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Matta el Meskin:

Comunhão no Amor

trad.: Pe. José Artulino Besen*

A nossa comunhão é com o Pai
e com o seu Filho Jesus Cristo. 1Jo 1,3

XVI. Um só Cristo e uma só Igreja

 

uma época como a nossa, marcada pelo sectarismo, somos levados a pensar que as palavras: “Creio na igreja una...católica” se referem a uma unicidade que diz respeito à confissão à qual um cristão pertence individualmente, seja ela a ortodoxa, ou a católica, ou a protestante. Disso passamos a afirmar que a catolicidade é considerada como necessariamente indicativa de uma unidade sectária. Um fiel ortodoxo afirma que a unicidade da igreja consiste simplesmente na sua ortodoxia e que a catolicidade compreende apenas os ortodoxos espalhados pelo mundo. Tal pretensão pode ser tanto a de um católico como a de um protestante. Assim, o conceito teológico da natureza da igreja se refere a cada cristão tomado individualmente como se a unidade fosse restringida pelos limites do dogma, o qual delimita também a catolicidade, reduzindo esse último aspecto a uma simples dimensão espacial da Igreja.

Em um conceito assim restrito que se submete fanaticamente a modos de pensamento e a perspectivas paroquiais, perde-se a realidade da natureza infinita da igreja que transcende a terra dos homens e seu pensamento. A Igreja é muito maior do que o homem! É maior do que os céus e a terra, porque o homem jamais encheu a Igreja e nunca será capaz de fazê-lo, nem mesmo se o mundo inteiro com todas as suas ideologias e estruturas fosse salvo: é Cristo o único que pode encher a Igreja. Nele habita toda a plenitude que pode plenificar tudo e todos: pode encher o homem e sua mente, o tempo e o espaço. O universo com os céus e a terra não podem absolutamente conter a Igreja, ao contrário, é a Igreja que contém os céus e a terra do homem. A Igreja é a nova criação, o novo céu, a nova terra, o homem novo. Na natureza desta nova criação são engolidos o velho céu e a velha terra, como se não existissem mais, mesmo se na realidade continuem a existir. Do mesmo modo, a morte é engolida pela vida, de modo a não ter mais poder, e o corruptível é absorvido pelo incorruptível: tudo se torna novo, vivo, imortal e puro. Aquilo que é novo, sob este aspecto, pertence ao eterno, inalterável Todo, enquanto que aquilo que é velho vai desaparecendo, átimo após átimo, por causa de sua natureza essencialmente mutável.

A Igreja, portanto, naquilo que se refere à sua natureza católica, é maior do que o homem, do que seus conceitos, do que suas estruturas, do que seus dogmas; maior do que o universo com seus céus imensos, do que a vasta terra com toda a sua caducidade; maior do que todos os acontecimentos do tempo, do início ao fim.

A igreja é o novo Todo: esta totalidade é derivada da natureza de Cristo - do qual tem origem - e inclui tudo aquilo que se refere ao homem e a Deus através da encarnação.

Então, a Igreja é o “segundo Todo”, em outras palavras católica, porque encerra em si, corpo de Cristo, tudo aquilo que pertence quer ao homem quer a Deus, recolhendo-o numa única entidade que é, ao mesmo tempo, visível e invisível, finita e infinita, inserida na esfera do tempo e do espaço, mas eterna e metafísica.

O termo católica deriva do grego katá (“em acordo com”) e hólos (“todo”): o significado primário é “totalidade”. No nosso caso, o termo indica aquilo que transcende a totalidade da existência finita. Trata-se de um “todo” inalterável, infinito, que não pode ser partido nem contado: é UNO, um “todo” fixo, análogo ao conceito de natureza de Cristo que é indivisível, sem confusão e sem mudança.

