III - O Despertar do Espírito e
o Início da Ação Espiritual
espírito é de tal modo ligado às ocupações sensíveis, às
tarefas e aos interesses relativos a acontecimentos temporais do
quotidiano, que acaba perdendo a capacidade de distinguir-se do corpo e se
concebendo somente em união com as percepções do corpo. Qualquer tentativa
de fazer-se uma imagem do espírito separada do corpo, termina apenas no
nível do imaginário, através de formas e movimentos da inteligência
distantes de estarem separados das impressões do corpo e do elemento
sensível. Assim o espírito se ilude e tende a admitir que o mundo do homem
se reduz àquilo que pode ser concebido pela imaginação. Do mesmo modo,
encontra grande dificuldade de conceber realidades eternas sem nelas
misturar o temporal e o material, como se o reino do céu, que não se toca
nem saboreia sensivelmente, fosse obtido através do comer e do beber.
Se o espírito chega ao ponto de colocar em dúvida a oração,
tornar-se-á totalmente incapaz de realmente discernir os pensamentos
espirituais. Então, ser-lhe-á muito difícil cumprir a ação espiritual num
contexto espiritual! Um espírito de tal gênero, antes de exercitar-se na
oração ou tentar atingir o campo puramente espiritual tem, antes de tudo,
necessidade de aprender a pacificação, deve parar de voltar o interesse às
atrações sensíveis. Procure, com todo o empenho, desfazer-se da escravidão
do corpo e dos sentidos. Isto, absolutamente, não exige fugir das fadigas
e obrigações físicas ou descuidar das necessidades diárias. Basta que o
espírito, por meio dos pensamentos, dos sentimentos e das atrações
espirituais, se liberte o mais possível das tendências materiais, dos
pensamentos, da sensibilidade e das atrações temporais. Então o espírito
começa a conhecer suas próprias capacidades, os dons recebidos e para quê
lhe foram concedidos. Começa a exercitar as capacidades que lhe são
próprias e que nada têm a fazer com as questões referentes ao corpo. Assim
o espírito começa a preparação para o agir espiritual.
Todavia, o espírito não pode dedicar-se à ação espiritual
sem adquirir o olhar espiritual, o ouvido espiritual, a língua espiritual,
deixando-se iluminar pela luz do conhecimento nascido da verdade, como
disse o Senhor.
Estas aquisições não são fruto de pesquisa ou de abundantes
leituras, menos ainda de aprendizado, do discernimento ou do debate, como
acontece com o uso da razão ou do desenvolvimento das capacidades físicas
ou técnicas que dependem dos sentidos. Pelo contrário, para se tornar
espiritual, apto a perceber a eternidade e ser iniciado na ação
espiritual, é essencial que o espírito se despoje de todos os meios
sensíveis inatos que o corpo possui, até o ponto de não mais fazer recurso
à habilidade do pensamento, à acuidade da imaginação, até não mais colocar
a confiança na força da exposição, na eloqüência e na retórica, na
conversação e na superioridade sobre os outros, coisas essas que o
evangelho resume numa única expressão: “a sabedoria deste mundo”. Ao
espírito que empreende a ação espiritual, é indispensável captar os
objetos espirituais e fazê-los próprios em virtude de uma força tornada
pessoal. De fato, as capacidades do espírito são espirituais! E o mundo
ignora a compreensão espiritual e a ação espiritual representadas pela
cruz. É o que afirma o Apóstolo, com extrema clareza: Se alguém dentre
vós se crê sábio aos olhos deste mundo, faça-se ignorante para se tornar
sábio (1Cor 3,18)! Isto significa que, necessariamente, deve renunciar
à sabedoria do mundo que por si mesma está limitada ao tempo, aos sentidos
e ao corpo.
Enquanto não começa a dedicar-se à ação espiritual e a
saboreá-la, o espírito continua a usar na oração e no diálogo com Deus a
linguagem comum aos mortais e os modos de que eles se servem na
conversação humana para expressar seus sentimentos, enfeitar suas palavras
e construir justificativas.
Mas, quando o espírito se torna capaz de renunciar a esses
métodos, então está à altura de se comunicar com Deus com as próprias
forças, sem a língua, sem a linguagem falada pelos homens e sem os modos e
os artifícios do sentimento e da expressão Pouco a pouco, o espírito se
torna capaz de expressar para Deus as próprias impressões profundas e o
fervilhar de sentimentos que sente no confronto com ele ou que as
realidades eternas nele provocam e das quais a linguagem humana - por
maior que seja a precisão, a riqueza e a sabedoria que atinja - não pode
atingir, nem clarificar, nem nada exprimir.
