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Matta el Meskin:

Comunhão no Amor

trad.: Pe. José Artulino Besen*

A nossa comunhão é com o Pai
e com o seu Filho Jesus Cristo. 1Jo 1,3

XVI. Os Frutos do Espírito Santo

XVI.1 A Assunção de Maria e a transfiguração de todas as criaturas

A festa da Assunção é uma ocasião para venerar o corpo da Virgem:
a sua assunção é um gesto imenso do favor divino.

tradição ortodoxa de venerar os corpos dos santos não tem o nada como fundamento: após longo colóquio com Deus, no curso do qual Moisés recebeu os mandamentos e a lei, sua face resplandecia de uma luz que os israelitas não conseguiam contemplar. A luz refletida daquele rosto era uma luz divina, e a luz divina manifesta a presença divina. Deus era visível na face de Moisés e, por isso, o povo pecador se abstinha de olhá-lo: de fato, o pecado e Deus não podem encontrar-se face a face. Este foi o motivo da necessidade do véu colocado na face de Moisés, que São Paulo considerará como um símbolo de cegueira espiritual. Paulo vai além, afirmando que, se o ministério da Lei  - da qual derivam a condenação e a morte - conseguiu para a carne semelhante glória visível e à face humana tal  esplendor, quanto maior deverá ser a glória obtida através do ministério da justiça (cf. Cor 3,7-18)! É neste terreno que se fundamenta a nossa tradição com relação à Virgem, a seu corpo e à sua face. Se a face de Moisés resplandecia após ter recebido as palavras escritas pelo dedo de Deus, manifestando assim a glória que tinha envolto seu corpo, quanto maior foi a glória que revestiu o corpo da Virgem quando acolheu em seu ventre a autêntica Palavra de Deus, O próprio Filho de Deus, que do corpo dela assumiu um corpo, depois que o Espírito Santo a tinha preparado e o poder de Deus a tinha coberto  e enchido de graça. Que glória isso trouxe para o corpo da Virgem!

Todos sabemos de que modo Deus pôs fim à vida de Moisés e como o sepultou no monte Nebo, longe dos olhares do povo, pelo temor de que fossem induzidos a adorá-lo: parece mesmo que irradiasse luz até depois de morto. Dele assim está escrito no livro do Deuteronômio: Até hoje ninguém sabe onde fica seu túmulo (Dt 34,6). Na Carta de Judas temos uma outra notícia explícita referente ao corpo de Moisés: O arcanjo Miguel, em luta com o demônio, quando lutava pelo corpo de Moisés... disse-lhe: “Condene-te o Senhor! (Jd 9). Isso indica que o arcanjo Miguel tinha recebido o encargo de guardar aquele corpo e de levá-lo ao céu; mas quando o diabo quis tomá-lo para si ou revelar o túmulo para enganar o povo, estourou uma batalha entre os dois e o arcanjo invocou o auxílio do Senhor como chefe das milícias celestes.

Se Deus se preocupou com o corpo de Moisés a ponto de preocupar-se pessoalmente com sua sepultura e de encarregar o arcanjo Miguel de guardá-lo e levá-lo para o céu - como quer a tradição judaica -, e tudo isso porque o corpo de Moisés refletia a luz e a glória de Deus após ter  estado em sua presença durante quarenta dias e ter recebido as tábuas da lei, a prática ortodoxa de honrar os corpos não fica sem fundamento. De quanto maior atenção deve ter-se servido Deus e Cristo pelo corpo da Virgem após a morte, corpo aquele que tinha alcançado uma duradoura descida do Espírito Santo, uma plenitude de graça, um particular envolvimento da parte da Potência do Altíssimo e, enfim, a morada, por nove meses, da Palavra de Deus em seu ventre! É verdade que não temos nenhuma descrição de que o corpo da Virgem resplandecesse de luz celeste, mas isso sabemos com certeza que era devido a uma extensão do processo de rebaixamento vivido por Cristo para conservar secreta a glória de sua divindade. Nem o corpo de Cristo durante a sua vida resplandeceu de luz particular, com exceção de apenas uma ocasião e por curto tempo - na noite da transfiguração -, e isso apesar de ele ser a verdadeira luz do mundo, a luz que sempre resplandece para todo homem.

É evidente a existência de um plano divino para conservar escondida toda a glória de Cristo e, como conseqüência, a da Virgem, por medo de que a fé em Cristo fosse além dos limites fixados, pelo temor de que a cruz perdesse a sua conotação escandalosa e que a veneração pela Virgem desembocasse num culto e numa adoração que convém somente a Deus.

Exatamente como a morte de Moisés, assim também a morte da Virgem deveria aparecer de modo submisso, sobretudo se pensarmos que naquele momento o evangelho já tinha sido proclamado nos confins da terra e que Cristo já era conhecido como autêntico Filho de Deus, nascido da Virgem Maria. Por isso, não há menção alguma à morte de Maria nos evangelhos e nas cartas. Portanto, durante os três primeiros séculos, a assunção de seu corpo foi testemunhada unicamente através de uma tradição oral, discreta, de modo que Maria não fosse colocada numa altura exagerada e para que ninguém atentasse contra o culto devido a Deus.

