e o Vivente. Eu estava morto, mas agora vivo para sempre (Apoc 1,17-18).

Deste modo, podemos conceber a grandeza da eucaristia celebrada por Cristo durante a ceia da quinta-feira santa e pela igreja até os nossos dias: mistério que explica não somente os segredos da crucifixão, mas também de Cristo morto e vivente e da redenção na sua inteireza. A morte sofrida por Cristo não era outra coisa senão um sacrifício de amor, sacrifício voluntário e expiatório, exprimindo o poder da morte pelos outros, e o poder da ressurreição juntamente com os outros. Conseqüentemente, é um sacrifício capaz de garantir a vida eterna – ao invés da morte pelos pecados cometidos – mediante o mistério da comunhão, tornada acessível a todos e transmitida exatamente através deste sacrifício, comunhão com o corpo e com o sangue de Cristo imolado e ressuscitado.

A igreja percebeu que a morte na cruz era um sacrifício vivente e doador de vida, sacrifício de expiação e de ressurreição pelos mortos: esta compreensão deu-se graças ao mistério da ceia. Ainda uma vez a igreja retorna aos segredos da última ceia e revela acontecimentos essenciais ligados aos acontecimentos da sexta-feira santa.

A cruz não era, para Cristo, como espalharam os sumos sacerdotes, um instrumento de tortura e de morte para um pecador e blasfemador (Crucifica-o, crucifica-o!): na mente do Pai e na consciência de Cristo, era num instrumento de sacrifício voluntário que jorrava de um ilimitado amor expiatório. A igreja deduziu isso do mistério da última ceia e dos discursos de despedida de Jesus transmitidos pelo evangelho segundo João. Por acaso, Cristo não tinha predito o tipo de morte que deveria sofrer? Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a própria vida pelos amigos (Jo 15,13).

Assim, através da ressurreição, de instrumento de castigo e de morte, a cruz foi transformada nas mãos dos crucificadores em instrumento eficaz do amor divino nas mãos do bom pastor, que resgatou suas ovelhas e que ainda hoje vai à procura da ovelha perdida até os confins da terra. Que lugar no mundo não tem erguida uma cruz, cruz que vai à procura dos pecadores para reconduzi-los ao redil do Pai? A cruz tornou-se um instrumento de alegria para todos aqueles que sabem dali brotar o mistério do perdão e do amor divino: Ele me amou e deu-se a si mesmo por mim  (Gl 2,20).

Deste modo, Cristo morreu unicamente para oferecer-se a si mesmo como sacrifício para todos os pecadores do mundo, e para oferecer, através deste sacrifício, o seu corpo repartido e o seu sangue derramado por todo homem, exatamente como fez na quinta-feira santa, de modo que cada um possa comer e beber o perdão, a ressurreição e a vida eterna.

Cristo continua a realizar o mistério de sua ceia em toda a Igreja e no meio de seu povo amado. Exatamente como fez na ceia da quinta-feira santa, em cada altar Cristo oferece com as próprias mãos o seu corpo e o seu sangue àqueles que comungam para a remissão dos pecados e para a vida eterna; a eucaristia foi instituída para fazer a todos alcançar o poder do amor infinito da ceia da quinta-feira, o poder dos sofrimentos suportados pela carne na cruz e o poder da ressurreição no qual o corpo ressurgiu e deixou o sepulcro vazio.

Mas não nos esqueçamos de que estes profundos significados de que é rico o mistério da ceia e toda a luz que dele emana para revelar a glória da cruz, não foram compreendidos pelos discípulos enquanto não estiveram certos da ressurreição. Durante a ceia, os discípulos não compreenderam nada daquilo que o Senhor dizia e explicava. As palavras pronunciadas por Cristo sobre a nova aliança, o sangue derramado, a remissão dos pecados e a vida eterna, não eram portadoras de algum significado para eles: o evangelho afirma que seus corações estavam cheios de tristeza (cf. Jo 16,6). Quando chegou a hora e foram dados os primeiros passos para a prisão de Jesus, quando os discípulos se encontraram diante da declaração pública das acusações e da sentença da crucifixão, foram tomados de pânico e fugiram, e um o renegou, apesar de tudo aquilo que Jesus lhes havia preanunciado. Foi como se Cristo não tivesse celebrado a eucaristia, nem lavado seus pés, nem falado da própria morte ao menos por algumas horas (segundo João), nem tivesse se entretido com eles sobre a ressurreição, o seu retorno e o envio do Consolador, ou como se lhos houvesse deixado sem conforto e sem a promessa de revê-los e de enchê-los de alegria. Tudo isso desapareceu diante de seu medo de padecer a violência, do aparecer dos guardas dos sumos sacerdotes e do ritual da prisão.

