VI - Aspecto Escondido da
Natividade
O Reino
que vem
Novo testamento e o cristianismo não estão em oposição ao Antigo
Testamento e ao judaísmo. Pelo contrário, o Novo testamento é a declaração
da realização de todas as promessas e mistérios do Antigo, quer se refiram
ao Messias, ao reino de Deus e à salvação.
Pois, asseguro que Cristo exerceu seu ministério entre os incircuncisos para
manifestar a veracidade de Deus pela realização das promessas feitas aos
Patriarcas. Quanto aos pagãos, eles só glorificam a Deus em razão de sua
misericórdia, como está escrito: “Por isso, eu vos louvarei entre as nações
e cantarei louvores em vosso nome (2Sm 22,50; Sl 17,50). Noutro lugar diz:
Alegrai-vos, nações, com o seu povo (Dt 32,43). E ainda diz: Louvai o
Senhor, nações todas, e glorificai-o, todos os povos! (Sl 116,1). Isaías
também diz: Da raiz de Jessé sairá um rebento que governará as nações; nele
esperarão as nações (Is 11,10; Rm 15, 8-12). Em nossos dias a igreja, no
meio de todas as nações do mundo, é a revelação e a realização das
esperanças de todos os escritos do Antigo Testamento com relação ao reino de
Deus, em que Cristo, que é o chefe, rege e governa o reino universal de
salvação. Toda a esperança de Israel, com todos os seus profetas e
instituições, estava centralizada na salvação de todo o mundo: esta salvação
agora está se realizando através da igreja.
Também é claro que, no decorrer de todo o Antigo Testamento, há um
desenvolvimento do conceito do reino de Deus que vem, e do modo como o
Messias é entendido e profetizado. É este o motivo pelo qual, quando João
Batista começou a pregar a conversão e o reino de Deus, as multidões se
reuniram ao redor dele num número sem precedentes no ministério de todos os
outros profetas. A espera consciente do reino havia atingido uma grande
maturidade e intensidade. É uma espera e um vivo sentido da iminência que
encontramos também nas declarações de Simeão e da profetisa Ana. O espírito
de profecia falou também pela boca de Zacarias, Isabel e João, confirmando
que o reino de fato estava próximo. Mas João Batista foi extremamente
honesto consigo mesmo e com seus seguidores, dizendo: Eu não sou o Messias!
(Jo 1,20)
Não podemos esquecer que no início de seu ministério Jesus foi acolhido sem
hesitação como o Messias de salvação graças à sinceridade e à fidelidade de
João Batista: todos os seguidores de João, também seus discípulos mais
íntimos, passaram para o discipulado do Messias.
Todo o povo acolheu Cristo como o rei que vinha no nome do Senhor, o filho
de Davi vindo para anunciar o início do reino do Messias, reino que o povo
sabia ser eterno. Quando Cristo mostrou-se esquivo no revelar-se a si mesmo,
o povo não teve dúvidas em levá-lo para fora e, à força, fazê-lo rei. Mas
ele escapou-se, pois a compreensão da salvação e do reino de Deus estava
incompleta e errada neles.
Tudo isso mostra a que ponto a fé na doutrina da vinda do reino de Deus
tinha penetrado a mente do povo e até dos pagãos. A gente comum sempre tem
uma consciência aguda de que Deus age, como diz o provérbio: “Voz do povo,
voz de Deus”.
Também é claro que, ao longo de toda a história de Israel, existe uma forte
ligação entre tempos de aflição, de exílio e de doloroso castigo de Deus de
um lado, e o desabrochar da esperança na vinda do Messias e na salvação, de
outro lado. Anela pela salvação, realmente, quem experimentou a amargura do
exílio no próprio corpo, na própria mente ou no próprio espírito.
