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Matta el Meskin:

Comunhão no Amor

trad.: Pe. José Artulino Besen*

A nossa comunhão é com o Pai
e com o seu Filho Jesus Cristo. 1Jo 1,3

VI. Aspecto escondido da Natividade

Conteúdo:

VI. 1 O Reino que vem

VI.2 O aspecto visível da natividade

VI.3 O aspecto escondido da natividade

VI.4 A insistência de Jesus na realidade do Reino 

VI.5 Cristo e suas parábolas do Reino

VI.6 O Cristo menino revela os mistérios do Reino 

VI.7 A simplicidade de Cristo recém-nascido e o Reino 

VI.8 O Reino de Cristo à nossa porta 

VI.9 O Reino visível e o Reino escondido 

VI.10 O Reino de Deus vem com poder 

VI.11 O louvor dos Anjos é um hino teológico

 

VI. 1 O Reino que vem

Novo testamento e o cristianismo não estão em oposição ao Antigo Testamento e ao judaísmo. Pelo contrário, o Novo testamento é a declaração da realização de todas as promessas e mistérios do Antigo, quer se refiram ao Messias, ao reino de   Deus e à salvação.

Pois, asseguro que Cristo exerceu seu ministério entre os incircuncisos para manifestar a veracidade de Deus pela realização das promessas feitas aos Patriarcas. Quanto aos pagãos, eles só glorificam a Deus em razão de sua misericórdia, como está escrito: “Por isso, eu vos louvarei entre as nações e cantarei louvores em vosso nome (2Sm 22,50; Sl 17,50). Noutro lugar diz: Alegrai-vos, nações, com o seu povo (Dt 32,43). E ainda diz: Louvai o Senhor, nações todas, e glorificai-o, todos os povos! (Sl 116,1). Isaías também diz: Da raiz de Jessé sairá um rebento que governará as nações; nele esperarão as nações (Is 11,10; Rm 15, 8-12). Em nossos dias a igreja, no meio de todas as nações do mundo, é a revelação e a realização das esperanças de todos os escritos do Antigo Testamento com relação ao reino de Deus, em que Cristo, que é o chefe, rege e governa o reino universal de salvação. Toda a esperança de Israel, com todos os seus profetas e instituições, estava centralizada na salvação de todo o mundo: esta salvação agora está se realizando através da igreja.

Também é claro que, no decorrer de todo o Antigo Testamento, há um desenvolvimento do conceito do reino de Deus que vem, e do modo como o Messias é entendido e profetizado. É este o motivo pelo qual, quando João Batista começou a pregar a conversão e o reino de Deus, as multidões se reuniram ao redor dele num número sem precedentes no ministério de todos os outros profetas. A espera consciente do reino havia atingido uma grande maturidade e intensidade. É uma espera e um vivo sentido da iminência que encontramos também nas declarações de Simeão e da profetisa Ana. O espírito de profecia falou também pela boca de Zacarias, Isabel e João, confirmando que o reino de fato estava próximo. Mas João Batista foi extremamente honesto consigo mesmo e com seus seguidores, dizendo: Eu não sou o Messias! (Jo 1,20)

Não podemos esquecer que no início de seu ministério Jesus foi acolhido sem hesitação como o Messias de salvação graças à sinceridade e à fidelidade  de João Batista: todos os seguidores de João, também seus discípulos mais íntimos, passaram para o discipulado do Messias.

Todo o povo acolheu Cristo como o rei que vinha no nome do Senhor, o filho de Davi vindo para anunciar o início do reino do Messias, reino que o povo sabia ser eterno. Quando Cristo mostrou-se esquivo no revelar-se a si mesmo, o povo não teve dúvidas em levá-lo para fora e, à força, fazê-lo rei. Mas ele escapou-se, pois a compreensão da salvação e do reino de Deus estava incompleta e errada neles.

