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Discurso de Sua Santidade o Patriarca Ecumênico Bartolomeu, Pronunciado Durante o Seu Encontro com os Membros Da Cúria Romana e outros Dignatários do Vaticano (Quarta-Feira 28 de junho de 1995)
Caros irmãos no Senhor, «saudai-vos uns aos outros com o ósculo da caridade» recomenda Pedro apóstolo, protocorifeo (lPd 5, 14); «procuremos, portanto, o que favorece a paz e a mútua edificação», exorta Paulo o apóstolo das nações (Rm 14,19).
Portanto, abraçando-os fraternalmente com profundo amor e estima, agradecemos pela fraterna acolhida e pela particular alegria que nos foi oferecida pelo contato pessoal com membros da cúria romana e outros dignatários do grupo dos diretos colaboradores de Sua Santidade, o caro irmão em Cristo e bispo de Roma, papa João Paulo II. Conhecemos, irmãos, ou de qualquer modo imaginamos a grandeza e o peso de suas responsabilidades pessoais e colegiais no exercício de suas importantes tarefas. Assim como certamente conhecerão ou de qualquer modo poderão facilmente imaginar as nossas responsabilidades e daqueles que estão ao nosso lado. Além das diferenças nas proporções (quantitativas e numéricas) e de certo modo na natureza das instituições, tomamos também como dado que em última análise a nossa obra, como a sua, tende à glória de Deus e à salvação do homem e do mundo. É a mesma obra para a qual o Senhor chamou os santos apóstolos e evangelistas, os profetas, doutores e pastores da Igreja; é a obra para a qual Deus continua chamar, distribuir os carismas do Espírito para a edificação do corpo e seu crescimento. Portanto somos diáconos do grande mistério da salvação no Pentecostes da Igreja perpetuamente vivida. Temos, porém, cada dia diante de nós também o "mistério da impiedade" (2 T 2,7) ainda em ato. Da impiedade na realidade global do mundo contemporâneo. Da impiedade na própria vida dos cristãos, que se manifesta uma vez como erro nas coisas da fé e outra como desvio moral, provocando não raramente um escândalo e uma crítica justificada. Existe, porém, também aquela outra "impiedade" da qual cada um de nós tem experiência na própria vida e consciência e pede-se junto a São Paulo: "Infeliz de mim! Quem me libertará deste corpo de morte?", do qual, em forma de confissão para si mesmo e de maneira suplicante para nós, menciona no sétimo capítulo da sua epístola aos Romanos. Em particular, aqueles entre nós que foram honrados com a dignidade do sacerdócio por parte de Deus conhecem o íntimo dessa luta pessoal, mas também daquela dos nossos vizinhos crentes que depõem perante à Igreja suas dores e suas provas. Por todas as razões citadas acima, seria necessário procurar mais regularmente o contato de um com outro no espírito de São Paulo que escrevia aos cristãos em Roma: "Realmente desejo muito ver-vos, para vos comunicar algum dom espiritual, que vos possa confirmar, ou melhor para nos confortar convosco pela fé que nos é comum, a vós e a mim". Sobre isso é bem conhecido a eles que os divinos apóstolos pneumatóforos, tendo em tudo como modelo e exemplo o próprio Cristo, não só superavam as discórdias humanas, mas se apoiavam reciprocamente, um e outro mesmo mediante a comunhão e a troca de seus carismas. Pode-se dizer que essa troca dos carismas na vida da Igreja constitui a extensão e o fruto da própria troca dos idiomas das duas naturezas em Cristo, acontecidas no modo que nos foi ensinado, isto é trocando "cada natureza seu próprio idioma com o dos outros" (Migne, PG 77, 1172D). Essa troca, isto é a interpenetração um com outro, foi conhecida, respeitada e seguida pela antiga Igreja dos apóstolos, por um lado tendo o próprio Cristo como modelo e exemplo em tudo, e de outro sabendo bem que a união visível vivamente procurada novamente se entrevê hoje principalmente "com a troca das próprias coisas" (PG 86, 1776D). Conhecia a Igreja daqueles tempos que no mistério da kenosi e da Cruz o Senhor Jesus Cristo tendo submetido o gênero humano a Deus Pai, entregou-se a nós "como modelo perfeito e exemplo (PG 94, 19768), para que também nós “sendo (...) da