Uma olhada rápida nos Salmos - particularmente nos versículos O Senhor
reina, exultem os povos (Sl 99,1) - revela-nos como era impaciente a espera
e quanto esforço Israel precisou para discernir, nas trevas da história e
dos acontecimentos, o rei que devia vir. Encontramos isso não somente nos
Salmos, mas também nas profecias que constantemente indicam o reino de Deus
e o Messias que deve vir para governar a terra inteira na justiça e na
retidão, para reunir as nações sob seu estandarte e para conduzir os
redimidos ao seu redil, onde todos o louvarão e servirão.
Cada vez que a moralidade decaía e se corrompia a consciência, quando as
pilastras da sociedade - os chefes - fracassavam e as condições se tornavam
mais críticas, então floresciam as esperanças na vinda de um rei que
reformaria o comportamento dos povos e curaria a doença que atingira o povo
com a decadência moral. Às vezes as profecias eram mais explícitas em
indicar que seria o próprio Deus que governaria as nações rebeldes,
golpeando-as com o chicote de sua ira e destruindo os hipócritas ao simples
sopro de sua boca. Deus tornar-se-ia para sempre o Pai dos crentes agora
perdoados e seria chamado de Príncipe da paz na terra.
Em seguida, vem o Messias e realiza todas as obras que lhe tinham sido
referidas. O evangelho nos refere que João mandou seus discípulos
perguntarem: És o que deve vir ou devemos esperar outro? Em outras palavras:
És tu o redentor, o salvador, o curador que deve governar que deve governar
Israel e submeter todos os povos e nações? E Jesus respondeu: Ide e dizei a
João o que ouvistes e vistes: os cegos recuperam a vista, os coxos caminham,
os leprosos são curados, os surdos readquirem o ouvido, os mortos
ressuscitam, aos pobres é anunciada a boa nova, e feliz daquele que não se
escandalizar de mim (Mt 11,4-6). Em outras palavras, feliz quem recebe
Cristo como o rei de justiça que vem. Encontramos aquele de quem escreveram
Moisés na Lei e os Profetas, Jesus, filho de José, de Nazaré (Jo 1,45). O
significado espiritual do reino de Deus no Novo Testamento é que recebemos
dos profetas uma herança realmente preciosa: a feliz esperança em que
morreram as gerações passadas.
O reino de Deus, que o Messias vindouro estava a ponto de revelar e
proclamar, era a esperança mais íntima e mais cara do que qualquer outra,
não só para os profetas, mas também para todos os rabinos e os mestres e
para todo o povo. As interrogações encontrariam uma reposta e as questões
abertas uma solução por força do reino que devia vir: A samaritana disse:
Sei que deve vir o Messias, o Cristo: quando ele vier nos revelará tudo (Jo
4,25).
O
aspecto visível da natividade
Acostumamo-nos a focalizar nossas meditações sobre o nascimento de Cristo
naquilo que ocorreu na história visivelmente: o Verbo se fez carne e nós
contemplamos sua glória; a vida tornou-se visível e nós a vimos com nossos
olhos e tocamos com as nossas mãos; Deus apareceu na carne.
Os pastores receberam um sinal do céu e correram para ver o prodígio na
gruta: um menino envolto em faixas que jazia numa manjedoura; dele se
dissera que era aquele que libertaria seu povo de todos os pecados. Também
os magos vieram, após longa viagem, guiados por uma estrela do céu conduzida
por uma força proveniente do alto: assim, o testemunho do mundo ao Salvador
teria vindo do externo, não de Israel, num momento em que os chefes e os
rabinos não souberam reconhecer e proclamar seu Salvador.
O
aspecto escondido da natividade
Mas queremos agora refletir sobre o que aconteceu de modo invisível no dia
do nascimento de Cristo. Foi demonstrado de modo irrefutável na cena da
história e do tempo, assim como no coração dos apóstolos, dos santos e de
toda a igreja, que aquele que nasceu era realmente o rei que devia vir, o
salvador, o redentor, o detentor da chave da casa de Davi, aquele que quando
fecha ninguém pode abrir e quando abre ninguém pode fechar. Seu reino é um
reino eterno que não terá fim, segundo a visão do profeta Daniel (cf. Dn
7,27).
