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Matta el Meskin:

Comunhão no Amor

trad.: Pe. José Artulino Besen*

A nossa comunhão é com o Pai
e com o seu Filho Jesus Cristo. 1Jo 1,3

IV. À espera do Messias

Conteúdo:

IV.1 Toda a história está nas mãos de Deus

IV.2 Transcendência da história em Deus

IV.3 A intervenção de Deus na história humana

IV.4 Cada é pessoa é parte de cada livro da Bíblia

IV.5 Aproximar-se de Deus no tempo através do conhecimento

IV.6 A palavra racional e a Palavra encarnada

IV.7 A revelação de Deus no homem e em si nos dois Testamentos 

 

IV.1 Toda a história está nas mãos de Deus

odo o Antigo Testamento[1], desde o primeiro capítulo do Gênesis, apresenta a história humana como um movimento de criação e desenvolvimento iniciado por Deus e depois confiado ao homem. Deus continua a dirigi-lo e controlá-lo com grande precisão segundo o seu particular desígnio e vontade de modo que, tanto na vida de um indivíduo como de uma geração ou nação, o movimento da história apareça claramente em total e perfeita submissão à sua vontade e presciência. Deus é o “Rei dos séculos” (1Tm 1,17) e tudo se realiza segundo seu determinado desígnio e presciência” (At 2,23). Deus também estabelece de modo irrevogável o movimento do tempo em favor do homem, tendo “estabelecido a ordem dos tempos e os limites do espaço” (At 17,26).

IV.2 Transcendência da história em Deus

O movimento do tempo como que mostra-se independente de nós, e assim parece livre e não ligado ao homem: realmente, o sol surge e se põe querendo ou não o homem, e os anos transcorrem, o verão e o inverno se alternam, independentemente de sua vontade. Parece até que o tempo debocha do homem, como se o submetesse à sua autoridade. Na realidade, Deus submeteu ao homem o transcorrer do tempo e toda a sua solene grandeza, para que a partir dele o homem possa modelar a própria história espiritual no seu desenrolar-se através dos séculos e, no final, elevar-se acima do transcorrer do próprio tempo; eis a que é chamado o homem: ser unido a Deus na vida eterna, onde não existirá nem sol nem lua, nem verão nem inverno (cf. At 21,23). Cristo se referia a esta realização à qual tende a história, quando disse: O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão (Mt 24,35).

Considerado como movimento que se verifica na realidade material, no céu e na terra, o tempo é algo de morto e passageiro mas, na realidade humana, ele é vivo, é uma história duradoura, a história da salvação, a história da palavra de Deus que nunca retorna sem produzir efeito. É um movimento que tem início em Deus e em Deus termina, consigo levando a humanidade redimida: Antes de ter formar no seio materno eu te conhecia, e antes que viesses à luz eu tinha te consagrado (Jr 1,5). Assim, se o homem age segundo a vontade de Deus, em harmonia com o conhecimento de Deus e a ele consagrado, eleva-se acima do tempo e realmente o submete à vontade de Deus, transformando as horas, os dias e os anos numa história da salvação, numa idade divina, vida eterna no reino de Deus: Eis agora o tempo favorável, eis agora o dia da salvação (2 Cor 6,2).

O homem que se opõe à vontade de Deus e deliberadamente despreza o conhecimento dele e a santidade, cai prisioneiro do tempo e se transforma em parte morta de uma idade morta. E a pessoa, que por necessidade, é obrigada a dominar o movimento do tempo, realiza a vontade de Deus, mas por constrangimento, sem perceber, sem querer e sem alegrar-se com isso. É como o frio do inverno ou o calor do verão, importantes mas ao mesmo tempo insignificantes, que servem ao crescimento das criaturas, mas não são amados por elas; dão-lhes energia, força e renovação, enquanto estão mortos em si mesmos.

IV.3 A intervenção de Deus na história humana

Todo o Antigo Testamento é uma história viva que, com clareza e vivacidade, narra a constante bondade de Deus e o seu comunicar com o ser humano para elevá-lo acima do passar do tempo morto. Deus completou esta obra intervindo com a sua Palavra e transformando o suceder-se dos anos e das gerações numa história sagrada e viva, a história de Deus com o homem e do homem com Deus.