Graças a estes novos meios, o espírito pode manifestar o
próprio amor a Cristo, não através de palavras, mas através do fervor, do
movimento interior do espírito e de uma ressonância espiritual que jorra
do subconsciente. É o amor que se exprime com o amor, a submissão com a
submissão e a renúncia com a renúncia. Essa é a ação espiritual, libertada
de toda influência.
Quando o espírito se acalma e começa a fixar a atenção em
sua ação espiritual interior, pode compreender as realidades espirituais,
sua orientação e natureza; pode até viver o conhecimento da vida eterna e
da imortalidade sem as sombras do corpo, sem a distração dos sentidos ou a
intervenção dos métodos humanos, de que fala Paulo: Aquilo que o olho
não viu, que jamais algum ouvido escutou e que ninguém jamais imaginou.
Palavras que não se podem proferir e das quais não é conveniente falar,
Deus nos revelou por meio de seu Espírito (cf. 1Cor 2,9). Graças a
esse conhecimento espiritual, privado das deformações de um pensamento
sobrecarregado pelo corpo e liberto de todas as amarras dos interesses
sensíveis, o espírito começa a colher a verdade como se nela morasse e,
através dela, entra em contato com Deus.
Mas, que o espírito resida na verdade e em Deus, não é o
fruto de um esforço humano e, nem mesmo, se fosse factível, da morte dos
sentidos; é o fruto da constante submissão a Deus e da vigilância contínua
do coração voltado para a ação espiritual, que o leva a completar o
conhecimento das coisas divinas. Essas palavras não estão reservadas a
quem completou grandes estudos: são para o homem enquanto tal. São para
cada ser humano, qualquer que seja seu grau de instrução, seja elevado,
possibilitando-lhe possuir toda a ciência, seja deficiente, como um
analfabeto que não saiba nem ler nem escrever. Ao intelectual, em
particular, é pedido que se torne ignorante, porque agradou a Deus
salvar os crentes através de pregadores ignorantes (1Cor 1,21).
O espírito que alcança o conhecimento de si ou que foi
levado a exercitar a ação interior por uma necessidade sincera do coração,
certamente o foi movido pelo amor e pelo fervor interior para continuar,
com o sustento da alma, toda a atividade externa, como as ações ditadas
pela piedade e pela virtude. Esta atividade exterior que se manifesta como
uma ação do corpo é, assim, uma extensão da ação espiritual interior e,
como conseqüência, é também ela uma ação espiritual.
Quanto à atividade exterior que não procede de motivações
puramente espirituais e da conformidade com a verdade e com Deus, é de
pouca utilidade, para não dizer prejudicial.
O sinal para reconhecer que as obras realizadas - gestos de
culto ou de adoração, piedade ou virtude, ascese ou qualquer outra ação -
provêm verdadeiramente do íntimo e que a fonte é puramente espiritual, é
que elas sejam realizadas não por obrigação, como efeito de uma pressão ou
constrição mas, pelo contrário, com alegria e júbilo, com ardor, zelo e
magnanimidade. Se assim acontece, significa que a feliz origem de todas as
ações é o amor: O homem bom de seu tesouro, [o coração], tira
coisas boas (Mt 12,35).
O amor é o tesouro do homem bom: inspira ao espírito o
serviço, a adoração, a virtude, a ascese e tudo aquilo que é bom; cria um
espaço no qual não existem a angústia ou a preocupação pelas conseqüências
daquilo que faz. A obra é realizada segundo a vontade de Deus, por causa
daquele amor que absolve uma dívida de amor. A quem realiza uma obra, o
salário não lhe é calculado como prêmio, mas como dívida (Rm 4,4).
É perigoso ter como motivação das obras que realizamos, dos
serviços que prestamos, de nossas adorações, da nossa prática da virtude,
o desejo de realizar uma etapa ou de fazer tentativas com vistas à
aquisição de um objeto que se deseja. Porque, deste modo, o espírito se
encontra condenado a limitar-se às suas obras, a preocupar-se
exclusivamente de si. O espírito acaba preferindo e valorizando aquelas
obras que lhe parecem vantajosas; torna-se sempre mais feliz com o sucesso
conseguido nesse campo; adapta-se talmente aos rigores exigidos por estas
vantagens que se enrijece na esperança dos bens que prometem; pelo fato de
observar cuidadosamente as regras, delas faz motivo de glória; no final, a
preocupação com o próprio eu se engrandece, se envaidece e se incha,
também no praticar a piedade. Contudo, com esta finalidade, há um ditado
que podemos chamar “palavra de socorro”: “A ação deve provir de Deus e se
orientar para Deus”, ou então, como diz a Bíblia: Eis que venho, ó
Deus, para fazer a tua vontade (Sl 40,8). Cristo viveu deste modo e
deste modo vivem todos os anjos e santos do céu; assim agiram os pais, os
profetas e os enviados de Deus, distantes, bem distantes da gratificação
pessoal ou da busca do próprio interesse. Essa é a natureza da ação
espiritual.
