XIV - Pentecostes:
A Promessa do Pai
Ascensão do Senhor, já comentamos, quarenta dias após a ressurreição e o
modo como ele completou a Redenção iniciada na Cruz. Quando, naquele dia,
subiu e atravessou a barreira que nos separa do Pai e penetrou até o
interior do véu do santuário como precursor, para nossa vantagem (cf. Hb
6,19-20), Cristo entrou com as mãos tingidas do próprio sangue e compareceu
diante do Pai imolado na carne por causa de seu amor e de sua obediência. A
ira de Deus pela transgressão do homem foi aplacada para sempre: o próprio
Filho tornou-se oferta de expiação pela humanidade imperfeita. Daí deriva a
expressão Jesus entrou por nós como precursor... dando-nos assim uma
redenção eterna (Hb 6,20; 9,12).
Por isso, através de sua ressurreição e ascensão à direita do Pai, Cristo
completou o dom descido do céu, tornando perfeita a redenção e assegurando a
salvação a todos que crêem nele.
Após a
redenção
O que permanece após a redenção e a salvação é o nosso ingresso na comunhão
com o Pai, o poder viver com ele no amor, como filhos. Uma coisa é morrer
com Cristo, ressurgir com ele, com ele assentar-se nos céus, e outra é viver
com o Pai na comunhão do amor dos filhos. Esse é o dom realizado pelo
Espírito Santo, um tempo chamado “a promessa do Pai”, cuja data estava
fixada na história da humanidade: esse dom foi preanunciado pelos profetas,
foi retomado por Cristo e realizado em Pentecostes.
A
revelação do amor do Pai em Pentecostes
Todos sabem que Cristo realizou o projeto divino mediante a carne, isto é, a
morte, a ressurreição, a ascensão e o assentar-se à direita do Pai. Mas, em
Pentecostes, o Pai realizou o próprio projeto mediante o Espírito Santo.
Enquanto que o objetivo do Filho é a salvação mediante a remissão do pecado
e do castigo conseqüente e o restabelecimento da relação entre Deus e o
homem na base de uma reconciliação eterna, a vontade do Pai é que nós
vivamos com ele no amor de filhos: esta vontade se realizou em Pentecostes
como resultado da obra de Cristo.
Onde terminou a missão de salvação e de redenção do Filho, teve início a
missão de amor e de adoção do Pai. Referente a isso afirma expressamente o
Senhor: Nesse dia vocês pedirão em meu nome e não será necessário que eu os
recomende ao Pai, pois o próprio Pai ama vocês, porque vocês me amaram e
acreditaram que eu saí de junto de Deus (Jo 16, 26-27).
A afirmação de Cristo – O Pai vos ama e naquele dia – realizou-se
definitivamente em Pentecostes, quando o Pai enviou o Espírito Santo, o seu
Espírito, o Espírito do amor paterno, um tempo indicado como “a promessa do
Pai”. Paulo o explica com estes termos: o amor do Pai foi derramado em
nossos corações por meio do Espírito Santo que nos foi dado (Rm 5,5). Isso
significa que a primeira impressão, na mente e no coração, neste grande dia
de Pentecostes, deveria ser o afeto do Pai por nós, um sentimento de amor
paterno e ardente derramado sobre a humanidade, que se seguiu à realização,
por parte do Filho, de todas as condições exigidas para a redenção e a
salvação.
Esta é a nossa porção de glória naquele grande dia; este é o tesouro de amor
ao qual tiveram acesso os fiéis de todos os tempos, sem que jamais se
esgotasse; este é o ardente amor do Pai que nos faz gritar incessantemente:
Abbá, Pai!. De fato, o Espírito de Pentecostes é um Espírito de fogo que
desce diretamente do Pai e dele comunica, através das chamas, a compaixão e
o amoroso afeto mantidos ocultos da humanidade por milênios de anos.
Gostaria que tomássemos consciência da eficácia e da magnificência deste
amor, porque o seu mistério é extremamente profundo. Demonstrou-se doador de
vida e é semelhante a um fogo capaz de transformar a nossa natureza, assim
como o fogo transforma o pó em ouro. Com o mesmo amor com o qual Deus amou
seu Filho unigênito, Deus escolheu, neste “dia divino”, amar-nos e derramar
sobre nós abertamente o seu Espírito. Assim, transformou-nos de servos em
filhos e nos elevou da terra ao céu, pelos méritos de seu Filho que desceu à
nossa terra e se imolou por amor de nós.
