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Matta el Meskin:

Comunhão no Amor

trad.: Pe. José Artulino Besen*

A nossa comunhão é com o Pai
e com o seu Filho Jesus Cristo. 1Jo 1,3

VII. O Batismo: criados para a Vida

Conteúdo:

VII.1 O Batismo de João 

VII.2 Os céus se abriram 

VII.3 O aparecer do Espírito Santo na forma visível e corpórea de uma pomba 

 

odos os anos, na festa da Epifania, o batismo de Cristo na água e a descida do Espírito Santo sobre ele são, para nós, motivo de contemplação, exortação e ensinamento. Limitando-nos a uma das múltiplas dimensões espirituais desta festa, fixemos a atenção no vasto campo do confronto entre o homem e o divino, iniciado pelo Gênesis e continuado até chegar à fonte batismal.

No princípio Deus criou o céu e a terra. A terra era informe e deserta e as trevas cobriam o abismo (notai aqui que a palavra trevas é sinônimo de informe e deserta) e o Espírito de Deus pairava sobre as águas. E Deus disse: Faça-se a luz (Gn 1,1-3).

Tem início aqui nossa contemplação, e logo atinge o coração do argumento: estamos diante dos elementos da criação espiritual da água e do Espírito. Olhemos o que diz o apóstolo João: Se alguém não nasce da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus (Jo 3,5). É aqui na terra que se encontra a porta aberta que conduz ao reino de Deus. E tudo isso acontecia antes da criação de todas as coisas materiais, incluído o homem antes de sua queda e de sua morte. Assim, em seu grande desígnio, Deus onipotente cuidou não só do retorno do homem, mas também de sua segunda criação, a que o deixa em condições de entrar no espaço de Deus.

Ele nos escolheu em Cristo antes da criação do mundo (Ef 1,4). Na realidade, é esta a visão global condividida por todos os cristãos. Não há crescimento no pensamento de Deus, nem Deus percorre junto com o homem as etapas de seu desenvolvimento, ou corrige ou muda seus próprios desígnios de acordo com a realidade do homem, como às vezes nos parece por causa de nossa miopia espiritual. Não. Deus é o mesmo ontem, hoje e sempre. Ele é perfeito e a sua perfeição inclui seu pensamento, sua vontade e toda a sua ação com relação ao homem, de Adão até o fim dos tempos. O homem se ergue e cai, mas Deus é Deus e está acima das vicissitudes que agitam a cena humana.

Antes de tudo, o que nos chama a atenção é o fato de que a criação espiritual do homem foi preparada por ele antes que ele aparecesse na carne, antes de sua queda. Não é maravilhoso? Ele nos salvou e nos chamou com uma vocação santa, não por causa de nossas obras, mas segundo seu propósito e graça; graça que nos foi dada em Cristo Jesus desde a eternidade, mas que somente agora foi revelada com a manifestação de nosso salvador Jesus Cristo, que venceu a morte e fez resplandecer a vida e a imortalidade por meio do evangelho (2Tm 1, 9-10).

Certamente que o mundo não aceita com facilidade semelhante afirmação, ao menos na mesma medida com que aceita quem creu e realmente nasceu da água e do Espírito. Alguns afirmam que o homem existe para morrer, e à acusação feita a eles de demonstrar assim fraqueza e resignação, respondem que a morte e o fim devem ser aceitos com coragem. Que ilusão e que ruína! Outros dizem que o homem é uma criatura imperfeita que busca colocar em si mesmo a perfeição, ou que o homem se esforça para dotar-se de uma existência absoluta para se livrar da imperfeição. Mas eles não se dão conta de que toda a história contradiz esta afirmação, e esquecem a realidade do pecado de Adão.

Mas, retornemos àqueles que nasceram da água e do Espírito, àqueles que, como nós, não só eram imperfeitos, mas também estavam perdidos no pecado, mortos na culpa e no pecado, mas que foram feitos reviver em Cristo por Deus e que nele agora procuram alcançar a vida eterna. Em nossa meditação, devemos retornar ao Espírito de Deus que paira sobre a superfície do abismo, sobre a água e a terra que são desertas e informes. Estamos aqui diante do mistério da criação espiritual, mesmo ainda não existindo nenhuma espécie vivente. Por que? Porque existe um deserto, um vazio de fertilidade - seja-nos permitida essa expressão -, existe um vazio de palavra de Deus.