Isso significa que toda a Torá é tanto a história da ação da palavra de Deus na humanidade, quanto uma história das ações dos homens em acordo ou em contraste com a palavra de Deus. O passar do tempo no Antigo Testamento concorreu para a revelação de Deus e de todos os seus atributos ao homem e no homem. Isso aconteceu tanto quando a vontade de Deus era observada ou quanto era rejeitada; a rejeição interposta pelo homem à vontade de Deus era um novo elemento no qual se pode revelar a habilidade de Deus em conduzir a humanidade à submissão.

IV.4 Cada é pessoa é parte de cada livro da Bíblia

Quando lemos os livros da Bíblia, à primeira vista eles parecem constituir somente uma história de eventos temporais. Mas, se consideramos em profundidade o seu fim e propósito e introduzimo-nos naquilo que lemos, descobrimos que sua finalidade é revelar, exatamente em nossas pessoas, o Deus vivente. É-nos dado ver quem somos e então começar a ver Deus como ele é, especificamente confrontando-o conosco. Qual é, pois, o significado da revelação de Deus ao ser humano? Aqui está todo o segredo da Torá e do evangelho, o significado fundamental da humanidade e a plenitude da história: “A vida eterna consiste em que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que enviaste” (Jo 17,3).

IV.5 Aproximar-se de Deus no tempo através do conhecimento

Deus é verdade, vida e luz eterna. O conhecimento da verdade é participação na verdade; o conhecimento da luz é iluminação. Quando perdeu o conhecimento de Deus, o homem perdeu a verdade em si mesmo e perdeu a vida e a luz eterna. Nada mais pode conhecer além do passar do tempo que corre à margem de sua pessoa e o mantém sob seu poder, até que a morte o derrube. Todas as estradas possíveis para o conhecimento de Deus foram preparadas para o homem; é o conhecimento de Deus que o livra do cair sob o domínio do tempo e de seu ilusório fim, representado pela morte. O conhecimento de Deus é a revelação constante que ele faz de si nas mentes e nos corações de todo o povo através da comunicação do amor. Por outro lado, é vivendo na perene e alegre união com a fonte do ser que está a garantia de vida e de imortalidade. Isso, inevitavelmente, provoca a nossa elevação acima do passar do tempo e da morte, até a percepção de nossa qualidade de seres maiores do que o tempo, acima dos acontecimentos, mais verdadeiros e duradouros do que a morte.

IV.6 A palavra racional e a Palavra encarnada

Mas, para que a revelação de Deus fosse perfeita, em todas as épocas todas as gerações deviam ter a experiência do conhecimento de Deus, a fim de que, no final, todos pudessem conhecer Deus como a verdade plena que transcende a percepção individual, e conhecer a vida eterna como vida que se estende além do tempo e da existência de cada pessoa. Por isso, era necessário que a humanidade passasse através de duas idades da vida com Deus, os dois Testamentos, completamente distinto um do outro.

A primeira, a que chamamos de Antigo Testamento, representa a revelação indireta através da palavra racional. A segunda, o Novo Testamento, representa a revelação direta através da Palavra encarnada.

A diferença entre o Antigo e o Novo Testamento é resumida no início da Carta aos Hebreus: “Deus, que já tinha falado muitas vezes nos tempos antigos, e de diversas maneiras, aos pais, por meio dos profetas, nestes dias que são os últimos falou-nos por meio do Filho” (Hb 1,1-2).

Isto mostra claramente que a revelação no Antigo Testamento era indireta, revelação aos profetas através da palavra inspirada de Deus, acontecida em tempos diversos (“nos tempos antigos”) e através de diferentes acontecimentos (“muitas vezes e de diversas maneiras”). O Novo Testamento, pelo contrário, é auto-revelação direta de Deus (“por meio do Filho”) que transcende a história (“falou-nos”). Esta revelação não pode perder a atualidade ou ser limitada pela história (“nestes dias que são os últimos”), pois a Palavra se fez carne. A revelação de Deus nos dois Testamentos se coloca em dois planos distintos e complementares: o primeiro é o plano histórico objetivo, baseado na palavra racional inspirada através do passar do tempo, o mudar-se dos acontecimentos e o suceder-se das gerações; o segundo é o plano da real auto-revelação, baseado na encarnação da eterna Palavra de Deus. Esta segunda é uma revelação direta  que transcende o tempo e se completou graças à encarnação, com a aparição de Deus na carne, sem que Deus sofresse mudança em si mesmo.