Na teologia da Igreja, no conceito de cruz, a Igreja encontra – entendida como sacrifício voluntário de si pela expiação dos pecados do mundo inteiro – o próprio fundamento e vértice. O mistério da ressurreição como realidade tangível de fé foi semelhante a uma gloriosa luz celeste que, quando invadiu o coração dos discípulos, transformou todas as humilhantes e dolorosas aflições da cruz em honra, triunfo e glória: a morte se tornou redenção, o túmulo mudou de poço de morte em fonte de vida.

Com razão Paulo afirma: Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé e vós permaneceis ainda em vossos pecados (1Cor 15,17). O aspecto mais importante na teologia da Igreja, que crê verdadeiramente que Cristo ressuscitou, é este: “Se Cristo ressuscitou e sua ressurreição tornou-se realidade dentro de nós, então nossa fé é autêntica e nós não estamos mais em nossos pecados”. Isso significa que a ressurreição de Cristo na carne, ao terceiro dia, tornou-se a força fundamental e eficaz para o perdão dos pecados. Por isso, na visão da Igreja, a ressurreição é a base do conceito de expiação. Por esta razão, não podemos afirmar que a morte de Cristo em si mesma tenha significado pagar o preço de nossos pecados e aplacar a Deus a fim de que afaste de nós a sua cólera: é a ressurreição que deu à morte de Cristo essa força de expiação e de reconciliação.

Se consideramos o canto alegre Christós anésti entoado pela Igreja, entendemos o motivo dessa alegria irresistível que dissolve toda dor e agonia da cruz, todo sofrimento do pecado e da morte. Se verdadeiramente Cristo ressuscitou, então nossa fé é autêntica e nós não estamos mais em nossos pecados. Sua cruz não foi infâmia, mas glória. O corpo do qual nos nutrimos é o corpo da sua crucifixão, é também o corpo da sua ressurreição e nos tornamos partícipes exatamente da sua ressurreição e da vida eterna.

A ressurreição de Cristo mudou a infâmia e a maldição da cruz em graça, salvação e glória e tornou o corpo despedaçado e o sangue derramado realidades não só vivas, mas também doadoras de vida. Além disso, se a morte constituía o preço a ser pago pelos nossos pecados, a ressurreição acrescentou o valor deste preço tornando-o clara e definitivamente aceito quer no céu quer na terra.

O que necessitamos é de uma ressurreição que tenha a mesma força reveladora daquela dada aos discípulos ao terceiro dia, uma ressurreição que possa corrigir todos os nossos conceitos errados de medo do sofrimento e da cruz e torne-se um ponto de partida para a nossa fé, uma força da qual extrair a capacidade não só de entender o poder que tem a cruz de perdoar os nossos pecados, mas também de suportar os mesmos sofrimentos  da cruz cheios de alegria. Não será mais uma agonia, mas uma comunhão na glória, como descobriu São Paulo: [Se] participamos de seus sofrimentos para participar também de sua glória (Rm 8,17).

Na doutrina da Igreja, a ressurreição tornou-se o fundamento do ato de redenção que estava latente no coração de Cristo desde o início. Redenção não significava somente que Cristo teria pago o preço de nossos pecados ou afastado a ira de Deus do réprobo tornado escravo do pecado. Para Cristo, redenção significava antes de tudo algo que ia além do perdão e da reconciliação: o restabelecimento do amor e da vida eterna que tínhamos perdido por causa da transgressão e da separação de Deus. Esta realidade originariamente estava implícita no conceito de encarnação, do modo como era compreendido pelos Pais da igreja, como Atanásio, que afirma: “O Verbo se fez homem para que nós pudéssemos nele nos tornarmos deuses” (isto é, participantes da natureza divina).