A
adoção através do Espírito Santo
Quando Abraão obedeceu a Deus e esteve a ponto de imolar o próprio filho, na
submissão à voz do céu, recebeu a misericordiosa graça de Deus que jurou
abençoá-lo e dele fazer uma bênção. Mas, em Pentecostes – dia no qual todos
os nossos dias foram abençoados, depois de Cristo ter completado a lei na
carne, tinha obedecido ao Pai até a morte de cruz, subira e aparecera diante
do Pai com o próprio corpo imolado – Deus realizou algo maior do que um
juramento: seu amor derramou-se sobre toda a humanidade e derramou sobre
cada homem o Espírito Santo, no qual reside toda a graça, o amor e a bondade
de Deus, como predisse Joel, o profeta do Pentecostes. Com esse Espírito do
Pai, o mundo inteiro foi abençoado.
Este amor assume a forma de uma ligação de adoção. Como o Pai amou seu
Filho, no mesmo modo, e mediante o mesmo Espírito, Deus também nos amou e
enviou o Espírito de seu Filho nos nossos corações (Gl 4,6). Eis a adoção em
virtude da qual temos pleno direito de chamar Deus “Abba, Pai!”. É o mesmo
Espírito, derramado em nós pelo Pai, que grita em nós, testemunhando que
somos filhos de Deus.
Esse é o Espírito de adoção que nos tornou aptos a partecipar da herança de
Cristo, da qualidade de filhos de Deus, exatamente como afirma Paulo: Mas
vós recebestes um Espírito de filhos pelo meio do qual gritamos: Abbá, Pai!.
O próprio Espírito atesta ao nosso espírito que somos filhos de Deus. E se
somos filhos, somos também herdeiros: herdeiros de Deus, co-herdeiros de
Cristo (Rm 8,15-17).
A unção
de filhos
Depois que o Filho tinha predisposto em si mesmo todas as condições
preliminares, e depois que os discípulos se reuniram no cenáculo segundo sua
ordem, esperando aquilo que fora prometido e dedicando-se à oração unânime,
a promessa do Pai com relação ao Espírito Santo se realizou e o processo de
adoção, há tempo prometido pelo Senhor e esperado pelos discípulos, foi
completado.
A promessa se realizou com uma unção de fogo por parte do Pai, a qual nos
deu o poder de uma vida imortal em comunhão com a Trindade. A profundidade
desta comunhão é inexprimível e nós agora vivemos na sua plena manifestação.
A essência desta vida é um amor paterno que, de per si, é doador de vida e
contém em si o mistério do nascimento do alto.
Cristo vê a sua descendência, vive longos anos, por meio dele se cumpre a
vontade do Senhor; ele verá o fruto da fadiga de sua alma e dela se saciará
(cf. Is 53,10-11).
Grande foi a alegria de Cristo naquele dia quando, assentado à direita do
Pai, viu o Espírito Santo imprimir o selo do Pai em toda a obra que ele
tinha realizado através dos sofrimentos, e quando deu testemunho a seus
discípulos, adotados pelo Pai como Igreja que fazia seu ingresso em uma nova
era, a era do beneplácito do Pai, a era do amor eterno da qual jamais seria
separada.
Cristo, naturalmente, se alegrou com tudo isso, pois era o que tinha
insistentemente pedido ao Pai: Que o amor com o qual me amaste esteja neles
(Jo 17,26). Esta é a unção do Pai, doada segundo o pedido de Cristo e por
causa de seu amor, sobre a Igreja reunida unanimemente em Pentecostes. É a
mesma igreja que ainda hoje se reúne como Igreja católica para receber essa
mesma unção de alegria e de amor paterno, no mesmo modo com o qual no Jordão
deu-se a unção do Filho encarnado, quando ele recebeu o Espírito que descia
sobre ele juntamente com a voz do Pai: Este é meu Filho predileto, no qual
ponho minhas complacências (Mt 3,17).