Paz
Para o homem espiritual que avança na estrada da privação,
a verdadeira paz consiste em preservar a própria vida do vazio do nada.
O repouso do corpo ligado a uma dimensão temporal é
semelhante ao trancar os ponteiros do tempo e ao torpor semelhante ao
sono. Trégua enganadora, pois o tempo não pode ser parado; ele se alonga e
passa furtivo, para além do conhecimento humano; sucedendo-se uns depois
dos outros, as horas, os dias, os meses e os anos se afundam no abismo da
morte ou da não existência. E, imprevistamente, a consciência do homem
desperta para constatar que o tempo aliou-se à morte e ao abismo, contra
ele, e que a possibilidade de alcançar aquilo que é imortal e a vida
eterna para ele tornou-se mais frágil do que antes!
O próprio tempo transcorre segundo um equilíbrio imutável e
uma lei inflexível, amontoando no íntimo da pessoa conjuntos harmoniosos
de fenômenos fisiológicos e psicológicos, simples expressão de um passado
sempre mais pesado e que não cessa, dia após dia, de fornecer novos
elementos para assim influenciar o comportamento do homem, seu
temperamento, sua atividade e todas as suas iniciativas. Esta é a
realidade inevitável para nós: o ser humano é uma história programada,
produzida pelos dias; e é essa história que fixa as características de seu
aspecto humano, não só do ponto de vista da estatura do corpo, mas também
quanto àquilo que se refere ao número de anos, nos quais se inscrevem a
riqueza e a profundidade da personalidade humana, fruto também dos
incidentes do percurso e do modo pelo qual o homem reage.
Mas, há no homem uma outra dimensão, acima e separada do
tempo. É uma dimensão que não depende das mudanças fisiológicas, nem
subjaz à influência psicológica: é quase separada do pó da terra, de tudo
aquilo que dela provém e a ela retorna. Esta dimensão atemporal não cede
ao movimento do tempo, pois não é deste mundo: ela não possui unidade de
medida, mas está somente submetida à intervenção direta de Deus. É a lei
da imortalidade ou da vida eterna.
Quando o homem se comporta segundo a dimensão temporal, sua
consciência se movimenta na dimensão das horas e dos dias. Ele adere à
terra, ao céu e a tudo o que contém, fica submetido à lei do movimento e
da mudança que inexoravelmente levam ao nada. Mas, quando segue a lei da
imortalidade, sente algo do infinito, da existência absoluta e da vida
eterna; adere à verdade e se transforma nela. É o que a teologia denomina
“união com a natureza divina”.
Estas duas dimensões, temporal e atemporal, caminham junto
com o ser humano a viver segundo estas duas dimensões, submetendo o tempo
e buscando a imortalidade! Quanto mais o homem é solicitado a seguir uma
destas orientações, tanto mais a outra se enfraquece e parece rapidamente
regredir.
O apego à terra e às realidades terrenas - quando atinge o
grau da paixão no prazer ou a preocupação e a inquietação - torna a
conduta da vida solícita pela dimensão temporal e, por isso, submete-a
fatalmente à lei da decadência rumo ao nada, lei própria do tempo.
Aderir à verdade - e a verdade é Deus -, dedicar-se ao amor
e à vida eterna, até o dom de si e até entregar a própria alma: este é o
zelo pela dimensão atemporal e, conseqüentemente, esta é a prática da lei
da eternidade, governada por Deus.
Quem se limita à dimensão temporal e usa as próprias forças
para nela continuar no engano, encontra-se diante do vazio interior,
porque a vida eterna escapa daquilo que nele há de mais profundo, ou então
se torna insensível, como se a dimensão do tempo fosse um inimigo que nele
colocou moradia!
Quem, pelo contrário, se move na dimensão divina, sente o
tempo furtivamente ir embora e ficar para trás, como um homem que,
viajando de trem, vê os postes e as árvores como que fugindo de medo para
se tornarem minúsculos, até sair da vista do viajante que permanece firme
em seu posto, com o coração em paz diante do repentino desaparecer da
cena. Assim o mundo inteiro, e todas as realidades que nele se encontram,
se apequenam e desaparecem atrás do homem que avança pela estrada da vida
eterna.
O homem distante de Deus é posto, ou diante de uma certa
sensação de que o tempo parou, ou de uma certa insensibilidade diante do
tempo, porque nele submergiu! O firmar-se do tempo é um vazio mortífero
para o espírito destinado a passar através do tempo e seguir adiante. Do
mesmo modo, no homem que se apega ao mundo nasce um sentido
desproporcional do mundo, da importância e da grandeza das realidades que
nele se encontram. De fato, o homem em si, no ser de sua criação e de seu
desenvolvimento, aparece extraordinariamente grande em seu pensamento
consciente, como na ilusão de uma miragem. É o segredo da divinização do
universo e da matéria, teorizada por muitos homens de hoje.