Tal é a Igreja, que segue a Cristo em todos os seus aspectos: como Cristo é único na sua pessoa, inclusive na sua natureza, simultaneamente todo na sua existência temporal e eterna, local e universal, assim também é a Igreja, una e católica. Disto deriva que todo aquele que está na igreja, é necessariamente uno e deve inevitavelmente ser uno, por causa da catolicidade da Igreja; em outras palavras, a Igreja tem a capacidade divina, obtida através de Cristo, de tornar toda pessoa individual una com Deus. Todo aquele que está em Cristo é de Deus e é um com Deus.

Os instrumentos de que a Igreja se serve para atuar a sua catolicidade são os sacramentos: através deles, de fato, todos os fiéis são introduzidos juntos na união com o corpo místico de Cristo, tornando-se assim um só corpo e um só espírito; eles têm acesso à natureza da igreja una e católica, pois o corpo de Cristo na Igreja constitui o segredo de sua catolicidade, a sua pessoa, o segredo da sua unicidade.

Se os fiéis não alcançam um estado de integridade de coração e de simplicidade de mente, originado da participação no único Corpo e, portanto, um estado de amor único, originado da pessoa de Cristo que reina sobre todas as coisas, então os sacramentos se reduzem a uma realidade puramente formal, que conduz à discórdia intelectual e dogmática. A formalidade sacramental ou dogmática é incompatível com a realidade do único Corpo que encerra todas as coisas e que dá vida a todos os que dele se alimentam e se tornam um nele. Na Igreja, o corpo de Cristo é fonte de vida e de unificação, é ao mesmo tempo vivo e doador de vida e é capaz de abolir todo tipo de barreira criada pelo tempo e pelo espaço, pela mente ou pelos instintos do homem, quer se trate de barreiras sociais (nem escravo, nem livre em Cristo), quer raciais e culturais (nem judeu, nem grego, nem bárbaro nem cita) quer sexuais (nem homem, nem mulher): cf. Gl 3,28). Na Igreja, o corpo místico de Cristo é aquela fonte de energia que a torna capaz de tudo reunir na própria natureza única e católica.

A Igreja é a nova criação: como Adão foi a cabeça da velha criação humana e aquele do qual surgiram todas as raças, os povos, as tribos e as categorias do gênero humano, assim Cristo  tornou-se o segundo Adão e a cabeça da nova criação humana. Ele é o único do qual nasceu o homem novo como raça escolhida (por raça entende-se aqui a cristã-divina), como povo justificado (por povo se entende aqui aqueles que foram reunidos pela justificação que vem de Cristo e não do esforço pessoal) e como nação santa (aqui a única geradora é o santo batismo e não um ventre materno). O grande segredo que explica o poder de Cristo de unificar raças e povos e de abolir todas as barreiras entre todos os habitantes da terra (isto é, a catolicidade eclesial) consiste no seu ser Deus encarnado, Filho de Deus e Filho do homem ao mesmo tempo. A divindade de Cristo operou de modo a que sua humanidade fosse além de qualquer pertença de raça, de nacionalidade, de particularismos, ao ponto mesmo de superar o pecado e a morte. A filiação de Cristo com relação a Deus permitiu-lhe reunir a humanidade numa única filiação dada por Deus. Por isso, todo aquele que participa da carne de Cristo vê nele dissolver-se todo tipo de barreira, conjuntamente com o pecado e a morte.  Ele é feito um com cada ser humano, é um homem novo, criado de modo novo e puro, à imagem de Cristo: um filho de Deus ao interno da única filiação de Cristo. Na Igreja, a natureza católica tornou-se dependente da carne divina de Cristo, que implica num poder de reunir o gênero humano e de unificá-lo na única filiação que vem de Deus.