Essa equivalência entre o amor do Pai pelo Filho e o amor pelo homem novo,
representado pela Igreja dos apóstolos reunidos no cenáculo, ultrapassa
qualquer compreensão. O amor do Pai derramado sobre o Filho através do
Espírito Santo foi derramado do mesmo modo e através do mesmo Espírito
também sobre a nova humanidade, sobre todos aqueles que aceitam a redenção e
a adoção em Cristo, para que o amor com o qual me amaste esteja neles (Jo
17,26).
A
comunhão de amor
Precedentemente, já afirmei que o Espírito derramado pelo Pai com a unção de
amor é essencialmente vida no Pai. O Espírito une firmemente a humanidade em
uma comunhão com o Pai, comunhão de amor e de vida eterna, porque o amor do
Pai é vida, e a vida em comunhão com o Pai é o amor fundamental.
Cristo previu esse dia maravilhoso, dia no qual a Igreja viveria do amor do
Pai, e sua alma encontrou consolo no futuro de seu pequeno rebanho. Deste
modo ele fortaleceu os discípulos quando a sombra da cruz ameaçava
oprimi-los com seus sofrimentos: porque eu vivo e vós vivereis (Jo 14,19).
Ele já tinha explicado de onde jorrava essa vida quando tinha dito: Eu vivo
para o Pai (Jo 6,57). Portanto, o significado se torna claro: “Eu vivo para
o Pai, por isso, comigo, vós vivereis para o Pai”.
Essa é a comunhão de vida com o Pai, o Filho e o Espírito Santo, comunhão
que os discípulos viram e viveram e com a qual se alegraram, comunhão de que
nos falou o apóstolo João dizendo-nos que também hoje nos é oferecida: A
vida se fez visível, nós a vimos e disso damos testemunho e vos anunciamos a
vida eterna, que estava junto do Pai e fez-se visível a nós; aquilo que
ouvimos e vimos, nós o anunciamos também a vós, para que também vós estejais
em comunhão com ele. A nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus
Cristo. Escrevemos estas coisas para que a vossa alegria seja perfeita (1Jo
1,2-4).
Com isso entendemos que a comunhão com o Pai obtida por Cristo, para nós,
através de sua encarnação e por ele completada com o seu assentar-se à
direita do Pai, era a garantia, a primícia, o modelo perfeito que, no plano
de Cristo devia constituir o fundamento para a comunhão de vida da
humanidade com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
A obra de Cristo não terminou com sua ascensão e com seu glorioso
assentar-se à glória do Pai nos céus: realmente, não seria possível que
Cristo se satisfizesse e a sua alegria fosse completa, sem que fosse
completamente realizado seu plano que previa a aquisição, por parte da
humanidade, de uma comunhão com o Pai, de uma relação eterna, de um amor e
de uma adoção igual àquela que ele buscou para nós no corpo de sua
humanidade. Isso tinha sido objeto de um específico pedido de Cristo ao Pai,
antes da crucifixão: Agora, porém, eu venho a ti e digo-te estas coisas
enquanto estou ainda no mundo, para que tenham em si mesmos a plenitude de
minha alegria (Jo 17,13)
Os dons
do Espírito Santo devem ser acesos
A comunhão de amor e de vida com o Pai e o Filho através do Espírito Santo,
esta comunhão que foi derramada no dia de Pentecostes, que pôs sua moradia
na Igreja, pode ser sentida em nosso íntimo somente com uma grande mansidão
e humildade.
Se é verdadeiro que o Espírito de Pentecostes era palpável e visível como
línguas de fogo, é também verdade que esse Espírito jamais se esfriou ou foi
extinto. Seu fogo permanece latente nos corações que sabem como reavivar a
chama com a oração, a humildade e o amor. O fogo do Espírito Santo é vivo e
tem necessidade apenas de ser abanado; espera o óleo da graça para inflamar
os carismas e aumentar a unção. Felizes aqueles que a cada dia recolhem ao
menos uma gota deste óleo: verão como o Espírito queima e como se espalha a
fragrância do perfume de Cristo. Como a abelha operosa recolhe o mel do
néctar das flores, assim nós recolhemos o óleo mediante a vigília, a ascese
e a autêntica mansidão, a doce pobreza e o jejum alegre, a súplica
incessante, o honrar cada ser humano, o dar graças por cada coisa, o
bendizer todo nome.