IV.7 A revelação de Deus no homem e em si nos dois Testamentos

O método historicamente usado por Deus para revelar-se no Antigo Testamento tinha três componentes fundamentais:

O primeiro consistia em fazer ao povo, enquanto nação, promessas temporais específicas com relação à existência da nação e suas relações com as outras nações. No tempo marcado Deus cumpriria as promessas por meio dos juizes, dos chefes e dos reis dos quais tinha preestabelecido os movimentos e as ações: assim o povo poderia perceber Deus em sua condução perfeita dos eventos.

O segundo componente era constituído pelos mandamentos, pela legislação e pelas normas religiosas e litúrgicas, incluindo a necessária consagração de ministros e unção de sacerdotes, para instruir o povo e fazê-lo aproximar-se de Deus: assim o povo poderia perceber Deus através da purificação.

O terceiro consistia em dar ao povo as profecias e a indicação espiritual do futuro que o aguardava na contínua relação com Deus e sobre a missão junto aos outros povos da terra. Esta foi a missão dos profetas que falaram movidos pelo Espírito de Deus: assim o povo podia conhecer Deus no arrependimento e no retorno a ele.

O surpreendente é que cada um desses três componentes está presente em cada livro da Bíblia, e um estudo e meditação aprofundados mostram que formam um plano claro e perfeito, dotado de um método lógico e de um fim preciso.

Os juizes, os chefes e os reis se sucederam uns aos outros em Israel no arco de dois mil anos, tendo claramente em comum uma autoridade divina, apesar das diferenças morais e religiosas entre si e os muitos fracassos. É como se tivessem sido designados por Deus para atuar um único plano divino, independentemente do sucesso ou do fracasso individual.

O mesmo vale para os levitas e os sacerdotes. Apesar de suas posições, funções e qualidades diversas, e apesar do fracasso de muitos, estavam comprometidos com o único serviço que desenvolviam pelo povo e que Deus aceitava sem olhar a sinceridade e a retidão, ou a deslealdade e a rebelião com que agiam.

O mesmo se pode dizer para as palavras dos profetas. Todas as profecias que, digna ou indignamente, foram pronunciadas no curso do Antigo Testamento, são testificadas pelas Escrituras como palavras do Espírito Santo e se cumpriram no tempo estabelecido, mesmo se o profeta que as anunciava fosse impuro ou se o povo houvesse rejeitado a profecia.

Além disso, esses três caminhos, exemplificados no rei, no sacerdote e no profeta, fundamento do método pedagógico historicamente usado por Deus para revelar-se a si mesmo ao povo de Israel no curso dos séculos, estão ligados entre si por uma suprema unidade de finalidade que progride no tempo. O reino de Israel, isto é, o método de governo e o método de viver do rei, era garantia da prática do culto de Deus, do serviço do santuário, da manutenção do sacerdócio, do sacrifício quotidiano a Deus e da execução de todas as funções sacerdotais. Tudo isso, por sua vez, estava unido às palavras do profeta com respeito à integridade e à correção dos fins que motivavam Israel enquanto povo. Portanto, a unidade de Israel pode parecer fundada num sistema - um sistema de monarquia, sacerdócio e profecia - mas em sua essência tratava-se de uma unidade orgânica vivente. O rei, o sacerdote e o profeta não representavam três sistemas, mas eram três componentes de um corpo vivente, que Deus controlava e guiava para uma finalidade específica e para uma meta de importância vital para todo o mundo: a revelação do próprio Deus.

O plano divino acompanha e realiza a constituição deste corpo vivente (um povo guiado por um rei divinamente consagrado, servido por um sacerdote divinamente constituído, inspirado por um profeta que falava movido pelo Espírito Santo) e pode ser sintetizado no desejo de Deus de se revelar ao mundo através deste corpo vivo que progredia no tempo e no arco de muitas gerações. O rei, na sua absoluta soberania, revelava Deus como governante e salvador do povo. O sacerdote, no seu serviço sacerdotal, o revelava qual reconciliador e restaurador do povo. O profeta, em suas palavras e visões, o revelava como aquele que conforta e instrui o povo.