Tudo isso mostra a que ponto a fé na doutrina da vinda do reino de Deus  tinha penetrado a mente do povo e até dos pagãos. A gente comum sempre tem uma consciência aguda de que Deus age, como diz o provérbio: “Voz do povo, voz de Deus”.

Também é claro que, ao longo de toda a história de Israel, existe uma forte ligação entre tempos de aflição, de exílio e de doloroso castigo de Deus de um lado, e o desabrochar da esperança na vinda do Messias e na salvação, de outro lado. Anela pela salvação, realmente, quem experimentou a amargura do exílio no próprio corpo, na própria mente ou no próprio espírito.

Uma olhada rápida nos Salmos - particularmente nos versículos O Senhor reina, exultem os povos (Sl 99,1) - revela-nos como era impaciente a espera e quanto esforço Israel precisou para discernir, nas trevas da história e dos acontecimentos, o rei que devia vir. Encontramos isso não somente nos Salmos, mas também nas profecias que constantemente indicam o reino de Deus e o Messias que deve vir para governar a terra inteira na justiça e na retidão, para reunir as nações sob seu estandarte e para conduzir os redimidos ao seu redil, onde todos o louvarão e servirão.

Cada vez que a moralidade decaía e se corrompia a consciência, quando as pilastras da sociedade - os chefes - fracassavam e as condições se tornavam mais críticas, então floresciam as esperanças na vinda de um rei que reformaria o comportamento dos povos e curaria a doença que atingira o povo com a decadência moral. Às vezes as profecias eram mais explícitas em indicar que seria o próprio Deus que governaria as nações rebeldes, golpeando-as com o chicote de sua ira e destruindo os hipócritas ao simples sopro de sua boca. Deus tornar-se-ia para sempre o Pai dos crentes agora perdoados e seria chamado de Príncipe da paz na terra.

Em seguida, vem o Messias e realiza todas as obras que lhe tinham sido referidas. O evangelho nos refere que João mandou seus discípulos perguntarem: És o que deve vir ou devemos esperar outro? Em outras palavras: És tu o redentor, o salvador, o curador que deve governar  que deve governar Israel e submeter todos os povos e nações? E Jesus respondeu: Ide e dizei a João o que ouvistes e vistes: os cegos recuperam a vista, os coxos caminham, os leprosos são curados, os surdos readquirem o ouvido, os mortos ressuscitam, aos pobres é anunciada a boa nova, e feliz daquele que não se escandalizar de mim (Mt 11,4-6). Em outras palavras, feliz quem recebe Cristo como o rei de justiça que vem. Encontramos aquele de quem escreveram Moisés na Lei e os Profetas, Jesus, filho de José, de Nazaré (Jo 1,45). O significado espiritual do reino de Deus no Novo Testamento é que recebemos dos profetas uma herança realmente preciosa: a feliz esperança em que morreram as gerações passadas.

O reino de Deus, que o Messias vindouro estava a ponto de revelar e proclamar, era a esperança mais íntima e mais cara do que qualquer outra, não só para os profetas, mas também para todos os rabinos e os mestres e para todo o povo. As interrogações encontrariam uma reposta e as questões abertas uma solução por força do reino que devia vir: A samaritana disse: Sei que deve vir o Messias, o Cristo: quando ele vier nos revelará tudo (Jo 4,25).

VI.2 O aspecto visível da natividade

Acostumamo-nos a focalizar nossas meditações sobre o nascimento de Cristo naquilo que ocorreu na história visivelmente: o Verbo se fez carne e nós contemplamos sua glória; a vida tornou-se visível e nós a vimos com nossos olhos e tocamos com as nossas mãos; Deus apareceu na carne.

Os pastores receberam um sinal do céu e correram para ver o prodígio na gruta: um menino envolto em faixas que jazia numa manjedoura; dele se dissera que era aquele que libertaria seu povo de todos os pecados. Também os magos vieram, após longa viagem, guiados por uma estrela do céu conduzida por uma força proveniente do alto: assim, o testemunho do mundo ao Salvador teria vindo do externo, não de Israel, num momento em que os chefes e os rabinos não souberam reconhecer e proclamar seu Salvador.