Essa é a outra face do nascimento de Cristo, pois em Cristo completou-se a
promessa de Deus feita no início da era da salvação, e a manifestação na
terra do reino de Deus, guiado e governado por ele; este era o reino de que
incessantemente tinham falado os profetas. Os exércitos celestes proclamaram
a salvação: Nasceu para vós um salvador, e os magos anunciaram o reino
eterno: Onde está o rei dos judeus que nasceu?...Viemos para adorá-lo (Lc
2,11; Mt 2,2).
Deste modo podemos contemplar a face escondida do dia de Natal: os tronos
foram destruídos e outros foram preparados. Terminava uma época e outra
tinha início, como dissera a virgem Maria no seu imortal hino de louvor:
Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes, Demonstrou o
poder de seu braço (Lc1,52.51). Na anunciação o anjo já tinha proclamado com
clareza e glória: Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo; o
Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi e reinará para sempre na casa
de Jacó e o seu reino não terá fim (Lc 1,32-33).
Como é surpreendente que o reino de Cristo, portador de salvação, possa ter
sido proclamado enquanto ele ainda estava no ventre, e confirmado de muitos
modos: primeiramente pelo anjo, depois pela Virgem logo após tê-lo
concebido, depois pelo sacerdote Zacarias e por Isabel. No dia de seu
nascimento foi reconfirmado pelos exércitos celestes e pelos magos, que
tinham suportado o cansaço da longa viagem a fim de poderem ver o rei dos
judeus, adorá-lo e oferecer-lhe dons que exprimiam a essência de sua fé em
seu reino.
A
insistência de Jesus na realidade do Reino
O outro aspecto do nascimento do Cristo menino, envolto em faixas e colocado
numa manjedoura, é exatamente esse reino, proclamado pelos céus, pelos anjos
e pelos soberanos, reino que Cristo, com seu nascimento, tinha vindo
estabelecer e governar em benefício do homem. Cristo nasceu trazendo sobre
os ombros a chave da casa de Davi, segundo as palavras do anjo à Virgem: O
Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi e reinará para sempre na casa
de Jacó e o seu reino não terá fim (Lc 1,32-33).
Devemos focalizar nossa atenção nesse segundo aspecto porque, na realidade,
é a essência do significado do Natal. Se lermos atentamente, descobrimos que
é este outro aspecto que domina o evangelho e toda a Escritura. O próprio
Cristo, em sua pregação e parábolas, atribuiu ao reino de Deus uma
centralidade não concedida a nenhum outro tema. O reino de Deus foi também a
mensagem com que iniciou seu ministério: Convertei-vos, porque o reino de
Deus está próximo (Mt 4,17). Se trouxermos à memória os eventos registrados
no evangelho, descobriremos que nos ensinamentos finais de Cristo - aqueles
ministrados após a ressurreição, durante os quarenta dias em que apareceu
aos apóstolos - com eles falou do reino de Deus (cf. At 1,3). Todos têm
presente também as palavras de Cristo referentes ao reino e espalhadas por
todo o evangelho: Cristo delas serviu-se para explicar e descrever o
inexplicável e o indescritível reino de Deus, fazendo uso de todo tipo de
imagem. A solicitude do Senhor em apresentar estas parábolas revela o enorme
significado que Cristo atribuiu ao conceito de reino. Sozinha, nenhuma
parábola descreveria o reino de Deus, e nem mesmo seriam suficientes todas
as parábolas; além disso, Cristo não teria precisado servir-se de quarenta
dias, na plenitude de sua ressurreição e transfiguração, para novamente
explicar os mistérios do reino de Deus, após dele ter falado constantemente
por três anos e meio, tanto explicitamente quanto em parábolas.