Mas existe um outro surpreendente mistério, complementar ao precedente, que deve ser lembrado. Deus não considerou o povo de Israel como um povo separado de si. Pensou-o como seu filho primogênito, pois era o primeiro entre os povos do mundo a ser amado por Deus; pensou-o também como seu servo dileto, porque era o primeiro povo que servia a Deus segundo um sistema cultual específico. Contudo, não viu todas essas coisas na pessoa de seus reis, ou dos sacerdotes, ou dos profetas, e nem mesmo na nação, também ela rebelde. Contemplou-as na pessoa do Messias, que deveria dar plenitude ao conceito de realeza (governo justo e divino), ao conceito de sacerdócio (redenção e salvação), e ao conceito de profecia (uma revelação de Deus direta e não mediada por alusões). O Messias os representaria diante de Deus na sua qualidade de verdadeiros filhos, sendo o Filho divino de Deus, mesmo que simultaneamente permanecesse um servo de Deus e um verdadeiro israelita segundo a carne, pois era da estirpe de Abraão, filho de Davi.

Deste modo, desde o início o Messias era considerado rei, sacerdote e profeta.

O Rei eterno, à cuja imagem foram criados Davi e todos os reis divinamente consagrados e no qual a realeza atingiria o ápice. O comando do Reino de Israel devia permanecer para sempre em seus ombros, na verdade divina e não simplesmente na história, porque seu trono não teria fim: Nasceu-nos um menino, um filho nos foi dado. Em seus ombros está o sinal da soberania e é chamado de: Conselheiro admirável, Deus poderoso, Pai para sempre, Príncipe da paz; grande será o seu domínio e a paz não terá fim no trono de Davi... (Is 9,5-6).

O Sacerdote, à cuja imagem foi criado todo sacerdote, para que servisse diante de Deus como mediador junto ao povo, e no qual o sacerdócio encontra o seu ápice. A mediação reside em sua pessoa, pois ele é o único mediador da redenção, o perdão dos pecados e a reconciliação eterna entre Deus e o homem.

O Profeta em cujo nome profetizou todo profeta e do qual tinha indicado a vinda na plenitude dos tempos. Nele deviam alcançar a plenitude todas as profecias, todo o conhecimento, toda a sabedoria do tempo presente, pois Cristo é a perfeita revelação vivente diante de Deus e do homem. Não há mais nenhuma necessidade de se profetizar a respeito dele, pois toda carne viu a salvação de Deus.

O Novo Testamento indica a misteriosa e perfeita relação entre Israel como povo e o Messias, o Cristo. Tudo o que se atribuía a Israel pode ser atribuído ao Messias de modo preciso e exato. Por exemplo, quando o Senhor Jesus retornou do Egito, aonde se tinha refugiado com sua mãe e José, dele disse Deus: Do Egito chamei meu filho (Mt 2,15). Essa mesma palavra tinha sido referida ao povo de Israel quando deixou o Egito (cf. Ex 4,22-23: Israel é meu filho primogênito... deixa partir o meu filho, e Os 11,1). É como se o povo de Israel tivesse agido simbolicamente, pondo em prática a obra, a vida e o caráter do Cristo que viria.

Na realidade, as características comuns ao povo de Israel e ao Messias referem-se à totalidade da revelação cristã, a ponto de as profecias dirigidas a Jacó - chamado Israel - deverem ser entendidas também como dirigidas ao Messias. Quando a profecia diz: Jacó meu servo (Is 44,1) e meu servo Israel (Is 49,3), refere-se ao Messias, mas pode ser explicada e aplicada tanto ao Messias como ao povo de Israel, sem contradição alguma. Esse é o maravilhoso mistério que está por detrás do fato de Cristo ser chamado Filho e Servo e, ao mesmo tempo Rei, Sacerdote e Profeta, pois ele é um verdadeiro israelita ou, mais precisamente, o verdadeiro Israel, e é verdadeiramente o Filho de Deus [2].

Isso mostra a interdependência dinâmica entre a pessoa do Messias  e as pessoa do povo de Israel. Cada palavra proferida por Deus, cada mensagem, cada ação realizada através de seus reis, sacerdotes e profetas para o povo de Israel tinha seu fundamento na pessoa do Messias e tinha como finalidade encontrar sua realização e sua meta definitiva nele, o Rei eterno, o único Sacerdote e o Profeta que pronunciava palavras por sua própria autoridade. Dele dependia toda a existência e toda a vida de Israel.