VI.3 O aspecto escondido da natividade

Mas queremos agora refletir sobre o que aconteceu de modo invisível no dia do nascimento de Cristo. Foi demonstrado de modo irrefutável na cena da história e do tempo, assim como no coração dos apóstolos, dos santos e de toda a igreja, que aquele que nasceu era realmente o rei que devia vir, o salvador, o redentor, o detentor da chave da casa de Davi, aquele que quando fecha ninguém pode abrir e quando abre ninguém pode fechar. Seu reino é um reino eterno que não terá fim, segundo a visão do profeta Daniel (cf. Dn 7,27).

Essa é a outra face do nascimento de Cristo, pois em Cristo completou-se a promessa de Deus feita no início da era da salvação, e a manifestação na terra do reino de Deus, guiado e governado por ele; este era o reino de que incessantemente tinham falado os profetas. Os exércitos celestes proclamaram a salvação: Nasceu para vós um salvador, e os magos anunciaram o reino eterno: Onde está o rei dos judeus que nasceu?...Viemos para adorá-lo (Lc 2,11; Mt 2,2).

Deste modo podemos contemplar a face escondida do dia de Natal: os tronos foram destruídos e outros foram preparados. Terminava uma época e outra tinha início, como dissera a virgem Maria no seu imortal hino de louvor: Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes,  Demonstrou o poder de seu braço (Lc1,52.51). Na anunciação o anjo já tinha proclamado com clareza e glória: Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo; o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi e reinará para sempre na casa de Jacó e o seu reino não terá fim (Lc 1,32-33).

Como é surpreendente que o reino de Cristo, portador de salvação, possa ter sido proclamado enquanto ele ainda estava no ventre, e confirmado de muitos modos: primeiramente pelo anjo, depois pela Virgem logo após tê-lo concebido, depois pelo sacerdote Zacarias e por Isabel. No dia de seu nascimento foi reconfirmado pelos exércitos celestes e pelos magos, que tinham suportado o cansaço da longa viagem a fim de poderem ver o rei dos judeus, adorá-lo e oferecer-lhe dons que exprimiam a essência de sua fé em seu reino.   

VI.4 A insistência de Jesus na realidade do Reino 

O outro aspecto do nascimento do Cristo menino, envolto em faixas e colocado numa manjedoura, é exatamente esse reino, proclamado pelos céus, pelos anjos e pelos soberanos, reino que Cristo, com seu nascimento, tinha vindo estabelecer  e governar em benefício do homem. Cristo nasceu trazendo sobre os ombros a chave da casa de Davi, segundo as palavras do anjo à Virgem: O Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi e reinará para sempre na casa de Jacó e o seu reino não terá fim  (Lc 1,32-33).

Devemos focalizar nossa atenção nesse segundo aspecto porque, na realidade, é a essência do significado do Natal. Se lermos atentamente, descobrimos que é este outro aspecto que domina o evangelho e toda a Escritura. O próprio Cristo, em sua pregação e parábolas, atribuiu ao reino de Deus uma centralidade não concedida a nenhum outro tema. O reino de Deus foi também a mensagem com que iniciou seu ministério: Convertei-vos, porque o reino de Deus está próximo (Mt 4,17). Se trouxermos à memória os eventos registrados no evangelho, descobriremos que nos ensinamentos finais de Cristo - aqueles ministrados após a ressurreição, durante os quarenta dias em que apareceu aos apóstolos - com eles falou do reino de Deus (cf. At 1,3). Todos têm presente também as palavras de Cristo referentes  ao reino e espalhadas por todo o evangelho: Cristo delas serviu-se para explicar e descrever o inexplicável e o indescritível reino de Deus, fazendo uso de todo tipo de imagem. A solicitude do Senhor em apresentar estas parábolas revela o enorme significado que Cristo atribuiu ao conceito de reino. Sozinha, nenhuma parábola descreveria o reino de Deus, e nem mesmo seriam suficientes todas as parábolas; além disso, Cristo não teria precisado servir-se de quarenta dias, na plenitude de sua ressurreição e transfiguração, para novamente explicar os mistérios do reino de Deus, após dele ter falado constantemente por três anos e meio, tanto explicitamente quanto em parábolas.