Por isso, a finalidade da encarnação, na visão dos Pais da igreja, jamais foi limitada à expiação da cruz e à redenção por meio do sangue, mas foi sempre além, até conceber a ressurreição com vista à renovação do homem como fim último da encarnação. Isso, porque o homem não teria cessado de cair em pecado, de romper a comunhão com Deus e de incorrer na ira divina, mesmo se os seus pecados tivessem sido perdoados. Na realidade, o homem tinha perdido os seus dons originários e a imagem de Deus nele estava distorcida: tinha chegado ao ponto de perder a faculdade de conhecer e amar a Deus e, como conseqüência, a faculdade de retornar à vida com Deus através da purificação, do conhecimento e do ensinamento. Reconciliar-nos com Deus e retornar à nossa condição originária não é uma questão de reparação das dívidas de nossos pecados: deve haver uma re-criação da pessoa. É o que escutamos do próprio Cristo na sua conversa sobre este tema com o rabi Nicodemos: Se alguém não nasce de novo, não pode ver o reino de Deus (Jo 3,3).

A ressurreição de Cristo dos mortos com o mesmo corpo com o qual tinha morrido, oferece a resposta prática e divina ao nosso novo nascimento entendido como nova criação. O poder de Cristo de novamente dar em plenitude a vida ao homem através da sua ressurreição foi sempre a grande esperança da igreja, desde o dia da ressurreição. É através da ressurreição que Cristo, vivente e vencedor não só do pecado, mas também da morte, abriu de uma vez por todas as portas para o nosso retorno ao reino de Deus, à vida eterna, depois de ter pago na cruz, ele mesmo, o preço de nossos pecados.

Assim, a ressurreição de Cristo nos revela o significado mais profundo escondido na cruz. Atrás daquele sacrifício, realizado com o pleno consentimento do Filho e com o beneplácito do Pai que o golpeou com a aflição, estavam a misericórdia paterna e o extremo afeto do Senhor Jesus para com os pecadores e o gênero humano.Trata-se de um sacrifício que obtém não só o perdão dos pecados, mas também a re-criação do pecador em Cristo e no seu Espírito: deste modo Cristo pode apresentar os homens ao Pai, no seu amor tomando-os consigo, após tê-los lavado no seu sangue; apresenta-os no seu ressurgir e sentar-se à direita do Pai, a fim de que possamos viver sem mancha diante de Deus Pai no amor, e sermos criaturas novas que carregam o próprio respiro vital do Espírito de Deus, amados como o Filho. Como afirma o próprio Cristo: Esteja neles o amor com o qual me amaste (Jo 17,26).

A doutrina da Igreja, ao sublinhar o amor de Deus como causa fundamental, vai da cruz à ressurreição, à ascensão, até o ingresso no Santo dos santos e o assentar-se à direita do Pai para assegurar a plena realização da redenção. Por isso, a igreja crê que a redenção continua também após o ingresso de Cristo no Santo dos santos: Ingressou uma vez por todas no santuário, deste modo conseguindo-nos uma redenção eterna (Hb 9,12).

Cristo é ainda vivente e, mesmo depois de ser morto por nós e ter-nos justificado com o seu sangue, continua a interceder por nós junto a Deus Pai com a audácia do amor com que realizou a redenção, de modo que nenhuma ira ou reprovação pode vir sobre nós por causa da nossa ignorância e da transgressão diária: Mas Deus mostra seu amor por nós porque, enquanto ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós. Agora, com maior razão ainda, justificados pelo seu sangue, seremos salvos por meio dele (Rm 5,8-9).

Que grave erro cometemos quando, depois que esta maravilhosa e gloriosa salvação foi completada em todas as suas etapas, separamos a cruz da ressurreição, considerando no coração e na mente a cruz como um espaço de aflição e de infâmia a ser evitado e temido e, ao contrário, fazendo da ressurreição um júbilo e uma glória a serem amados. Mas a ressurreição não é o preço da cruz e a cruz o preço da ressurreição e as duas não foram uma única glória para Jesus e para nós? Por acaso, a cruz não era, aos olhos do Pai, a autêntica glória de Cristo, exatamente quando estava suspenso, circundado de infâmia? Não revelou o próprio Jesus esta verdade na sua oração ao Pai no momento em que Judas tinha saído para realizar o gesto da traição e no qual Cristo compreende que a hora da cruz era iminente? Tendo pego o pedaço de pão, [Judas] imediatamente saiu. E era noite. Quando ele acabou de sair, Jesus disse: Agora o Filho do homem foi glorificado e também Deus foi glorificado nele. Se Deus foi glorificado nele, também Deus o glorificará em si mesmo e o glorificará logo (Jo 13,30-32).