Por isso, a história do povo de Israel,  com o conjunto das vicissitudes de seus reis, com todos os ritos de seus sacerdotes e todas as sentenças de seus profetas, é a história e o conhecimento do Messias, mas simbolicamente narrada na forma de um povo escolhido com atenção e amor, para representar  Deus no meio dos povos da terra e dele proclamar a existência e a misericórdia para as demais nações.

Até as tragédias de Israel, sua escravidão e os contínuos castigos no decorrer da história, não podem ser excluídos da esfera de ações positivas com que Deus conduzia o seu povo adiante, lentamente mas com segurança, fazendo-o aproximar-se dos outros povos e reinos da terra. Tudo isso aconteceu para a unidade com as outras nações do mundo, que Israel deveria realizar na pessoa do Senhor Jesus, o Messias. Quando Jesus tornou perfeita essa união entre Israel e as nações, e em si mesmo, na cruz, fez dos dois um só povo, então se concluiu a missão histórica de Israel. Ou, mais precisamente, a missão do Messias da história se concluiu e então começou a missão do Cristo nas nações, o Cristo da vida eterna.

A unidade intrínseca e orgânica que existe entre a pessoa de Israel e a pessoa do Cristo clarifica o motivo pelo qual, além da pessoa de Cristo, que é o princípio e o fim de Israel, não se pode explicar nem compreender o fim de todos os eventos históricos, de toda a legislação e ritos, de todos os ensinamentos e profecias testemunhadas pelo Antigo Testamento, apesar de serem peculiares ao povo de Israel e seu patrimônio autêntico. Como diz o apóstolo Paulo, Cristo é o fim da lei dada a Moisés; analogamente é o fim do reino fundado por Davi e, também, o fim das profecias anunciadas pelos profetas. Verdadeiramente, ele é o fim do próprio Israel e, conseqüentemente, o fim da humanidade, pois todas as coisas nele subsistem (Cl 1,17) [3].

O Antigo Testamento, portanto, prepara o caminho para Cristo, representando-o no tempo e no cenário da história através de “figuras”. Antes de nele encontrar sua realização, praticamente, os acontecimentos históricos eram uma profecia que indicava de modo específico o Cristo. Semelhantemente, todos os ritos sacerdotais, ou os atos de culto, continuaram a atrair o espírito humano para perto do mistério de Cristo, o verdadeiro Cordeiro, antes de atingir um fim imprevisto, quando seu sangue foi derramado na cruz para que todos pudessem voltar para ele e contemplá-lo. Também as profecias denunciavam constantemente o enganador revestimento externo que ocultava a verdade do Reino do Messias que vinha, o Reino de graça e verdade, espírito e vida, até que ele se revelou definitivamente e nós o vimos e o tocamos com as nossas mãos na Palavra de Vida, Jesus Cristo, o qual é Espírito de profecia (Porque o espírito profético não é outro que o testemunho de Jesus - Ap 19,10). Cristo era e é o eixo em torno do qual se decide toda a Torá e a totalidade da história da salvação humana. Entre as mais belas imagens do Messias de Israel, talvez esteja a de Daniel: a visão do Messias qual Filho do homem. Nela, o Messias de Israel, centro da salvação, do reino e da glória de Israel, se torna a imagem do Messias de toda a humanidade, que abraça a totalidade da criação humana e se torna o centro de uma salvação, de uma glória e de um reino que transcendem a realidade deste mundo: Olhando sempre a visão noturna, vi um ser semelhante a um filho de homem vir sobre as nuvens do céu: dirigiu-se para o lado do ancião, diante de quem foi conduzido. A ele foram dados império, glória e realeza, e serviram-no todos os povos, todas as nações e os povos de todas as línguas. Seu domínio será eterno; nunca cessará e seu reino jamais será destruído (Dn 7,13-14). Esta verdade era um dos ensinamentos mais importantes dos rabinos e dos mestres inspirados de Israel no período precedente ao nascimento de Cristo. Eles insistiam no fato de que não existia nenhuma profecia além do Messias.  “Todos os profetas profetizaram somente com relação aos dias do Messias”. “O mundo inteiro foi criado para o Messias”[4]. É a mesma verdade que fundamenta os escritos do Novo Testamento. O próprio Cristo a confirma como um fato digno da máxima atenção: E começando por Moisés e por todos os Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que a ele se referia (Lc 24,27). Eis o fundamento da fé impressa na mente da Igreja primitiva. Todas as coisas foram criadas por meio dele e para ele. Ele existe antes de todas as coisas e todas subsistem por ele (Cl 1,16-17).