O reino de Deus, após o que foi dito no evangelho e após todas as explicações, permanece sempre uma novidade à espera de realização. Quando todas as nossas palavras e seus significados se esgotam, a realidade do reino ainda permanece insondável. É uma vida que não pode ser descrita, mas que deve ser vivida: eis porque, quando falamos de reino, nos damos conta de que faltam palavras! O reino permanece algo de que a alma tem necessidade muito maior do que têm necessidade a mente ou a fantasia.   

VI.5 Cristo e suas parábolas do Reino

Quando Cristo nasceu da Virgem, tinha a aparência de um homem como os outros, apesar de envolvido por acontecimentos extraordinários. Esta era e é ainda a opinião de muitos: vêm em Cristo um grande homem nascido de uma Virgem santa por força de um milagre incompreensível. O milagre é avaliado do mesmo modo que um insondável enigma. A mesma coisa aconteceu exatamente quando Cristo expôs suas parábolas do reino. Alguns simplesmente consideraram-nas como parábolas portadoras de uma sabedoria enigmática; Cristo, porém, depois se encontrava com seus discípulos em separado e lhes revelava explicitamente o segredo das parábolas, apresentadas como enigmas referentes ao reino de Deus. Seus discípulos interrogaram-no acerca do significado da parábola. Ele lhes disse: “A vós é dado conhecer os mistérios do reino de Deus, mas aos outros somente em parábolas para que, vendo não vejam e ouvindo não entendam (Lc 8,9-10).

Em seu nascimento, crucifixão e ressurreição, Jesus Cristo apresentou-se como uma das parábolas que costumava narrar sobre o reino de Deus. O Cristo nascido da Virgem, exteriormente não era outra coisa que um provérbio enigmático, mas os que têm olhos para ver e ouvidos para escutar percebem o outro aspecto da natividade: Deus apareceu na carne, pois o menino que nasceu revela o mistério dos céus, o mistério da potência, da autoridade e da glória de Deus e a marca de sua natureza (cf. Hb 1,3).

Surpreendentemente, Deus ofereceu aos céticos um exemplo para acusá-los por sua estultícia. O exemplo, que logo se tornou um testemunho do imperscrutável mistério de Cristo, é o dos magos que vieram do distante oriente para prostrar-se diante do menino nascido rei em Belém. Os magos estavam plenamente conscientes do aspecto oculto da natividade: seus olhos estavam abertos para ver a estrela no céu, seus ouvidos estavam abertos para escutar o mistério. Deste modo compreenderam tudo, obedeceram à visão e não se rebelaram contra o chamado.

Este é Jesus nascido em Belém: um mistério visível e escondido. Alguém pode se contentar com aquilo que vê exteriormente: uma história, uma máxima, um enigma. É o que acontece quando, em cada narrativa do evangelho, não se vai além do Cristo da história. Mas, se os olhos e ouvidos estão abertos, Cristo e seu nascimento assumem um outro significado, inatingível, que nenhum livro ou mente podem conter; Cristo se transforma no mistério contido nas suas parábolas do reino: uma fonte de visão que satisfaz sem limites, uma fonte de compreensão e de sabedoria acima de qualquer raciocínio. É o grão de trigo - como disse de si mesmo e isso numa das parábolas do reino - que contém o mistério da morte e ressurreição e o mistério da fome e da saciedade.