Se o corpo de Moisés, por ter resplandecido da luz de Deus, fez com que Deus se preocupasse com sua sepultura e encarregasse o arcanjo Miguel de guardá-la, não temos motivos de espantar-nos quando ouvimos dizer que o próprio Cristo esteve presente na morte da Virgem, recolheu-lhe o espírito e levou-o ao céu. Quanto ao corpo de Maria, foi sem dúvida entregue aos cuidados do arcanjo Miguel até o tempo fixado para seu transporte ao céu. Assim, o corpo da Virgem, que tinha sido objeto de atenção por parte do Pai celeste desde o momento da anunciação e receptáculo da divina concepção, continuou a ser honrado até quando Deus o assumiu, reservando-lhe a veneração dos anjos.

Nossa veneração pelo corpo da Virgem é parte integrante de nossa fé nas realidades escatológicas, naquelas realidades que se referem à vida futura: bem sabemos que a ressurreição dos corpos é um aspecto essencial da obra de Cristo na eternidade. Mesmo se a assunção do corpo da Virgem não tenha sido propriamente um ato de ressurreição, é uma condição de transfiguração na qual o corpo foi conduzido pela mão das potências angélicas com vista a uma ressurreição completa ou a ser completada sucessivamente.

O Novo Testamento é rico de exemplos de transfiguração. Cristo deu início a este gesto escatológico em si mesmo, naquela carne que tinha assumido de nós: no monte da transfiguração, diante de Pedro, Tiago e João, seu corpo tornou-se resplandecente como o sol, vindo assim a constituir as primícias  daquilo que seriam os nossos corpos uma vez completada sua redenção. A partir deste momento, a humanidade, e com ela toda a criação, geme nas dores de parto e até hoje espera a adoção de filhos, a redenção dos corpos. Toda a criação, e não comente nossos corpos, é chamada a esta transfiguração. O fato de que também as vestes de Cristo se tornaram resplandecentes, mais brancas do que a neve, indica claramente que Cristo é a luz do mundo e da criação, e que à vinda de Cristo todas as criaturas assumirão sua nova forma.

A veneração dos corpos santos e luminosos é um gesto escatológico, uma extensão da transfiguração no tempo presente, uma vida de fé que prepara para a vida futura. A partir do dia da transfiguração, Cristo não cessou de derramar sua luz nos corpos e nas faces dos seus santos. O deserto de Scete (Egito) é testemunha desta realidade e obteve como prêmio uma grande participação nesta luz celeste. Sete Pais famosos testemunharam ter visto Macário o Grande resplandecer na escuridão de sua cela.

Os Pais que estavam sentados perto de Sisoés, na hora de sua morte, contam que seu rosto começou a resplandecer de uma luz sempre mais intensa até o momento em que entregou o espírito; logo após, a luz tornou-se brilhante como um relâmpago e a cela foi invadida por um perfume de incenso. Conta-se também que Deus demonstrou uma tal benevolência para com Pai Pambo, que era difícil para qualquer um suportar a visão de sua face, tanta era a glória que nela resplandecia: parecia um rei assentado num trono. Num dia em que os discípulos de Arsênio entraram de improviso em sua cela enquanto estava orando, encontraram todo o seu corpo ardendo como uma chama. José o Grande foi observado enquanto se encontrava em oração: tinha os braços erguidos e seus dedos pareciam dez velas acesas.

Neste e em outros exemplos de faces e de corpos luminosos podemos recolher uma verdadeira difusão da transfiguração de Cristo através de Pentecostes e da descida do Espírito Santo: as línguas de fogo colocadas sobre os corpos dos discípulos preparavam-nos para a transfiguração e ressurreição finais.

A veneração dos corpos dos santos, na tradição ortodoxa, na realidade é uma continuação da alegria de Pedro ao ver a luz radiosa de Cristo e de suas palavras espontâneas, cheias de fé: Mestre, como é bom estarmos aqui! (Mc 9,5).

O Senhor transfigurado está presente nos seus santos, e sua luz e seu Espírito Santo resplandecem nos seus corpos e nos seus espíritos. Às vezes, a santificação vai além do espírito da alma e invade também o corpo. Mesmo que o corpo esteja no mundo, não é considerado como pertencente ao mundo, e sim como sustentado pelo pão terreno e celeste juntamente, e como iluminado tanto pela luz deste mundo como pela luz celeste. Por acaso não encontramos aqui uma reposta ao convite do Apóstolo: Glorificai a Deus no vosso corpo? (1Cor 6,20)

Assim, celebrar a assunção do corpo da Virgem significa, verdadeiramente, render glória ao Senhor que continua a ser glorificado a cada dia nos seus santos: Para que seja glorificado o nome do Senhor nosso Jesus Cristo em vós, e vós nele (2Ts 1,12). 

Publicação em ECCLESIA autorizada pelo Tradutor, Pe. José Artulino Besen.

 

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