O reino de Deus, após o que foi dito no evangelho e após todas as
explicações, permanece sempre uma novidade à espera de realização. Quando
todas as nossas palavras e seus significados se esgotam, a realidade do
reino ainda permanece insondável. É uma vida que não pode ser descrita, mas
que deve ser vivida: eis porque, quando falamos de reino, nos damos conta de
que faltam palavras! O reino permanece algo de que a alma tem necessidade
muito maior do que têm necessidade a mente ou a fantasia.
Cristo
e suas parábolas do Reino
Quando Cristo nasceu da Virgem, tinha a aparência de um homem como os
outros, apesar de envolvido por acontecimentos extraordinários. Esta era e é
ainda a opinião de muitos: vêm em Cristo um grande homem nascido de uma
Virgem santa por força de um milagre incompreensível. O milagre é avaliado
do mesmo modo que um insondável enigma. A mesma coisa aconteceu exatamente
quando Cristo expôs suas parábolas do reino. Alguns simplesmente
consideraram-nas como parábolas portadoras de uma sabedoria enigmática;
Cristo, porém, depois se encontrava com seus discípulos em separado e lhes
revelava explicitamente o segredo das parábolas, apresentadas como enigmas
referentes ao reino de Deus. Seus discípulos interrogaram-no acerca do
significado da parábola. Ele lhes disse: “A vós é dado conhecer os mistérios
do reino de Deus, mas aos outros somente em parábolas para que, vendo não
vejam e ouvindo não entendam (Lc 8,9-10).
Em seu nascimento, crucifixão e ressurreição, Jesus Cristo apresentou-se
como uma das parábolas que costumava narrar sobre o reino de Deus. O Cristo
nascido da Virgem, exteriormente não era outra coisa que um provérbio
enigmático, mas os que têm olhos para ver e ouvidos para escutar percebem o
outro aspecto da natividade: Deus apareceu na carne, pois o menino que
nasceu revela o mistério dos céus, o mistério da potência, da autoridade e
da glória de Deus e a marca de sua natureza (cf. Hb 1,3).
Surpreendentemente, Deus ofereceu aos céticos um exemplo para acusá-los por
sua estultícia. O exemplo, que logo se tornou um testemunho do
imperscrutável mistério de Cristo, é o dos magos que vieram do distante
oriente para prostrar-se diante do menino nascido rei em Belém. Os magos
estavam plenamente conscientes do aspecto oculto da natividade: seus olhos
estavam abertos para ver a estrela no céu, seus ouvidos estavam abertos para
escutar o mistério. Deste modo compreenderam tudo, obedeceram à visão e não
se rebelaram contra o chamado.
Este é Jesus nascido em Belém: um mistério visível e escondido. Alguém pode
se contentar com aquilo que vê exteriormente: uma história, uma máxima, um
enigma. É o que acontece quando, em cada narrativa do evangelho, não se vai
além do Cristo da história. Mas, se os olhos e ouvidos estão abertos, Cristo
e seu nascimento assumem um outro significado, inatingível, que nenhum livro
ou mente podem conter; Cristo se transforma no mistério contido nas suas
parábolas do reino: uma fonte de visão que satisfaz sem limites, uma fonte
de compreensão e de sabedoria acima de qualquer raciocínio. É o grão de
trigo - como disse de si mesmo e isso numa das parábolas do reino - que
contém o mistério da morte e ressurreição e o mistério da fome e da
saciedade.
Tudo isso para dizer que a preocupação de Cristo em explicar o reino de Deus
estava motivada no fato de que assim revelava a si mesmo e explicava seu
nascimento. Se nós passarmos por todas as parábolas e as penetrarmos com
profundidade no Espírito, descobriremos muitíssimas coisas a respeito de
Cristo. Quando o Senhor enviou seus discípulos a pregar, no próprio modo de
conferir-lhes autoridade mostrou o alcance da ligação existente entre reino
e Cristo: Ide e anunciai o reino, Vós sereis minhas testemunhas, Quem vos
acolhe a mim acolhe, e quem me acolhe, acolhe aquele que me enviou. Aqui
Cristo põe-se como centro do anúncio do reino. É verdade que o reino é o
reino de meu Pai, mas Eu sou o caminho e ninguém vem ao Pai a não ser por
mim. Quem nega o Filho também não possui o Pai.
