XIII - A Ascensão
legremo-nos na festa da Ascensão, em que Cristo nos fez assentar-nos com
ele nos céus e preparou para nós a bem-aventurada morada que nos tinha
prometido, à direita da Potência, no alto dos céus, a fim de que fôssemos
para sempre nele reconciliados com o Pai e guardados pela graça e pela
misericórdia do Altíssimo. Diversamente do primeiro Adão, que morou no
paraíso de árvores e frutos e era de quando em quando visitado por Deus,
nós, em nosso amado Redentor - o segundo Adão - moramos sempre com Deus.
Mesmo se agora estamos exilados de nossa morada celeste, mesmo se sofremos
um pouco, de modo que nossa fé possa receber justificação e nós possamos nos
tornar dignos desta esplêndida herança, nós vivemos, por meio da fé, como se
estivéssemos constantemente assentados nos céus; vivemos plenos da esperança
colocada em nós por Cristo e cheios do amor que transforma a dor em alegria,
o invisível no visível, através dos olhos do coração. Deste modo, esperamos,
com paciência e gratidão, o dia do encontro, quando gozaremos ao ver a face
do amado, Cristo, do qual nunca mais seremos privados.
Também esta era a alegria de Cristo, antes de subir ao Pai: dom pelo qual
rezou (cf. Jo 17), para que pudéssemos estar onde ele mora para sempre e
pudéssemos contemplar sua glória e nela viver. Após a ascensão de Cristo,
esta glória transformou-se numa realidade vivente, como testemunhou o mártir
Estevão: enquanto abandonava sua morada terrena, seus olhos contemplaram, na
certeza da fé e da visão, o lugar que Cristo lhe tinha preparado, uma morada
estupenda, não feita por mãos humanas, estável para sempre nos céus: o corpo
de Cristo, que contém todas as coisas.
Agora, nós comemos seu corpo e bebemos seu sangue com olhos fechados: não
conseguimos ver o esplendor de seu corpo nem a glória de seu sangue sem nos
amedrontar, sem cair com a face por terra e ficar mudos ao receber a
terrível brasa ardente da divindade. Mas, por que nós mesmos não podemos nos
ver unidos a este corpo, na luz plena da divindade? Por que não podemos ver
o sangue de Cristo que se difunde em nós e nos transmite o Espírito divino
derramando-o em nosso ser, de modo a poder tornar-nos tanto um reino de
sacerdotes para Deus seu Pai, como reinar com ele na herança da dignidade
ilimitada dos filhos do único Pai?
O apóstolo Paulo nos incita com uma insistência espiritual, compreensível
somente por quem foi iniciado pelo Espírito nos segredos da presença divina:
Se ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto, onde Cristo se
encontra (Cl 3,1). Portanto, por si, só a ressurreição não é suficiente.
Após a ressurreição, há a glória da vida na presença de Deus, onde Cristo se
assentou conosco à direita do Pai, à disposição daqueles que o amam e que
não podem suportar viver sem ele.
Onde quer que se encontre Cristo, também nós temos o direito de estar. Este
pedido está incluído na própria natureza do pedido e do desejo de Cristo;
realmente, recebemos este direito em virtude de nossa humanidade, com a qual
Cristo se uniu de boa vontade e com amor, prometendo não abandoná-la, nem
esquecê-la, um instante sequer, nem durante um piscar de olhos.
Procurar as coisas do alto, onde se encontra Cristo, significa procurar
morar constantemente na presença de Deus: isto tornou-se para nós um direito
eterno em Cristo, direito que agora pedimos com insistência, em lágrimas.
Uma vez que o possuímos, não pode mais ser-nos tirado, porque é a herança
reservada para nós no céu, herança que não é diminuída nem pela nossa
enfermidade, nem desaparece com a decadência de nosso ser carnal.
A relação entre a humanidade e o Espírito vivificante tornou-se possível
graças ao sacrifício redentor de Cristo: É bom para vós que eu vá... quando
eu for vos mandarei [o Consolador] (Jo 16,7). Ele me glorificará, porque
tomará do que é meu e vo-lo anunciará (Jo 16,14). Por isso, a glória da cruz
e do sangue derramado é a posse da santa Trindade na sua totalidade: posse
do Pai que aceita o sacrifício do Filho e o glorifica (Todas as minhas
coisas são tuas e todas as coisas tuas são minhas: Jo 17,10), posse do
Espírito Santo que mora no Pai e por isso possui tudo o que pertence ao Pai,
inclusive o sacrifício e a glória do Filho.
