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Matta el Meskin:

Comunhão no Amor

trad.: Pe. José Artulino Besen*

A nossa comunhão é com o Pai
e com o seu Filho Jesus Cristo. 1Jo 1,3

X. Semana da Paixão

Conteúdo:

X.1 O Getsêmani e o Sofrimento

X.2 Como Jesus pôde aceitar a infâmia do homem?

X.3 Antes do Getsêmani o sofrimento era um castigo

X.4 Em seguida a dor se transforma em dom

X.5 E uma participação no amor de Cristo

X.6 E, enfim, participação da glória e das alegrias da ressurreição

 

X.1 O Getsêmani e o Sofrimento

Getsêmani  é o lugar onde aconteceu o grande encontro, onde a humanidade se encontrou com Deus.

Não foi por acaso que Jesus, naquela noite, encontrou um jardim onde pôde provar a angústia e o turbamento e no qual sua alma  pôde ser afligida por aquela dor extraordinária até a morte. Não é por acaso que foi no jardim do paraíso que Adão foi desnudado pelo pecado para depois desaparecer da presença de Deus, de modo que em Adão a humanidade entrou num estado de separação de Deus e na morte?

Mesmo sendo verdade que a humanidade tinha experimentado um pleno encontro com Deus no nascimento de Jesus, isso tinha como fundamento unicamente a aceitação, por Jesus, de um pleno encontro conosco. Também no Getsêmani encontramo-nos com ele: e não há encontro mais significativo do que aquele que acontece na condivisão do sofrimento, com exceção daquele em que condividimos a própria morte, assim atingindo a imortalidade.

O sofrimento, tanto físico quanto espiritual, que nos oprime nesta vida, foi em profundidade sondado por Jesus: Minha alma está triste até a morte (Mt 26,38). Não há dor que possa levar a alma até a morte, a não ser a dor da infâmia e do pecado.

No Getsêmani, Jesus tomou a decisão irrevogável de aceitar a infâmia da humanidade, consentiu em ir ao encontro da provação iminente como blasfemador e malfeitor, acusado dos dois pecados que estão à base de qualquer pecado.

X.2 Como Jesus pôde aceitar a infâmia do homem?

A aceitação, por parte de Cristo, da infâmia do homem deve ser considerada um mistério. Para poder discerni-la, devemos libertar-nos de qualquer sentimento e emoção, coisa que poucos conseguem. Assim como o Senhor assumiu nossa natureza e a ela se uniu sem diminuição de sua divindade, do mesmo modo consentiu que no Getsêmani seu corpo assumisse a nossa culpa, sem ser manchado. Não tomou sobre si o pecado somente em pensamento ou na imaginação, como uma metáfora, tanto é verdade que a Bíblia afirma: Ele tomou nossos pecados em seu corpo no lenho da cruz (Pd 2,24).

Neste ponto, quem pode perceber o mistério de Cristo e o coração da redenção? Tudo o que podemos dizer é que, como se encarnou e a determinou com sua vontade, assim, graças à mesma vontade, carregou em seu corpo o nosso pecado. Se a sua fome, a sua sede e o seu cansaço são a prova para nós de sua encarnação numa verdadeira natureza humana, assim a angústia, a aflição e o padecimento de sua alma são a prova de sua livre e misteriosa aceitação daquilo que o gênero humano descarregou nele na cruz.

Do modo como num tempo o cordeiro sacrificial era carregado pelo pecado de uma pessoa e como ele morria no lugar do pecador, sem que por isso o cordeiro fosse considerado culpado, assim o Filho de Deus, o Cordeiro de Deus (Jo 1,29) que carrega e tira o pecado do mundo inteiro fez-se pecado por nós, mas permanecendo absolutamente sem pecado: Aquele que não tinha conhecido pecado, Deus o tratou como pecado a nosso favor, a fim de que pudéssemos, por meio dele, nos tornar justiça de Deus (2Cor 5,21). Ele permaneceu exatamente como era, santo, inocente, sem mancha, separado dos pecadores e elevado acima dos céus (Hb 7,26).

Exatamente como Cristo, em nós, tornou-se pecado mesmo permanecendo absolutamente sem pecado, do mesmo modo, nele tornamo-nos absolutamente sem pecado, mesmo sendo seres humanos pecadores. “Ele assumiu aquele que era o nosso destino e deu-nos o que era o seu: por isso nós o louvamos, glorificamos e exaltamos”.

Deste modo nos encontramos com ele no Getsêmani e, graças a esse encontro, o problema do sofrimento, que partiu-nos a espinha e oprimiu a alma, terminou para sempre.

X.3 Antes do Getsêmani o sofrimento era um castigo

A dor e a tristeza que seguem os desastres e as injustiças, e o cansaço, a doença, a humilhação e o aviltamento que os acompanham, constituíam uma pergunta que não encontrava resposta a não ser nas palavras “pecado” e “castigo”.