Tudo isso para dizer que a preocupação de Cristo em explicar o reino de Deus estava motivada no fato de que assim revelava a si mesmo e explicava seu nascimento. Se nós passarmos por todas as parábolas e as penetrarmos com profundidade no Espírito, descobriremos muitíssimas coisas a respeito de Cristo. Quando o Senhor enviou seus discípulos a pregar, no próprio modo de conferir-lhes autoridade mostrou o alcance da ligação existente entre reino e Cristo: Ide e anunciai o reino, Vós sereis minhas testemunhas, Quem vos acolhe a mim acolhe, e quem me acolhe, acolhe aquele que me enviou. Aqui Cristo põe-se como centro do anúncio do reino. É verdade que o reino é o reino de meu Pai, mas Eu sou o caminho e ninguém vem ao Pai a não ser por mim.  Quem nega o Filho também não possui o Pai.   

VI.6 O Cristo menino revela os mistérios do Reino 

É verdade que o reino de Deus é poder, mas o Cristo nascido em Belém revela como este poder de Deus seja iluminante, calmo e humilde.

É verdade que o reino de Deus é um sistema, uma organização, uma lei, mas o Cristo nascido em Belém revela o amor, a compaixão, a humildade e o sacrifício de si num coração dado para fazer explodir as forças deste sistema, desta organização e desta lei.

É verdade que o reino de Deus é o poder logicamente supremo e a autoridade divina absoluta, forma de governo celeste e decreto divino, mas aquilo que aconteceu em Belém nos revela que o reino de Deus, apesar de toda a sua tremenda superioridade celeste, não é mais estranho à nossa raça, nem inacessível à vista, nem difícil de ouvir. O milagre eterno aconteceu, o prodígio que ultrapassa a lógica humana realizou-se e os céus anunciaram a mensagem: Hoje na cidade de Davi nasceu para vós um salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em faixas, deitado numa manjedoura (Lc 2, 11-12).

O Cristo recém-nascido na manjedoura revela-nos a outra face do reino e como é possível que em grande simplicidade e humildade, na suprema benevolência divina, a salvação tenha sido levada à realização nesse reino.   

VI.7 A simplicidade de Cristo recém-nascido e o Reino 

A manifestação do reino como poder e organização. Como sistema e autoridade na pessoa de Cristo, demonstrado na humildade de seu nascimento em Belém, dá-nos um sentido penetrante do reino. Como disse o próprio Cristo, com palavras muito claras: Aproximou-se de vós o reino dos céus, O Senhor está próximo. Realmente, devemos nos conscientizar de que o menino que está diante de nós em Belém é de uma simplicidade extrema: podemos conquistar sua simpatia com amor, do mesmo modo que podemos abraçar e beijar um bebê. Esse é o modo escolhido por Deus para representar a proximidade e a simplicidade do reino dos céus. Ou melhor, é na extrema simplicidade que o reino tornou-se próximo e agora é possível alcançá-lo, graças ao nascimento de Cristo naquela acessibilíssima estrebaria, ao invés de nos palácios dos reis, rodeados de muralhas e de portas aferrolhadas, e guardadas por servidores e mordomos.

Creio, sinceramente, que todos aqueles que experimentaram o dom celeste e se tornaram partícipes do Espírito Santo, experimentaram também a boa palavra de Deus e as maravilhas do mundo futuro (cf. Hb 6,4-5). Eles percebem claramente a verdade desta afirmação, e com que liberalidade o dom celeste foi dado, e com que facilidade se pode alcançá-lo. Como diz a Escritura: O reino dos céus sofre violência, e os violentos tomam posse dele (Mt 11,12). Do mesmo modo como podemos abraçar um recém-nascido, assim podemos possuir o Espírito Santo em nossos corações. 