Na Igreja, a catolicidade é aquela de Cristo:  é o transformar em ato a natureza de Cristo que está em condição de reunir no mesmo instante o homem com o homem e o homem com Deus. Em outras palavras, a Igreja, por força de sua catolicidade, é contrária a qualquer tipo de discriminação, de divisão, de isolamento, e também é contrária a tudo aquilo que provoca divisão, qualquer que seja sua origem, interna ou externa ao homem. Cristo não se limita a reunir as diversas raças numa única mente e numa única fé, mas as reúne também numa só carne, no verdadeiro sentido da palavra, o que implica intimidade, compreensão e amor. A Igreja, com  o batismo e a eucaristia, é o corpo místico de Cristo, o ponto de encontro de todo o gênero humano, o único lugar de encontro de todos os povos, nações, raças, línguas e cores, capaz de dissolver barreiras e desacordos. Neste modo, todos se transformam em um único, grande, puro Corpo, um espírito íntimo e amante, um só homem reconciliado, cuja cabeça é Cristo: este ser unificado é dotado de todos os carismas e talentos próprios de cada raça, língua e povo, mas está isento de qualquer divisão, disputa ou discriminação; é exatamente aquilo que se entende por “catolicidade” da Igreja.

Há uma razão extremamente simples pela qual a Igreja ainda não atingiu a própria catolicidade, ou melhor, pela qual não vive daquela natureza católica que deveria constituir a essência de sua vida em Cristo, a demonstração de seu poder, o segredo de sua totalidade e de sua divina integridade: esta razão é que a Igreja  ainda não conseguiu imaginar os conceitos divinos como puros e acima da lógica e da razão humana. Em outras palavras, seus conceitos ainda estão ligados a interpretações articuladas e filosóficas que impedem a visão serena da natureza católica de Cristo que tem um poder admirável de reconciliação total e de unificação dos diversos carismas  que ultrapassa não somente as idéias, princípios e dogmas, mas também a própria capacidade intrínseca de qualquer outra natureza. Este poder único tem como fundamento o perdão, a purificação, a justificação e a santificação de cada ser humano através do sangue de Cristo, que está em condições de tirar os pecados de todo o mundo. É como se a Igreja não tivesse ainda descoberto a amplitude do poder do sangue de Cristo, a potencialidade ativa de sua carne e a profundidade de seu amor e de sua justiça.

É óbvio que todos os termos teológicos de per si não estão isentos de defeitos. Estes estão na interpretação e na compreensão dos termos: o humano aproximou-se do divino - isto é, da simples e transparente natureza de Deus - com a mente e o pensamento de Adão e não de Cristo. Por isso o desacordo é a conseqüência imediata e inevitável da natureza cismática de Adão. O cisma não está na natureza de Cristo, nem faz parte de sua natureza católica, mas veio como resultado do cisma essencialmente radicado na natureza do ser humano, uma natureza marcada pelo pecado e tornada plena de ódio, suspeita, mal entendido, vaidade e discórdia. A culpa do cisma na Igreja não está na natureza da Igreja, mas na natureza da capacidade do homem de conceber e compreender a natureza de Cristo e da Igreja.

Assim, podemos concluir que todo o cisma no conceber a natureza de Cristo e da igreja assinala que nós nos aproximamos do divino de maneira humana, com nossa mente decaída, com uma aproximação não divina. Todo cisma acontecido na igreja indica que o homem começou a enfrentar argumentos eclesiais com uma mentalidade etnocêntrica e racial (que dispersa) e não de modo eclesial e católico (que une).

Somente para o homem novo, Cristo permanecerá indivisível, incontestável e sem variações; somente para o homem que possui o pensamento de Cristo a igreja permanecerá una, única, católica para todos os povos, ortodoxa em toda a doutrina, e livre de qualquer divisão sectária; será assim somente para o homem novo que aceitou no profundo do coração a natureza de Cristo. Somente quando todos renunciam à própria vontade emerge a única vontade de Cristo; e somente quando cada um renega as próprias paixões e o ódio, e dobra o corpo e a mente à obra do Espírito Santo, somente então se manifestará a carne mística de Cristo que exercitará sua ação na Igreja reunindo os corações, os princípios e idéias. Somente quando todos entregarem espontaneamente a própria vida a Cristo é que Cristo se manifestará em sua igreja e o seu Espírito será derramado sobre ela. Quando todo fiel na Igreja, com arrependimento sincero, se entregar espiritualmente a Deus com fé e ardor, e quando toda a igreja tiver feito a mesma coisa, é que a Igreja será una pela graça de Deus, é que as igrejas serão um pelo poder do Espírito Santo: assim, Cristo será o único pastor que com o seu Espírito guia o único rebanho, tornando-se a fonte da catolicidade e da unicidade da Igreja.