Não havia para nós nenhuma esperança no sofrimento enquanto não houvesse remédio para o pecado; e a dor era amarga e desoladora enquanto não houvesse um resgate para o castigo.

Por outro lado, a injusta distribuição do sofrimento provocava angústia, ânsia e desânimo. Uma criança inocente pode ser vítima do mal, do sofrimento e da tortura tanto quando o mais perverso dos homens. Pode acontecer que homens bons e humildes sofram mais do que os outros, depravados obstinados: não existe meio para descobrir uma lei ou um princípio que regule a distribuição do sofrimento. Isso porque o pecado reinava no homem em lugar de Deus, e o pecado não conhece lei. A lei do pecado é a injustiça, sua regra é a iniqüidade e seu princípio é a tirania.

Se aceitamos o pecado por nosso desejo, podemos por acaso repreender a Deus por termos caído sob a lei oprimente do pecado? A fim de que não pudéssemos repreender o Criador pelos sofrimentos que nos atingem como conseqüência do pecado cometido por nossa vontade caprichosa, Deus enviou seu Filho num corpo humano para padecer os sofrimentos do homem, apesar de ele não ter merecido sofrer. No Gestêmani, e também depois, o Filho de Deus sofreu e sua alma estava triste até a morte, e seu suor caía em gotas como de sangue, como se estivesse sangrando de uma ferida oculta.

Pensemos nisso: se um homem culpado de pecado sofre e é oprimido pela dor, isso acontece pela lei do pecado. E se um homem bom sofre mais do que um mau é porque a lei do pecado accorrenta a ambos sob o próprio poder: nas regras do pecado não existe justa distribuição. E se uma criança inocente sofre como um adulto, é porque é filho do pecado, nascido para a injustiça e para a opressão.

Mas, como é que Cristo pôde suportar esse horrendo sofrimento? Por que sua alma teve de ser afligida até a morte?  Ele nasceu do Espírito Santo e de uma Virgem imaculada; viveu sem pecado e proclamou: Eu sou a verdade (Jo 14,6). Somente nos resta deduzir que Cristo aceitou deliberadamente o próprio injusto sofrimento e consentiu em receber a iníqua sentença com fortes gritos e lágrimas (Hb 5,7).

Pode acontecer que existam homens que sofreram injustamente e que foram punidos mais severamente do que merecesse seu pecado, mas então, o que diremos de Cristo? Em seu sofrimento suportou toda injustiça e com aflição mortal de sua alma descontou a pena de todos os pecados. Como foi dito pelo profeta Isaías:

Ele tomou sobre si as nossas enfermidades,
revestiu-se de nossas dores
e nós o julgávamos como um castigado
ferido por Deus e humilhado.
Ele foi traspassado pelos nossos delitos,
e esmagado por nossas iniqüidades.
O castigo que nos salva abateu-se sobre ele...
Todos nós andávamos desgarrados como um rebanho,
cada um de nós seguia seu caminho;
o Senhor fez recair sobre ele
a iniqüidade de todos nós.
Maltratado, deixou-se humilhar
e não abriu a sua boca
apesar de não ter cometido violência
nem existir engano em sua boca.
Mas aprouve ao Senhor esmagá-lo com dores.
Quando ofereceu-se a si mesmo em expiação...
entregou sua alma à morte. 

(Is 53,4-12).

X.4 Em seguida a dor se transforma em dom

Neste modo Deus eliminou a opressão do sofrimento, sua injustiça e lei tirânica: não com um pregão ou uma lei, nem mesmo com uma visão ou um anjo, mas fazendo-se semelhante ao ser humano, suportando essa mesma opressão, submetendo-se à lei da injustiça, suportando a humilhação sem abrir a boca. Cristo, aceitando sofrer desse modo, deu um enorme valor à dor: após a merecida punição pelo pecado, a dor transforma-se num sacrifício de amor e numa obra de redenção. A partir desse momento, o sofrimento não está mais ligado ao pecado: terminou a sensação que torturava o coração e a consciência do homem convicto de estar sob o manto do castigo a ser pago e da culpa a ser resgatada. Sensações como essas minavam sua condição psicológica e o enchiam de preocupações, de ânsias e doenças mortais; agora, porém, se um está em Cristo, pode viver o sofrimento no mesmo nível do sofrimento de Cristo, não como uma conseqüência do pecado, mas como participação no sofrimento do amor, do sacrifício de si e da redenção. A dor, seja qual for a forma que assume, em Cristo se transformou em dom: Dai graças ao Senhor por seu amor... em favor dos homens! (Sl 107,8).