Viver na presença de Deus, conscientes da união com Cristo livremente
realizada por ele em nós e para nós, é o segredo da felicidade entregue a
nós, por Cristo, em meio aos sofrimentos do mundo e apesar da impotência da
humanidade e de seu trágico fracasso. Esta consciência nos dá uma paz
interior que supera a inteligência com todas as suas ânsias e fraquezas.
Mas, este sentido de estar na presença de Deus não é uma simples alegria da
qual gozar. Pelo contrário, é oração com todo o seu calor, a sua paz e a sua
sobriedade: é a oração perfeita na qual o corpo encontra repouso, a alma
encontra paz e o Espírito se alegra na recordação da Trindade, na
glorificação do Pai, na repetição do nome do Salvador, na invocação
incessante do Espírito Santo, com a esperança e a audácia derivadas da cruz
e do sangue derramado.
Somos constrangidos a gemer em nós mesmos por causa do peso de nossa carne:
ela é como uma tenda rasgada por ventos impetuosos e nós suspiramos por
vestir o hábito celeste. Mas isso não é possível pois, primeiramente,
devemos nos despojar do homem velho para revestir-nos de Cristo e morar nele
sem temor: aquilo que é corruptível, de fato, não pode herdar a
incorruptibilidade. Por isso, nossas preces continuarão misturadas com
lágrimas, e a nossa alegria de habitar na presença divina será traspassada
por gemidos de aflição, por causa de nossa incapacidade de vestir aqui o
hábito celeste. Mas, pela fé, nós sabemos que, do mesmo modo que vestimos o
hábito terreno, assim vestiremos o celeste e nunca mais seremos privados da
graça divina: aquele que nos criou é o mesmo que nos recriou e preparou para
uma renovação na plenitude da santidade e da justiça de Deus.
Portanto, devemos admitir nossa miséria atroz, mesmo se nos foi dada e
transmitida toda a riqueza do Filho. Este mundo de falsidade e de engano não
reserva riquezas para nós: aqui não existe cidade permanente para nós, nem
habitação estável, não existe honra, nem fama, nem verdadeira consolação.
Pelo contrário, estamos à procura do mundo que há de vir, onde não há engano
nem sombra de mudança. É nesta linha que Paulo nos estimula a procurar as
coisas do alto. Como pode o homem procurar essas coisas se deseja coisas que
estão nesta terra e ainda grita por aquilo que está nas mãos e na boca dos
outros? Ou consentimos nas coisas mais terrenas para que se tornem nossa
alegria, a nossa consolação e a nossa glória, ou então rejeitamos aquilo que
é daqui de baixo em troca das coisas lá de cima, a glória de Deus.
Aqueles que procuram e gemem por honras nesta terra, não terão mais o poder
da fé nas coisas do alto para estar em condições de procurá-las; aqueles que
procuram o que está na terra, não podem procurar o que está nos céus.
Aqueles que, na verdade, não se consagram para procurar as realidades
celestes são privados da glória da ascensão e perdem os frutos da cruz e da
ressurreição. Pois Cristo suportou os sofrimentos, as paixões e a crucifixão
por amor da alegria colocada diante dele: a alegria da grande reconciliação
definitiva realizada quando ele ofereceu ao Pai a humanidade, juntamente com
ele - uma humanidade redimida, justificada, purificada e lavada no sangue -
e fê-la assentar-se a seu lado à direita do Pai.
Do mesmo modo, como os sofrimentos da cruz foram coroados com a
ressurreição, assim a ressurreição foi coroada com a ascensão e o
assentar-se à direita do Pai. Portanto, na ascensão está incluído o mistério
do suportar todo o sofrimento, também até a morte; e no assentar-se nos céus
junto com Cristo está a suma esperança, a máxima alegria e a finalidade
última de toda a criação, tanto da velha como da nova.
*Publicação em ECCLESIA autorizada pelo Tradutor, Pe. José Artulino Besen.
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