Pelo contrário, o homem unido à verdade, em seu caminho
rumo à eternidade, possui uma percepção dilatada do tempo que dele se
distancia, como se os dias e os anos se tornassem pequenos a seus olhos,
perdendo seu valor proporcionalmente à aceleração de sua velocidade. Assim
cria-se nele um sentido de plenitude, pois sua rápida fuga fá-lo sentir
mais intensamente o seu andar além e sua aproximação do fim grandioso.
Do mesmo modo, para o homem que vive em Deus, o mundo se
dissocia da sua integridade e as coisas e os acontecimentos que nele
ocorrem parecem na realidade serem fúteis como os brinquedos das crianças
e suas brigas.
Existe uma paz verdadeira e uma paz enganadora.
No âmbito da “dimensão temporal”, uma parada é uma
momentânea pausa prolongada na fadiga humana, durante a qual o homem fica
tranqüilo e só. Mas isso não cria um repouso verdadeiro, mas coloca o
homem no espantoso vazio temporal. Também na pausa, momentânea ou
prolongada, do cansaço humano, é impossível livrar-se do movimento do
tempo: é como se o homem desse um passo sem ir para a frente! Deste modo
aumenta o ímpeto de sua rebelião contra o tempo, que se transforma numa
força que o oprime e esmaga por todos os lados.
O homem não pode libertar-se do tempo a não ser entrando na
profundidade de seu ser e aderindo à verdade e à vida eterna, aderindo à
dimensão atemporal e crendo na imortalidade.
É impossível encontrar o verdadeiro repouso fazendo cessar
o esforço do corpo, pois a natureza, escrava do tempo, está pronta para
vingar-se de toda criatura vivente que tenha a audácia de não continuar a
servi-la; ao menos que a suspensão do esforço seja apenas um relaxamento
para recolher as próprias forças e retomar o serviço e a fadiga de modo
mais eficaz e ativo!
O tempo é sempre contra a inatividade! Pois bem, assim como
a natureza proíbe de per si o repouso, também o repouso autêntico implica,
em sua base, não a suspensão do trabalho, mas uma solução para o problema
do tempo como caminho de saída do seu ir-se contínuo e a capacidade de
elevar-se acima da lei da natureza e de sua necessidade.
Deste modo, referidos ao ser humano, repouso e inatividade
tornam-se perfeitamente claros no âmbito de um comportamento conforme a
dimensão atemporal do homem. Isto é, no âmbito do acesso à vida eterna e
da adesão a Deus, lá onde o repouso não é parada de esforço a qualquer
preço, mas separação mantida em relação a ele; lá, onde a passividade não
deriva do cancelamento do momento da hora temporal presente na
consciência, mas de uma superação do tempo!
Pede-se que todo homem procure a paz. Esta tensão forte em
direção à paz tem origem na dor do jugo do mundo (tempo) e da fraqueza da
carne (movimento). Por isso, instintivamente o ser humano é coagido a
buscar a paz pelo caminho mais breve, fugindo do tempo e do movimento.
O Messias - seu nome seja bendito - individuou este
sentimento no homem, por isso convidou-o à paz verdadeira na aceitação de
seu jugo, proclamando que seu jugo é doce e seu peso é leve (cf. Mt
11,29). Esta paz não se funda na cessação do esforço físico, nem no
refugiar-se num silêncio aparente, mas na passagem à vida eterna, passagem
para além do tempo.
O caminho para a vida eterna não abole o tempo e, muito
menos, elimina o movimento, mas dele se serve como alguém serve-se dos
degraus de uma escada para subir. Estamos, contudo, sempre diante de um
esforço a produzir e de um movimento a realizar!
Na promessa do Senhor com relação à paz: “Encontrareis a
paz para vossas almas” (Mt 11,29) existe um sentido profundo e misterioso
no sentido da palavra “jugo”. O jugo, a sujeição, indica a companhia do
Senhor junto de nós ao longo do caminho: o jugo não é carregado sozinho,
mas por dois ombros. Como bem sabem os que trabalham com o arado, se um
boi forte e um fraco são cangados juntos, todo o trabalho do arado será
feito pelo mais forte!
Ó mistério bendito! Na companhia do Senhor é-nos reservada
uma paz segura. Mas é um convite que nos vem da parte dele, não audácia de
nossa parte; e ele também se encarrega do mínimo esforço que devemos
fazer.
Vede como é bom o Senhor!
*Publicação em ECCLESIA autorizada pelo Tradutor, Pe. José Artulino Besen. |