VI.8 O Reino de Cristo à nossa porta 

Olhemos de perto, e calmamente, nos olhos do menino Jesus envolvido em faixas e deitado na manjedoura: em seus olhos podemos ver a outra face da natividade, podemos ver o reino em toda a sua altura e profundidade. Nós o olhamos e ele nos olha com extrema simplicidade e benevolência. Toma nos braços o menino Jesus e sentirás como é leve o reino, mesmo que seja um jugo para levar e um fardo para carregar.

Se, verdadeiramente, queres crer que o reino de Deus está personificado em Jesus Cristo, ouve as palavras do próprio Senhor, que unem o reino à sua pessoa. Ele fala do discípulo que abandonou tudo por causa de mim e do evangelho (Mc 10,29), e é óbvio que o evangelho é o anúncio do reino. Os discípulos estavam absolutamente conscientes da realidade desta união entre reino e Cristo. O evangelista Lucas escreve claramente: Quando começaram a crer em Filipe, que levava a boa nova do reino de Deus e do nome de Jesus Cristo, homens e mulheres se faziam batizar (At 8,12).   

VI.9 O Reino visível e o Reino escondido 

O Senhor se referia a essa realidade em sua profundidade, quando dizia aos discípulos: O reino de Deus está no meio de vós (Lc 17,21), e quando dizia a Pedro: Eu te darei as chaves do reino dos céus (Mt 16,19). Esta promessa estava em relação com a confissão de Pedro: Tu és o Cristo, o Filho do Vivente ((Mt 16,16): a fé em Cristo é a chave do reino, de acordo com as profecias  que se referem à chave da casa de Davi (cf. Is 22,22; Ap 3,7).

Mas, a verdade do reino escondido era obscura para muitos, como para as mulheres simples que habitualmente serviam a Jesus; a mãe dos dois filhos de Zebedeu, por exemplo, que esperava a ocasião propícia para pedir ao Senhor que seus dois filhos se sentassem, um à sua direita e outro à sua esquerda no seu reino!

A sensação do reino iminente ou a expectativa de que o Senhor se revelaria imprevistamente no seu reino não era estranha à atmosfera na qual viviam todos os companheiros de Cristo. O poder de Cristo já era a manifestação do reino de Deus e, deste modo, o reino se tornava sempre mais próximo a cada milagre, até se tornar parte integrante de sua consciência. Os discípulos acabaram por se convencer de que estava iminente sua realização, e ficaram de tal modo entusiasmados com relação a ele, que ficaram num estado impaciente, às vezes também de tensão: Eles acreditavam que o reino de Deus devia se manifestar a qualquer momento (Lc 19,11). Assim, Cristo começou a ensiná-los em parábolas que ainda restava um longo caminho a percorrer antes de ele retornar, e que devia transcorrer ainda muito tempo antes que o reino se manifestasse: Um homem de estirpe nobre partiu para um país distante, para receber o reino e depois retornar (Lc 19,12).

Essa percepção da salvação iminente e do surgimento do reino de Deus na revelação do reino visível de Cristo contagiava todos os discípulos e o povo em geral, durante os últimos dias terrenos do Senhor, a ponto de a multidão, uma semana antes da crucifixão, pôr-se a gritar: Hosana! Bendito aquele que vem em nome do Senhor! Bendito o reino que vem, de nosso pai Davi! Hosana no mais alto dos céus! (Mc 11, 9-10). 

VI.10 O Reino de Deus vem com poder 

Mas, os gritos da multidão aconteceram exatos cinqüenta e sete dias antes do dia de Pentecostes. A descida do Espírito Santo dos céus com poder realizou o reino, mesmo que apenas parcialmente visível. A salvação desceu do alto, Cristo é revelado como salvador e redentor, e o reino de Deus se torna uma realidade interior que encheu os discípulos e os fez falar em todas as línguas a todas as nações chamadas à salvação.

Essa realização do reino pelo poder do Espírito Santo no dia de Pentecostes é aquilo a que se refere Cristo quando diz: Há entre vós alguns que não morrerão antes de ter visto o Filho do homem vir no seu reino (Mt 16,28).