Esta era a auréola de glória que Jesus viu resplandecer antecipadamente sobre si tanto na cruz como na ressurreição. Com seu agudo senso teológico, a igreja compreendeu que o próprio Cristo se sujeitou à morte, mas não caiu sob seu poder. A ressurreição era imanente nele e ele consentiu na crucifixão somente na medida do próprio empenho de amor pelos pecadores – Ninguém tem amor maior do que este: dar a vida pelos próprios amigos (Jo 15,13) – e de obediência ao Pai: fez-se obediente até a morte, e à morte de cruz (Fl 2,8).

Este é o motivo pelo qual a Escritura e os profetas afirmam não ser possível que ele ficasse preso no túmulo. A ressurreição veio sublinhar a voluntariedade de sua morte.

Diversas vezes Jesus insistiu neste aspecto misterioso e fundamental. Eu tenho o poder de entregá-la e o poder de retomá-la (Jo 10,18). Por acaso não devo beber o cálice que o Pai me deu? (Jo 18,11). Para isto vim ao mundo (Jo 18,37). Quando Pilatos pretendeu mostrar a própria superioridade com relação ao “rei dos judeus” como se ele tivesse o poder de crucificar ou de libertar, Cristo replicou imediatamente: Tu não terias nenhum poder sobre mim, se não te fosse dado do alto (Jo 19,11).

Pilatos desempenhou sua missão, satisfez os sumos sacerdotes e crucificou Jesus, exatamente como eles queriam, e o diabo também, de modo que a cruz pudesse ser uma infâmia lançada sobre Cristo e um castigo final, e os judeus pudessem livrar-se dele de uma vez por todas. Mas, com seu triunfo e ressurreição dos mortos, o Senhor  esvaziou todas as suas tramas urdidas com o príncipe deste mundo e com o poder das trevas; o Senhor inverteu a situação, de modo que, para Cristo e para cada crente, a cruz se torna glória e paz, enquanto que para o diabo e para todos aqueles que odeiam o nome de Cristo ela se torna infâmia e horror.

A ressurreição fez Cristo assentar-se nos céus como Rei dos reis, Senhor dos senhores, Ordenador de todos os séculos, e fez da morte de Cristo não só uma propiciação pela remissão dos pecados e a reconciliação do mundo com Deus, mas também uma renovação da criação do homem e uma mudança radical na própria natureza da humanidade; de uma vida segundo a carne a uma vida no Espírito, para preparar o corruptível a fim de se tornar incorruptível e o mortal para se tornar imortal, como afirma João no Apocalipse: O santo continue a se santificar (Apoc 22,11).

De agora em diante a nossa vida em Cristo está escrita para nós no céu na novidade do Espírito, a fim de que possamos reinar com Ele. Todos os atos quotidianos da igreja se tornaram conhecidos e lidos por todos os seres celestes, pois Cristo – que está assentado à direita da Potência nos céus – é também o Rei dos santos para a Igreja celeste e agora é a cabeça e o esposo da Igreja na terra, exatamente como o afirma Paulo: Para que seja manifestada agora no céu, por meio da igreja, aos principados e às potestades a multiforme sabedoria de Deus, segundo o plano eterno que realizou em Cristo Jesus nosso Senhor (Ef 3,10-11). Seja no sacramento do batismo – no qual acontecem a morte de Cristo e a ressurreição com ele, para obter-se o novo nascimento que nos coloca em condições de entrar no reino dos céus e de contemplá-lo a partir de agora – seja no sacramento da eucaristia – no qual se torna manifesto o corpo de Cristo – o Espírito desce e os crentes participam da oferta, proclamando a morte de Cristo e confessando a sua ressurreição na expectativa de tomar parte nela.

Cada vez que a igreja canta as palavras: Christós anésti (“Cristo ressuscitou”), o eco da resposta ressoa nos céus, na boca dos santos: Alithós anésti (“Ressuscitou de verdade”!) 

Publicação em ECCLESIA autorizada pelo Tradutor, Pe. José Artulino Besen.

 

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