mesma estirpe, tornemo-nos um e outro a mesma coisa no Espírito tendo como modelo a unidade natural do Filho com o Pai" (PG 26, 365A). Com este espírito da nossa fé, do nosso ethos, do nosso ânimo e coração viemos ao encontro do nosso irmão o papa João Paulo II e junto com ele todos de Roma, prontos para festejarmos juntos, isto é a sermos conduzidos juntos na profundidade e renovar a nossa fé e a nossa esperança. Exercitando, tanto nós como eles, um poder principalmente espiritual, temos necessidade por exemplo de estarmos sempre prontos ao perdão para com aqueles que nos perguntavam, como uma vez perguntavam aos apóstolos: "Com que poder ou por meio de que nome fizestes isso?" (At 4, 7). Além disso temos necessidade de compreender a cada dia mais profundamente o mistério da experiência espiritual e ao mesmo tempo existencial do apóstolo Paulo que ouviu o Senhor dizer na hora da aflição: "Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força manifesta todo o seu poder" (2 Cor 12,9). Somente dentro deste mistério da fraqueza e da graça podemos combater contra o maligno e a tentação do poder e aceitar humildemente o divino preceito para a exortação: "Aquele que desejar ser o primeiro entre vós, será o vosso escravo" (Mt 20, 27). Além disso, viemos para receber com agradecimentos pelos seus carismas e oferecer espontaneamente aquilo que Deus confiou a nós e a Igreja do Oriente. Rezemos, enfim, por eles nesta circunstância festiva e solicitemos para que estejamos também nós "à vossa fé a virtude, à virtude o conhecimento, ao conhecimento o autodomínio, ao autodomínio a perseverança, à perseverança a piedade, à piedade o amor fraternal e ao amor fraternal a caridade"(2 Pd 1, 5-7). Recebam, portanto o beijo e o nosso amor oferecidos do profundo do coração. Nós declaramos o ano de 1995 como o ano do Apocalipse por ocasião do cumprimento de 1900 anos desde que João, o divino místico de Patmos, colocou no seu último livro das Sacras Escrituras as revelações confiadas a ele. Chamamos todos para que ouçam juntos e com a devida atenção às palavras da profecia e observar o que está escrito nela (Ap 1,3). De particular modo chamamos todos para que ouçam "tudo que o Espírito diz às Igrejas" hoje (Ap 2,11); para que entendam a grandeza do perigo, quando não somos nem frios e nem quentes, mas mornos (Ap 3, 1516); para que sejamos conscientes da aflição de Deus, já que abandonamos o nosso amor de antes (Ap 2,4); para individuar as características contemporâneas da Besta; para perceber como são inerentes os gemidos do nosso ambiente natural por mais desgraças que provoque o Exterminador Perdição e pelo que ameaça a estrela chamada Absinto; para cumprir, resistindo à vida angustiada devido a perda da imagem do céu da consciência de muitos homens, suas re-evangelizações com a imagem da nossa espera escatológica, isto é Jerusalém celeste, a visão do novo mundo de Deus, da nova terra e do novo céu. Não é possível, não é permitido a nós chegar ao fim do segundo milênio em Cristo e receber o terceiro, colocando diante dos homens a imagem do Cordeiro, como que imolado (Ap 5,6) também pelos nossos erros e as nossas divisões devido as quais se ofuscou para muitos a imagem do Cristo ressuscitado. Ao contrário: é preciso, ajoelhando em arrependimento diante de nosso Deus e nos dirigindo em direção da reconciliação mediante a nossa renovação no Espírito Santo, levar diante dos homens a imagem do Cordeiro que convida todos às suas núpcias. Este é o único convite saudável no meio das provocações catastróficas da hora atual. Esta novidade, perspectiva escatológica dos fiéis e espera da Igreja, é a única e última esperança para a humanidade inteira. Diante dela temos, a antiga e a nova Roma, uma responsabilidade particular. Rezemos intensamente durante esses dias festivos dos apóstolos, para que Deus nos reforce no exercício desta responsabilidade para que assim possamos responder à sua chamada dizendo com humildade e fé: sim, vem Senhor Jesus.
Fonte: Revista 30 Dias - Ano IX - nº 7 - Julho-Agosto/1995 |
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