O
Cristo menino revela os mistérios do Reino
É verdade que o reino de Deus é poder, mas o Cristo nascido em Belém revela
como este poder de Deus seja iluminante, calmo e humilde.
É verdade que o reino de Deus é um sistema, uma organização, uma lei, mas o
Cristo nascido em Belém revela o amor, a compaixão, a humildade e o
sacrifício de si num coração dado para fazer explodir as forças deste
sistema, desta organização e desta lei.
É verdade que o reino de Deus é o poder logicamente supremo e a autoridade
divina absoluta, forma de governo celeste e decreto divino, mas aquilo que
aconteceu em Belém nos revela que o reino de Deus, apesar de toda a sua
tremenda superioridade celeste, não é mais estranho à nossa raça, nem
inacessível à vista, nem difícil de ouvir. O milagre eterno aconteceu, o
prodígio que ultrapassa a lógica humana realizou-se e os céus anunciaram a
mensagem: Hoje na cidade de Davi nasceu para vós um salvador, que é o Cristo
Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em faixas,
deitado numa manjedoura (Lc 2, 11-12).
O Cristo recém-nascido na manjedoura revela-nos a outra face do reino e como
é possível que em grande simplicidade e humildade, na suprema benevolência
divina, a salvação tenha sido levada à realização nesse reino.
A
simplicidade de Cristo recém-nascido e o Reino
A manifestação do reino como poder e organização. Como sistema e autoridade
na pessoa de Cristo, demonstrado na humildade de seu nascimento em Belém,
dá-nos um sentido penetrante do reino. Como disse o próprio Cristo, com
palavras muito claras: Aproximou-se de vós o reino dos céus, O Senhor está
próximo. Realmente, devemos nos conscientizar de que o menino que está
diante de nós em Belém é de uma simplicidade extrema: podemos conquistar sua
simpatia com amor, do mesmo modo que podemos abraçar e beijar um bebê. Esse
é o modo escolhido por Deus para representar a proximidade e a simplicidade
do reino dos céus. Ou melhor, é na extrema simplicidade que o reino
tornou-se próximo e agora é possível alcançá-lo, graças ao nascimento de
Cristo naquela acessibilíssima estrebaria, ao invés de nos palácios dos
reis, rodeados de muralhas e de portas aferrolhadas, e guardadas por
servidores e mordomos.
Creio, sinceramente, que todos aqueles que experimentaram o dom celeste e se
tornaram partícipes do Espírito Santo, experimentaram também a boa palavra
de Deus e as maravilhas do mundo futuro (cf. Hb 6,4-5). Eles percebem
claramente a verdade desta afirmação, e com que liberalidade o dom celeste
foi dado, e com que facilidade se pode alcançá-lo. Como diz a Escritura: O
reino dos céus sofre violência, e os violentos tomam posse dele (Mt 11,12).
Do mesmo modo como podemos abraçar um recém-nascido, assim podemos possuir o
Espírito Santo em nossos corações.
O Reino
de Cristo à nossa porta
Olhemos de perto, e calmamente, nos olhos do menino Jesus envolvido em
faixas e deitado na manjedoura: em seus olhos podemos ver a outra face da
natividade, podemos ver o reino em toda a sua altura e profundidade. Nós o
olhamos e ele nos olha com extrema simplicidade e benevolência. Toma nos
braços o menino Jesus e sentirás como é leve o reino, mesmo que seja um jugo
para levar e um fardo para carregar.
