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Mensagem de S. Santidade o Patriarca Ecumênico Bartolomeu I por ocasião da Grande Quaresma de 2005

† Bartolomeu I
Pela graça de Deus, Arcebispo de Constantinopla, Nova Roma,
Patriarca Ecumênico.

 

A toda a Santa Igreja, Graça, Paz, e a Misericórdia de Cristo o Salvador, nossas orações, bênção e pedido de perdão

Amados irmãos e irmãs em Cristo,

“Chegou o tempo de iniciarmos a luta espiritual que nos dará a vitória sobre os demônios, na plena reclusão sob a proteção divina, auxiliados pela graça dos Anjos, nossos cândidos e sinceros canais em direção a Deus.”

O período da Santa e Grande Quaresma interrompe o enfado de nossa rotina; é o resultado final de nossa luta espiritual.

Mais uma arena de dura luta descortina-se à nossa frente. É uma Arena em que, não apenas o corpo passa por duras pressões, mas também o espírito. É uma grande arena em que todos nós, evidentemente, podemos e devemos participar. Esta “arena de virtudes”, como descreve a santa hinografia, não tem fileiras. Não tem lugar para espectadores. Somente trilhas para os competidores. Seus juízes e espectadores estão observando do alto do céu, isto é, o Senhor, o determinador das boas lutas da Fé e os Santos, que já participaram e se superaram nessas lutas e receberam seus troféus e coroas de vitória. Eles estão de pé observando nossos esforços e apreciando nossa atuação.

Desde o nosso batismo, já entramos para esta arena de luta espiritual, quando renunciamos a satanás e suas obras e nos revestimos de Nosso Senhor Jesus Cristo, com uma túnica branca como a neve, a Quem prometemos seguir através da vida. O egoísmo e o fascínio pelas futilidades da vida, juntamente com a incessante “guerra” que o demônio trava contra nós, em situações aparentemente simples cotidiano em que nos seduz para o pecado”, submete-nos muitas vezes à letargia, à imobilidade; como resultado, abandonamos nossos exercícios espirituais e nos afundamos no esquecimento da indiferença. Seguindo por este caminho, nos afastamos de Cristo, Fonte da vida, até a separação completa d'Ele. E é isto, precisamente, o que é a morte. Eterna, horrível, morte verdadeira. Porque, tanto quanto Cristo é Vida, verdadeira Vida, Vida eterna, a alienação d"Ele é morte, privação de Vida, de Alegria e Luz – perda total de tudo.

Assim, a Mãe Igreja, pondo em prática o sábio cuidado, estabeleceu o período do jejum, de forma que possamos recordar nossos deveres decorrentes de nosso santo Batismo, e para que possamos entender que somos competidores e atletas participando, com a graça da honra, em vários santos exercícios: o perdão de uns para com os outros, o jejum, a oração, a caridade, a paciência no sofrimento e miséria da vida, a perseverança na dor, e a oferta de amor fraterno de uns para com os outros.

O jejum alivia o corpo do peso desnecessário; fortalece a oração, torna-nos mais humildes, ilumina o sentido e o valor de cada um e abre as portas do arrependimento. A compunção força e exercita o corpo; é também uma clara demonstração de que nos reconhecemos pecadores vulneráveis à corrupção e à queda. No arrependimento, pedimos a Deus humildemente para que nos traga novamente de volta à Vida. É uma oração penitencial da qual também o corpo participa.

A Caridade santifica o jejum e faz com que nossas orações sejam mais agradáveis ao nosso Deus misericordioso. Nossa paciência nas enfermidades, dor e sofrimento nos levam a seguir as pegadas dos santos mártires e nos asseguram a coroa da vitória com a qual nos presenteia o Senhor. A prática do perdão e do amor fraterno estendido a todos que nos injuriaram e nos machucaram, sela nossa autenticidade como cristãos e nos devolve à condição de imitadores de Cristo. O estudo freqüente das Santas Escrituras, dos ensinamentos dos Padres da Igreja e das Vidas dos Santos, dá ao nosso espírito o alimento necessário para perseverar nesta boa luta até a vitória final.

O hino penitencial apropriado e que somos convidados a repetir incessantemente durante os exercícios espirituais de Quaresma, especialmente, durante as Prostrações Penitenciais das liturgias deste Tempo Litúrgico, é a Oração de Santo Efrém, o Sírio:

Senhor e Mestre da minha vida,
afasta de mim o espírito de preguiça,
o espírito de dissipação, de domínio e de vã loquacidade.

Concede a teu servo o espírito de temperança,
de humildade, de paciência e de caridade.

Sim, Senhor e Rei,
concede-me que eu veja as minhas próprias faltas
e que não julgue a meu irmão,
pois Tu és bendito pelos séculos dos séculos. Amém.

Nesta oração, nós O invocamos como Mestre e Senhor e Mestre da Vida, e pedimos através dela para sermos libertados dos quatro principais espíritos malignos, as quatro das mais horríveis paixões. Também pedimos para que sejamos dotados dos quatro principais espíritos bons, a saber, as quatro virtudes mais importantes. Ao mesmo tempo, pedimos para que nos seja dada a virtude da humildade, para que então possamos ver e nos ocupar com nossos próprios pecados e não com os dos outros. Esta é uma das mais belas e benéficas orações penitenciais.

Irmãos e irmãs, entremos na Arena sagrada. Iniciemos, com a bênção de Deus e da Santíssima Theotokos, a boa luta do arrependimento e da purificação através do jejum, reclusão, perdão, paciência, obras de caridade e orações. Vamos à luta com a força da Graça, como todos os Santos – com nobreza de espírito e um profundo desejo por Cristo, com humildade mas também com fervor. A Mãe-Igreja, do Trono dos humildes e grandes mártires, perpetuamente brilhante Fanar, envia a todos os seus filhos e filhas as suas bênçãos, clamando amorosamente para que ninguém permaneça na ociosidade, mas busque seu lugar nas fileiras e não seja indiferente à voz da trombeta que ressoa chamando-nos para o exercício espiritual.

“O tempo chegou”, amados irmãos e irmãs em Cristo. E a palavra tempo, tem também para todos nós o sentido de “oportunidade”.

Bendito seja Deus, que nos presenteia com mais este período da Grande Quaresma como uma nova oportunidade de luta espiritual em vista da vitória sobre o mal, o pecado e a morte, que nos conduz ao arrependimento e à salvação. A Ele, o Deus e Salvador nosso, a Glória e o Poder pelos séculos. Amém.

Santa e Grande Quaresma de 2005.

 

Bartolomeu de Constantinopla,
vosso fervoroso intercessor perante Deus,

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