Quando os mestres e os rabinos de Israel se deram conta disso, passaram a recolher todos os eventos e as profecias contidas nas Escrituras que indicavam o Messias, incluído aquilo que se referia à sua pessoa, às suas obras e ao tempo de sua vinda na história. Recolheram 458 referências messiânicas, das quais 75 do Pentateuco, 243 dos livros dos profetas e 138 das histórias dos patriarcas, e as registraram no tratado do Sanhedrin. Infelizmente, porém, os últimos mestres e rabinos que viveram imediatamente antes da vinda de Cristo, se emaranharam em complicadas interpretações destes textos referidos ao Messias, e perderam-se em deduções bizarras e absurdos que ocultavam  a verdade e obscureciam o rosto da pessoa real na qual Cristo veio. As profecias referentes ao Messias foram distorcidas nas mentes dos chefes, sua capacidade de perceber a verdade desaparecera e seus olhos se tornaram cegos diante da visão da luz, quando essa surgiu. Além disso, o conhecimento espiritual dos chefes se enfraqueceu porque consideravam exclusivamente a forma externa da lei. Para os sacerdotes, os fariseus, os saduceus e os escribas, a essência da religião consistia na observância exata da lei, na repetição dos textos que a continham, na repetição de breves orações e num zelo patriótico para recuperar as glórias de um tempo, o reino e a antiga supremacia. Para eles, o campo da espera messiânica esgotava-se nisso e não podiam levar em consideração atividades ou ações ou interesses que lhes fossem estranhos.

Inclusive, pensavam que a vinda do Messias simplesmente deveria levar à consolidação da antiga forma de culto com seus mínimos detalhes, e ao cumprimento de suas esperanças. Deste modo, o culto judaico distanciou-se do verdadeiro significado messiânico que possuía na intenção divina. As Escrituras e as profecias não mais foram interpretadas em seu significado essencial; ao invés de convergirem na pessoa do Messias que devia vir como Salvador do mundo através de Israel, foram entendidas como a descrição de um Messias que viria como chefe do mundo, instrumento para restaurar a glória do povo de Israel.

Deste modo, mal Cristo fez sua aparição em público, irrompeu um conflito entre ele e os chefes dos judeus: apesar de seu ensinamento ser de origem divina, quanto mais sua pregação ignorava a escrupulosa dependência dos insignificantes detalhes da lei, as purificações e os excessos de religiosidade, a glória mundana e a supremacia de Israel,  tanto mais Cristo era rejeitado pelos sacerdotes, doutores da lei e pelos grupos zelotas do povo. Eles dedicavam-se fanaticamente a seus ritos, à sua raça, a seu estado e pensavam que Jesus não possuía as qualidades necessárias para ser o Messias segundo a imagem que dele tinham feito, seguindo sua própria inclinação e seus fins corruptos.

Contudo, não era geral esse ofuscamento do significado essencial da fé no Messias no interior dos grupos dos sacerdotes, dos escribas, dos fariseus e dos saduceus. Permanecia uma parte do povo de Israel, incluindo também chefes e outros homens piedosos, que soube conservar ainda o espírito autêntico do culto e aderir às fiéis promessas de Deus. Este resto de homens piedosos com fé ardente anelava pela vinda do Messias, pois o tinham descortinado no estudo dos profetas e dos mestres de Israel. O Novo Testamento, nas primeiras páginas dos evangelhos, oferece-nos alguns exemplos destes crentes: o velho Simeão, a profetiza Ana, o sacerdote Zacarias, Isabel e a santa virgem Maria.

Notas:

[1] Durante o Advento, a Igreja reflete a relação entre o Antigo e o Novo Testamento e a confirmação das profecias ligadas à encarnação da Palavra.

[2] Ele, que é de condição divina, não considerou como presa a agarrar o ser igual a Deus. Mas despojou-se, tomando a condição de servo, tornando-se semelhante aos homens (Fl 2,6-7).

[3] Porque aprouve a Deus nele fazer habitar toda plenitude (Cl 1,19).

[4] Sanhedrin 99a ; 98b.

*Publicação em ECCLESIA autorizada pelo Tradutor, Pe. José Artulino Besen.

 

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