O Espírito Santo é, por sua natureza, manso e calmo; sua voz não pode ser
ouvida nem sua forma vista a não ser por aqueles que se encontram unânimes
na intimidade do amor e esperam a promessa do Senhor, aqueles que abrem o
coração e erguem os olhos para o lugar onde Cristo está assentado, pedindo
aquilo que pertence aos filhos e procurando a face do Pai. A estes o
Espírito se manifesta como uma luz para o olho interior e como um fogo que
enche os corações, de tal forma que cada boca está cheia do louvor a Deus.
Os jovens divisarão a luz do mundo (Jo 8,12) nas suas visões e os anciãos
reconhecerão Cristo em seus sonhos (cf. At 2,16-18).
A nossa
comunhão com os apóstolos
Não esqueçamos que, através da descida do Espírito em Pentecostes – Espírito
que desde aquele dia brilha na igreja e que ainda hoje nos enche de vida, de
luz e de amor – passamos a ter com os santos uma comunhão que dura para
sempre: de fato, o Espírito da autêntica comunhão, desde aquele dia, se
estende sem interrupção a partir dos próprios apóstolos. Basta-nos
permanecer firmemente ligados a este Espírito da promessa, santo e vivente
para sempre. Devemos agarrar-nos a ele com todo o coração e jamais
abandoná-lo, devemos respirá-lo a plenos pulmões e cortejá-lo com todo o
nosso afeto, de modo a conseguir participar plenamente, nele, na comunhão
com os santos e com o próprio Cristo. Como disse Paulo: Com alegria
agradeçamos ao Pai que nos fez aptos a participar da sorte dos santos na
luz. É ele, de fato, que nos libertou do poder das trevas e nos transferiu
para o reino de seu Filho amado (Cl 1,12-13). Este é o máximo desejo pelo
qual Cristo insistentemente implorou ao Pai: Pai, quero que, onde eu
estiver, estejam comigo aqueles que me deste (Jo 17,24).
A
dúplice efusão do Espírito Santo
A diferença entre o soprar de Cristo em seus discípulos após a ressurreição
e a descida do Espírito em Pentecostes é extremamente forte e os dois
eventos são complementares. A obra do Filho, completada através da
encarnação e da redenção, termina com a nova criação: Deus nos regenerou,
mediante a ressurreição de Cristo dos mortos, para uma esperança viva (1Pd
1,3). Sobre esta criação nascida à sua imagem, Cristo derramou o seu
Espírito Santo para que, na força de sua qualidade de Filho criador e de
novo Adão, nela pudesse viver o Espírito doador de vida. Mas, como a
perfeição desta criação devia ser completada pela obra do Pai, Cristo
ordenou a seus discípulos que, mesmo pós ter recebido esta sua efusão, não
abandonassem o lugar em que se encontravam mas, pelo contrário, esperassem
“a promessa do Pai”. Deste modo, após ter obtido “a promessa do Filho”, eles
permaneceram na expectativa da “promessa do Pai”. A promessa do Filho
consiste numa comunhão com Cristo em virtude do Espírito Santo. Após a
ressurreição, Cristo soprou o Espírito Santo sobre seus discípulos para que
pudessem ter plena comunhão em sua morte e ressurreição como nova criação:
de fato, sem o Espírito Santo era-lhes impossível obter a comunhão com
Cristo. Analogamente, a promessa do Pai é a comunhão com o Pai em virtude do
Espírito Santo através da adoção de filhos. É evidente que o sopro do Filho
sobre os discípulos após a ressurreição e a descida do Espírito Santo do Pai
como uma unção em Pentecostes realizam – ambas – uma única ação no homem,
mesmo se constituem duas operações místicas separadas, como o batismo e a
crisma. Ambos são sacramentos da ação do Espírito Santo, no nome do Pai, do
Filho e do Espírito Santo. Ele vos batizará em Espírito Santo e fogo (Mt
3,11).
Através do batismo e da crisma, nós recebemos agora estas duas ações
completadas uma pelo Filho (através do sopro do Espírito Santo após a
ressurreição) e a outra pelo Pai (através da realização, em Pentecostes, de
sua santa promessa feita aos discípulos), de modo que possamos obter aquilo
que os discípulos obtiveram após a ressurreição e em Pentecostes: o
renascimento para a nova criação como Igreja vivente e corpo de Cristo.
*Publicação em ECCLESIA autorizada pelo Tradutor, Pe. José Artulino Besen.
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