Buscando resumir as fases da história do início do Gênesis - a partir da criação do homem sobre a terra - vemos suceder-se a fase da desobediência, da queda, da morte, da expulsão e então chegamos à essência da festa de hoje, a Epifania, a descida de Cristo no Jordão acontecida neste dia, e na qual vemos a palavra de Deus, o elemento portador de fecundidade, iniciar sua obra situando-se diretamente entre o Espirito de Deus e a água. Eis que faz sua aparição a “palavra de Deus” viva e eficaz - o Logos, o Filho de Deus, a segunda pessoa da Trindade - e se coloca entre a água e o Espírito enquanto que Deus dá início, para o homem, a uma nova criação através do Messias, à imagem e semelhança de Cristo. Aqui Jesus é criador, o chefe de uma humanidade espiritual, um pai fecundo que conduz muitos filhos à glória (Hb 2,10).

VII.1 O Batismo de João 

Mesmo tendo presente a rapidez com que tratamos um tema assim amplo, não podemos deixar em silêncio o batismo de João: foi-nos explicado como batismo somente de água e em vista do arrependimento e, na verdade, o Espírito Santo está ausente. A única realidade presente é a água, o antigo elemento de purificação, apto para tornar pura a primeira criação, a da terra, e que assim prepara, através da confissão dos pecados e das culpas, para a nova criação espiritual. Esta acontece agora por meio de algo diverso, um elemento purificador muito superior à água. Esse elemento de purificação espiritual e superior, por sua natureza semelhante a um fogo que refina, é o Espírito Santo! Operando na primeira criação, dela afastou os elementos de corrupção, pecado e destruição, conduzindo-a a um estado de pureza divina, de criação espiritual capaz de acolher através da água e do Espírito o elemento de fecundidade, a Palavra, o Logos, de forma a podermos ser gerados de Deus segundo o modelo de Cristo e nele, da água e do Espírito.

Observai bem este ponto. Graças à narração do Gênesis, graças à Epifania, ao Espírito Santo e ao Messias, foi-nos revelado que o homem é uma criatura destinada à vida. E o que é a morte, através da qual todos devem passar, senão uma preparação àquela vida em que não mais haverá a morte? De fato, o decreto divino na eternidade é anterior à queda e ao castigo! O reino de Deus foi preparado para o homem antes ainda que o homem fosse criado: Vinde, benditos de meu Pai, recebei em herança o reino preparado para vós antes da fundação do mundo (Mt 25,34).

Conseqüentemente, esse resultado, essa realidade do conceito de batismo, em si mesmo, não está limitado ao elemento da água capaz de extinguir a sede e dar a vida. Ela é também um elemento de esperança que não deve e, de fato, não pode ser destruído por nenhuma filo, porque é uma verdade de que vivemos, não algo que desejamos. A vida eterna já agora nos invade e através do Espírito nós vivemos no reino.  

VII.2 Os céus se abriram 

Falamos do batismo de Cristo no Jordão e reconhecemos que o momento da descida de Jesus na água e da vinda do Espírito Santo inclui a integração destes elementos eficazes para uma nova criação espiritual: a água, o Espírito e a Palavra. Considerando este momento em que Cristo é criador e chefe da nova criação, percebemos um fenômeno estreitamente ligado a essa verdade e que traz algo de muito estranho: apenas Jesus entrou no rio, os céus se abriram. O que significa tudo isso?

Na realidade, este é um fenômeno estranho e nós encontramos um paralelo exato quando Jesus morre a sua morte expiadora na cruz por amor do mundo. Também ali nos é dito que o véu do templo se abriu: a tenda que separava a presença de Deus do homem - também daqueles em condição de pureza, os sacerdotes, - o véu que dividia o Santo dos santos do Santo, abriu-se de alto a baixo. Isso significa que o próprio Deus, por intermédio da morte de Jesus, retirou a tenda que se colocava entre ele e a humanidade! O mundo inteiro foi reconciliado com o Pai por meio de seu Filho que morreu pelos pecados do mundo inteiro!

Aqui no Jordão, no batismo de Cristo, vemos os céus se rasgarem, revelando a presença eterna de Deus e dando o sinal de uma maravilhosa união estabelecida não só entre as coisas do céu e as da terra, mas também entre Deus e o ser humano. E tudo isso na pessoa de Cristo! Este é meu Filho amado, no qual pus a minha complacência (Mt 3,17).

Temos aqui uma indicação segura de que a tenda que escondia o Pai celeste do homem, esse homem agora batizado no Cristo Jesus, foi retirada de uma vez por todas e com um alcance cósmico. É como se o caminho da terra para o céu fosse aberto através do rasgar-se dos céus sobre a superfície da terra. E, na verdade, o que é a descida do Espírito Santo se não o dom de novas asas divinas, asas do amor divino pertencentes a Jesus Cristo, ofertadas agora para recriar o homem - este homem nascido da água e do Espírito - e para permitir-lhe voar, pairar no céu de Deus com a liberdade dos verdadeiros filhos?