Por acaso, a Igreja não é uma manifestação da encarnação de Cristo na terra e a sua continuidade no tempo? Nela os fiéis formam a nova natureza humana, glorificada na pessoa de Cristo e, através dele, adotada por Deus. Como poderia Cristo se manifestar na Igreja se não mediante a unicidade de pensamento, de vontade, de desejo, de senso comum entre os filhos do único Deus - filhos nascidos não do sangue, nem da vontade da

Como se pode demonstrar ao mundo que Deus é uno se não através da unidade de todos aqueles que nasceram dele?

E como o mundo poderia crer que Jesus Cristo é o Filho unigênito a não ser através da única filiação daqueles que crêem nele, que nasceram de Deus através de sua morte por eles e através de sua ressurreição junto com eles, e que agora estão unidos à sua carne, ao seu sangue e ao seu Espírito? Em outras palavras, eles se tornaram membros de um único Corpo.

o é conseqüência óbvia que a catolicidade da Igreja e a sua unicidade não são outra coisa senão a plenitude da teologia, a prova da existência e da ação de Cristo, a realização do novo nascimento do homem obtida do alto mediante a água e o Espírito Santo?

A falta de plenitude quanto à catolicidade e unidade da igreja, ainda existente nas igrejas espalhadas por toda a terra, pede de nós não  o reconsiderar a nossa teologia - que é autêntica e fiel -, mas de reconsiderar a nós mesmos em relação à nossa correta teologia. Assim poderemos corrigir nossa visão de Deus, o único Pai de toda a humanidade, e a nossa visão de Cristo, o único Salvador e Redentor de todos os que invocam seu nome: nele, toda a humanidade é indiscriminadamente adotada por Deus. Essa nova ótica modificará o nosso amor pelo homem, por cada homem, enquanto o torna incontestavelmente nosso irmão, mesmo quando ele permanece hostil e nos prepare laços de morte.

Devemos ter claro que aquilo que nos impele a alcançar esta catolicidade e unidade eclesial não é simplesmente a paixão teológica ou o idealismo, nem mesmo o remorso; este desejo deve nascer da nossa fé, do nosso amor, da novidade do nosso nascimento do alto de que nós não podemos absolutamente prescindir; não podemos continuar nesta nova vida sem a catolicidade da Igreja e a sua unidade.

O homem novo não poderá jamais viver separado dos outros, como um fragmento quebrado, nem pode sentir ódio ou hostilidade pelos outros. O homem novo deve ser completo e uno, porque tem origem numa única natureza e num único Pai. A única natureza nova com a qual cada homem nasceu na igreja é aquilo que o torna uno no todo, mediante a graça e o Espírito. Aqui o amor faz valer a própria autoridade divina e católica. Na imagem de Cristo, Filho unigênito, são batizados todos aqueles que nasceram para o Pai graças à única paternidade.

Deste modo a Igreja é católica porque é o corpo do Filho (sacrificado pelo mundo inteiro por obra do amor) que recapitula em si todas as coisas. A Igreja é una porque é a indivisível morada do Pai.

Assim, podemos aspirar, com abundantes lágrimas e ferventes súplicas, com a consciência do homem novo, à catolicidade e à sua unidade em todo o mundo. 

Publicação em ECCLESIA autorizada pelo Tradutor, Pe. José Artulino Besen.

 

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