Já vimos os anjos anunciarem a aparição do mesmo reino de outro modo, mais profundo, no momento do nascimento de Cristo em Belém. Os anjos usavam as mesmas palavras cantadas pelos meninos no domingo de Ramos, enquanto proclamavam aos exércitos celestes: Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra, benevolência aos homens,  deste modo unindo o reino de Deus nos céus com sua aparição na terra. Este grito dos anjos coincide misteriosamente com o canto das crianças: Hosana no mais alto dos céus! Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito o reino de nosso pai Davi, reino que vem no nome do Senhor!   

VI.11 O louvor dos Anjos é um hino teológico 

Neste  momento, é muito importante termos consciência daquilo que os anjos queriam dizer unindo a glória de Deus no mais alto dos céus com a paz e a benevolência na terra. Não é, talvez, a realidade da encarnação, o mistério escondido no outro aspecto do nascimento de Cristo na estrebaria? A união entre o céu e a terra, entre visível e invisível, entre Deus e o homem, é a realidade da natividade. É a autêntica manifestação do reino de Deus entre os homens: Emanuel, que significa “Deus conosco”!

O hino dos anjos não é um simples canto nem uma antífona festiva: é uma declaração teológica e uma revelação do verdadeiro significado do mistério de Cristo, angelicamente expresso num canto de louvor.

Damo-nos conta de que, apesar da encarnação do Verbo, o Filho unigênito de Deus, do seu tornar-se homem ou, como diz Paulo, do seu habitar corporalmente em toda a plenitude da divindade ( cf. Cl 2,9) e da manifestação de Deus na carne (cf. 1Tm 3,16), apesar disso, percebemos no canto dos anjos que a união não aboliu o céu e a terra. Pelo contrário, continua-se a render glória a Deus no alto dos céus enquanto que, ao mesmo tempo e pela mesma razão, a plenitude da paz e da benevolência desce à humanidade. De fato, a união acontecida na pessoa de Cristo não abole nada, mas, com a sua humildade, assim como a nossa paz e a nossa felicidade, desceu numa terra plena de fadiga e sofrimento. Este é o significado do reino e de sua manifestação: que nós pudéssemos adquirir na terra a plenitude do plano de Deus e o seu celeste beneplácito. É também a substância da oração que o Senhor ensinou aos seus discípulos, para que meditassem nisso cada vez que rezassem: “Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”.

Como Cristo tinha unido em si mesmo a vontade do Pai e a vontade da humanidade e a fizera sua única vontade, estava em condição de conceder-nos a grande graça em virtude da qual, de nossa parte, nos tornamos capazes de fazer a vontade de Deus em nossa vida terrena e de receber o corpo e o sangue e, na medida da intensidade de nossa prece, o reino de Deus do qual continuamos a invocar a vinda.

Se retornamos ao louvor dos anjos: Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra, benevolência aos homens, nele descobrimos uma promessa segura de que a oração : Pai nosso, que estás nos céus... que rezamos a cada dia, será ouvida, mas sê-lo-á em nosso Senhor Jesus Cristo. Exatamente como os anjos cantavam e proclamavam que, por causa do nascimento de Cristo em Belém, deu-se glória a Deus no mais alto dos céus e foi concedida paz na terra e benevolência a todos, assim, diante do mistério da encarnação de Cristo, suplicamos com confiança: Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.

Voltemos o olhar a Cristo menino nascido numa estrebaria. Meditemos a simplicidade e a humildade de seu ingresso no mundo porque, graças a isso, estamos em condições de abrir uma passagem em direção ao outro versante desse nascimento maravilhoso, e ver Deus. Estamos em condições de aceitar o mistério da vontade de Deus e o mistério do reino que agora está ao nosso alcance, do mesmo modo como aquela criança mansa que jaz na manjedoura.

Publicação em ECCLESIA autorizada pelo Tradutor, Pe. José Artulino Besen.

 

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