Assim, exatamente no momento em que nesta terra de dor se fundiam ao mesmo tempo os elementos da criação espiritual  superior, a água, o Espírito e a Palavra, os céus se abriram, proclamando que o reino dos céus, instituído para o homem, tornara-se uma realidade comprovada, uma realidade que aguardamos e esperamos.

Também ouvimos uma voz do alto que anuncia a nova aliança, levada agora à realização: o Pai entrega seu Filho ao mundo para reconciliar todas as coisas e assim reconduzi-las a si.

VII.3 O aparecer do Espírito Santo na forma visível e corpórea de uma pomba 

Também este acontecimento e sinal penetram profunda e diretamente no coração do conceito de nova criação espiritual, realizada por nós por Cristo através do maravilhoso mistério no qual ele aparece como o criador de uma humanidade espiritual, como o chefe de uma nova descendência para Deus Pai.  O aparecer da pomba tem um paralelo nos dias do dilúvio, quando a água era um instrumento de morte. Naqueles dias, a água se uniu à vingança, e a cólera de Deus a invadiu, pois deveria ser um instrumento para trazer a morte e destruição. E o aparecer, na conclusão desta experiência amarga na história humana da pomba que retorna trazendo no bico um ramo arrancado de uma oliveira, fruto de um mundo que foi atingido pela maldição da destruição, é símbolo do fim da cólera divina e o início da benevolência de Deus.

Aqui, em seu paralelo, vemos a descida do Espírito do céu em forma corpórea de pomba e há nisso uma finalidade bem precisa. A forma de pomba não é a única utilizada como símbolo do Espírito Santo, para expressar a imagem dele: em Pentecostes, de fato, vemos o Espírito Santo assumir a forma de uma chama de fogo. Por isso, o aparecer do Espírito Santo nesta forma - semelhante a uma pomba - era um sinal divino de que, nesta circunstância, a água continha um elemento de vida divina, coincidente com o surgimento de uma nova criação espiritual, preparada para a humanidade. É como se todo o arco da historia humana, de Adão a Jesus Cristo, tivesse sido um constante dilúvio. E então, graças à aceitação da Palavra encarnada de descer na água, e ao ter sido constituído chefe da nova criação por obra do Espírito Santo, a vida do homem com Deus  ganhou existência e se tornou uma realidade eterna.

Ainda uma vez emerge com extrema clareza que a vida dada ao homem por Deus é, na verdade, do início ao fim, uma vida para a vida. Cristo está vivo para sempre!

E essa vida é acompanhada pelo canto silencioso, glorioso e divino, entoado pelo Espírito Santo - descido do céu como pomba - e por Deus, cuja voz vibra de alegria. Somente os corações crentes sabem como interpretar, como dar expressão a esse canto silencioso: é, de fato, a vida nova que transborda de paz! É um canto reservado aos corações humildes que foram feitos participantes, e que a cada dia participam do poder deste nascimento, estabelecido pelo alto, nascido da água e do Espírito, acompanhado pela luz da Palavra e da benevolência do Deus Altíssimo. Assim, na descida de Cristo ao Jordão, o pairar do Espírito Santo sobre ele e o som da voz de Deus nos céus, encontram a própria expressão eclesial na festa da Epifania. A aparição do Pai, do Filho e do Espírito Santo é verdadeiramente a consagração do primeiro batismo acontecido na terra no nome da Trindade: é um início eficaz que não poderá ter fim antes do fim dos séculos, pois esse nascimento do homem é um nascimento novo dado por Deus! Vem do alto: é espiritual e destinado à vida eterna.

Deste modo, uma terra castigada pelos espinhos, pela dor e pela maldição, uma terra estéril que nutre o homem de sofrimentos até a morte, uma terra que põe o homem no mundo com a finalidade real de matá-lo e depois o deixa à mercê do tempo para contaminá-lo com seus pecados, uma terra na qual as mãos que trazem a dor o sepultam diariamente no abismo de sua maldição, exatamente essa terra, vista com os olhos da Igreja e através da fonte batismal, tornou-se um novo ventre celeste que gera uma nova descendência para Deus, para a paz e para a vida eterna.

Publicação em ECCLESIA autorizada pelo Tradutor, Pe. José Artulino Besen.

 

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