Se, verdadeiramente, queres crer que o reino de Deus está personificado em
Jesus Cristo, ouve as palavras do próprio Senhor, que unem o reino à sua
pessoa. Ele fala do discípulo que abandonou tudo por causa de mim e do
evangelho (Mc 10,29), e é óbvio que o evangelho é o anúncio do reino. Os
discípulos estavam absolutamente conscientes da realidade desta união entre
reino e Cristo. O evangelista Lucas escreve claramente: Quando começaram a
crer em Filipe, que levava a boa nova do reino de Deus e do nome de Jesus
Cristo, homens e mulheres se faziam batizar (At 8,12).
O Reino
visível e o Reino escondido
O Senhor se referia a essa realidade em sua profundidade, quando dizia aos
discípulos: O reino de Deus está no meio de vós (Lc 17,21), e quando dizia a
Pedro: Eu te darei as chaves do reino dos céus (Mt 16,19). Esta promessa
estava em relação com a confissão de Pedro: Tu és o Cristo, o Filho do
Vivente ((Mt 16,16): a fé em Cristo é a chave do reino, de acordo com as
profecias que se referem à chave da casa de Davi (cf. Is 22,22; Ap 3,7).
Mas, a verdade do reino escondido era obscura para muitos, como para as
mulheres simples que habitualmente serviam a Jesus; a mãe dos dois filhos de
Zebedeu, por exemplo, que esperava a ocasião propícia para pedir ao Senhor
que seus dois filhos se sentassem, um à sua direita e outro à sua esquerda
no seu reino!
A sensação do reino iminente ou a expectativa de que o Senhor se revelaria
imprevistamente no seu reino não era estranha à atmosfera na qual viviam
todos os companheiros de Cristo. O poder de Cristo já era a manifestação do
reino de Deus e, deste modo, o reino se tornava sempre mais próximo a cada
milagre, até se tornar parte integrante de sua consciência. Os discípulos
acabaram por se convencer de que estava iminente sua realização, e ficaram
de tal modo entusiasmados com relação a ele, que ficaram num estado
impaciente, às vezes também de tensão: Eles acreditavam que o reino de Deus
devia se manifestar a qualquer momento (Lc 19,11). Assim, Cristo começou a
ensiná-los em parábolas que ainda restava um longo caminho a percorrer antes
de ele retornar, e que devia transcorrer ainda muito tempo antes que o reino
se manifestasse: Um homem de estirpe nobre partiu para um país distante,
para receber o reino e depois retornar (Lc 19,12).
Essa percepção da salvação iminente e do surgimento do reino de Deus na
revelação do reino visível de Cristo contagiava todos os discípulos e o povo
em geral, durante os últimos dias terrenos do Senhor, a ponto de a multidão,
uma semana antes da crucifixão, pôr-se a gritar: Hosana! Bendito aquele que
vem em nome do Senhor! Bendito o reino que vem, de nosso pai Davi! Hosana no
mais alto dos céus! (Mc 11, 9-10).
O Reino
de Deus vem com poder
Mas, os gritos da multidão aconteceram exatos cinqüenta e sete dias antes do
dia de Pentecostes. A descida do Espírito Santo dos céus com poder realizou
o reino, mesmo que apenas parcialmente visível. A salvação desceu do alto,
Cristo é revelado como salvador e redentor, e o reino de Deus se torna uma
realidade interior que encheu os discípulos e os fez falar em todas as
línguas a todas as nações chamadas à salvação.
Essa realização do reino pelo poder do Espírito Santo no dia de Pentecostes
é aquilo a que se refere Cristo quando diz: Há entre vós alguns que não
morrerão antes de ter visto o Filho do homem vir no seu reino (Mt 16,28).
Já vimos os anjos anunciarem a aparição do mesmo reino de outro modo, mais
profundo, no momento do nascimento de Cristo em Belém. Os anjos usavam as
mesmas palavras cantadas pelos meninos no domingo de Ramos, enquanto
proclamavam aos exércitos celestes: Glória a Deus no mais alto dos céus e
paz na terra, benevolência aos homens, deste modo unindo o reino de Deus
nos céus com sua aparição na terra. Este grito dos anjos coincide
misteriosamente com o canto das crianças: Hosana no mais alto dos céus!
Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito o reino de nosso pai Davi,
reino que vem no nome do Senhor!
O
louvor dos Anjos é um hino teológico
Neste momento, é muito importante termos consciência daquilo que os anjos
queriam dizer unindo a glória de Deus no mais alto dos céus com a paz e a
benevolência na terra. Não é, talvez, a realidade da encarnação, o mistério
escondido no outro aspecto do nascimento de Cristo na estrebaria? A união
entre o céu e a terra, entre visível e invisível, entre Deus e o homem, é a
realidade da natividade. É a autêntica manifestação do reino de Deus entre
os homens: Emanuel, que significa “Deus conosco”!
O hino dos anjos não é um simples canto nem uma antífona festiva: é uma
declaração teológica e uma revelação do verdadeiro significado do mistério
de Cristo, angelicamente expresso num canto de louvor.
Damo-nos conta de que, apesar da encarnação do Verbo, o Filho unigênito de
Deus, do seu tornar-se homem ou, como diz Paulo, do seu habitar
corporalmente em toda a plenitude da divindade ( cf. Cl 2,9) e da
manifestação de Deus na carne (cf. 1Tm 3,16), apesar disso, percebemos no
canto dos anjos que a união não aboliu o céu e a terra. Pelo contrário,
continua-se a render glória a Deus no alto dos céus enquanto que, ao mesmo
tempo e pela mesma razão, a plenitude da paz e da benevolência desce à
humanidade. De fato, a união acontecida na pessoa de Cristo não abole nada,
mas, com a sua humildade, assim como a nossa paz e a nossa felicidade,
desceu numa terra plena de fadiga e sofrimento. Este é o significado do
reino e de sua manifestação: que nós pudéssemos adquirir na terra a
plenitude do plano de Deus e o seu celeste beneplácito. É também a
substância da oração que o Senhor ensinou aos seus discípulos, para que
meditassem nisso cada vez que rezassem: “Venha o teu reino, seja feita a tua
vontade, assim na terra como no céu”.
Como Cristo tinha unido em si mesmo a vontade do Pai e a vontade da
humanidade e a fizera sua única vontade, estava em condição de conceder-nos
a grande graça em virtude da qual, de nossa parte, nos tornamos capazes de
fazer a vontade de Deus em nossa vida terrena e de receber o corpo e o
sangue e, na medida da intensidade de nossa prece, o reino de Deus do qual
continuamos a invocar a vinda.
Se retornamos ao louvor dos anjos: Glória a Deus no mais alto dos céus e paz
na terra, benevolência aos homens, nele descobrimos uma promessa segura de
que a oração : Pai nosso, que estás nos céus... que rezamos a cada dia, será
ouvida, mas sê-lo-á em nosso Senhor Jesus Cristo. Exatamente como os anjos
cantavam e proclamavam que, por causa do nascimento de Cristo em Belém,
deu-se glória a Deus no mais alto dos céus e foi concedida paz na terra e
benevolência a todos, assim, diante do mistério da encarnação de Cristo,
suplicamos com confiança: Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim
na terra como no céu.
Voltemos o olhar a Cristo menino nascido numa estrebaria. Meditemos a
simplicidade e a humildade de seu ingresso no mundo porque, graças a isso,
estamos em condições de abrir uma passagem em direção ao outro versante
desse nascimento maravilhoso, e ver Deus. Estamos em condições de aceitar o
mistério da vontade de Deus e o mistério do reino que agora está ao nosso
alcance, do mesmo modo como aquela criança mansa que jaz na manjedoura.
*Publicação em ECCLESIA autorizada pelo Tradutor, Pe. José Artulino Besen. |