X.5 E uma participação no amor de Cristo

Quando Cristo submeteu-se ao doloroso sofrimento - apesar de não merecer o mínimo castigo - transformou o significado da injustiça do sofrimento. Antes, um homem que sofria podia elevar os olhos ao céu para acusar a Deus ou para pedir misericórdia, mas não receberia nem réplica, nem resposta, nem consolação: o pecado tinha rompido a relação entre o homem e seu Criador e cruelmente trancado o homem sofredor e o seu perseguidor na mesma prisão, conduzindo os dois para a destruição e a morte; esse é, na verdade, o caminho do pecado e seu ponto de chegada! Agora, porém, em Cristo, o homem que sofre está livre para sempre do pecado; ele não vê nenhuma injustiça em seu sofrimento, por maior que seja a sua dor ou total a sua inocência. Ele sabe e percebe que o seu sofrimento nada tem a ver com o pagamento de uma dívida ou com a expiação de um crime, até porque nem a dor mais atroz, nem mesmo todos os sofrimentos da humanidade reunidos podem expiar um só pecado, por menor que seja. O pecado é uma ruptura com Deus e um distanciar-se de sua presença. Se o sofrimento fosse um castigo, e nada mais do que isso, e nós pagássemos a culpa, quem então teria obtido a reconciliação? Mesmo se nós morrêssemos para pagar o preço do pecado, quem nos devolveria a vida e nos reconduziria à presença de Deus?

Mas Cristo aboliu o pecado, reconciliou-nos e devolveu-nos a vida. Ele partiu a terrível corrente que unia o sofrimento ao pecado: agora, o sofrimento não é mais participação no pecado de Adão, mas participação no amor de Cristo.

Se nós estamos em Cristo, por mais que soframos e por maior que seja a nossa dor, nosso sofrimento não tem nenhuma relação com o fato de que mereçamos mais ou menos essa dor. O sofrimento não é mais um castigo para algo, nem um meio para expiar alguma coisa e nem mesmo um castigo por qualquer coisa. Foi o pecado que tinha decretado que o sofrimento deveria ser uma forma de pena, de expiação ou de castigo; Cristo eliminou o pecado após ter descontado a pena, após tê-lo expiado e padecido o castigo.

Portanto, agora é como se o homem sofresse por nada, sem nenhuma razão ou pretexto: foi exatamente esse o tipo de sofrimento suportado por Cristo! Essa é a liturgia do sofrimento do amor, do sacrifício de si, da redenção. Esta é a participação na divindade: Se verdadeiramente sofremos com ele participaremos também de sua glória (Rm 8,17).

X.6 E, enfim, participação da glória e das alegrias da ressurreição

Agora estamos em condições de entender o significado destas palavras: Porque a vós foi dada a graça não só de crer em Cristo, mas também de sofrer por ele (Fl 1,29). Somos capazes de perceber que a dor, após ter sido um castigo, em Cristo transformou-se em dom? E que o dom do sofrimento não causado pelo pecado é inevitavelmente uma participação na glória?

Se prestarmos atenção às palavras do apóstolo Tiago: Considerai que é suma alegria, meus irmãos, quando passais por toda espécie de provas (Tg 1,2), descobriremos que qualquer sofrimento, de qualquer tipo, está inelutavelmente ligado a Cristo, e que devemos acolhê-lo com alegria e gratidão, sabendo que “como abundam os sofrimentos de Cristo em nós, assim, por meio de Cristo, abunda também a nossa consolação” (2Cor 1,5).

Deste modo nós não sofremos mais pelo pecado, mas por Cristo. Toda dor não vivida em Cristo é pecado e o salário do pecado é a morte.

Os sofrimentos de quem vive com Cristo não são considerados como resultado do pecado. São os sofrimentos da justiça; são alegria e paz: Por isso estou feliz com os sofrimentos que suporto (Cl 1,24); são participação no supremo sacrifício de amor que Cristo ofereceu através de seu sofrimento e tornou perfeito com sua morte: Para que eu possa conhecê-lo... e possa participar de seus sofrimentos, tornando-me semelhante a ele na morte (Fl 3,10).

Se estamos em Cristo, quanto mais aumentam nossos sofrimentos, tanto mais aumenta nossa participação neste sacrifício, tanto mais se solidifica  a união com a ressurreição e a glória que dela deriva. O significado do sofrimento injusto foi completamente invertido: antes era opressão violenta sob a lei do pecado que exercia seu domínio no mundo, agora tornou-se a medida de um grande dom e o marco que contradistingüe quem foi julgado digno da glória e da alegria da ressurreição. Pois a lei do Espírito que dá vida em Cristo Jesus libertou-me do pecado e da morte (Rm 8,2). Também o apóstolo Pedro dá testemunho do que experimentou:  É uma grande graça para quem conhece Deus passar por aflições, sofrendo injustamente (1Pd 2,19).

Graças sejam dadas a Deus Pai
e ao Senhor Jesus. 
Dêem graças ao Senhor por seu amor... 
em favor dos homens!

 (Sl 107,8).

Consolai-vos, todos vós que sofreis, porque a vossa dor não é mais conseqüência do pecado, mas participação no amor e nos sofrimentos do Getsêmani! Alegrai-vos, vós todos que estais aflitos, porque a vossa angústia não leva à morte: está guardada na dor de Cristo para a ressurreição.

Publicação em ECCLESIA autorizada pelo Tradutor, Pe. José Artulino Besen.

 

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