I

«Quem não está por mim está contra mim, e quem não se junta a mim, dispersa» (Lc 11,23). Hoje a Igreja lembra São Policarpo. Ele pertence ao grupo dos chamados  «Padres Apostólicos», quer dizer, discípulos dos primeiros Apóstolos, e foi Bispo e Mártir. São Policarpo – nome que significa: «muito fruto» – deve ter sido discípulo de São João, o autor do 4° Evangelho. Por sua vez, teve ele um aluno, que até o superou, tornando-se até mais célebre. É Santo Irineu, apóstolo da França. Esse mesmo Irineu lembra que Policarpo enviava cartas às comunidades vizinhas e a alguns irmãos, em particular, para os ensinar e os admoestar. Conserva-se até hoje sua belíssima Carta aos Filipenses. Também nos foi transmitida a narração do seu martírio, com as suas últimas palavras, proferidas com muita suavidade perante o juiz que o condenava. Dizia ele: «Finges ignorar quem eu sou? Escuta-o com toda clareza: eu sou cristão». Foi então queimado vivo. Corria o ano de 155. Ser cristão é uma graça, mas também, uma honra. Igualmente, um compromisso com o Evangelho.

II

Policarpo teve a felicidade de conhecer e abraçar a fé cristã ainda menino, tendo sido instruído pelos próprios apóstolos, em particular, por São João, o Teólogo quem, mais tarde, o nomeou Bispo de Esmirna, cidade da Ásia Menor. Acredita-se que dele fala Nosso Senhor Jesus Cristo no segundo capítulo do Livro do Apocalipse, quando disse ao anjo: «Eu sei que padeces e que és muito pobre; contudo, és muito rico, pois és objeto de murmuração daqueles que se chamam judeus, e não os são, pois formam a sinagoga de satanás; não temas, pois, que que tens a padecer. Sê fiel até a morte que te darei a coroa da vida»

Policarpo governou a Igreja de Esmirna por quarenta anos. O resplendor de suas virtudes o projetava como a cabeça e primeiro de todos os bispos da Ásia; era ainda venerado por todos os fiéis a ponto de não deixarem ele mesmo tirar seus sapados ou sandálias, apressando por fazê-lo para ter o privilégio de tocá-lo. Policarpo conquistou e formou muitos discípulos, do mesmo modo como ele próprio havia sido tratado pelos apóstolos. Santo Irineu, bispo de Lião, na França, foi um deles. Diz o santo: «Tenho ainda muito presente a sobriedade de seus passos, a majestade de seu semblante, a pureza de sua vida e suas santas exortações com as quais alimentava seu povo. Parece-me ainda hoje escutá-lo dizer como havia conversado com São João, e com outros que também tinham visto Nosso Senhor Jesus Cristo, as palavras que ouviu e as particularidades que haviam lhe ensinado sobre os milagres e a doutrina deste divino Salvador». Tudo o que dizia era perfeitamente de acordo com as Sagradas Escrituras, como referido pelos que haviam sido testemunhas oculares do Verbo, e da Palavra de Vida.Seu zelo pela pureza da fé era tal, segundo afirma o mesmo Santo Irineu, que quando algum erro era dito em sua presença, tapava seus ouvidos e dizia: «Para que tempo me reservaste?» E fugia imediatamente.

Após o martírio de São Germânico e de outros mártires, o povo de Esmirna começou a reagir com irritação: «Que os ímpios sejam exterminados! Que tragam Policarpo!» – Haviam escondido o santo bispo numa casa de campo, mas os que o buscavam conseguiram encontrá-lo. O santo encontrava-se num aposento, no alto, e teria conseguido se salvar se quisesse, mas se recusou, reagindo com estas palavras: «Faça-se a vontade de Deus». Os soldados, vendo sua idade e firmeza, não se atreviam a cumprir a missão. O santo então pediu para que lhe preparassem a ceia e que lhe dessem uma hora para rezar em liberdade. Tendo sido concedido, cheio da graça de Deus orou de pé por duas horas pedindo por todos os seus conhecidos e encomendando a Deus a sua Igreja.

Assim que chegaram à cidade, apresentaram-no ao governador da província que lhe interrogou se era mesmo Policarpo. Ele respondeu que sim. O magistrado então o instou a que renunciasse sua fé em Nosso Senhor Jesus Cristo. Policarpo lhe respondeu: «Eu já o sirvo há oitenta e seis anos, e nunca me fez nenhum algum. Como poderia blasfemar contra meu Rei que me salvou? » O pró cônsul continuava a lhe escutar: «Ao que parece, dissimulas conhecer-me? Disse-lhe Policarpo. «Pois eu te declaro que sou cristão e, se queres instruir-te na doutrina dos cristãos, diga-me quando podes ouvir-me, e eu te ensinarei». O pró cônsul reagiu: «Enganas o povo». Disse-lhe Policarpo: «Pelo que te cabe, é justo responder-te: porque temos apreendido a respeitar os magistrados e a prestar às potestades estabelecidas por Deus a devida honra. Pois veja este povo que não merece que eu me justifique em sua presença». O pró cônsul  o ameaçou de ordenar que fosse jogado às feras. A resposta de São Policarpo foi que, a ele seria de mais vantagem passar dos suplícios à perfeita justiça. «Pois, já que não temes as feras, ordenarei que sejas queimado vivo por tua desobediência». O santo lhe respondeu: «Ameaças com um fogo que, em algum momento, se apagará porque não conheces o fogo eterno que está reservado aos ímpios. Mas, o que te detém? Faça logo o que queres». Irritado, o pró cônsul o condenou que fosse atirado ao fogo. Policarpo então desnudou-se a si mesmo e, como quisessem amarrá-lo a um poste, disse: «Deixe-me  que assim terei mais força para padecer no fogo e a graça de deixará permanecer imóvel sobre a fogueira, sem necessidade dos cravos». Contentaram-se, pois, com amarrar-lhe as mãos às suas costas. Assim, elevou os olhos aos céus, deu graças à Santíssima Trindade pela honra de ser um dos mártires por Nosso Senhor Jesus Cristo, e lhe suplicou que o recebesse qual sacrifício de agradável aroma. Terminada sua oração, acenderam o fogo; mas, ao invés de as chamas consumirem seu corpo, o rodearam formando como que uma muralha de proteção, e de seu corpo exalava um suave perfume. Ainda mais irritados por este milagre, os pagãos o partiram com uma espada. O sangue que verteu do ferimento foi suficiente para apagar o fogo. Assim, São Policarpo chegou ao fim de  seu sacrifício e de sua vida terrena.

Tradução e publicação neste site
com permissão de: Ortodoxia.org
Trad.: Pe. André

 

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